Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A Base Galo e os Detalhes da Operação: Quina Lima no Quartel General (1ª PARTE)

A Base Galo e os Detalhes da Operação: Quina Lima no Quartel General (1ª PARTE)

Francisco Walter de Lima, conhecido carinhosamente por Quina Lima, decidiu ir ao Quartel General para exigir que o Exército Português tomasse as melhores medidas para evitar um banho de sangue, exigindo que o Comando Territorial do Sul (CTS) estabelecesse uma agenda de conversações com o Grupo da Mafalala, pois este Grupo estava organizado para dar suporte à população e evitar desmandos.


1965, Quartel General em Lourenço Marques
Chegado aos portões do Quartel General, Quina pediu para falar com o comandante do exército. Quero falar com o Comandante, agora. O soldado de sentinela disse que não era possível, que ele teria de pedir audiência e com antecedência. Quina insistiu: Tem de ser agora, porque é muito importante. O soldado de sentinela recusou: Lamento senhor, mas não vai dar e não pode ficar aqui. De repente o Quina avançou para os portões, sacudiu-os gritando bem alto: " quero falar com o Comandante do Exército, AGORA, quero falar com o Comandante, se não me ouvirem Lourenço Marques vai pegar fogo. Falem com a Mafalala, é urgente!.
O soldado de sentinela decidiu pegar-lhe num braço de forma agressiva e levou-o para o interior do Quartel, provavelmente para o prender e aguardar por instruções. Perante tanta barulheira, o Coronel Nuno de Melo Egídio decidiu então falar com o Quina. Então, diga lá,  que força é essa que vai incendiar a cidade? Quina disse-lhe: No Bairro da Mafalala existe um Comité de Resistência bem organizado e bem ramificado pelos arredores da cidade até à Ponta do Oura. Coordenam-se bem e os resultados são muito bons. Eles conseguem ter a população sob controlo e foi de lá que partiram as orientações da Greve Silenciosa que resultou em cheio. Eles podem ser um importante apoio se vocês derem uma ajuda. Já morreu gente a mais, continua a morrer gente inocente e indefesa.
Eo que estão a planear? -- Perguntou o Comandante.
Não lhe posso passar segredos, mas posso adiantar que para as operações que estão a ser preparadas será utilizado armamento inadequado e isso não vai ser bom.   Respondeu Quina, e acrescentou: A operação para destruir a central que fornece energia à Rádio Clube se não tivesse sido abortada teria sido de grande vulto e com consequências.
-- Ainda não me convenceu. Dê-me mais detalhes -- atalhou o Comandante.
-- Atiradores Especiais, unidades operativas de pequeno porte e de fácil movimentação, formados por ex. Comandantes do Exército e de origem moçambicana , vão, a curto prazo, executar operações de guerrilha urbana -- disse Quina. -- A direcção do Comité da Mafalala pretende cooperar, mas se os demandos do Exército continuarem Vossa Excelência vai perder o controlo total da situação.
-- Dê-me uma ideia do que está a dizer sobres os demandos do Exército -- volveu o Comandante.
-- Os Fuzileiros no Infulene estão a matar indiscriminadamente. A Polícia Militar está do da reacção colona. Os Quarteis estão a fornecer armas à reacção através de oficiais que aderiram ao Movimento Moçambique Livre. Agentes da PIDE/DGS estão a dar cobertura infiltrando-se na Mafalala e arredores e isso não vai ser bom.


 O Comandante do Exército olhou para Quina e disse: Meu caro, entenda muito bem o que lhe vou dizer. Temos que recuperar a Rádio Clube de Moçambique intacta de forma a podermos utilizá-la e acabar com a desinformação que está a ocorrer. Se asua gente avançar por aí, vão piorar a situação aí é que não vamos conseguir mesmo nada. Falei com o General Spínola sobre a situação aqui e ele acaba de enviar dois emissários. Vamos aguardar mais uns dias.
-- Comandante, cada dia que passa a situação vai piorando. Estamos perante um barril de pólvora que pela certa vai explodir e esses emissário não chegarão a tempo de ajudar em nada -- volveu Quina, e acrescentou -- receba pelo menos uma delegação do  Comité de Resistência da Mafalala. Eu posso garantir que eles vão aceitar desde que Vossa Excelência garanta a necessária segurança.
O Coronel Melo Egídio finalmente concordou e aceitou receber uma delegação da Mafalala. Chegado à base da Mafalala, Quina disse-nos que havia convencido o exército a receber-nos. Dirigindo-se a Amaral Matos, ele disse:
Chefe Amaral Matos, vai-me desculpar, arrisquei e tomei eu mesmo a iniciativa, já não aguentava mais ver tanta injustiça, a morte de tanta gente indefesa e eles ali com meios necessários para pôr fim a esta situação. Amanhã à 10 horas teremos de lá estar com uma delegação capaz de os convencer a ajudar-nos a controlar a situação. Nós estamos numa situação de resistência e sem meios para enfrentar esta crescente onda de infiltrações dos Dragões da Morte que já se pintam de preto para nos confundir. A PIDE/DGS cada vêz infiltra mais informadores. Não podemos perder o controlo, chefe,
-- Muito bem -- reagiu Amaral Matos -- vamos dialogar. Mas atenção, não podemos capitular. Isto até pode ser uma cilada deles. Ficam a saber tudo sobre nós e exploram as nossas fraquezas. Vamos ouvir e só decidimos sempre que houver consenso entre todos os membros da Delegação. Entendido?
Todos concordaram. Nessa ocasião, e porque o nosso núcleo duro já estava alargado a outros líderes dos bairros circunvizinhos, passei a integrar, por orientação de Amaral Matos, a delegação do comité de coordenação da Mafalala. Esta delegação incluiu o próprio Amaral Matos, Betinho Chissano, Orlando Machel e Quina Lima. Fomos para o Quartel General do Exército para apresentar um conjunto de propostas sobre a melhoe forma de recuperar a Rádio Clube de Moçambique.


Orlando Machel
Partimos da Mafalala no dia seguinte às 09h30 da manhã. Dentro da viatura e prontos para partir, o Betinho Chissano sugeriu que deixássemos orientações para que o comité passasse nas próximas reuniões às outra células. Pelo menos uma senha que todos fiquem a saber caso tudo corra bem e haja a oportunidade de se difundir pela Rádio, Amaral Matos concordou e decidimos criar uma senha.
Já que começaste, dá lá uma ideia -- disse o chefe Amaral 
-- GALO, GALO -- respondeu o Betinho
-- Assim em seco achas que se vai entender alguma coisa, ou devíamos acrescentar mais uma coisa? perguntou o Amaral.
-- AMANHECEU! sugeri.
Assim sim, faz sentido. A senha a ser enviada a todos os comités de coordenação e resistência está aprovada. ALO, GALO, AMANHECEU. Vamos embora e desejem-nos boa sorte e bom trabalho a todos -- sentenciou o Chefe Amaral.
Quando chegámos ao Quartel General, a sentinela já tinha orientações, e uma pequena comitiva de recepção aguardava-nos perante os olhares de outros militares de diferentes patentes como ar de quem não acreditava no que estava a ver e muito menos o que se iria realizar ali.Estava prestes a acontecer conversações para um entendimento.
O soldado de sentinela disse-nos: Por favor, por aqui, o Comandante aguarda-vos. Entrámos para uma sala com cadeiras e sofás de couro, com uma mesa ao fundo com um pequeno-almoço e um servente para prestar assistência.
--Olha lá, não é que esta gente adivinhou que não comemos há mais de 24 horas? quando eu lhe digo, Chefe, que eles têm espiões na Mafalala... -- eu disse, dirigindo-me ao Amaral Matos.
-- Não sejas pessimista Aurélio, vamos agir com naturalidade -- asseverou o Chefe.
-- Confiar é bom, mas desconfiar é melhor -- insisti.
-- Tens razão, confiar desconfiando -- volveu o Chefe
O Ajudante de Campo do Comandante, com galões de Major nos ombros, recebeu-nos com um sorriso largo. Cumprimentou a todos com a devida vénia e orientou-nos para um forte café da manhã para nos avivar as ideias. O Comandante já vos vai receber em 15 minutos. Enquanto isso um bom café vai fazer bem. Sirvam-se à vontade
Durante o café, o Chefe Amaral Matos, foi-nos orientando sobre a nossa postura na audiência. disse-nos quem deveria falar e em que momentos. Ouvir mais e falar pouco. Lembrem-se que na verdade nós buscamos mais suportes, mas, mas não é menos verdade que já demonstrámos que temos capacidade no terreno e é importante a nossa colaboração. Afinal quem tem o povo somos nós. Logo a seguir, o Major veio convidar-nos a seguirmos para a sala do Comandante: A reunião já vai começar. Por favor acompanhem-nos, disse-nos.
Prevíamos uma reunião alargada a diferentes patentes do Exército. Mas não foi o que aconteceu. O Comandante agiu com as maiores cautelas e decidiu reunir com a nossa delegação à porta fechada , para nossa alegria, pois já desconfiávamos de tudo e de todos. Tínhamos um medo infernal dos informadores que de imediato passariam dados e segredos da nossa reunião.
Depois de nos desejar boas-vindas ao quartel-General, o Comandante disse que a reunião seria restrita e seria uma consulta mútua e aberta.
-- Já tenho dados suficientes da vossa organização -- disse o Comandante, para nossa surpresa, --entendo que me vou reunir com verdadeiros representantes das populações de Lourenço Marques e arredores. A GREVE SILENCIOSA dos trabalhadores, sem agressões e sem manifestações, foi para mim um dado curioso e de grande impacto, que me fez pensar e pedir informações adicionais para entender melhor a vossa filosofia de acção. O senhor Lima foi um homem de coragem e conseguiu, com todas as dificuldades que enfrentou, chegar a mim e transmitir com palavras curtas e directas a essência do vosso comité. Estou aberto a desenvolver esta reunião desde que o objectivo de recuperar a Rádio Clube intacta também esteja na vossa agenda, pois sem o mesmo instrumento que está a provocar tanta desinformação nas nossas mãos não chegaremos a lado nenhum. Fui informado da abortada tentativa de calar a Rádio Clube destruindo o posto de transformação que fornece energia à Rádio. Ainda bem que abortaram a operação. Imaginem a repercussão que isso teria, os vossos atiradores e os Comandos posicionados no patamar exterior da Rádio, isso seria um caos de difícil controlo. Meu caro Amaral, o senhor é o mais velho nesta delegação. Sabe bem do que me refiro. Toda a ponderação é necessária a partir deste momento. O que me diz?

Manifestação junto à Rádio Clube

O Chefe Amaral, meio sem jeito, respondeu:
-- Excelência, nós somos um comité de coordenação. Mas, diga-se em abono da verdade, somos um comité de resistência   que tem usado todos os meios ao seu alcance para controlar a nossa população. Saiba Vossa Excelência que nós somos militantes e simpatizantes da FRELIMO e não escondemos isso. O recurso a armas de fogo, morteiros de pequena e médio alcance, e outras alternativas faz parte das exigências que cada fase da luta nos obriga a assumir e a seguir. Estamos a ser atacados nos nossos bairros por movimentos organizados e bem armados. A nossa população defende-se como pode e com os meios que tem à mão. A nossa população defende-se como pode e com os meios que tem à mão. A formação de barricadas de protecção foi orientada no sentido de se evitar que a população venha para a cidade de cimento participar em conflitos que não trarão qualquer benefício. Ao contrário do que acontece, somos atacados nas nossas próprias casas. aceitamos esta oportunidade porque achamos que juntos, poderemos encontrar soluções pelo menos para manter a solução controlada, porque o resto caberá ao Governo Português e à FRELIMO, força dos Acordos de Lusaka. A situação não pode sair fora do nosso controle. Temos de pôr fim à situação e é isso que pretendemos alcançar hoje com Vossa Excelência.
-- O pressuposto da recuperação intacta da Rádio Clube de Moçambique, está nos vossos planos? Não vamos ter, de repente, a surpresa de outra operação parecida com a da energia e atiradores? -- Perguntou o Comandante.
-- Do nosso lado pode ficar descansado o LeBon foi Comando, da 5ª Companhia, e ele coordena todos os planos operativos com outros companheiros seus, também ex-Comandos. O Alberto Chissano coordena as informações e  comunicações. Ele tem à sua responsabilidade o registo de informações que chegam de toda a região circunvizinha, incluindo as fronteiras com a África do Sul e Rodésia. O Miguel da Mata coordena todas as acções entre o nosso comité e os comités dos bairros.Como vê, a nossa organização tem uma metodologia de coordenação muito próxima da direcção e os nossos encontros de coordenação, pela gravidade da situação, passaram a acontecer de hora em hora.


5ª Companhia de Comandos em Montepuez
-- Diz que o senhor LeBon esteve em Tete? Perguntou o Comandante.
-- Sim, pertenci à 5ª Companhia de Comandos de Moçambique -- respondi. -- E conheci Vossa Excelência quando era o Comandante da ZOT, Zona Operacional de Tete, quando visitou a minha companhia, a Quinta, em Chitima. Eu até cantei no conjunto musical durante o jantar que lhe foi oferecido.
-- Pois é. O Major, meu Ajudante de Campo, é que o reconheceu e chamou-me a atenção -- disse o Comandante -- A mim nunca me enganou. Sabia que tinha alguma coisa que o ligava à FRELIMO. Não sabia como, mas naquela Companhia havia qualquer coisa esquisita, isso havia. Depois me explica isso. Agora preciso de si e sei que vai cumprir com disciplina militar bem rigorosa, sabe muito bem do que me refiro. Precisamos da Rádio de volta às nossas mãos para que possamos reconduzir esta calamidade. Não aguento mais esta confusão.
-- Senhor Comandante -- interrompeu Amaral Matos -- qualquer decisão, deverá ser endossada ao colectivo, para que para que a decisão seja de consenso.
-- Correcto, meu caro Amaral -- anuiu o Comandante -- enquanto isso vamos dar uma pausa e o Major vai acompanhar-vos para a messe de Oficiais. Daqui a cerca de 45 minutos ou a uma hora voltamos a reunir. Estarei em em contacto com Portugal para mais orientações e vou passar o resultado da nossa reunião.
Aproveitando a minha experiência militar, e o facto de me conhecer, o Comandante solicitou-me à parte. Ele queria enquadrar-me numa missão ao comando da Força Aérea baseada nos Aeroportos, a fim de preparar, com estes, uma unidade de intervenção para a tomada da Rádio Clube. Mas ele também notou que seria importante fazer uma última tentativa de conseguir que o General Spínola autorizasse o apoio do exército ao grupo da Mafalala.
Enquanto a nossa delegação conferenciava no Quartel General, da periferia de Lourenço Marques vinha uma multidão armada de azagaias, catanas,machados, correntes de ferro, com outros objectos com vista de calar a Rádio Clube que profanava impropérios contra a FRELIMO e contra os Acordos de Lusaka. As pessoas vinham de Gaza, da Namaacha, de Boane e arredores da capital. 
A retomada da Rádio era urgente e a operação da sua retomada foi concebida da seguinte forma: Primeiro eu avançaria como uma escolta reduzida e penetraria na Rádio, e depois lançaria a senha GALO, GALO, AMANHECEU, nem que fosse por um mínimo de 10 minutos. Nessa altura os revoltosos já estavam à espera de alguém da FRELIMO  para travar a população que marchava sobre a cidade e que ia deixando para trás muita destruição. É preciso lembrar que havia muita fricção no seio da Forças Armadas portuguesas. Alguns sectores do exército haviam aderido ao Movimento Moçambique Livre, como foi o caso de Artilharia, uma parte de Engenharia, a Polícia Militar, os Fuzileiros Navais e alguns Comandos. Os Para-quedistas e a Força Aérea não aderiram. Bem como as companhias de Comandos que estavam ainda na cidade da Beira e a caminho de Lourenço Marques sob o comando do bem conhecido Comandante Belchior. Com estas Unidades que não aderiram à revolta dos colonos o Coronel Nuno de Melo Egídio contava para a retomadada Rádio e o controlo de Lourenço Marques.
Na reunião com o Coronel Melo Egídio no QG este disse-nos que havia duas companhias de para-quedistas no AB 8 no aeroporto
Entramos no Jeep. Disseram-me para os meu colegas ficarem por ali. Amaral Matos, Betinho Chissano, Quina Lima, Orlando Machel, Miguel da Mata, ficaram. Não comiam com regularidade  há três dias.
Fui bem escoltado para o  AB 8 no aeroporto para ir buscar as duas Companhias de para-quedistas que iriam assegurar a fase de consolidação da operação pela recuperação da Rádio Moçambique. No meio do caminho, na ponte, naquela ponteca que vai dar ao jardim zoológico, colonos revoltosos mandaram-nos parar e perguntaram: Onde é que vocês pensam que vãao? Meia volta! Eu disse: Eh pá, já entendi, vamos voltar.
Decidi abortar a missão incumbida pelo Coronel Melo Egídio de chegar ao AB 8 para evitar quaisquer interrupções ao Plano Central. As companhias de para-quedistas ficaram por lá.
À nossa chegada ao Quartel General, encontrámos o Coronel bem furioso pelo sucedido. Mas disse-me para me preparar de imediato para voltar a sair e desta vez sem qualquer demora, para me antecipar ao movimento da população rumo à Rádio Clube. Segundo as informaºões vindas dos helicópteros que sobrevoavam Lourenço Marques, a população avançava com tudo para o que ele já classificava de um provável e trste holocausto no centro da cidade.
Multidão de manifestantes junto ao Rádio Clube
-- Prepare-se para avançar e sem tempo para perder.
--Meu Coronel, concordo consigo, esta é a hora de lançar a senha e controlar tudo a partir da Rádio  Clube, mas dadas as circunstâncias, como hei-de sair e quem me vai escoltar e dar cobertura?
A situação estava feia. Passavam mais de cinco horas desde que afastámo-nos da população e do Comité da Mafalala. Os Comités sob a nossa coordenação já não recebiam orientações e com a população a caminho da Rádio e sem orientações, só a senha os poderia parar. A população começava a grande marcha em Gaza para Lourenço Marques, munida de catanas, machados, lanças, azagaias e paus.
O Coronel Melo Egídio disse-me: Não temos tempo a perder, os gaijos da Rádio Clube querem-vos lá, mas não vão todos, vais tu. Eu confirmei que ia imediatamente se tivesse uma protecção mínima. O Coronel  disse que eu havia de avançar com o que estava disponível. Uma viatura da Polícia de Segurança Pública (PSP) e dois Guarda- Costas especiais. O Comandante da PSP e o Comandante da Polícia Militar, e um condutor moçambicano que falasse a língua local para entender as minhas instruções em ronga ou changana por razões de segurança e para evitar os efeitos da infiltração.
Quando partimos para Lourenço Marque eu levei os Acordos de Lusaka impressos pelo Jornal Diário, por sugestão de Melo Egídio, e disse-me: Levas já os Acordos de Lusaka, e vê lá o que fazes porque eu não acredito que tu me consigas na primeira operação. Vais ver o que fazer porque na primeira não vais conseguir. E quero que tu me fujas dali inteiro. Quando tu sentires que já estão a desconfiar de ti, pira-te e vais ter ao Comando da Polícis de Segurança Pública. E ainda instruiu-me: Quando tu disseres VIVA À FRELIMO tens que dizer VIVA PORTUGAL também. Quando disseres VIVA SAMORA MACHEL tens que dizer VIVA SPÍNOLA também.
De forma muito solene o Coronel Nuno Melo Egídio Comandante do CTS (Comando Territorial do Sul) pegou nas minha mãos e transmitiu-me as seguintes palavras:
Meou caro LeBon, a partir deste momento, o meu cérebro, os meus olhos, os meus braços e pernas estão personificados em ti, irei cumprir a minha parte da missão, o de assegurar que em cada etapa as minhas orientações ajudem ou facilitem esta Grande Operação em duas fases. Segue o nosso plano rigorosamente, e está tudo nas tuas mãos. Só tens entre oito a dez minutos para a Primeira da Operação no interior da Rádio, mas lança a senha de imediato porque a população tem que recuar para se evitar o holocausto. Se gastares mais tempo és um homem morto e não pode acontecer porque terás que cumprir a Segunda fase da Operação para consolidar o que planeámos -- recuperar por completo a Rádio Clube de Moçambique e gerir de lá todo o Sul de Moçambique em particular Lourenço Marques e arredores

CONTINUA NO PRÓXIMO DIA 25






Sem comentários: