Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~
Foto PÊSAMES.



sexta-feira, 30 de junho de 2017

1º CAPÍTULO DO LIVRO: DE RIBEIRO CARDOSO:"FIM DO IMPÉRÉRIO: 7 DE SETEMBRO DE 1974. MEMÓRIA DE UM SOLDADO PORTUGUÊS". DO 7 DE SETEMBRO AO 21 DE OUTUBRO, 45 DIAS ALUCINANTES


LOUCURA E INCONSCIÊNCIA BRANCA
                              
Esta é uma históriaque trazia na cabeça desde que, em 1974, a vivi por dentro -- tendo por fundo, a guerra colonial, a descolonização e a traição a dois povos: o moçambicano e o português.
Em Setembro de 1974, Lourenço Marques testemunhou um crime sem perdão. Um crime que originou incontáveis mortos, na esmagadora maioria negros -- graças à loucura e irresponsabilidade de um punhado de brancos  que, sentindo o seu mundo de privilégios a ruir, se lançou numa aventura sem sentido, arrastando emocionalmente milhares de compatriotas que, desinformados e impreparados politicamente, no contexto de então eram presa fácil de qualquer patriotismo rasteiro.
O resultado foi, num primeiro momento, uma euforia balofa, difundida via rádio desejos e boatos como se fossem realidades -- com os seus membros mais exaltados entregando-se, ao som do potente Rádio Clube de Moçambique assaltado, a uma autêntica orgia de sangue negro nas ruelas sem esgoto no caniço.
Ao terceiro dia o medo de que se havia apoderado a população negra, que ouvia a rádio a apelar à intervenção sul-africana e rodesiana, transformou-se em levantamento generalizado, sob a forma de uma marcha de catanas sobre a cidade branca.
O feitiço virava-se contra o feiticeiro. Chegara a hora de a população branca ser tomada pelo medo, primeiro, e pelo pânico, depois
. Polícia incluída, quando as suas comprometidas chefias descobriram, tarde demais, que não tinham capacidade para enfrentar milhares de negros em fúria,
Ao mesmo tempo, muitos brancos perceberam que tinham um pesado preço a pagar: a fuga, o adeus doloroso a uma terra amada mas onde só aceitavam viver com as regras iníquas que sempre os favoreceram e permitiram que, de forma abjecta, vivessem à custa da exploração do negro.
E, ironia da vida, com o peso da última humilhação; a cidade branca só se salvou graças à intervenção da FRELIMO e de um seu militante , Aurélio Le Bon,Clika aqui para leres o livro: MAFALALA, 7 de Setembro de Aurélio Le Bon, que, à pressa, PSP e Exército fardaram e levaram aos microfones do RCM para transmitir a senha que faria  parar os negros em fúria.
Talvez alguns brancos mais extremistas tenham então compreendido que nunca houve, nem podia haver, uma colonização justa -- e muito menos uma descolonização perfeita. Mas poderia ter sido bem melhor do que foi se não se tivesse criminosamente lançado gasolina na fogueira.

Do 7 de Setembro ao 21 de Outubro, 45 dias alucinantes
Loucura e inconsciência branca

Em Lourenço Marques, naquele início de Setembro de 1974 sentia-se que algo de estranho andava no ar.
(...) depois de no aeroporto me ter despedido de mulher e filha, que partiram num avião da TAP, regressei à nossa casa no Bairro Militar, que de imediato me pareceu medonha de silêncio e ausência -- e mais uma vez me levou à pergunta: que faço aqui?
Mal dormido fui cedo para o Rádio Clube de Moçambique para, em conjunto com o alferes Fernando Lopes Cardoso e o chefe dos serviços Redatoriais gizarmos a programação e a informação dos próximos e decisivos dias.
Estávamos no centro do furacão: nessa segunda feira 2 de Setembro, Portugal e a FRELIMO anunciaram que iriam iniciar, três dias depois, em Lusaka, as negociações com vista à transferência de poderes e  à marcação de uma data para a Independência de Moçambique.


Acordo de Lusaka. Mário Soares e Samora Machel
O que estava em cima da mesa era o que, sabia-se, não podia deixar de ser -- mas pôs alguns brancos de cabeça perdida:
-- o reconhecimento do direito inalienável do povo moçambicano à independência;
-- a transferência de poderes para o povo do território;
-- o reconhecimento da FRELIMO como único representante legítimo desse povo.
Isto é: o inelutável, depois de 10 anos de luta, de guerra, de milhares de mortos e feridos em ambos os lados. E de isolamento internacional de Portugal. o que a História, vinda de longe, andou até aqui chegar!
Samora Machel, a exemplo do que já anteriormente tinha dito por várias vezes, afirmou de novo, e de viva voz, na rádio:
" Não vamos negociar a independência. O nosso objectivo é o de estabelecer a forma como o poder será transferido para a FRELIMO, o que corresponde aos interesses tanto do povo moçambicano como do povo português".
Anunciado igualmente foi um megacomício pró-FRELIMO, no Estádio da Machava, nos arredores de Lourenço Marques. A iniciativa pertenceu aos "Democratas de Moçambique", teve o apoio tácito da FRELIMO e do Governo Provisório que decretou a tolerância de ponto para os funcionários públicos e durou 72 horas -- o tempo que duraram as negociações em Lusaka.


Estádio da Machava. manifestação de apoio à FRELIMO
Neste contexto histórico, não havia alternativa e não foi difícil definir as linhas mestras da programação e da informação do RCM: grande relevo para o que se iria passar em Lusaka durante os três dias de conversação, estipulando-se desde logo que se iria mandar à Zâmbia uma equipa de 4 elementos -- dois jornalistas (Eduardo Rebelo e César Moreira de Sá), o chefe dos serviços técnicos (António Alves da Fonseca) e um locutor ( Fernando Rebelo) -- que entraria em todos os noticiários do RCM, de hora a hora, com apontamentos do que de mais relevante se passasse -- sem prejuízo de reportagens e entrevistas que pudessem entrar noutros espaços da grelha. Além disso em Lourenço Marques, reportagens de rua, entrevistas a propósito das negociações e da independência, recolha de depoimentos junto de líderes políticos portugueses e estrangeiros, com relevo para os africanos, resenhas históricas, o quem é quem na FRELIMO que em breve estaria no poder e, obviamente, o acompanhamento ao pormenor do comício na Machava,

                          Ambiente efervescente

Em Lourenço Marques, de resto como em todo o país todos nós vivíamos em estado de sofreguidão. Nos cafés, nos lares, nas fábricas, nas ruas, idem, aspas. A independência, e respectivas consequências, tomavam conta de todas as conversas, discussões e preocupações. Uns, nitidamente uma pequena minoria mas ainda com poder, não aceitavam o caminho anunciado. Outros, a esmagadora maioria, nomeadamente a população negra, morriam de impaciência e alegria pelo futuro a chegar.
" A poucas horas do reinício das negociações entre a FRELIMO e o governo Português" -- escrevi eu na manhã de 5 de Setembro de 1974 numa crónica enviada para Lisboa:
" Moçambique inteiro participa numa gigantesca manifestação patriótica que assume a forma de paralisação total do trabalho seguida de comícios
A partir das 9 horas, e cumprindo a palavra de ordem vinda de Dar-es-Salam, onde se situa a sede da FRELIMO, o povo veio para a rua e para os estádios manifestar o seu regozijo pelo reinício das negociações de Lusaka e o seu completo apoio à posição da FRELIMO. Porém os hospitais, farmácias, correios, polícias, centrais eléctricas, bazares e todos os outros serviços considerados vitais funcionam normalmente.
Ontem, os jornais apareceram cheios de comunicados dos Democratas, de associações e organismos sindicais convidando o povo para a gigantesca manifestação verdadeiramente sem precedentes na história do povo moçambicano.
( ...) Para se avaliar da magnitude deste comício, refira-se que a sua organização representa a união de esforços por parte dos Democratas de Moçambique, Centro de Associação de Negros, Associação Africana, Associação dos Naturais de Moçambique e representantes de associações de classe, nomeadamente carpinteiros, alfaiates, barbeiros, engraxadores, polidores, sapateiros, empregados de mesa, etc...
(...) Paralelamente continuam todos os cuidados na vigilância de certos sectores vitais, pois receia-se uma acção espectacular da reacção no recomeço das negociações que -- já não restam dúvidas a ninguém -- irão entregar o poder à FRELIMO.
O Centro Associativo de Negros tem recolhido amiúde, nestes últimos dias, telefonemas ameaçadores e afirmando que "na quinta - feira começaremos a actuar " Já temos um lugar reservado para o Machel e vocês é que o vão lá levá-lo". Idênticos telefonemas têm sido recebidos noutras organizações pró-frelimistas, mas a PSP, já avisada, parece estar atenta, tendo reforçado a vigilância em locais estratégicos.
(...) Os agrupamentos políticos que apareceram depois do 25 de Abril e se opunham à FRELIMO remeteram-se ao mais completo silêncio, com excepção do PCN -- Partido da Coligação Nacional que fez publicar um comunicado atacando ferozmente os Democratas. No entanto, de tão desacreditado que está, o PCN não consegue fazer ouvir a sua voz (...)
Já no dia seguinte, 6 de Setembro, tudo mudou de figura; ao fim do dia a violência tomou conta das ruas da capital moçambicana e andou à solta e andou à solta a impunemente até tarde na madrugada -- e, o que é bem mais grave e incompreensível, com a conivência clara da PSP e, no mínimo, com a passividade das Forças Armadas colocadas em Lourenço Marques.


Av.. de Lourenço Marques, onde começou o 7 de Setembro
Na manhã do dia 7, já não me atrevi a ir de carro para o RCM. Fui a pé, à civil como gostava -- era arriscado, nesse então, andar fardado e sozinho no espaço laurentino. Pelas ruas, como na véspera tinha tido ocasião de ver, já circulavam de novo centenas de carros, talvez milhares, buzinando sem cessar, com brancos dependurados nas janelas e até nos tejadilhos, bandeiras portuguesas ao vento, mãos ao alto e dedos em sinal de vitória. Uma cena surreal e ensurdecedora. Gritavam sem parar " Vitória, vitória" davam vivas a Portugal e vociferavam abaixo a FRELIMO e os turras, numa excitação desmedida.
Entrei no Rádio Clube, já nessa altura com um furriel e seis soldados  da Polícia Militar à porta, em resultado dos alertas que a Comissão Administrativa Militar do RCM, nomeadamente através do seu presidente, comandante Alfredo Rodrigues Lobo, da Marinha, havia feito na véspera junto da PSP e do Quartel-General, ainda antes de, à noite, terem sido lançadas granadas para a sala da redeacção, que se situava do chão e tinha janelas gradeadas que davam para a rua.
Numa primeira e rápida reunião de alguns dos membros da Comissão Administrativa Militar, fizemos um ponto da situação, avaliámos os riscos, telefonou-se novamente para o major Marinho Falcão, 2º Comandante da PSP de Lourenço Marques, que nos descansou, dizendo-nos que o Rádio Clube não corria perigo, que era preciso somente deixasse que o pessoal deitasse cá para fora o que lhes ia na alma, nada de os afrontar, tudo voltaria ao normal em breve.
Como o Notícias não fora publicado nessa manhã devido aos tumultos da véspera, dei um salto à redacção do RCM, vi o que sido transmitido e o que estava a ser preparado, ainda ouvi o último despacho proveniente da equipa do RCM que estava em Lusaka, falei com vários trabalhadores da casa que relataram tudo o que tinham visto, voltei ao meu gabinete, fiz dois ou três telefonemas para oficiais amigos colocados no Quartel General e outros tantos para jornalistas que haviam assistido por dentro aos acontecimentos da véspera e, jogando com a diferença horária entre Lisboa e Lourenço Marques, escrevi, rapidamente, uma crónica longa que o Diário de Lisboa publicou com grande destaque nessa tarde, pois ainda tive tempo para me dirigir ao edifício dos Correios, que se situava mesmo ao lado do RCM, onde uma menina dos telex, que já me conhecia há muito, bateu a uma velocidade supersónica o texto da crónic para aquele vespertino.
Intitulada "GRAVES INCIDENTES EM LOURENÇO MARQUES" -- eu não imaginava o que estava para vir... -- rezava assim:


Edifício dos Correios de Lourenço Marques nos anos 60
" A capital moçambicana tem vivido nas últimas horas uma situação de angústia resultantes de actos de vandalismo que causaram grandes estragos nas instalações da impresa e organiismos progressistas.
Este clima de tensão atingiu o ponto máximo cerca da 1 da manhã, quando toda a cidade foi acordada por uma poderosa explosão que abalou os  prédios situados nas proximidades, e se veio a saber ter sido causado pelos rebentamentos de munições de um paiol das Forças Armadas situados à saída da cidade e próximo do aeroporto.
Entretanto, já tinha sido destruída por completo e incendiada a sede dos Democratas, estilhaçando todos os vidros do rés do chão do RCM, totalmente partidas as montras e mobiliário da cantina da Associação Académica , assaltada a revista Tempo, e apedrejadas durante horas as instalações do diário Notícias a ponto de não ter sido possível fazer sair a edição de hoje do matutino.
Na sede dos Democratas, os assaltantes ameaçaram dois jovens negros que serviam de guarda, forçaram a entrada, regaram tudo com gasolina, destruíram documentação, propaganda e máquinas, fazendo depois explodir três cargas de trotil que deixaram tudo queimado e originou a intervenção dos bombeiros.
No Notícias os ataques verificaram-seem dois períodos distintos: às cinco da tarde, quando um grupo de pouco mais de 40 jovens enfurecidos lançaram pedras contra as suas instalações, entraram lá, tentaram arrancar os telefones e ameaçaram jornalistas, virando depois três carros de reportagem  daquele jornal que se encontravam estacionados fora.
Este mesmo grupo dirigiu-se seguidamente para o RCM e revista Tempo, onde causou enormes estragos, e mais tarde, cerca das 23 horas, já acompanhados de enorme multidão que desfraldava uma enorme bandeira portuguesa, cercaram o Notícias, apedrejando-o novamente, não permitindo que nenhuma luz se acendesse no interior das oficinas, impedindo desse modo a saída do jornal.
O operador cinematográfico Rui Marote foi agredido quando tentava filmar o apedrejamento e o cineasta Melo Pereira foi atacado também nessa altura, tendo-lhe sido danificada a máquina de filmar e retirada a película.
Na Associação Académica, o grupo de vândalos também esteve duas vezes, tendo atacado a seu bel-prazer cerca da meia noite, destruindo as suas instalações.
De realçar que todas estas acções foram praticadas sem qualquer intervenção da PSP ou do Exército que, nalguns casos, assistiram ao desenrolar dos acontecimentos, Na Associação Académica, por exemplo, os terroristas urbanos, na sua segunda actuação, chegaram ao local bastante depois de lá terem sido colocadas forças policiais e militares que nada fizeram. Já à tarde também se verificara um incompreensível atraso na actuação da polícia, quando os responsáveis actuais pelo Rádio Clube de Moçambique  alertaram as autoridades com cerca de uma hora de antecedência para o que se iria passar, dado que os desordeiros diziam abertamente quando atacassem o Notícias, que a seguir iam dar cabo do RCM que "está vendido à FRELIMO".
Por outro lado, desde as seis da manhã de hoje, centenas de carros ostentando bandeiras e conduzidos por brancos, percorreram as ruas de Lourenço Marques dando vivas a Portugal e gritando contra a FRELIMO, receando-se que se dirijam a qualquer momento para o Estádio da Machava, onde está a decorrer pelo terceiro dia consecutivo um comício de apoio à FRELIMO enquanto decorrem as negociações de Lusaka.Se isto se verificar, o confronto racial poderá ser inevitável, dado que os agitadores profissionais estão a actuar impunemente, sendo visível a organização da reacção.
Como repetidamente tem sido emitido pelo RCM, espera-se uma importante declaração de Machel, directamente de Lusaka, dando conta do êxito total das negociações e anunciando a constituição a breve prazo de um Governo de trabsição onde a FRELIMO deterá dois terços da totalidade das pastas.
O ambiente em Lourenço Marques é portanto altamente efervescente , vivendo-se momentos de grande expectativa e esperando-se não só manifestações de alegria das populações negras em face dos resultados das negociações mas também a reacção violenta da facção extremista branca que, como repetidamente tem afirmado, não ficará de braços cruzados com a "entrega de Moçambique à FRELIMO"
A PSP e o Exército estão de prevenção, e particularmente o RCM encontra-se protegido com a presença de efectivos da ordem, pois espera-se que a reacção pretenda calar a voz progressista daquela estação emissora e simultaneamente a mensagem de Samora Machel".

O Assalto ao Rádio Clube

Regressei ao RCM, que continuava, naturalmente a dar notícias, com relevo para o que se passava em Lourenço Marques e em Lusaka. Já se sabia do acordo e de muitos dos seus pormenores. E a multidão de brancos, salpicada de alguns rostos negros, continuava a engrossar. A sua concentração mais forte era junto à Praça Mouzinho de Albuquerque, de onde saía uma rua que passava mesmo em frente ao Rádio Clube, a escassos centenas de metros. Quando entrei, já a manifestação de brancos tinha tomado essa mesma rua e muita gente estava a gritar palavras de ordem em frente à entrada do RCM.

Com alguns rostos negros, a multidão continuava a engrossar
Estranhamente, muito estranhamente, a PSP não isolou a rua onde estava o RCM. Pelo contrário: apenas colocara um cordão de agentes e carrinhas a impedir os manifestantes de ultrapassarem o primeiro cruzamento após o RCM, logo a seguir ao edifício dos CTT. Um tampão estratégico perfeito: continuava a sair gente da Praça Mouzinho de Albuquerque, mas depois do edifício do RCM não podia (nem queria) passar. E a multidão tornava-se, ali, cada vez maior e mais compacta.
Subi ao primeiro andar. Os membros da Comissão Administrativa Militar, começando a prever o pior mas mesmo assim ainda acreditando que não haveria qualquer invasão, entraram de novo em contacto com o major Marinho Falcão, que tentou mais mais uma vez acalmar-nos, que não havia perigo, que era necessário muita serenidade. Mesmo assim, viria já de seguida ao RCM para falar connosco.
Cá fora, os protestos subiam de tom. A determinada altura, já a tarde ia a meio, os manifestantes quiseram ser recebidos pelos militares que dirigiam o RCM. O segundo-comandante da PSP chegou. Decidimos então receber uma delegação de três representantes da multidão.Por ordem do Presidente da Comissão Militar, comandante Alfredo Rodrigues Lobo dirigi-me ao furriel da PM que comandava o escasso grupo de seis soldados que estava a "fazer a segurança" ao Rádio Clube, dei-lhe instruções precisas no melhor estilo militar que fui capaz de arranjar naquele momento.
Entrei finalmente no Salão Nobre do RCM onde ia começar a reunião com os três representantes dos manifestantes, cujos nomes não recordo. Da Comissão Administrador Militar, para além do presidente, comandante Rodrigues Lobo, estavam, que me lembre, o capitão Oliveira, da Força Aérea, o alferes Fernando Lopes Cardoso e eu próprio. Não sei se o segundo-tenente da Marinha que tinha a seu cargo a área jurídica, por lá se encontrava - mas em contrapartida sei que o alferes João Barroso, responsável pelo pelouro do pessoal, estava de férias em Lisboa. Havia ainda um capitão do exército, fardado que eu não conhecia de lado nenhum e nem sequer sabia a que título ali se encontrava - e, claro, o incontornável major Marinho Falcão, o nº 2 da PSP de Lourenço Marques.
Todos em pé, que a conversa era informal, ouvimos as reivindicações dos representantes dos manifestantes: queriam ter cesso aos microfones para dizerem à população de todo o Moçambique, em directo, a vergonha do que se passara na baixa laurentina, com uns energúmenos conduzindo uma viatura com a bandeira da FRELIMO bem ao alto e uma bandeira portuguesa a ser arrastada pelo chão, já meia rota. Mais queriam também manifestar o seu desacordo total pelo que se passava em Lusaka, com a entrega de Moçambique numa bandeja aos terroristas da FRELIMO - sem referendo, sem eleições, sem terem ouvido o povo, nada. Uma entrega vergonhosa e inaceitável, na sua opinião.
A reunião no RCM com a delegação de representantes dos manifestantes: serena mas claramente, foi-lhes explicado que acesso directo aos microfones, nem pensar. Porém, poderiam gravar uma declaração com tudo o que entendessem dizer, garantindo nós que seria de imediato radiofundida.
A nossa proposta não foi aceite, a argumentação continuou e, ainda não tinham passado 15 minutos sobre a conversa que mantivera com o furriel da PM que no piso zero comandava a força dita de segurança do RCM, ouviu-se um estrondo medonho seguido de tremenda gritaria de uma multidão em fúria. Saí do salão, a correr dirigi-me para os elevadores e, absolutamente atónito -- é o termo --, vi a loucura nos olhos e nos gestos daquela gente que, subindo as escadas, continuava a empurrar-se, a partir os vidros das portas de ferro no 1º andar, a meter os braços pelos espaços onde ainda havia pedaços de vidro partido, tentando agarrar as correntes e rebentar os cadeados com que aquelas portas tinham sido fechadas. Como uma marabunta, começaram a entrar por ali dentro com gritos de "Abaixo a FRELIMO", "O povo unido jamais será vencido", "Morte aos traidores", "Moçambique é nosso", "Viva Moçambique livre e independente", "Fora com os militares comunas"... Instintivamente , e como estava à civil e não era figura publicamente conhecida, misturei-me com eles, sendo levado pela multidão que continuava a subir as escadas do RCM, podendo ver angustiado, parte das bárbaras e violentas agressões de que foram vítimas o comandante Lobo e o capitão Oliveira, os únicos membros da Comissão Administrativa Militar que estavam fardados -- pontapeados, socados, caindo, levantando-se, agredidos de novo, a cara ensaguentada. Também vi, ainda que de um modo fugidio o major Marinho Falcão, que pedia calma a toda a gente mas não foi agredido, apesar de fardado... 

Multidão junto ao RCM

Com novos manifestantes sempre a aparecer em estado de euforia ( para a esmagadora maioria aquele acto constituía uma novidade absoluta, pois nos tempos de Salazar e Caetano nunca se manifestaram ou puseram minimamente em causa a ordem ditatorial e colonial estabelecida) os que chegaram lá acima ao 7º andar começaram a inverter a marcha. E eu, claro, tenso por dentro mas tentando aparentar calma por fora, comecei igualmente a descer aquelas escadarias que me pareciam intermináveis. Sempre a pensar como poderia sair discretamente daquele filme, e sem ter a mínima ideia do que estaria a ser dito aos microfones do RCM ( de resto como acontecia com todas aquelas almas excitadas), vi-me envolvido de repente num incidente que poderia ter tido um desfecho complicado: um ex-funcionário do RCM, o único que a Comissão Administrativa Militar tinha despedido depois de lhe ter sido instaurado um processo disciplinar por comportamento grave, viu-me, parou por  uns segundos, apontou-me o dedo e gritou desvairado: "Este é um dos alferes da FRELIMO! Este é um dos militares responsáveis por esta vergonha"  Fez-se um silêncio de morte. Surge então um funcionário qualificado do RCM chamado Benjamim, que, ao que intuí e mais tarde ele me confirmou, andou por ali a pôr água na fervura, indicando várias coisas aos assaltantes, ajudando-os sempre na perspectiva de nada estragarem ou destruírem na parte técnica, pois seria sempre fundamental manter operacional o RCM fosse quem fosse o poder de turno. Entrou em diálogo com o tal ex-funcionário despedido, a discussão alargou-se, passou um polícia a quem deitei literalmente a mão explicando-lhe a situação e mostrando-lhe que estava armado, ele ficou aflito, disse-me:
"Acompanhe-me meu alferes, acompanhe-me, não mostre a arma por amor de Deus, isto por aqui há centenas de armas, o primeiro tiro transforma tudo isto num inferno, conversa comigo, vamos, vamos descendo, sairemos pelas traseiras, aí as coisas estão mais calmas, o que é me diz? Eu? Digo Ok, vamos a isso e vamos ver no que dá esta loucura. Pois é, meu alferes, esse é o problema, saber no que isto vai dar, estávamos nós por aqui tão bem. Pois, mas havia quem estivesse mal. Eu sei, eu sei, também esse é o meu medo, só não sei se os que estavam mal vão ficar melhor, olhe, meu alferes, vejo negro, vejo a minha vida andar para trás, vá isto por onde for, mas olhe, já chegámos, pode ir calmamente à sua vida, só o acompanho ainda mais uns metros aí na rua, para ver se não há problema, se está tudo bem. Muito obrigado  pela sua ajuda. De nada, meu alferes, estamos cá para nos ajudar uns aos outros. É verdade, mas diga-me, como é que o srº guarda se chama? Todos me chamam Barrigana , porque sou do Futebol Clube do Porto e gosto de jogar à baliza nos jogos entre amigos, que são o pretexto para umas patuscadas, já sabe, meu alferes, se precisar de alguma coisa é só dizer, estou colocado no Comando Geral, às suas ordens, meu alferes"
Fui a pé à nova casa dos meus cunhados, que ficava relativamente perto e onde me aboletara de novo depois de ficar sozinho em Lourenço Marques. Fardei-me, meti-me no carro e rapidamente cheguei ao Quartel General, onde se vivia um ambiente surrealista a todos os níveis


BASTA

(...) Não foi por Amor dos homens
que os homens brancos 
invadiram o meu país
Não foi em nome da Liberdade
que os homens brancos
escravizaram os meus irmãos
Não foi a Justiça
que a mim a meus irmãos
atirou para o canto da vida

Não

Não quero mais escutar
as vozes gritando Amor
enquanto o chicote
cruzar o mundo dos meus olhos (...)

Marcelino dos Santos, Canto de Amor Natural
Casa dos Estudantes do Império, 1962

Assustadora passividade e cumplicidade

É difícil e penoso relatar o ambiente que fui encontrar no Quartel General de Lourenço Marques naquele fim de tarde de 7 de Setembro de 1974. Mas o que ali vi e vivi deu-me em grande parte a resposta a duas interrogações que não me largavam:
-- como tinha sido possível, durante quase três e numa impunidade total, uma multidão de brancos andar desvairada à solta, atacando jornais, incendiando sedes de organizações cívica--política, destruindo instalações universitárias, libertando Pides detidos na Penitenciária, estourando um paiol das Forças Armadas, invadindo os jardins do Palácio do Governador nas barbas da PSP, acabando por tomar conta dos CTT, do aeroporto civil e do mais importante e potente emissor de rádio de todo o Estado.
-- Como fora possível que durante três dias permanecessem de microfone aberto desinformando deliberadamente a população e, recorrendo a um patrioteirismo fácil e repugnante, mobilizar emocionalmente milhares de compatriotas -- ao mesmo tempo que lançavam apelos ao vizinhos do apartheid e a militares portugueses de especialidade combatentes, uns na reserva, outros ainda no activo.
Afinal, a resposta ali estava, à vista desarmada , naquele Quartel General. A indecisão, a confusão, a falta de um chefe com capacidade e vontade de mandar -- se é que não houve nada de mais grave . Como gritante foi o jogo duplo de oficiais de topo da PSP  e a cumplicidade de muita gente com responsabilidade naquela chamada força de segurança. Até um ceguinho distrádo via.


Manifestantes em Lourenço Marques
Mas voltando ao Quartel General: quando lá cheguei ao fim da tarde do dia 7, já sabia que os manifestantes laurentinos tinham ido à Penitenciária libertar os PIDES que ainda lá estavam presos -- 200 segundo umas fontes, 89 de acordo com outras,
Por outro lado, também já tinha ouvido, através do RCM assaltado e ocupado, apelos à intervenção de sul-africanos, rodesianos e comandos de Montepuez. E tinha registado a lenga-lenga das intervenções dos cavalhairos que em primeiro lugar deitaram as mãos aos microfones, exibindo sem-cerimónia o desvario que ia dentro da casa da rádio, onde não havia rei nem roque e muito menos um fio de intervenção política coerente. A própria escolha das músicas, que a partir decerta altura começaram a intervalar a torrente de palavras ocas, disso foi prova: a Grândola Vila Morena cantada  por Zeca Afonso, o Avante, Camarada interpretado por Luísa Basto, o Lemos, Ouvimos e Lemos, do Francisco Fanhais, e, repetindo até à exaustão, o instrumental Winchester Cathedral.
Salvas as devidas distâncias, quase parecia o PREC, misturado embora, de quando em vez, com batuques africanos e canções da FRELIMO -- o que lhe dava um toque chique de uma África branca do reviralho...Mas era apenas a bagunça e a facilidade do que estivesse mais à mão.
Resumindo: depois de ter saído da rádio e de ter escutado durante uns bons minutos o que estava a ser transmitido, rapidamente concluí  que em Lourenço Marques se estava a viver um puro momento Kafkiano - só possível, na mais benigna das hipóteses, graças à inacção/incompetência das chefias militares e à cumplicidade activa das forças policiais. Com consequências bem funestas...

Nervosismo e indecisão

No QG o ambiente era de nervosismo e de indecisão quanto ao que seria mais aconselhável fazer.
Decorria naquele momento uma reunião com oficiais oriundos de várias unidades da capital -- como pude comprovar quando o então major Maia me mandou entrar. Dirigia o coronel Melo Egídio, Chefe do Estado Maior do Comando Territorial do Sul e do Comando Operacional de Lourenço Marques, estando igualmente presente o almirante Brinca, comandante da Força Naval de Moçambique.
Pouco depois e na ausência de qualquer membro da Comissão Militar do RCM, relatei o que se passara e o que tinha vivido. Percebi que a prioridade da chefia militar era encontrar maneira de silenciar o RCM, mas estava-se num beco sem saída porque se queria evitar a todo o custo o que chamavam banho de sangue. Apesar de aqueles dias se terem tornado uma orgia de sangue
Os palpites, as hipóteses de acção foram saltando para a discussão, percebendo-se claramente que nunca antes tal situação, ou aproximada, fora equacionada ou prevista, não existindo portanto qualquer plano de actuação.
Curiosa a todos os títulos foi a intervenção so comandante do AB8, Aeródromo-Base de Lourenço Marques, que para minha surpresa era meu homónimo -- refiro-me ao tenente-coronel Jorge Ribeiro Cardoso, militar da Força Aérea que viria a integrar mais tarde o Conselho da Revolução e hoje é major -- general na reserva.
Telefonei-lhe agora e fomos rebobinar algumas das cenas passadas no QG em Lourenço Marques, naquela histórica tarde de 7 de Setembro de 1974.
" Às vezes parece-me mentira que tenha vivido o que li vivi. Tudo foi surpreendente e surreal. A cena do Quartel General, por exemplo, ainda hoje é, para mim, inacreditável. Ainda oiço Melo Egídio a dizer que a situação era caótica, pedindo a todos os comandantes de unidade presentes para, um a um, fazerem o ponto da situação. fui ouvindo, espantado, coisas no género:
Unidade A -- podemos contar com os oficiais,mas não com as praças;
Unidade B -- podemos contar com as praças, mas não com os oficiais;
Marinho Falcão, da PSP -- com a polícia não contem. Não chegamos para as situações de emergência. Andamos a correr de um lado para o outro;
Polícia Militar -- os meus homens estão prontos para proteger edifícios, mas actuar contra a população, não. Somos moçambicanos na maioria e não podemos entrar nesse jogo".
Perante o que viu e ouviu, o hoje major-general Ribeiro Cardoso ficou com a sensação " de que não tínhamos em Lourenço Marques Forças Armadas capazes". Nesse contexto, pediu a palavra:         " A minha unidade está comandada e faz o que for necessário. Contudo, devo esclarecer que não temos armas nem pessoal -- temos apenas cerca de vinte elementos da Polícia Aérea e alguns mecânico, sargentos de manutenção e pilotos. Mas a minha unidade vai para onde eu for".

 O cristal e as antenas na Matola

Proveniente de Nampula, o então capitão Gardete, hoje coronel na reserva, cuja especialidade era Transmissões, tinha chegado na véspera, dia 6, ao quartel de Boane, nos arredores da capital, com a missão de instalar uma rede rádio a partir daquele local. Não imaginava o que iria acontecer no dia seguinte.
Interior do Quartel de Boane
Assim, no dia 7 à tarde, ao aperceber-se da ocupação do RCM.dirigiu-se imediato ao QG, onde acabou por ficar de prevenção rigorosa durante 15 dias. Em finais de 2012, sabendo-o em Lisboa, telefonei-lhe e. à volta de um café, recordámos esses momentos que em parte vivemos em conjunto.
" Esse foi um período verdadeiramente agitado, com uma situação político--militar muito volátil e até confusa, como certamente o meu amigo recordará"--  começou o coronel. " Tempo para nunca mais esquecer, esse. Ninguém estava à espera de uma coisa daquelas, o coronel Melo Egídio quis analisar ao pormenor a situação existente e o modo como a solucionar e acabaram por ficar de pé duas hipóteses: ocupar rapidamente o RCM, embora no sul não houvesse grandes forças de combate; ou arranjar outro emissor que granelasse as emissões do RCM . Foi também posta a hipótese de deitar abaixo um poste de alta tensão que alimentava um transformador que distribuía a energia para a zona onde estava situada aquela estação de rádio. Porém, como não sabíamos as consequências, visto que não conhecíamos o sistema (tentámos ainda contactar alguém da EDP local que pudesse dar as informações necessárias, o  que não se conseguiu) abandonámos tal hipótese. Na sequência dessa discussão, alguém lembrou que no Liceu Salazar tinha existido uma rádio estudantil, que emitia para a região de Lourenço Marques. Então vários militares, entre os quais estava eu mas também o meu amigo -- ainda não se esqueceu, pois não? -- tomaram a iniciativa de ir ao liceu procurar o cristal dessa rádio estudantil, o qual seria fundamental para pormos no ar um outro emissor pequeno que estava já a ser montado numa torre do Regimento de Intendência..."
"Lembro-me perfeitamente" -- respondi de imediato. " Até fardámos à pressa um civil chamado Eurico, que era especialista nessa área, para ajudar a descobrir o tal cristal. O guarda do liceu, que ficou paralisado quando viu aquela meia-dúzia  de homens fardados que lhe apareceram de surpresa, sem resmungar mas com cara de poucos amigos lá nos abriu as portas necessárias para chegarmos ao emissor que já não funcionava...E quanto ao cristal, nem o cheiro... A operação abortou, ponto final."
No QG , onde regressámos pouco depois, era quase noite quando foi decidido organizar uma pequena coluna militar para ir à Matola com a finalidade de neutralizar as antenas do RCM que, agora pela voz do autodesignado locutor Manuel, continuavam a anunciar repetidamente uma imaginada adesão generalizada das populações de Moçambique ao chamado MML -- Movimento de Moçambique Livre.
O capitão Gardete dizia que bastava cortar o cabo que alimentava as antenas, acrescentando que para as silenciar não era preciso deitá-las abaixo -- e lá se organizou uma coluna com meia dúzia de viaturas militares de transporte cheia de soldados negros com capacetes de aço e armados de G3. Chefiada por um capitão cujo nome não recordo, e integrando dois ou três oficiais, entre os quais o capitão Gardete e eu próprio que nunca me vira em tais preparos e apertos, lá chegámos à Matola, onde tínhamos à nossa espera centenas de brancos armados de caçadeiras, algumas de canos cerrados, apontados na nossa direcção.
O comandante da nossa coluna falou com o chefe da multidão de brancos que diziam que estavam a defender as antenas e que não obedeciam a nenhum militar. Assim, ala que se faz tarde, regressámos com o rabo entre as pernas ao  QG, como teria acontecido numa digna guerra de Solnado.
A explicação foi a de sempre: não fazer correr sangue. Para além, claro, de entre nós não haver um único atirador ou especialista em combate...


Elementos da 7ª CCMDS de Moçambique
Só que, como isso não satisfazia a minha curiosidade, continuava a perguntar a mim próprio ae a outros camaradas fardados: por onde andariam, por exemplo, do membros da Companhia da Polícia Militar existentes em Lourenço Marques? E o destacamento de fuzileiros que também na cidade se encontrava? E a 7ª Companhia de Comandos, ali estacionada? Que missões lhes haviam sido atribuídas?
Mistério...
Regressado de novo ao QG, vivi outro momento inolvidável que, de forma clara, me fez perceber onde eu estava metido: o major Maia (hoje general reformado a viver no Porto), reuniu alguns oficiais subalternos, uma mão cheia de furrieis e uma quantidade razoável de praças, quase todos negros, e mandou distribuir G3 e capacetes de aço. Fez-nos a seguir uma espécie de prelecção em voz alta, assim no género:
" A situação que estamos a viver é grave. Os civis que assaltaram o Rádio Clube de Moçambique estão agora a utilizar os seus microfones tentando aliciar militares e a população branca para a sua causa -- que é fazer abortar os Acordos de Lusaka. Estão de cabeça perdida. Neste momento, tudo leva a crer, têm a intenção de assaltar igualmente o Quartel General, na convicção se o fizerem conseguirão um tremendo golpe publicitário a nível mundial. Estão a ver, naquele último prédio, um dos mais altos, como lá estão duas metralhadoras apontadas na direcção deste QG? Vamos ter o máximo cuidado com esta situação, preparando-nos o melhor possível com os parcos meios de que dispomos. Durante toda a noite haverá uma ronda permanente no exterior e na parte de dentro do QG estaremos igualmente vigilantes. Os pormenores ser-vos-ao comunicados a seguir"
Não ouvi qualquer referência a uma acção militar para eliminar o perigo daquela e outras armas nas mãos dos civis. Só vi um incompreensível e triste jogo de defesa mal--amanhada.
Felizmente, nada aconteceu -- embora muitos de nós não tivessem pregado olho... Pessoalmente, apesar do incómodo capacete que também trazia na cabeça, ainda tentei falar telefonicamente com o Diário de Lisboa e até com alguns camaradas de outros jornais de quem tinha o contacto e que imaginava a dormir calmamente em casa, mas os CTT já há horas estavam nas mãos dos "rebeldes" e não foi possível ligar para Lisboa -- ou porque as linhas estavam sobrecarregadas, ou porque era difícil fazer chamadas para Portugal a partir do QG de Lourenço Marques.




A bagunça total

Durante a noite de 7 para 8 de Setembro, nas ruas de Lourenço Marques e na rádio não houve sossego. O movimento de carros e motociclos festejando a "vitória" e o RCM ocupado, "defendido" no exterior por um escudo protector de largas centenas de pessoas, entre as quais muitas mulheres e crianças, que não arredavam pé, continuou sem parar a sua propaganda, anunciando adesões ao "Movimento Libertador", revelando o nome de civis e militares que já tinham chegado à Casa da Rádio, anunciando outros que estariam a chegar, uns no activo, outros já na peluda. E quem os ouvia, e muitos milhares foram, uns em Moçambique, outros em diversos países africanos, até acreditava que tal Movimento estava triunfante por todo o lado e que vários tinham sido que de norte a sul de Moçambique haviam aderido à "revolução" -- bem como numerosas unidades militares. O que era redonda mentira, pois de norte a sul da colónia os militares cortaram cerce as veleidades dos brancos extremistas, não lhes dando hipóteses de tomar os emissores regionais do RCM e pondo-os na ordem sempre que necessário. Foi o que se passou, nomeadamente em Nampula e na Beira.
Mas a propaganda desvairada e irrealista a partir da sede do RCM em Lourenço Marques continuava sem parar e sem que ninguém a parasse. Era uma "festa", com direito a linguagemcifrada noite dentro: " Atenção Montepuez, atenção Montepuez, Mocho chama Bravo, Mocho chama Bravo. Pede-se a Bravo que se junte a nós, esperamos por si em Lourenço Marques." E depois de mais uma vez lançar para o ar o Hino Nacional, o locutor de serviço -- o Manuel, pois claro, que esteve quase três dias ao microfone com a energia e know how de quem está vender automóveis em segunda mão -- lá voltava à carga: " Atenção sr, comandante da 7ª companhia de Comandos, agradecemos a fineza de contactar com Mocho. Esperamos o seu contacto. O nosso obrigado."
( Um pequeno parêntesis/explicação: a 7ª Companhia de Comandos era de recrutamento provincial, o que queria dizer que os seus membros eram fundamentalmente moçambicanos brancos ou negros. A 7 de Setembro já estava em Lourenço Marques, instalada no quartel da Companhia de Caçadores, como me confirmou de viva voz Fernando Margarido que a integrava.
Já o Bravo, que o Mocho não se cansava de chamar via Rádio, era o major Belchior, um transmontano que na altura comandava o Batalhão de Comandos, que englobava várias companhias, a maior parte das quais de recrutamento nacional.
Mocho, por sua vez, era o nome de código do ex- capitão Comando Gonçalo Fevereiro, que em Moçambique tinha feito duas comissões e entretanto passara à vida civil, chefiando uma delegação de um banco em Lourenço Marques.)

O cap. Abrantes dos Santos a receber em Montepuez do
general Kaúlza Arriaga o guião da 7ªCCMDS Moçambique
Continuando a citar o RCM depois de assaltado e tomado pelos chamados rebeldes: mais musica, mais chamamentos para João Belo, Tete, Vila Pery, Nampula, Porto Amélia e muitas outras localidades dando indicações do local e hora onde as populações deviam concentrar-se. Até que chegou a vez de vir ao microfone o célebre Daniel Roxo: " Atenção Niassa, atenção Reserva de Intervenção e GEs, é o vosso comandante Roxo que vos fala daqui de Lourenço Marques. Estejam a postos como sempre, prontos para actuar se necessário, muita calma e nada de distúrbios. Repito, é o vosso comandante Roxo que vos fala, prontos para actuar se necessário, mas calma, muita calma."
A partir de certa altura o locutor Manuel começou a referir que o Presidente da República, General Spínola, iria falar ao país, anunciando que o RCM transmitiria em directo, pedindo a todos os ouvintes para escutarem com muita atenção o que sua Excelêcia ia dizer. Pouco depois, aconselhou os homens e mulheres que, qual escudo humano, se mantiveram à volta do RCM, para irem para casa ouvirem Spínola. O que logo a seguir -- tal era o desnorte dos ocupantes da rádio --foi desmentido pelo mesmo microfone, pois deixar a multidão sair dali nem pensar, a mensagem transmitida não reflectia o pensamento do  directório, a ordem era para não arredar pé e ouvir ali mesmo o que o Presidente da República ia dizer -- e afinal não disse, pois Spínola não discursou.
E mais hino, mais canções do reviralho, mais apelos, mais anúncios de adesão por todo o Moçambique, a "revolução" ia de vento em popa, continuava a vir gente da África do Sul, mais apelos, bla,bla,bla que só terminaria dois dias depois,no dia 10, após muita tragédia, muita violência e centenas ou milhares de mortos e feridos. 
Pense-se um pouco nalguns nomes desses "dirigentes": Gonçalo Mesquitela -- era só naquela altura, o nº 1, em Moçambique, da ANP, o partido único do fascimo-salazarismo; sua esposa D. Clotilde Mesquitela -- ex-presidente do Movimento Nacional Feminino de Moçambique; Velez Grilo, um ex. dirigente nacional do PCP, que depois de expulso daquele partido foi para Moçambique,onde trabalhava na Câmara Municipal de Lourenço Marques; Manuel Gomes dos Santos, vendedor de carros em segunda mão e homem de extrema-direita; Joana Simeão mulher negra com comprovadas ligações à PIDE, Daniel Roxo, transmontano de Mogadouro que foi para Moçambique em 1951. Com a guerra colonial e passou a combater a FRELIMO, tornando-se um lendário comandante antiguerrilha. Embora não sendo militar recebeu duas Cruzes de Guerra. 
Entre muitos outros nomes, este era o tipo de gente que queria rejeitar os Acordos de Lusaka, muito preocupada com a democracia. Gente que, incentivada por Spínola e apoiada com dinheiro de grandes industriais e comerciantes receosos de perder os seus privilégios, e ainda com o apoio, mais prometido que  real, dos serviços secretos dos dois países do apartheid, andavam a formar partidos à pressa para, em igualdade de condições, em imaginadas eleições e referendos, concorrer -- que ideia mais idiota -- com aqueles que, sofrendo milhares de mortos e feridos em combate pelos seus ideais, andavam há dez anos de armas na mão lutando contra a situação colonial e pela conquista da independência do seu país


COLONOS

Desde que chegaram
ficou sem repouso a baioneta
ficou sem descuido a palmatória
e os chicotes tornaram-se
atentos e sem desleixo (...)

Trouxeram-nos a luta
sem trégua
e da carne do vencido,
durante séculos, fizeram silêncio e cinza (...)

Guerreiros antigos
desceram da residência da águias
e com os pés despidos,
untaram as terras de chamas
para que de esperança e coragem
fosse temperado o tempo por vir
Nos idiomas vários
enrolámos sílabas submersas
Clandestinos rios turbulentos
enroscaram-se nos lagos adormecidos.
Colocámos o sonho no arco Embora 
e dele fizemos flecha certeira
e transportámos-nos no vento
como se fôssemos a semente derradeira
Para sermos homens
desocupamos o silêncio
e com um firmamento de esperança
cobrimos o rosto ferido da nossa Pátria.

Mia Couto, Raíz de Orvalho, 1999

Gonçalo Fevereiro, descrição arrepiante

Já na parte final do 7 de Setembro de 1974, conheci em Lourenço Marques o então major Belchior, comandante do Batalhão de Comandos em Montepuez, que acabara de chegar à capital política de Moçambique numa missão que adiante relatarei com pormenor.
Quis o acaso que estando eu no QG, acabasse por o acompanhar de helicóptero a vários pontos dos arrebaldes da cidade grande, onde havia muita população negra aí concentrada. "Venha daí" ordenou-me ele com a maior naturalidade quando o aparelho aterrou pela primeira vez. Saímos, desarmados, e ele dirigiu-se à população, por vezes com a ajuda de um intérprete -- a todos explicou que a violência acabara, que a tropa portuguesa era agora dominava a situação e os defenderia, e que ainda durante a manhã , naquele local, iam aparecer camions com alimentos e outros produtos para distribuir (as cantinas estavam há dias fechadas ou destruídas e nos subúrbios da cidade havia fome).
O helicóptero subiu e desceu várias vezes, sempre com a mesma cena: toda a gente a dizer adeus. Embora ninguém mo tivesse dito, pressentia-se que havia pessoal organizado a trabalhar no terreno com a população. E durante mais uns dias em que continuei no QG, fui contactando com o hoje coronel Belchior, cujas qualidades humanas, naquelas circunstâncias, me impressionaram vivamente.~
Voltei a encontrá-lo em 2012, trinta e oito anos depois....primeiro em Lisboa depois no Porto, durante largo tempo falei com este homem que é como a Nau Catrineta: tem muito que contar, embora eu suspeite que ele só conta o que quer, guardando para si muita coisa que não pode, ou acha que não deve contar.
O mais curioso, contudo -- e aqui queria chegar antes de falar na sua participação no 7 de Setembro -- é que Belchior, ao saber o tema do meu trabalho, disse-me de imediato: "Tem que falar com o Gonçalo Fevereiro. Ele esteve no RCM logo no primeiro dia e sabe o que ali se passou. Vou arranjar-lhe um encontro com ele..."
Homem simples e divertido, de estatura mediana e só aparentemente frágil, Gonçalo Fevereiro contou-me boa parte da sua vida aventurosa e a sua participação no 7 de Setembro, que agora considera "uma coisa sem pés nem cabeça". Admitiu mesmo que fou uma espécie de "hara kiri" dos brancos em Moçambique.


Gonçalo Fevereiro, Alf. Milº Comando da  4ª CCMDS
 de Lamego a ser condecorado com a Cruz de Guera
Sentados à mesma mesa, ficámos a conversar longas horas.
" Antes de lhe falar no 7 de Setembro deixe-me que fale dos antecedentes. Verá que é importante" -- disse, antes de continuar:
"Ainda andava eu -- e  todos nós -- a digerir o 25 de Abril quando começou a aparecer em Moçambique uma catrefada de partidos e de grupos de pessoas assumindo publicamente posições e apresentando programas. Todos eles com pessoas conhecidas à cabeça. Uns de esquerda outros de direita e até extrema-direita. Uns independentista ou por aí, outros contra. Mais manifs, menos manifs. Fui contactando por um ou dois desses grupos, mas pus-me sempre de fora. Ninguém fazia ideia, ou tinha sequer uma noção mínima da realidade, do que estava acontecer, do que se iria passar. Costa Gomes lá ia dizendo umas coisas que davam alguma garantia de que os nossos direitos iam ser salvaguardados, ia-nos acalmando nos nossos maiores receios.
E assim iam as coisas quando, aí por Julho, fui abordado por um grande amigo, cujo nome se me permite e espero que compreenda, não revelo, que me veio dizer que se estava a organizar um movimento, com negros incluídos, para se dar uma resposta política ao que se estava a passar. Política mas também com alguma força, coisa que não percebi muito bem mas tinha um significado. Foi tudo muito genérico, muito por alto, mas que era preciso estar preparado para dar uma resposta se fosse necessário. E perguntou-me qual seria a minha disponibilidade, pois precisavam de homens como eu, com conhecimentos e contactos militares. sendo que convém sublinhar que essa pessoa amiga era um nome muito importante em Moçambique e sobretudo em Lourenço Marques, o que dava a ideia de que algo com muito peso estava a mexer. À posteriori vê-se que provavelmente fui contactado, cerca de dois meses antes, para o 7 de Setembro. Isto é, a meu ver: andava-se já naquela altura a preparar, com tempo, qualquer coisa, mas confesso que nunca soube nada de concreto. Mesmo assim também devo dizer que por esses dias falei com meia dúzia de ex-militares meus amigos e ficámos na expectativa.
Ora, o tempo foi passando, ouvia-se muita coisa, havia muito burburinho, mas a verdade é que a 7 de Setembro estava eu na piscina do Hotel Polana, onde passei o dia, e ao fim da tarde, enquanto no bar bebia uma cerveja fui completamente surpreendido quando comecei a ouvir "Aqui Rádio Moçambique Livre", e coisas dessas. O barman também estava estupefacto. E eu ainda fiquei mais embasbacado quando comecei a ouvir os apelos à companhias de Comandos em Montepuez. E davam nomes: chamavam este, chamavam aquele, tudo gente conhecida. Pensei cá para os meus botões: será que isto tem alguma coisa a ver com a conversa de há dois meses? E fiquei numa dúvida incrivel. Que fazer? Como saber? Após uns minutos concluí: sá há uma maneira de saber --ir ao RCM. Dirigi-me para lá, entrei, aquilo era uma bagunça incrível, levaram-me até ao locutor Manuel, que eu conhecia mas não era pessoa da minha intimidade, e ele ao fim de uma breve troca de palavras, avançou:
"Como és um militar experiente e conhecido ficas responsável pela parte militar"
Eu olhei para o lado, para trás e para a frente e perguntei: "Parte militar?"
E ele respondeu: "Claro. Tudo o que for militar é contigo"
"Mas onde estão os militares? Quem são?
" Estão por aí. Ou estão a chegar"
"E armamento, onde há? -- Continuei a perguntar
"Armamento? Por enquanto não temos. a não ser algumas armas que a OPVDC está a distribuir. Mas virá mais armamento"
"Quando? Quem o traz? Que tipo de armamento? A quem se distribui? -- continuei a indagar
"Isso já não é comigo. Tu é que és o responsável por essa área. Organiza a coisa"
Gonçalo Fevereiro ao contar este episódio. "Ninguém tinha pensado em nada, não havia organização, ocuparam o Rádio Clube de Moçambique, começaram a falar ao microfone e só aos poucos é que se foi tentando dar um mínimo de organização ao movimento, ou lá o que era aquilo"
Depois tomou um ar muito sério:
"Olhe, continuou a aparecer muita gente, aquilo era uma bagunça total, não havia segurança, só havia uma malta à porta para tomar nota de que entrava, já se estava nisso há umas horas, era só desenrascanço, e achei que devia ajudar a arrumar a casa. Comecei por perguntar se já tinham ocupado o aeroporto, nomeadamente a torre de controlo, ainda não, então arranjei uma malta que foi logo para lá. Depois perguntei se já controlávamos os CTT, que funcionavam no prédio contíguo, também ninguém se tinha lembrado disso, tivemos que enviar para lá gente o que viria a ser, como era óbvio, de uma grande utilidade. Mas aí a meio da noite, já de madrugada, comecei a ver o pessoal mais sonante a ir para casa dormir um bocado, assim no género de uma revolução com horário de entrada e saída, e torci o nariz. E perante o exemplo também fui até casa para retemperar forças. Mas como ninguém conhecia ao certo o nosso peso real, o nosso grau de organização, nem sequer desconfiando que nada estava preparado, que não tínhamos um plano de operações, nem apoios concretizados, nada, zero, só microfone aberto a chamar gente que desorganizadamente ia aparecendo cheia de vontade mas sem saber exactamente ao que ia, a coisa continuou a crescer. Durante mais de 24 horas escutámos todos os telefonemas de Lisboa com o Governo provisório de Moçambique, e ficámos a saber que eles, Costa Gomes incluído, estavam à rasca, pois não sabiam que forças estavam do nosso lado, que armamento tínhamos, quantos homens, que apoios, etc., etc. O general Spínola que era o Presidente da República, também mandou dois militares de alta patente para falar connosco, isso para nós foi um sinal de que tínhamos peso, a onda de apoios presenciais e verbais era de tal monta que houve ali um momento em que começámos a acreditar que podia ser possível negociar outra solução em Lisboa, diferente de Lusaka. Mas foi sol de pouca dura. Entretanto comecei a lançar apelos personalizados para Montepuez, eu era o Mocho, o major Belchior, que comandava o batalhão de Comandos e de quem eu fui subordinado e ao qual ainda me liga uma forte amizade, era o Bravo. Mocho e Bravo, nomes de código. Queríamos que os Comandos se juntassem a nós em nome de Portugal. Se isso acontecesse, acreditávamos, os Acordos de Lusaka seriam para esquecer. Estávamos longe da realidade"
"Mas o major Belchior apareceu no RCM ..." interrompi.
" Pois apareceu, respondeu inteligentemente à chamada, veio sozinho, deixou duas companhias de Comandos na Beira pois não queria que corresse sangue entre os portugueses, e procurou-me logo. Estivemos reunidos com os nomes mais sonantes dos "políticos" do grupo e com  representantes das Forças Armadas -- mas o major Belchior deixou claro que aquilo não tinha pernas para andar, que o melhor era abandonarmos pacificamente o RCM , havia garantias que durante 24 horas ninguém seria preso para podermos sair de Moçambique, essas coisa. Mas ninguém cedeu e cada um ficou na sua"
" Mas dois dias mais tarde, quando os negros se levantaram nos subúrbios e se aproximara da cidade do cimento, vocês saíram, depois daquele homem da FRELIMO ter ido aos microfones anunciar: "GALO AMANHECEU" Quem era esse homem? sabe? 
Não sei e acho que esse homem só foi aos microfones depois de nós termos saído. Mas não garanto, pois a bagunça era tanta que apesar de ter pomposamente a parte militar e a segurança a meu cargo, ali dentro tudo era possível, O amadorismo de quem estava de quem estava a fazer segurança às entradas e saídas era de tal monta que ainda hoje, quando falo disso, nem eu próprio acredito que tenha sido possível, que tenha acontecido mesmo. Só me lembro de que a certa altura todos nós já tínhamos concluído que não havia saída -- a não ser a da porta e o mais depressa possível. Aliás, quando reparei, já quase toda a gente importante tinha desaparecido, tendo eu ficado a queimar papéis com nomes e acções que tinham ficado abandonados por ali. Só depois é que dei o salto, indo dormir a sítio seguro e preparando a minha fuga para a África do Sul.


O cerco à Nave dos Loucos

A resposta ao 7 de Setembro, embora com lentidão e graves contradições e hesitações, começou de imediato a gizar-se em simultâneo em Lusaka, em Lisboa e em Nampula/Lourenço Marques. Nalguns casos nos bastidores, sem ser anunciada.
A Mesa das negociações dos Acordos de Lusaka
Centremo-nos agora no que se passou na capital da Zâmbia, mal Samora soube do que se passou no RCM em Lourenço Marques tinha sido tomado por "rebeldes". E onde há um militar português, recentemente falecido, que teve um papel de grande dignidade e importância. Refiro-me ao tenente-coronel Nuno Lousada que, por decisão do então coronel Sousa Menezes, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Moçambique, integrou à última hora a comitiva portuguesa que assinou os Acordos de Lusaka. Voou a 5 de Setembro num Cessna alugado de urgência, partindo de Nampula às 5 da madrugada para chegar a tempo ao início das conversações que nessa manhã arrancariam no Palácio do Governo zambiano.

A missão de Nuno Lousada era só uma: convencer os outros membros da delegação portuguesa, que poderiam eventualmente não conhecer ao pormenor a situação militar existente em Moçambique, da necessidade absoluta de um cessar-fogo imediato, sendo indispensável, " mesmo que houvesse que ceder no campo político" o estabelecimento de um mínimo de 9 a 12 meses para a retirada da tropa portuguesa da colónia do Índico.
A missão foi cumprida com pleno êxito. Mas Lousada não podia imaginar o que estava para lhe cair em cima.
Mal o acordo foi assinado, toda a delegação portuguesa regressou a Lisboa -- e apenas Lousada permaneceu em Lusaka para participar na recepção que o Presidente Kaunda ofereceria ao fim da tarde..
Mas as coisas são o que são e, ainda antes da recepção, a equipa do RCM, que tinha ido a Lusaka fazer a cobertura das conversações, acabara de preparar mais um trabalho e ia enviá-lo para Lourenço Marques a partir da Rádio Zâmbia.
"Como era normal quem telefonou para o RCM foi o António Alves da Fonseca, que era o nosso técnico" disse-nos agora, Eduardo Rebelo, chefe dos Serviços Redactoriais que integrara a equipa do RCM que a Comissão Militar que administrava a Casa da Rádio enviara à capital da Zâmbia.


Os jornalistas moçambicanos presentes no Acordo de Lusaka
Só que a surpresa não podia ser maior: do outro lado da linha, quem atendeu foi Eduardo Pereira, que no momento era o chefe de turno dos serviços técnicos e ... pôs-se a falar baixinho, em segredo, dizendo que o RCM tinha sido assaltado e tomado, sintonizando a emissão para os enviados especiais ouvirem e perceberem o que estava a acontecer. 
" Espantados, lá ficámos por momentos a ouvir o locutor Manuel. Ligámos de imediato para o Palácio do Governo zambiano onde ia decorrer a recepção, pedimos para falar com o Óscar Monteiro, alto dirigente da FRELIMO, pusemo-lo ao corrente da situação e ele só disse venham já para cá" -- contou ainda Rebelo.
 A recepção presidencial já tinha começado. E sobre o que lá se passou,o  Engº Monteiro da Silva amigo de Nuno Lousada e com ele conversou a propósito, publicou em 2008 no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Em síntese, segundo Monteiro da Silva, Lousada estava naquela recepção quando um mensageiro de Samora Machel, com um cartaz, o veio chamar dizendo que o Presidente da FRELIMO queria Vê-lo de imdiato, facto que o surpreendeu.
Nuno Lousada foi então ter com Samora Machel a uma sala onde o presidente da FRELIMO estava acompanhado de sua mulher Graça Machel e dos generais Sebastião Mabote (Chefe do Estado-Maior), Alberto Joaquim Chipande (futuro ministro da Defesa), Armando Panguene (futuro primeiro embaixador de Moçambique em Lisboa) e outros elementos da FRELIMO, entre os quais, sublinho, Óscar Monteiro e Aquino de Bragança, homem que desempenhou um papel fundamental nas ligações de membros do Governo de Lisboa e de militares do MFA com a FRELIMO
 Samora acusando o Ten-Cor. Nuno Lousada de traidor

Quando Nuno Lousada entra na sala, é recebido por Samora Machel com gritos de "Traição! Traição!, logo de seguida "Traíram-nos" 
Surpreendido, perguntei qual era a "traição" e Samora Machel -- escreve o Engº Silva -- "por seu lado confuso pelo desconhecimento de Lousada, disse-lhe para ouvir o que estava a transmitir o RCM".
Foi então que Nuno Lousada tomou conhecimento da amotinação de parte significativa da população branca de Lourenço Marques.
Nuno Lousada esforçou-se então para convencer Samora Machel não só do seu desconhecimento do que se passava na capital moçambicana mas também da sua certeza que o Quartel-General de Nampula nada tinha a ver com o assunto.
"Deu mesmo a sua palavra de honra de que não havia qualquer golpe português contra o acordo que acabara de ser assinado em Lusaka" -- Garante Monteiro da Silva, que acrescenta ainda:
(...) Mas as notícias do RCM eram tão afirmativas do bom e extensivo levantamento que Samora Machel diz para Lousada que ia dar ordens para as forças da FRELIMO atacarem todas as posições portuguesas em Moçambique -- e voltando-se para Mabote deu-lhe instruções nesse sentido. Aqui, Lousada (o próprio também ainda hoje não sabe de onde lhe veio a força para o fazer) disse com toda a veemência para Samora, "Não faça isso" e este pergunta-lhe "Então o que faço", ao que Nuno Lousada respondeu: "Faz o que fôr melhor para o povo moçambicano e para o povo português" e Samora Machel volta-se para Mabote e suspende a ordem para atacar as posições portuguesas. Em seguida, Lousada convence Samora a falar directamente com Spínola, em Lisboa, e arranja-lhe o contacto telefónico
Clika aqui para leres a crónica: Rui Vergueiro, Alf. Milº no pós 25 de Abril no Niassa
Segue-se a descrição do Engº Monteiro da Silva da conversa telefónica Lusaka--Lisboa:
"Da parte da FRELIMO é dito que o general Spínola afirmou a Samora Machel desconhecer o que se passava em Lourenço Marques.
Samora terá retorquido, indignado, que Spínola tinha estado no Buçaco, dias antes, com pessoas responsáveis pelo golpe de Lourenço Marques e, contra o protesto de Spínola, grita-lhe ao telefone o "Presidente de Portugal mente"
De facto, o Presidente Spínola tinha acolhido no Buçaco elementos afectos ao FICO que se deslocaram a Lisboa e para ali foram numa viatura cedida pela Presidência da República -- e por coincidência curiosa, cruzaram-se à saída com os ministros Melo Antunes, Mário Soarese Almeida Santos, que também tinham lá ido.
Spínola terá respondido que não admitia tal grosseria e desliga a chamada. O aparelho telefónico desta troca de palavras foi depois oferecido pelo Presidente Kaunda para o Museu da FRELIMO, em Maputo, por ter sido aquela troca de palavras considerada um acontecimento histórico"
Monteiro da Silva escreve que Nuno Lousada lhe confessou a sua aflição naquele momento, "e propôs de novo que Samora falasse para Lisboa"
Aqui entra o CEMGFA Costa Gomes (ou, segundo outra versão, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves), e ficou combinado que Nuno Lousada regressaria de imediato a Nampula juntamente com uma representação da FRELIMO, nomeadamente os generais Alberto Joaquim Chipande, Sebastião Mabote e Armando Punguene, para negociar, no terreno, a implantação do acordo para o cessar-fogo a entrar em vigor às zero horas de 8 de Setembro de 1974. O que aconteceu, começando também nessa altura a gizar-se a resposta dos colonos brancos. No dia 8 Alberto Joaquim Chipande já estava em Lourenço Marques Num programa da RTP2 emitido em 2001, Chipande disse de viva voz:
"Quando cheguei disse que queria falar com o encarregado do Governo. Na altura era um caboverdiano que esta lá, não me lembro do nome, veio ter comigo e disse que não tinha poderes para decidir. Então reuniu com oficiais militares portugueses. Eu disse: têm que encontrar solução. "Nós não temos poderes. O que podemos fazer, como você é dirigente da FRELIMO, é disponibilizar alguns elementos simpatizantes da FRELIMO para falar com eles, para verem o que podem fazer. Eu disse: está bem. Disponibilizem lá. O Amaral Matos veio ter comigo.(Clika aqui para leres o livro de Aurélio Le Bon: MAFALALA. Memórias do 7 de Setembro) 
A partir daí a FRELIMO passou a actuar em Lourenço Marques já não em clandestinidade total, organizando os seus militantes e mantendo o contacto com personalidades da cúpula político-militar portuguesa.

A última acção da CHERET

Entretanto, em 2012 surgiu um livro intitulado História da CHERET, do tenente-coronel António Eduardo de Carvalho Lopes, que apresenta uma nova versão sobre a ordem que Samora deu à FRELIMO para atacar os quartéis portugueses na sequência do 7 de Setembro.(Clika aqui para leres a crónica: 8 de Setembro de 1974. A acção da CHERET em Nampula, evitou uma catástrofe)


Os homens da CHERET em Nampula
Ao centro o Ex. Cap. Melo Carvalho. A ladeá-lo
os ex. 1º Cbo Pedro silva e Victor Ferreira
Tal livro dedica todo o último capítulo a uma acção fantástica, mas quase desconhecida: a intrusão, na rede de Transmissões da FRELIMO, do Serviço de Reconhecimento das Transmissões (que no exército português ficou conhecido por CHERET), que em cima da hora consiguiria levar a FRELIMO a anular a decisão de Samora.
Aeroporto

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio. 
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon 
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe que não

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscreta,
preservando apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

Só me importa esquecer, esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso do cimo da palmeira esquiva,
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.

Rui Knopfli, O Monhé das Cobras, 2005

O "Bravo" em acção

Voltando agora ao major Belchior, hoje coronel; a sua intervenção no caso do RCM tem que se lhe diga.
No primeiro encontro que tive com ele no âmbito deste trabalho foi com visível prazer que me começou a contar:

"No de Setembro estava em Montepuez e, como toda a gente, estava colado ao rádio. E para meu espanto, comecei a ouvir o "Mocho", que era o Gonçalo Fevereiro, um excelente Comando que tinha sido meu subordinado , a chamar-me pelo meu nome de código, "Bravo". Queria que eu aderisse e fosse por ali abaixo juntar-me a eles, levando o pessoal todo... Eles não sabiam, ou não quiseram saber, que eu não podia ir por aí abaixo com os meus homens... Uma loucura"

Belchior riu-se, coçou levemente a cabeça e desbobinou: no dia seguinte, 8 de Setembro, recebeu instruções de Nampula para preparar rapidamente duas companhias de Comandos e avançar para Lourenço Marques (LM) para tomar o  RCM. Foi ainda informado que iam chegar a Montepuez quatro aviões NordAtlas para transportar as duas companhias, ele não tinha alternativa, mas pediu para não voar directamente para LM, parando em Nampula para falar com o coronel Sousa Menezes, chefe   do Estado-Maior do Exército. e com o comandante-chefe general Orlando Barbosa.




Assim aconteceu e Belchior explicou em Nampula que tinha uns zun-zuns quanto o que esperava dos Comandos quando aterrassem em LM: ex-Comandos e as famílias dos muitos dos actuais Comandos iriam tentar envolver os seus homens logo no aeroporto, convencendo-os a não desocupar o RCM. Além disso, ele, Belchior, não podia ordenar aos seus subordinados que atirassem ou usassem violência sobre civis.
"Qual a alternativa" -- perguntaram Meneses e Barbosa. Belchior explicou: as duas companhias ficariam na Beira  e ele seguiria, sozinho, para LM onde estudaria a situação e falaria com os revoltosos. Além disso o general comandante-chefe deveria chegar a LM pouco depois dele, pois se fosse necessário tomar alguma decisão séria e violenta ela teria de  ser ordenada pelo nº1 e não por ele, Belchior.
A proposta foi aceite, voaram para a Beira onde instalou as duas companhias e de imediato, num táxi-aéreo seguiu sozinho para LM , onde se desfardou na messe de oficiais e se dirigiu para o RCM . Entrou sem qualquer dificuldade: "Estava à civil, ninguém me conhecia, aquilo era uma confusão indescritível."
Falei com o Mocho e com o Roxo (outro homem que tinha sido meu subordinado e com quem se dava bem), que ficaram surpreendidíssimos  com a sua presença. Falou muito com eles e com outros conhecidos que ia encontrando, ("havia por ali muitos ex-Comandos e ex-Para-quedistas"), esteve no local cerca de oito horas e verificou pouco a pouco que eles que eles começavam a ter a noção que estavam isolados, que não vinha nenhum apoio nem da África do Sul, nem da Rodésia e muito menos de Portugal. Estavam também cansados e, parecia-lhe, até assustados. Sem horizontes, Aconselhou-os a pôr fim à aventura  e disse-lhes que iria negociar com o comandante-chefe, ficando eles admirados por o saberem estarem algures em LM, e não em Nampula, à espera do resultado desta conversa. Às quatro da matina foi en tão a Sommerschild (bairro chique de LM) encontrar-se com o general Barbosa, obtendo seu acordo para se dar 24 horas aos homens para que, sem perder a face, abandonassem o RCM  saindo para a África do Sul ou Rodésia. "O resto é que foi mais complicado, pois eles tinham divisões internas e não saíram. Tudo aquilo foi uma chatice. Ninguém se entendia. foi preciso ter muita paciência até eles perceberem que não havia saída para a embrulhada que se meteram" -- concluiu.
Nessa altura já estávamos na manhã do dia 9.

Balbúrdia no aeroporto e não só

O aeroporto civil de Lourenço Marques foi tomado pelos "rebeldes" às 05h45 do dia 8 -- mas isso não teria acontecido se os repetidos alertas do director do aeroporto, David Orlando Cohen tivessem sido ouvidos pela PSP e restantes autoridades, nomeadamente as militares. 
Na verdade, o "Relatório das Ocorrências Registadas no Aeroporto Gago Coutinho", redigido por Orlando Cohen em 12 páginas.é de bradar aos céus, mostrando com clareza a passividade a incompetência -- se é que não foi nada de mais complicado -- de quem tinha a obrigação de perceber que um aeroporto civil, ainda por cima colado a uma base militar, deveria obrigatóriamente constituir uma das prioridades na defesa da cidade.
Lê-se no documento, no que toca ao dia 6 de Setembro.

"Em face do que se estava passando na cidade de LM (cortejos ruidosos de automóveis pelas ruas). e prevendo que estes acontecimentos viriam a culminar com actos de maior gravidade, na manhã de sexta-feira, dia 6, o signatário, como director do aeroporto, telefonou para o Comando Geral da Polícia pedindo que fosse mandada uma força para guardar o aeroporto, em virtude dos meios que dispunha, compostos na altura apenas por dois elementos da PSP, um trabalhando de manhã e outro à tarde, por o terceiro se encontrar de licença disciplinar, serem nitidamente insuficientes.
Foi respondido pelo Sr. comandante que iria fazer os possíveis para satisfazer o pedido, o que não aconteceu até às 22 horas, horas do encerramento da estação, segundo o horário vigente do aeroporto.

O director seguiu depois a via-sacra de pedir reforços de segurança a numerosas entidades, sempre sem êxito.
Como os alertas e os pedidos, apesar de continuarem a ser feitos, não obtiveram respostas positivas, "no fim da tarde do dia 7 já foi difícil manter a ordem e disciplina na aerogare, que esteve sempre cheia de manifestantes, perturbando o bom funcionamento dos serviços" -- lê-se no relatório.
Entretanto, e após várias peripécias, aconteceu o que era mais do que previsível: manhã muito cedo, no dia 8, as zonas mais sensíveis do aeroporto civil foram ocupadas por centenas de brancos, muitos dos quais armados. Sem qualquer oposição.
O comandante do AB 8, que "morava" ali mesmo ao lado, foi alertado para o que se estava a passar  -- por trabalhadores do aeroporto e, obviamente, pelo director, que coitado, continuava a telefonar para todo o lado para ver se sensibilizava as autoridades para a necessidade imperiosa de defender o aeroporto.
Pelo que me contou em 2013 o hoje major-general Jorge Ribeiro Cardoso, aquilo foi de truz. Ele próprio, por vezes, sorrindo com sarcasmo ao recordar o drama que na altura viveu, começou a contar:

"Como lhe estava a dizer, entretanto deu-se a ocupação do aeroporto civil, torre de controlo incluída. Fui falar com alguns dos invasores, achei melhor ter calma pois já sabia o que a casa gastava e eu não tinha meios, deixei-os a falar com o director do aeroporto, fui de novo ao quartel-General  e comuniquei: a situação é complicada, só aterram os aviões que eles quiserem. E aproveitei para esclarecer mais uma vez que na Força Aérea éramos pouquíssimos  e a Polícia Aérea tinha umas FBP, que como nós sabíamos eram mais perigosas para nós do que para o inimigo.Acrescentei que eu próprio nem arma pessoal tinha e foi aí que o major Marinho Falcão, da PSP, me emprestou uma arma de bolso. Foi-me igualmente prometido que me enviariam para a Base uma companhia indígena comandada por um oficial que não era daquela unidade, o que na verdade veio a acontecer mais tarde. Aliás, também no dia seguinte a Unidade acabou por ser reforçada com três grupos, cada um com cerca de trinta homens.. Com um porém: só um desses grupos estava decidido a a actuar se fosse necessário, pois os outros dois, segundo os oficiais que os comandavam, não tomariam qualquer posição contra a multidão. Fenómeno parecido ao que já acontecera quando os "revoltosos" foram à Penitenciária libertar os PIDES.
Regressei à Base pela avenida que ia desembocar no portão da frente do aeroporto, depois era só atravessar a pista e ia para a minha Unidade. Mas pelo caminho -- sublinho que estávamos no dia 8 -- já vi vários cadáveres de negros estendidos na estrada e disse logo de mim para mim: "Isto está a complicar-se muito, já se mata de qualquer maneira".

O calvário do director

Voltando agora ao relatório do director do aeroporto, um documento da maior importância para se perceber o que ali se passou naqueles dias.
Lê-se a certa altura:

"O signatário, mantendo-se sempre no aeroporto 
, por diversas vezes evitou que a placa fosse invadida por manifestantes que em grande número se encontravam com bandeiras e cartazes na varanda da aerogare. (...) Diziam estar para chegar dois NordAtlas com Comandos e queriam obstruir a pista de aterragem.
Entretanto aumentava o número de elementos armados que já se encontravam na Torre de Comando vigiando os controladores, junto do PBX, à porta do gabinete do director e junto às escadas de acesso à Torre. 
Vários tentativas de telefonemas para as entidades governamentais foram infrutíferas por não se conseguir contacto.

A noite passou-se com relativa normalidades, continuando os ocupantes brancos nas mesmas posições.  Cerca das 8h30 da manhãs de segunda-feira, dia 9, chegou o avião da TAP com os emissários do presidente Spínola e aí, sabia-se, não haveria problemas porque, como o RCM ocupado não se cansou de divulgar, alta era a expectativa dos amotinados nesta visita.
À tarde, porém. tudo se modificou: voltou o boato de que estariam a chegar vindos da Beira, os famosos NordAtlas com duas companhias de Comandos a bordo,
Foi um pandemónio: milhares de manifestantes voltaram a ocupar o aeroporto exigindo os cabecilhas que as ditas aeronaves não rolassem para as placas do AB 8 (os responsáveis do RCM, que tinham as comunicações sob escuta, deram esta notícia). Já não era uma questão de impedir que aterrassem -- agora a perspectiva a de envolver emotivamente os "irmãos fardados" que iam chegar, levando-os a apoiar o Movimento. Só não sabiam que afinal nenhuns dos NordAtlas estava para chegar, pois tinha havido contra-informação da parte militar ao descobrir que as suas conversas estavam a ser escutadas...
Entretanto, já cerca das 20 horas, lê-se no tal relatório do director do aeroporto, "começa a constar no meio dos manifestantes que um enorme grupo de africanos, aí à volta de cinco mil, estava a organizar-se para invadir e destruir o aeroporto, estando já em marcha nesta direcção" Rematou David Cohen: "Dali a pouco aterraria o avião da DETA, (Companhia Aérea de Moçambique).
Aflito, voltou a telefonar para o comandante da AB 8, "informando-o da situação, e pedindo-lhe encarecidamente que viesse salvar o aeroporto. Ele respondeu que só o faria se os intrusos abandonassem as instalações. Estes, que assistiam ao telefonema, afirmaram que defenderiam o aeroporto e não o abandonariam. O sr. comandante do AB 8 respondeu: "Então que o defendam" Lê-se ainda no documento, onde são de destacar igualmente estes três expressivos parágrafos:

"(...) Tendo entretanto chegado o avião da DETA, passageiros, tripulantes, pessoal do aeroporto e outro que aguardava o avião, entraram em pânico, ao saber da marcha dos africanos em direcção ao aeroporto. Deram-se então  cenas indescritíveis.
Perante isso o signatário ordenou que se abrisse a porta nº 1 a fim de dar passagem às viaturas que se encontravam no parque em grane número, tendo autorizado o seu estacionamento na placa.
E às 21h30 telefonou novamente o  comandante da Base pedindo-lhe que desse abrigo aos passageiros que tinham chegado no avião da DETA, tendo ele respondido que o daria apenas às senhoras e crianças, pelo que o signatário, no meio da maior confusão, providenciou para que uma carrinha da DETA transportasse esses passageiros para o AB 8"
Retomemos agora às declarações que majo-general Jorge Ribeiro Cardoso me prestou no início de 2013:


Aeroporto de Lourenço Marques
"Sim é verdade, nesse dia 9, ao princípio da noite recebi a informação de que um grupo numeroso de negros ia atacar o aeroporto. Para mim foi um sinal de que os negros, que estavam a ser atacados pela rádio e agora também nas ruas dos subúrdios, já começavam a  organizarem-se e a reagir. Um péssimo sinal quanto ao que poderia acontecer. Também é verdade que o director do aeroporto me telefonou nos termos que o sr.refere -- e a minha resposta foi a a que o sr. acaba de citar.
Mas verdade, verdade é que fiquei com o coração a roer-me todo cá dentro. Logo a seguir reuni o meu pessoal e perguntei quem queria defender o aeroporto. Todos quiseram. Todos quiseram
Entrei com os meus homens , a tropa indígena deixei cá fora, demos uns tiros de metralhadora e os brancos pensaram que era tropa especial.Eles ocupavam a torre de controlo e a parte do Despacho e  Movimento. Não se podia tolerar.
Entrámos por ali dentro, cá em baixo estavam uns tipos armados, ordenei ao meu pessoal que os desarmassem, entrámos de seguida na sala de Despacho e Movimento, puxei da pistola e  ordenei "já para ali" -- era uma sala pequena onde os queria fechar --, um deles deita-me a mão à arma , eu num gest instintivo desvio a pistola que dispara atingindo-o, foi levado para o hospital onde esteve internado seis dias, o Drº Branco, médico da Força Aérea , é que acompanhou o processo"
"Morreu?" -- perguntei.
"Não, não morreu."
"E o que lhe aconteceu depois?"
"Nunca mais soube nada dele. Ou melhor, mais tarde disseram-me que tinha regressado e ido para o  Porto. É tudo o que sei dele"
Nem o nome? quem era esse homem?" -- insisti.
"Nome, não recordo. Não sei. ao que me disseram era um médico que estava à espera de um familiar. A mulher, salvo erro. Estranhei, todavia, que se encontrasse no meio dos rebeldes e num local a que não deveria ter acesso e por onde não saem passageiros. Sei também que depois de visto pelo médico militar do AB 8, que o acompanhou sempre, dei ordens para que a ambulância da Unidade o levasse para o hospital, onde esteve internado seis dias, salvo erro. 
Nessa noite, ou melhor já de madrugada e com o aeroporto live de intrusos, os dois enviados de Spínola regressaram a Lisboa, deliberadamente sem terem ido ao RCM mas com uma ideia formada sobre a realidade que se vivia na cidade.
Por outro lado, não se registou qualquer ataque ao aeroporto por parte dos negros, mais interessados em avançar sobre a cidade de cimento -- e pouco a pouco começou a ser descoberta a terrível matança que homens da equipa que havia tomado o RCM, nomeadamente os membros dos Dragões da Morte 1) e os elementos armados da OPVDC, andavam a fazer à socapa na cidade do caniço.
Registo ainda uma afirmação que me fez o ex-comandante do AB 8: "No dia 10 sobrevoei os negros a  avançar para a cidade de cimento. Foi de arrepiar: o que se via era milhares de negros a caminhar por todas as estradas e ruas que levavam à entrada da LM dos brancos. Pareciam multidões de formigas, aos milhares, a avançar em direcção à cidade. Não se via o chão. Assustador. De lá de cima é que se tinha uma ideia de conjunto do que estava prestes a acontecer".

1)  -- Dragões da Morte -- organização clandestina durgida no 7 de Setembro composta fundamentalmente por jovens ex-militares, fundado por alguns filhos - família de brancos, com destaque para os Mesquitela e Cardias. Tinham por fim -- como consta no seu Boletim nº1 -- " pôr termo às guerrilhas (...) e pôr trermo às conversações com a FRELIMO, nem que tenhamos de começar a fazer terrorismo urbano, para fazer calar os inconscientes que dão VIVAS à FRELIMO" Responsáveis em grande parte do morticínio no caniço.

Telexes secretos de Crespo para Lourenço Marques" 

Em Lisboa, as autoridades civis e militares, vieram logo a público condenar veementemente, ainda na noite de 7 para 8, o assalto ao RCM e sua ocupação, começando de imediato a gizar uma resposta adequada em ligação permanente com os comandos das Forças Armadas portuguesas em Moçambique..
Havia, porém, um travão e uma contradição: o Presidente da República, de consciência pouco tranquila, não só não condenou o movimento dos colonos brancos extremistas como foi mais além -- enquanto retinha em Lisboa Victor Crespo, já indigitado mas não nomeado Alto - Comissário, decidiu enviar a Lourenço Marques dois oficiais superiores (Tenente-Coronel Dias de Lima, que chefiava a sua Casa Militar, e o Comandante Duarte Barbosa, também ali colocado) para que estes fizessem o ponto da situação e regressassem, só se actuando depois. Com o requinte de esses dois enviados terem partido para Lourenço Marques na noite do dia 8, após Spínola, fortemente pressionado pelo MFA, primeiro ministro e CEMGFA, ter promulgado os Acordos de Lusaka.
Isto é: contradições e divisões não existiam apenas na Nave dos Loucos. Aliás, havia mesmo quem suspeitasse que o louco-mor residia em Belém.
Entretanto, Victor Crespo percebeu que não podia ficar parado  à espera da sua nomeação e tomada de posse e, ao contrário de Spínola, entrou em acção.
Assim. membros do MFA que estavam em Nampula indicaram-lhe o tenente -coronel Cunha Lopes como interlocutor em LM -- e o futuro Alto Comissário, que queria estar informado ao minuto do que se passava na capital moçambicana para gizar a sua estratégia, com a ajuda do comandante Contreiras (seu camarada da Armada e também destacado membro do MFA) começou de um modo discreto mas imediato, via telex militar situado na cave do Ministério da Marinha no Terreiro do Paço, a trocar telexes em código com Cunha Lopes, cujo conteúdo é bastante revelador e merecedor de uma reflexão atenta