Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~

sexta-feira, 30 de junho de 2017

1º CAPÍTULO DO LIVRO: DE RIBEIRO CARDOSO:"FIM DO IMPÉRÉRIO: 7 DE SETEMBRO DE 1974. MEMÓRIA DE UM SOLDADO PORTUGUÊS". DO 7 DE SETEMBRO AO 21 DE OUTUBRO, 45 DIAS ALUCINANTES


LOUCURA E INCONSCIÊNCIA BRANCA
                              
Esta é uma históriaque trazia na cabeça desde que, em 1974, a vivi por dentro -- tendo por fundo, a guerra colonial, a descolonização e a traição a dois povos: o moçambicano e o português.
Em Setembro de 1974, Lourenço Marques testemunhou um crime sem perdão. Um crime que originou incontáveis mortos, na esmagadora maioria negros -- graças à loucura e irresponsabilidade de um punhado de brancos  que, sentindo o seu mundo de privilégios a ruir, se lançou numa aventura sem sentido, arrastando emocionalmente milhares de compatriotas que, desinformados e impreparados politicamente, no contexto de então eram presa fácil de qualquer patriotismo rasteiro.
O resultado foi, num primeiro momento, uma euforia balofa, difundida via rádio desejos e boatos como se fossem realidades -- com os seus membros mais exaltados entregando-se, ao som do potente Rádio Clube de Moçambique assaltado, a uma autêntica orgia de sangue negro nas ruelas sem esgoto no caniço.
Ao terceiro dia o medo de que se havia apoderado a população negra, que ouvia a rádio a apelar à intervenção sul-africana e rodesiana, transformou-se em levantamento generalizado, sob a forma de uma marcha de catanas sobre a cidade branca.
O feitiço virava-se contra o feiticeiro. Chegara a hora de a população branca ser tomada pelo medo, primeiro, e pelo pânico, depois
. Polícia incluída, quando as suas comprometidas chefias descobriram, tarde demais, que não tinham capacidade para enfrentar milhares de negros em fúria,
Ao mesmo tempo, muitos brancos perceberam que tinham um pesado preço a pagar: a fuga, o adeus doloroso a uma terra amada mas onde só aceitavam viver com as regras iníquas que sempre os favoreceram e permitiram que, de forma abjecta, vivessem à custa da exploração do negro.
E, ironia da vida, com o peso da última humilhação; a cidade branca só se salvou graças à intervenção da FRELIMO e de um seu militante , Aurélio Le Bon,Clika aqui para leres o livro: MAFALALA, 7 de Setembro de Aurélio Le Bon, que, à pressa, PSP e Exército fardaram e levaram aos microfones do RCM para transmitir a senha que faria  parar os negros em fúria.
Talvez alguns brancos mais extremistas tenham então compreendido que nunca houve, nem podia haver, uma colonização justa -- e muito menos uma descolonização perfeita. Mas poderia ter sido bem melhor do que foi se não se tivesse criminosamente lançado gasolina na fogueira.

Do 7 de Setembro ao 21 de Outubro, 45 dias alucinantes
Loucura e inconsciência branca

Em Lourenço Marques, naquele início de Setembro de 1974 sentia-se que algo de estranho andava no ar.
(...) depois de no aeroporto me ter despedido de mulher e filha, que partiram num avião da TAP, regressei à nossa casa no Bairro Militar, que de imediato me pareceu medonha de silêncio e ausência -- e mais uma vez me levou à pergunta: que faço aqui?
Mal dormido fui cedo para o Rádio Clube de Moçambique para, em conjunto com o alferes Fernando Lopes Cardoso e o chefe dos serviços Redatoriais gizarmos a programação e a informação dos próximos e decisivos dias.
Estávamos no centro do furacão: nessa segunda feira 2 de Setembro, Portugal e a FRELIMO anunciaram que iriam iniciar, três dias depois, em Lusaka, as negociações com vista à transferência de poderes e  à marcação de uma data para a Independência de Moçambique.


Acordo de Lusaka. Mário Soares e Samora Machel
O que estava em cima da mesa era o que, sabia-se, não podia deixar de ser -- mas pôs alguns brancos de cabeça perdida:
-- o reconhecimento do direito inalienável do povo moçambicano à independência;
-- a transferência de poderes para o povo do território;
-- o reconhecimento da FRELIMO como único representante legítimo desse povo.
Isto é: o inelutável, depois de 10 anos de luta, de guerra, de milhares de mortos e feridos em ambos os lados. E de isolamento internacional de Portugal. o que a História, vinda de longe, andou até aqui chegar!
Samora Machel, a exemplo do que já anteriormente tinha dito por várias vezes, afirmou de novo, e de viva voz, na rádio:
" Não vamos negociar a independência. O nosso objectivo é o de estabelecer a forma como o poder será transferido para a FRELIMO, o que corresponde aos interesses tanto do povo moçambicano como do povo português".
Anunciado igualmente foi um megacomício pró-FRELIMO, no Estádio da Machava, nos arredores de Lourenço Marques. A iniciativa pertenceu aos "Democratas de Moçambique", teve o apoio tácito da FRELIMO e do Governo Provisório que decretou a tolerância de ponto para os funcionários públicos e durou 72 horas -- o tempo que duraram as negociações em Lusaka.


Estádio da Machava. manifestação de apoio à FRELIMO
Neste contexto histórico, não havia alternativa e não foi difícil definir as linhas mestras da programação e da informação do RCM: grande relevo para o que se iria passar em Lusaka durante os três dias de conversação, estipulando-se desde logo que se iria mandar à Zâmbia uma equipa de 4 elementos -- dois jornalistas (Eduardo Rebelo e César Moreira de Sá), o chefe dos serviços técnicos (António Alves da Fonseca) e um locutor ( Fernando Rebelo) -- que entraria em todos os noticiários do RCM, de hora a hora, com apontamentos do que de mais relevante se passasse -- sem prejuízo de reportagens e entrevistas que pudessem entrar noutros espaços da grelha. Além disso em Lourenço Marques, reportagens de rua, entrevistas a propósito das negociações e da independência, recolha de depoimentos junto de líderes políticos portugueses e estrangeiros, com relevo para os africanos, resenhas históricas, o quem é quem na FRELIMO que em breve estaria no poder e, obviamente, o acompanhamento ao pormenor do comício na Machava,

                          Ambiente efervescente

Em Lourenço Marques, de resto como em todo o país todos nós vivíamos em estado de sofreguidão. Nos cafés, nos lares, nas fábricas, nas ruas, idem, aspas. A independência, e respectivas consequências, tomavam conta de todas as conversas, discussões e preocupações. Uns, nitidamente uma pequena minoria mas ainda com poder, não aceitavam o caminho anunciado. Outros, a esmagadora maioria, nomeadamente a população negra, morriam de impaciência e alegria pelo futuro a chegar.
" A poucas horas do reinício das negociações entre a FRELIMO e o governo Português" -- escrevi eu na manhã de 5 de Setembro de 1974 numa crónica enviada para Lisboa:
" Moçambique inteiro participa numa gigantesca manifestação patriótica que assume a forma de paralisação total do trabalho seguida de comícios
A partir das 9 horas, e cumprindo a palavra de ordem vinda de Dar-es-Salam, onde se situa a sede da FRELIMO, o povo veio para a rua e para os estádios manifestar o seu regozijo pelo reinício das negociações de Lusaka e o seu completo apoio à posição da FRELIMO. Porém os hospitais, farmácias, correios, polícias, centrais eléctricas, bazares e todos os outros serviços considerados vitais funcionam normalmente.
Ontem, os jornais apareceram cheios de comunicados dos Democratas, de associações e organismos sindicais convidando o povo para a gigantesca manifestação verdadeiramente sem precedentes na história do povo moçambicano.
( ...) Para se avaliar da magnitude deste comício, refira-se que a sua organização representa a união de esforços por parte dos Democratas de Moçambique, Centro de Associação de Negros, Associação Africana, Associação dos Naturais de Moçambique e representantes de associações de classe, nomeadamente carpinteiros, alfaiates, barbeiros, engraxadores, polidores, sapateiros, empregados de mesa, etc...
(...) Paralelamente continuam todos os cuidados na vigilância de certos sectores vitais, pois receia-se uma acção espectacular da reacção no recomeço das negociações que -- já não restam dúvidas a ninguém -- irão entregar o poder à FRELIMO.
O Centro Associativo de Negros tem recolhido amiúde, nestes últimos dias, telefonemas ameaçadores e afirmando que "na quinta - feira começaremos a actuar " Já temos um lugar reservado para o Machel e vocês é que o vão lá levá-lo". Idênticos telefonemas têm sido recebidos noutras organizações pró-frelimistas, mas a PSP, já avisada, parece estar atenta, tendo reforçado a vigilância em locais estratégicos.
(...) Os agrupamentos políticos que apareceram depois do 25 de Abril e se opunham à FRELIMO remeteram-se ao mais completo silêncio, com excepção do PCN -- Partido da Coligação Nacional que fez publicar um comunicado atacando ferozmente os Democratas. No entanto, de tão desacreditado que está, o PCN não consegue fazer ouvir a sua voz (...)
Já no dia seguinte, 6 de Setembro, tudo mudou de figura; ao fim do dia a violência tomou conta das ruas da capital moçambicana e andou à solta e andou à solta a impunemente até tarde na madrugada -- e, o que é bem mais grave e incompreensível, com a conivência clara da PSP e, no mínimo, com a passividade das Forças Armadas colocadas em Lourenço Marques.


Av.. de Lourenço Marques, onde começou o 7 de Setembro
Na manhã do dia 7, já não me atrevi a ir de carro para o RCM. Fui a pé, à civil como gostava -- era arriscado, nesse então, andar fardado e sozinho no espaço laurentino. Pelas ruas, como na véspera tinha tido ocasião de ver, já circulavam de novo centenas de carros, talvez milhares, buzinando sem cessar, com brancos dependurados nas janelas e até nos tejadilhos, bandeiras portuguesas ao vento, mãos ao alto e dedos em sinal de vitória. Uma cena surreal e ensurdecedora. Gritavam sem parar " Vitória, vitória" davam vivas a Portugal e vociferavam abaixo a FRELIMO e os turras, numa excitação desmedida.
Entrei no Rádio Clube, já nessa altura com um furriel e seis soldados  da Polícia Militar à porta, em resultado dos alertas que a Comissão Administrativa Militar do RCM, nomeadamente através do seu presidente, comandante Alfredo Rodrigues Lobo, da Marinha, havia feito na véspera junto da PSP e do Quartel-General, ainda antes de, à noite, terem sido lançadas granadas para a sala da redeacção, que se situava do chão e tinha janelas gradeadas que davam para a rua.
Numa primeira e rápida reunião de alguns dos membros da Comissão Administrativa Militar, fizemos um ponto da situação, avaliámos os riscos, telefonou-se novamente para o major Marinho Falcão, 2º Comandante da PSP de Lourenço Marques, que nos descansou, dizendo-nos que o Rádio Clube não corria perigo, que era preciso somente deixasse que o pessoal deitasse cá para fora o que lhes ia na alma, nada de os afrontar, tudo voltaria ao normal em breve.
Como o Notícias não fora publicado nessa manhã devido aos tumultos da véspera, dei um salto à redacção do RCM, vi o que sido transmitido e o que estava a ser preparado, ainda ouvi o último despacho proveniente da equipa do RCM que estava em Lusaka, falei com vários trabalhadores da casa que relataram tudo o que tinham visto, voltei ao meu gabinete, fiz dois ou três telefonemas para oficiais amigos colocados no Quartel General e outros tantos para jornalistas que haviam assistido por dentro aos acontecimentos da véspera e, jogando com a diferença horária entre Lisboa e Lourenço Marques, escrevi, rapidamente, uma crónica longa que o Diário de Lisboa publicou com grande destaque nessa tarde, pois ainda tive tempo para me dirigir ao edifício dos Correios, que se situava mesmo ao lado do RCM, onde uma menina dos telex, que já me conhecia há muito, bateu a uma velocidade supersónica o texto da crónic para aquele vespertino.
Intitulada "GRAVES INCIDENTES EM LOURENÇO MARQUES" -- eu não imaginava o que estava para vir... -- rezava assim:


Edifício dos Correios de Lourenço Marques nos anos 60
" A capital moçambicana tem vivido nas últimas horas uma situação de angústia resultantes de actos de vandalismo que causaram grandes estragos nas instalações da impresa e organiismos progressistas.
Este clima de tensão atingiu o ponto máximo cerca da 1 da manhã, quando toda a cidade foi acordada por uma poderosa explosão que abalou os  prédios situados nas proximidades, e se veio a saber ter sido causado pelos rebentamentos de munições de um paiol das Forças Armadas situados à saída da cidade e próximo do aeroporto.
Entretanto, já tinha sido destruída por completo e incendiada a sede dos Democratas, estilhaçando todos os vidros do rés do chão do RCM, totalmente partidas as montras e mobiliário da cantina da Associação Académica , assaltada a revista Tempo, e apedrejadas durante horas as instalações do diário Notícias a ponto de não ter sido possível fazer sair a edição de hoje do matutino.
Na sede dos Democratas, os assaltantes ameaçaram dois jovens negros que serviam de guarda, forçaram a entrada, regaram tudo com gasolina, destruíram documentação, propaganda e máquinas, fazendo depois explodir três cargas de trotil que deixaram tudo queimado e originou a intervenção dos bombeiros.
No Notícias os ataques verificaram-seem dois períodos distintos: às cinco da tarde, quando um grupo de pouco mais de 40 jovens enfurecidos lançaram pedras contra as suas instalações, entraram lá, tentaram arrancar os telefones e ameaçaram jornalistas, virando depois três carros de reportagem  daquele jornal que se encontravam estacionados fora.
Este mesmo grupo dirigiu-se seguidamente para o RCM e revista Tempo, onde causou enormes estragos, e mais tarde, cerca das 23 horas, já acompanhados de enorme multidão que desfraldava uma enorme bandeira portuguesa, cercaram o Notícias, apedrejando-o novamente, não permitindo que nenhuma luz se acendesse no interior das oficinas, impedindo desse modo a saída do jornal.
O operador cinematográfico Rui Marote foi agredido quando tentava filmar o apedrejamento e o cineasta Melo Pereira foi atacado também nessa altura, tendo-lhe sido danificada a máquina de filmar e retirada a película.
Na Associação Académica, o grupo de vândalos também esteve duas vezes, tendo atacado a seu bel-prazer cerca da meia noite, destruindo as suas instalações.
De realçar que todas estas acções foram praticadas sem qualquer intervenção da PSP ou do Exército que, nalguns casos, assistiram ao desenrolar dos acontecimentos, Na Associação Académica, por exemplo, os terroristas urbanos, na sua segunda actuação, chegaram ao local bastante depois de lá terem sido colocadas forças policiais e militares que nada fizeram. Já à tarde também se verificara um incompreensível atraso na actuação da polícia, quando os responsáveis actuais pelo Rádio Clube de Moçambique  alertaram as autoridades com cerca de uma hora de antecedência para o que se iria passar, dado que os desordeiros diziam abertamente quando atacassem o Notícias, que a seguir iam dar cabo do RCM que "está vendido à FRELIMO".
Por outro lado, desde as seis da manhã de hoje, centenas de carros ostentando bandeiras e conduzidos por brancos, percorreram as ruas de Lourenço Marques dando vivas a Portugal e gritando contra a FRELIMO, receando-se que se dirijam a qualquer momento para o Estádio da Machava, onde está a decorrer pelo terceiro dia consecutivo um comício de apoio à FRELIMO enquanto decorrem as negociações de Lusaka.Se isto se verificar, o confronto racial poderá ser inevitável, dado que os agitadores profissionais estão a actuar impunemente, sendo visível a organização da reacção.
Como repetidamente tem sido emitido pelo RCM, espera-se uma importante declaração de Machel, directamente de Lusaka, dando conta do êxito total das negociações e anunciando a constituição a breve prazo de um Governo de trabsição onde a FRELIMO deterá dois terços da totalidade das pastas.
O ambiente em Lourenço Marques é portanto altamente efervescente , vivendo-se momentos de grande expectativa e esperando-se não só manifestações de alegria das populações negras em face dos resultados das negociações mas também a reacção violenta da facção extremista branca que, como repetidamente tem afirmado, não ficará de braços cruzados com a "entrega de Moçambique à FRELIMO"
A PSP e o Exército estão de prevenção, e particularmente o RCM encontra-se protegido com a presença de efectivos da ordem, pois espera-se que a reacção pretenda calar a voz progressista daquela estação emissora e simultaneamente a mensagem de Samora Machel".


CONTINUA NA PRÓXIMA 2ª FEIRA








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