Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~
R. T. P 3....R.T.P 2....R.T.P.MEMÓRIA....SPORT TV

segunda-feira, 22 de maio de 2017

MAFALALA: MEMÓRIAS DO 7 DE SETEMBRO DE 1974. A GRANDE OPERAÇÃ


AS MEMÓRIAS DO COMANDANTE GALO
                                                    Aurélio Le Bon

                                                                               Irmãos 
Há batuques no silêncio da noite
Que não se ouvem Há batuques no silêncio da noite
Que não se ouvem
São da cor da palmatória
Mas não se ouvem
E a palmatória 
Ouve-se sempre
E é por isso que temos que silenciá-la
Com a força maior que a dor
E, vamos irmão 
Vamos, porque a palmatória
Silencia o meu batuque.

Malangatana Valente Ngwenha

          AURÉLIO LE BON -  COMANDANTE GALO

Atenção, Atenção.
Galo, Galo Amanheceu. Em nome do MFA e da FRELIMO. Peço a todos os camaradas que se dirijam com a maior calma possível para todos os pontos da cidade, a fim de controlarem as massas que se dirigem para o centro da cidade.
(...) Galo. Galo Amanheceu. Galo Amanheceu. Peço a todos os camaradas que estejam à escuta da emissora Rádio Clube de Moçambique, mas todos sem qualquer excepção, que se dirijam às áreas onde se sabe haver violência, a fim de procurar dominá-la, seguindo à risca o programa de paz e amizade tão proclamado pelo Presidente António de Spínola e Samora Machel.
(...) Galo, Galo, Galo Amanheceu. Pede-se a que  toda a população colabore, sem qualquer hesitação. com as Forças Armadas e Policiais, na garantia da segurança das pessoas e haveres. Só de um esforço conjunto poderá resultar a verdadeira paz para todo o povo de Moçambique.

 

Nasci a 17 de Março de 1950 na Vila de Manhiça. Quando nasci a minha mãe, Lídia Generosa Ngovene, tinha apenas 15 anos de idade. Meu pai José Marcelino Carvalho dos Santos, veterinário de profissão, que servia as vilas da Manhiça, Xinavane e Magude. A notícia de que o meu pai havia tido um filho com uma rapariga local rapidamente chegou aos ouvidos de sua esposa Maria Custódia Carvalho dos santos. Esta de imediato decidiu visitar a minha mãe e ver com os próprios olhos a criança. Quando ela olhou para mim viu a estampa do marido, e disse: Sim este menino é filho do meu marido. Confirmado que era filho de NHWA TI HOMO (homem dos bois), como meu pai era carinhosamente chamado pela população, a D. Maria Custódia decidiu tratar de mim. Assim eu ganhei uma segunda mãe. 
Um ano mais tarde, o meu avô paterno José Carvalho dos Santos, avisou ao meu tio Cossa casado com a minha tia Lea Ngovene, que o meu pai e a minha boamastra planeavam levar-me para Portugal. Porque ele não achava correcto que eu fosse retirado do convívio da minha mãe, sugeriu que ela se prevenisse com o apoio da sua família. Com o apoio do meu tio Cossa, a minha mãe decidiu atravessar a fronteira em direcção da África do Sul. Vivi alguns anos no Componde da companhia mineira onde o meu avô trabalhava.
Regressámos mais tarde para Moçambique e mudamo-nos para Lourenço Marques, onde a minha mãe passou a trabalhar na fábrica de sumos e doces Loumar.
Um dia, uma senhora de nome Lucrécia Camporeal Le Bon viu-me a brincar e gostou de mim. Ela era proprietária de muitas casas de madeira e zinco e de alvenaria no Chamanculo. Ela passou a levar-me para a sua casa onde eu passava todo o dia.
Um dia ela decidiu propor a minha mãe que eu passasse a viver com ela na sua casa, onde eu pudesse ter todo o apoio que a minha mãe não me podia dar.
A D. Lucrécia havia perdido um filho com Pierre Le Bon (seu marido), que se estivesse vivo naquela altura teria exactamente a mesma idade. Foi assim que com cinco anos de idade passei a viver com esta família, que me adptou e educou-me em ambiente religioso e de classe média.
Em 1957 fui viver na cidade da Matola com a minha família adoptiva. Nessa, altura o meu segundo pai, Pierre France Le Bon, foi encarregado de coordenar as instalações da FASOL (Fábrica Associativa de Óleos Limitada). Começámos a construir a nossa própria casa nessa altura, na qual vivemos até à data da Independência Nacional (altura em que deixei de ver o meu pai biológico).
Fiz os meus estudos primários em diferentes escolas. Primeiro nas Igrejas da Munhuana e Missão de S. José. Mais tarde, quando já vivia na Matola, estudei na Escola Oficial da Matola sob a direcção do Professor Bento Morais Sardinha. Também frequentava a Paróquia de São Gabriel na Matola na Catequese e participação nos Corais da Igreja sob a direcção do Padre italiano Estanislau. Mais tarde fui para a Escola Secundária Joaquim José Machado, onde hoje funciona a Universidade Pedagógica, e depois para a Escola Industrial.


Aurélio Le Bon e OS ATLAS
No princípio da década de 1970 havia dezenas de bandas musicais em Lourenço Marques e um pouco por todo o país.Lembro-me do Benjamim Alfredo, do meu amigo e concorrente João Paulo, do exímio guitarrista Azambujo da banda Os Tokadores, do baterista Sete, Lembro-me ainda dos Irmãos Tamele, d João Domingos, do Djambo, dos Flechas, o guitarrista Alfredo Caíco, do Curcumbinho, do Zeca Manhambane com Né Afonso, dos Rebeldes da Beira, do grupo Oliveira Muge e as Irmãs Muge de Vila Pery (Chimoio), do cantor Álvaro Correia Mendes e o conjunto San Remo, dos Montros, dos Night Stars, da Banda Diplomática, dos Corsários, dos Inflexos, dos Cartolas, do cantor Wazimbo e o seu conjunto Gueizers, do AEC 68, dos Cinco de Roma, do cantor Gabriel Chiau, do Fany Mfumo, e do Dilon Nginge. Lembro-me ainda e com muita saudade das minhas Bandas, Os Atlas e Opus 79. Esta última fez uma importante revolução na música Pop e no estilo Umderground em Moçambique.
Matola possuía na época o melhor sistema de transportes exclusivos para estudantes da Matola para todas as escolas secundárias de Lourenço Marques. O sistema era garantido pela Companhia de Transportes da Matola, no qual os estudantes possuíam um passe que pagavam mensal ou trimestralmente  a custos relativamente baixos. Isso permitia que fosse à cidade de Lourenço Marques com muita facilidade, sobretudo quando comecei a trabalhar. Trabalhei na Cromadora como aprendiz e ajudante de Tipografia; na Empresa Moderna como zincógrafo, e na Agência de Publicidade Excelsior como desenhador e Maquetista de publicidade.


A 5ª Companhia de Comandos e a Guerra Injusta

Em 1971 fui seleccionado na segunda chamada para o Serviço Militar Obrigatório. Apto para o SMO, iniciei a recruta no Centro de Instrução de Boane em Junho so mesmo ano. Depois fui seleccionado para o 5º Cursos de Comandos. Embarquei no navio Pátria rumo à cidade de Porto Amélia (Pemba) com destino ao Batalhão de Comandos em Montepuez, onde cheguei em Novembro de 1971. Em Fevereiro de 1972 conclui a formação e recebi o distintivo de Comando.


Monepuez. Fevereiro de 1972. Entrega dos crachás
ao Comandos da 5ª Companhia
O ano de 1972, foi o ano de grande circulação de informações sobre o fracasso da Operação Nó Górdio. Clika aqui para leres acrónica: Nó Górdio. A versão de quem lá esteve. Ficamos a saber que entre a Primeira e a Segunda Companhias de Comandos nas bases Beira e Raimundo já havia o desespero de se restabelecer a capacidade operativa para suster os avanços da guerrilha da FRELIMO, que estava bastante motivada pelo sucesso nas batalhas de Cabo Delgado. Quando cheguei a Montepuez  as guerras americanas no Vietname, Laos e Cambodja, estavam ao rubro. A intensidade da formação como Comando também despertou-me. Apercebi-me que havia ali algo de muito sério. 
Havia muita disciplina. O treino era muito intenso e usávamos balas verdadeiras. Fomos treinados em minas e armadilhas, e recebemos treino com helicópteros. Praticávamos ginástica de aplicação militar, luta corpo a corpo, e fazíamos travessias de rios e treino de reconhecimento de armas pelo seus sons. Dos 500 mancebos saídos do Quartel de Boane, somente 125 concluíram o Curso de Comandos em Montepuez.
A estrutura militar do Batalhão de Comandos seguia ainda uma primeira linha de treinamento trazida pelos pelos primeiros instrutores belgas que formaram as primeiras Companhias em Moçambique. As Companhias constituídas em Moçambique eram sempre misturadas com a entrada de cerca de 1 a 2 grupos de Comandos formados em Portugal ou Angola, para evitar que os moçambicanos se unissem e constituíssem unidades permeáveis às investidas do Movimento de Libertação (FRELIMO)
A título de exemplo, a 5ª Companhia de Comandos, da qual fiz parte, recebeu um grupo formado em Portugal. Mas mesmo assim nasceram algumas simpatias pela FRELIMO  entre os Comandos pois havia circulação de material de propaganda da FRELIMO  na Companhia, e a leitura de livros considerados subversivos.
Foi da escuta clandestina nas nossas casernas da Voz da FRELIMO, cujos receptores os guardávamos escondidos por debaixo da terra, que passámos a conhecer figuras como Samora Machel, Marcelino dos Santos, Armando Guebuza, Rafael Maguni, e outros. A minha namorada e compamheira inseparável, Gabriela Valério, fazia chegar à Companhia, em correio registado, literatura camuflada com capas trocadas, que circulavam entre nós. Desses livros lembro-me de A História me Absolverá, de Fidel Castro; Cartas da Prisão do líder americano dos Direitos Cívicos Jesse Jackson; da obra Diário de um Combatente de Ché Guevara; poesias das canções de Zeca Afonso e muitos outros.
Devido àquela situação, que se tornava insustentável e punha em risco a integridade do exército, a nossa Companhia passou a ter no seu seio agentes da PIDE/DGS com a missão de fazer o necessário reconhecimento de acções subversivas. Os resultados não se fizeram esperar. Numa madrugada, enquanto estávamos em Guro, na Província de Manica, foram formados três Grupos (os quais estavam integrado além de mim o Armindo Leite e o Chiau do 5º Grupo de Combate, o Elísio Santos do 3º Grupo, o Sharibongo, o João Victor do 2º Grupo, e o Manuel Joaquim Pearson, Vagomestre ou Logístico da Companhia,com a missão de despir todos os símbolos da paz e deitar fogo, confiscar todos os livros e receptores de rádio e suas respectivas antenas, e recolher toda a propaganda política subversiva da FRELIMO. Foi ainda proibida qualquer referência sobre o assunto, nem mesmo em tom de brincadeira ou em anedotas.


A 5ª CCMDS no dia 10 de Junho 1973 em Lourenço Marques
No percurso para Xitima, na Província de Tete perto do Songo, em Cahora Bassa, eu e o meu companheiro Armindo Leite decidimos criar a canção Hei Terrorista, uma adaptação de uma canção brasileira Hei Motorista, que era muito famosa na época. A canção começava com as seguinyes palavras: Hei Terrorista Machambeiro ou Guerrilheiro, cuidado com os Comandos senão podes morrer. Com esta letra da nossa autoria, conseguimos reverter a difícil situação e confundir a vigilância dos agentes da PIDE/DGS que já estavam infiltrados nas nossas unidades de combate.
Em Abril de 1973, Xitima era uma zona sem contacto e muito menos de combates. Quando lá voltámos, 3 meses depois, já não se podia andar numa área de 5 Kms sem haver combates.
Para além de Cabo Delgado, operei também em Tete e em Manica e Sofala. Tete foi para mim o melhor barómetro do tipo de guerra que se desenvolvia, e dos objectivos de Nachingwea. Havia aqui a Zona Operacional de Tete,com a finalidade  de defender e proteger Cahora Bassa, ainda em construção, e que era o principal alvo da guerrilha. Durante todo o meu tempo de serviço no exército colonial na 5ª Companhia de Comandos eu continuei a interpretar canções coordenando pequenas Bandas Musicais que nos ajudavam a passar o tempo e ampliar a nossa rede de amizade dentro e fora da Companhia. Era assim o principal animador dos meus colegas nos lugares mais recônditos. Cheguei a ser conhecido como cantor em quase todas as unidades militares, sobretudo nas zonas de combate conhecidas como zonas 100% , onde a situação era muito tensa.Muitas vezes fui retirado dessas zonas 100% de helicóptero para Montepuez a fim de liderar o conjunto musical Banda Seis, que fazia digressões por Porto Amélia e Nampula por ocasião das festas de Santo António e nas Celebrações da Páscoa e do Natal. A Banda Seis ou a Banda da 5ª Companhia tinha sempre um tamanho indefinido de membros, de forma a podermos resolver o maior número possível de colegas com algum talento musical. No entanto, os meus insubstituíveis da banda eram o Agamo gani, ( na guitarra Solo e Ritmo), Elísio Santos (guitarra Baixo), Durão (bateria) João Victor, qua apesar de não ter grande jeito para a música, acompanhava-nos com um Reco-Reco.
Outros que fizeram parte da banda eram o Jihan Matola João, o Filipe Arzílio Mata, o Pedro Liso, e o Cabral. Fui ainda organizador de Eventos Culturais e de entretenimento na Ilha de Moçambique, onde fizemos muitas actividades ao vivo durante os períodos de descanso da nossa Companhia. E foi aqui, durante uma festa em que liderava a banda musical, que conheci a minha namorada e companheira, Gabriela Valério, que viria a ter um papel preponderante para o meu crescente sentimento nacionalista e a minha decisiva participação no Grupo Galo da Mafalala, em Setembro de 1974.
Findo o meu tempo de serviço militar obrigatório, passei à disponibilidade em Março de 1974, um  mês antes do golpe de 25 de Abril. Regressei nessa altura à cidade de Lourenço Marques


segunda-feira, 15 de maio de 2017

MIANDICA TERRA DO OUTRO MUNDO. MEMÓRIAS DE QUEM LÁ ESTEVE:


 NO VÍDEO, ESTÃO TESTEMUNHOS 
DE QUEM POR LÁ PASSOU. NELE PODEM OUVIR COMO A SANTA DE MIANDICA LÁ CHEGOU




MIANDICA: CRONOLOGIA

A Companhia de Cavalaria 754 (7 de Espadas)
A Companhia de Artilharia 637
A CCS do Batalhão de Caçadores 598, 
andaram na região de Miandica nos anos de 1964 a 1966

22-09-1966 - Um pelotão da CCAV 1507 do BCAV. 1879
15-03-1967 - 1º Pelotão da CCAÇ. 1559 do BCAÇ 1891
 8 de Maio sofrem um ataque aos homens da CENGª 1531 que estavam a construir a pista de aviação
18-05-1967 - 3º Pelotão da CCAÇ 1559
A 18 de Maio sofre violento ataque e no dia seguinte novo ataque sem consequências.
17-07-1967 - 4º Pelotão da CCAÇ 1559
Sem incidentes, apenas a rendição de um guerrilheiro.
22-09-1967 Operação "CARAVANA  I " Reabastecimento a Miandica e rendição do 4º Pelotão da CCAÇ 1559. No percurso a coluna rebentou 2 minas que causaram 1 morto (Guia) e vários feridos.
26-09-1967 - 1º Pelotão da CCAÇ 1558 que seguia integrado na coluna da Operação "Caravana 1"
02-12-1967 - 2º Pelotão da CCAÇ 1558.
Em 25 de Fevereiro, dia da rendição, morre o António Fernandes em consequência de um violento ataque da FRELIMO
26-02-1968 - Um pelotão da CART: 2325 mantém-se em Miandica até meados de Abril. data em que o destacamento foi abandonado e destruído.
1973 - Reocupação do destacamento de Miandica, por parte de pelotões da CCAÇ 4141. 
O destacamento foi reconstruído pela 2ª CENGª
Março de 1974 - Rendição do pelotão da CCAÇ 4141, pelo 2º Pelotão da CART. 7260, que ali permanece até ao final da guerra.
As novas instalações eram em tendas de campanha.Foi aberto um poço para abastecimento de água perto do destacamento.
Depois da reocupação, as instalações e a captura de água eram bem distintas, para melhor, do que as existentes no antigo destacamento. Ver Fotos em baixo.


   A COMPANHIA DE ENGENHARIA 1531 EM MIANDICA

                                                  Texto de Eduardo Carvalho

                                           Furriel Miliciano da CENGª 1531                   

Enquanto decorriam os trabalhos na Picada Nova Coimbra - Lunho a "minha" Secção recebeu ordem para se deslocar para Miandica, onde iria ser construído um Aerodrómo e melhor a segurança do acampamento que ali existente, cujos residentes era um Pelotão da CCAV. 1507. Os trabalhos de aterro demoraram pouco tempo, visto que havia muita profissionalização entre nós a manobrar as máquinas. De repente e quando passávamos para o outro lado dum riacho, cujo leito estava seco e, onde já estavam as máquinas, apareceu o Serafim a gritar que não via os camaradas que manobravam as máquinas. De imediato corri para junto das máquinas e qual não foi o meu espanto quando me vi envolvido por um enxame de abelhas. De tal forma fui "atacado" que tive de ser evacuado para Nova Coimbra. Passados poucos dias regressei a Miandica.


MIANDICA destroços duma DO 
Foi um pesadelo, para nós, a construção do aeródromo era contrária aos interesses da FRELIMO e, esta tudo fez para neutralizar a sua construção.
Recordo a voluntariedade do Serafim, quando na pista estávamos a ser atacados e as munições da bazuca estavam a acabar. O Serafim com coragem , correu para o acampamento, voltando com um saco de munições. Com ele vieram 2 soldados da CCAV. 1507, que foram rendidos em Março de 1967 por um Pelotão da CCAÇ 1559.
Durante este tempo só fomos reabastecidos 2 vezes por helicóptero, visto que por terra era impossível. Podemos dizer que passámos fome durante vários dias.

     As Companhias de Caçadores 1559 e 1558 em Miandica

                Texto do Livro:  Moçambique Memórias de um Combatente   
                                          de Manuel Pedro Dias
         
A CCAÇ 1559 foi a primeira Companhia do BCAÇ 1891 a enviar tropas para Miandica
 Vindos do Molumbo,no Distrito da Zambézia, a CCAÇ 1559, recebeu ordem para se deslocar para o  Distrito do Niassa.De comboio viajaram até ao Catur onde,tiveam a primeira realidade com a guerra. Em coluna auto rumaram até Meponda,que se situa nas margens do Lago Niassa.Daqui a 1559 foi transportada em lancha da Marinha (LDM)para o Cóbué destino final dCompanhia.Durante a viagem o Cap. Veiga deu ordem ao 1ºPelotão para desembarcar em NGO 

e de onde seguiriam a corta mato para MIANDICA onde iriam render o pessoal da CCAV 1505. O desembarque foi atribulado.A voz do Comandante da Lancha fazia-se ouvir:
RÁPIDO!!!RÁPIDO!!!! 
A 1559 a celebrar em Miandica (1967) o 1º Aniversário da sua Comissão
Ali, ficaram entregues ao seu destino quarenta "bravos", que iriam enfrentar uma das duras experiências das suas vidas. Como "bagagem", levaram a inseparável G3, duas catucheiras, cantil e saco de campanha com pano de tenda e e duas rações de combate,peso este já excessivo para quem tinha de enfrentar uma caminhada de dois dias através de percurso sinuoso,difícil e perigoso.
Finalmente avistámos Miandica. Era perfeitamente perceptível a vozearia que nos chegava de destacamento que, entretanto, fora alcançado. A recepcionarem-nos, não faltaram as tradicionais "camaras de TV feitas com com caixas de ração de combate,e "jornalistas" com "microfonesconstruídos com latas de conserva.
Mas nós, alheios a toda esta alegria, lançámos um olhar pelo acampamento a verificar as condições em que iríamos viver durante dois meses.
Oh!!! meu Deus o que vimos!
Um pequeno destacamento, protegido por barreiras de terra, feitas por uma máquina dum Pelotão da CENGª 1531, que ali se encontrava com o objectivo de fazer uma pista de aviação, nunca concluída. Era constituído por abrigos ao nível do chão, tendo a cobri-los velhas chapas de bidões de gasolina que eram suportadas por disformes pedras e troncos. Estes abrigos serviam para homens dormirem. As "camas"eram feitas com sacas de batatas vazias.  


Ao fundo o local da "caserna"
Uma espécie de casa, exígua, sem reboco, cujos buracos serviam de refúgio aos parasitas, destinava-se a abrigar o Comando, arrecadação dos géneros alimentícios e postos de Enfermagem e de Rádio.   No centro do destacamento,mais parecendo um "monumento", seu ex-libres, encontravam-se os destroços os destroços duma velha DORNIER que tempos antes ali tinha caído. A seu lado, um conjunto unido de toscos troncos servia de porta a uma escavação, que nos disseram ser o paiol das munições. Intalações sanitária eram inexistentes e os Postos de Sentinela em número de quatro, e colocados ao nível das barreiras, tinham também a cobri-los velhas e ferrugentas chapas. Os dias, vazios, decorriam vagarosamenteJá mais resignados fomo-nos adaptando à nova realidade.


Furriel Dias junto aos destroços da Dornier
Os reabastecimentos ao destacamento ra efectuado pela Força Aérea,dado que as colunas auto-auto só tinham lugar com meses de intervalo, face à grande envergadura de que se revestiam.
As DORNIER, em voo rasante, lançavam na improvisada pista, os géneros alimentícios, correio, tabaco etc....Todos os que andaram na Guerra sabem que a chegada do correio era um excelente tónico para leventar o moral da rapaziada. A nossa correspondência ía para o Cóbué e daqui era muito difícil enviá-la para Miandica.Tal facto, originou que que estivéssemos três semanas sem receber correio.
A dada altura, a alimentação do pessoal começou a deteriorar-se de dia para dia.No "depósito de géneros"apenas restava uma mísera carne de porco conservada em barricas com sal,uns bolorentos pacotes de massa e pouco mais, ou nada.Esta situação agravou-se dado que, durante oito dias, o pessoal entrou em subalimentação quase total, o que levou os mais fracos a tentarem praticar actos de verdadeira loucura, sendo impedidos de fazer pelos camaradas mais lúcidos.
Perante a nossa insistência, via Rádio, dando conta da situação, em certo final de tarde começámos a ouvir os roncares dos motors da avioneta. Foi o delírio no acampamento. A Dornier em voo rasante lançava sobre a pista a carga que nos era destinada.
Mas, com terra ou sem terra, naquela noite houve alimentos frescos. No dia seguinte tivemos que consumir o restante, dada a falta de frigoríficos.


Ida á água em Miandica uma grande preocupação
  O abastecimento de água era outra grande dor de cabeça, visto o percurso até ao rio, que corria a cerca de um KM, ser bastante perigoso e a segurança ser feita apenas com uma secção, ficando os restantes a assegurar a defesa do destacamento. Além disso, uma outra secção estava incumbida de prestar apoio à máquina de Engenharia,que laborava no prolongamento da pista.
Num final de tarde, uma secção regressava ao acampamento após ter efectuado a segurança à Engenharia,foi atacada violentamente com intenso tiroteio de armas automáticas,vindo do interior da mata. Dada a progressão dos homens ser em campo aberto, pois avançavam na pista, receou-se o pior, até porque o inimigo tinha iniciado este ataque convicto que teria granse sucesso,visto que os nossos militares serem um alvo fácil.
Mas, bravos foram os nossos homens os quais, ripostando ao fogo do inimigo, e com a ajuda daqueles que se encontravam no destacamento,entretanto também fustigado em todas as direcções, conseguiram calar as armas adversárias.
Minutos depois entravam para cá das barreiras os nossos camaradas emboscados. Foi um momento ímpar e emocionante aquele. 
Perante o que vivemos e presenciámos em Miandica, quase somos levados a crer que a carta que Mouzinho Albuquerque escreveu em Moçambique,dirigida ao Príncipe D. Luís,foi pensada em termos de futuro e que se queria referir,certamente,àquele punhada de bravos que viveram em Miandica-
                     
O último soldado português morto em Miandica 
   
                                 Texto escrito por:

                    António Carvalho, 1º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 1558  

Fiz parte do último grupo da Companhia Caçadores 1558 que foi destacado para Miandica.
Não vale a pena descrever as más condições, a todos os níveis, que lá passámos de 2 de Dezembro de 1967 a 26 de Fevereiro do ano seguinte, pois isso é do conhecimento de uma grande parte dos ex-militares que compunham o Batalhão de Caçadores 1891. Desde a falta de comida, correio, por vezes munições e tabaco, que foi muitas vezes a nossa única companhia.
Mas vou descrever um episódio, o último naquele lugar longe de tudo.
No dia 25 de Fevereiro de 1968, estava para chegar o novo grupo de combate que nos ia substituir, para podermos regressar a Nova Coimbra já que o nosso tempo de comissão estava a terminar.
Antes da chegada, combinado com todos os elementos, o alferes Quintas, que substituiu o alferes Sancho por ter sido ferido em combate, resolveu pregar uma partida aos “Checas”, trocando todos os postos, tendo ele passado a soldado e cabendo a mim o galão de alferes.
Militares com galões e divisas trocados


Depois de termos recebido instruções para a recepção aos Chekas, dirigi-me ao Comandante do Pelotão que nos ia render. Apresentei-me como o alferes Quintas Comandante do destacamento.Depois de uma curta conversa, comecei a mostrar as instalações, que eram fáceis de visitar, pois quase nada havia.
Andei por cima da barreira que nos protegia, com o já citado novo comandante, explicando-lhe quais as zonas consideradas mais perigosas e de possíveis ataques.
Passado algum tempo e conforme já previamente combinado, separei-me por uns momentos do meu interlocutor e rapidamente voltámos aos respectivos postos, coloquei os meus óculos escuros, graduados, para não ser facilmente reconhecido e então o verdadeiro alferes Quintas tomou o seu posto e foi ter com o seu homologo, contando-lhe a brincadeira a que tinha sido submetido.
Eu fui ter com o meu colega enfermeiro que me ia render e entabulei então a conversa normal de mais velho para mais novo, dizendo-lhe que a zona era perigosa, sujeita a ataques, que ainda não tínhamos tido nenhum por sorte, e que a vida ali era muito dura.
Recebi como resposta “isso é conversa de velhos para nos meterem medo, pois em Nova Coimbra disseram-nos que havia muitas minas pelo caminho e nada nos aconteceu” .
Cerca das 16.50 horas, quase mal tínhamos acabado esta conversa, sofremos sim um ataque, como penso ainda não se tinha registado por ali, a partir do mato junto à pista de aterragem, com morteiros, bazucas e canhão sem recuo.
Com a surpresa e porque os novos, segundo penso que foi essa a informação que eles me transmitiram, tinham chegado directamente da metrópole, não tendo qualquer experiencia de guerra, muitos, tiveram como reacção deitarem-se no chão não crendo no que lhes estava a acontecer.
Coube-nos a nós, velhos, rechaçar o ataque, e não me esqueço daquele acto do nosso colega, que não me lembro o nome mas a alcunha “França” que saltou para cima da barreira de protecção e a descoberto, com raiva descarregou os carregadores da G3 para a zona de onde provinha o ataque.
Mas, infelizmente a primeira granada que é disparada pelo inimigo cai dentro do acampamento e mata o meu grande amigo Fernandes, que era o padeiro e que ao sentir o ataque desloca-se á barraca que nos servia de abrigo, buscar a G3 e quando ia para a barreira foi atingido, ficando com a cabeça quase desfeita, (o Fernandes está na foto anexa a almoçar e com uma caneca na mão.
António Fernandes, morto em Miandica em 26/2/1968
 Mas o pior estava para acontecer, como o ataque tinha sido perto das 17 horas, e o inimigo também sabia, a aviação já não nos podia socorrer, embora tenha sido pedida a evacuação via rádio, ainda a 25 de Fevereiro.
No dia 26 de manhã, apareceu o helicóptero para fazer a evacuação, só que não havia feridos, mas um morto.
O alferes Quintas recebeu como resposta que não evacuavam mortos e que teríamos de o enterrar no mato em Miandica, tendo o mesmo dito que isso não faria, mas o carregaríamos mais de 40 km a corta mato, às costas, até Nova Coimbra, já que íamos regressar no dia seguinte aquele quartel para regressarmos a Portugal.
O comandante da aeronave, penso que tocado no coração, resolveu levar, contra todas as ordens, o corpo para Nova Coimbra.

                                Crónicas do tempo perdido


                                                  

                        Josè  do Rosário Martins,  da CCAÇ 1558  

Corria o mês de Fevereiro de 1968, um domingo antes do Carnaval, quem escreve estas linhas lia o livro, de título “ Sob o Nevoeiro” enviado pelo Movimento Nacional Feminino, sentado no posto de vigia a noroeste do destacamento, quando vejo aparecer um branco de camuflado, com a G3, arrojada pela terra, e muito cansado. Grito-lhe, não dás nem mais um passo… e porquê esta minha atitude… ( nas vésperas tínhamos recebido informação dum golpe de mão prepetado por brancos num destacamento contra nós na zona de Cabo Delgado, O sujeito bem berrou que era do pelotão que nos vinha render,,, começaram a chegar mais militares e pouco depois começou um forte de bombardeamento, por uma arma nunca usada contra nós naquela zona, o canhão sem recuo. Depois, sofremos a última baixa em combate, o soldado Fernandes.
Nota final: passados dois meses Miandica foi abandonada parece que sem honra nem glória. Ao que me contaram em Vila Cabral, quando com quase 27 meses de Moçambique fomos chamados de novo a intervir na zona de operações na região de Nova Viseu !

            2ª Companhia Engenharia de Moçambique

Texto escrito por Manuel Jorge
   Furriel Milº da 2ª CENGª de Moçambique


Depois de tirar em TANCOS um curso de construções de Engenharia, com mais 28 camaradas, alguns licenciados na área de Engenharia e Arquitectura, pensava eu que a guerra acabaria e que como tinha ficado num lugar razoável da-me a hipótese de não ir para as Províncias Ultramarinas. Chegou até uma colocação em Janeiro de 1973 para TOMAR onde iniciei a construção do ainda hoje Quartel da Polícia Militar. Certa tarde de Julho quando cheguei ao Departamento da DSFOM de TOMAR, tive a "linda notícia" que estava mobilizado para Moçambique. A 26 de Junho, lá vou eu em rendição individual de avião para a 2ª Companhia de Engenharia que estava em VILA CABRAL no Distrito do NIASSA. Ainda andei por lá uns dias, mas como não tinha "padrinhos" amigos....LUNHO com ele. Quando no final de Junho aterrei num D.O. no LUNHO fiquei assim...como que paralisado, a ver o que acontecia. Só tinha visto uma coisa daquelas em livros sebentos em TANCOS, mas o que estava à frente dos olhos, era bem pior do que víamos nos filmes sobre o Vietname.

Manuel Jorge em tronco nu, no LUNHO em 1973

 O LUNHO era coisa feia, suja e desordenada....Mas enfim muita por receber mais um CHEKA. Os brancos pareciam pretos de tanto sol e esfarrapados e os pretos só lhes conseguia ver os olhos e as armas, mas muita simpatia. Foi em MIANDICA que fiquei até à reocupação do quartel. Quando lá se chegou não se contava o o quanto já ali se tinham sofrido. 


Cap. António Cardoso da CCaç 4141 e o Cap. Serafim
da 1ª do CCaç 3850, junto à placa do Aeródromo de
Miandica. A foto é de 1973
Depressa escolhemos um monte mais alto para colocarmos ali uma tenda gigante aonde caberiam 2 Pelotões da CCAÇ 4141 e os homens da Engenharia que seriam tantos como as Mercedes de carga, as máquinas e eu que os comandava. à noite tinha uma vista bonita, escura mas bonita. Podíamos olhar o céu e imaginarmos tudo o que quiséssemos, podia ver o arvoredo e pensarmos que estávamos a ser vigiados pelos homens da FRELIMO. Da mata densa separava-nos umapista de aviação, que pelas suas dimensões só poderiam aterrar pequenos aviões.
No dia seguinte recebi ordens de que era preciso alargar a picada e "esticar" a pista, para que o avião, que iria transportar Altas Patentes, que iriam fazer a inauguração da pista pudesse aterrar em segurança. Respondi que se o avião aterrasse em 700 Metros, tentaria tê-la pronta numa semana. Ao fim de três dias de trabalho o riacho que nos abastecia de água secou e a nossa vida complicou-se. Lá veio o dia que o Rancho foi melhorado (no dia anterior tínhamos comido macaco assado na fogueira) e andávamos há 15 dias a sopa de feijão, íamos ter a visita do "mandão" da Engenharia, que ao chegar reuniu comigo e prontificou-se a agraciar-me com uma medalha. Recusei de imediato e como resposta ouvi uma ameaça de prisão.


Destroços do antigo aquartelamento de Miandica. Numa das placas feitas em
 Novembro de 1967 estão os nomes do Alferes Monteiro e dos
Furrieis, Amadeu, Matos e Júlio da CCaç 1558


Em 1973 MIANDICA foi reocupada pela 2ª CEngª (Furriel Manuel Jorge) apoiados pela CCAÇ 4141, grandes amigos e camaradas a quem devo o estar ainda aqui. Após esta "reconquista" de posição militar aqui fiquei apenas algum tempo pois fui destacado para acompanhamento de obras em VILA CABRAL, talvez como prémio! Só o Sargento Ramos "O Mola Partido" saberia responder a esta questão pois a mim surpreendeu-me a minha saída daquele Monte a que chamámos "BURACO". Chamaram-me o HERÓI de MIANDICA, por ter reocupado, com barreiras de terra para nos proteger-mos, mas depois de ver este vídeo .
Os heróis fostes vós camaradas e ainda bem que neguei a medalha pois também não seria bem entregue. Hoje, depis de ver de novo o vídeo os olhos emudeceram. 
Os VENTOS DE GUERRA, amigos. De no LUNHO ter aprendido o CANCIONEIRO DO NIASSA e de ter deixado crescer o bigode para toda a vida, regressei ao quartel de VILA CABRAL por interesseira ou meritória
                      Companhia de Caçadores 4141

                                                                                                                                                                       Texto de Bernardino Peixoto, 

                                      Soldado da CCAÇ 4141


Quando terminou a minha função de guarda, fui em direcção da caserna e deitei-me  na minha cama fumando mais um cigarro e escrevendo um aerograma para a minha noiva que muitas saudades já tinha,chegou ao Lunho a primeira parte do pessoal e de máquinas da 2.ª C. de Engª de Moçambique. O restante pessoal e material chegaram nos dias 29 e 30 de Junho de 1973. 
A C.cac.4141 de imediato suspendeu todas as operações para fazer a protecção à 2.ª C. Eng. 
A Operação Intervalo teve por finalidade a construção de uma picada do Lunho para Miandica e aqui reconstruir um novo aquartelamento. 
Durante a Operação Intervalo, um grupo de guerrilheiros da FRELIMO atacou com armas automáticas  e emboscaram uma viatura da nossa companhia sem consequências.
A viatura seguindo a sua marcha detectou uma mina anticarro  que de imediato foi levantada. No percurso detectámos  duas minas anticarro que de imediato foram levantadas. 
 Durante os trabalho de reconstrução do aquartelamento de Miandica os guerrilheiros da FRELIMO atacaram-nos por diversas vezes. Capturámos uma espingarda automática, uma mina anti-carro, 7 porta granadas de canhão sem recuo e não tivemos baixas.
A  FRELIMO  atacou a companhia de engenharia que se encontrava a "desatascar" uma viatura na picada do Lunho para  Miandica.
De regresso ao Lunho uma viatura berliett da C.caç.4141  na picada de Miandica para o Lunho accionou uma mina anticarro a qual ficou praticamente destruída. Nessa viatura viajava algum pessoal que felizmente só tiveram  ferimentos ligeiros. 
A picada do Lunho para Miandica começou a ficar intransitável sendo o pessoal reabastecido por  Helicóptero.
A CCAÇ 4141 foi rendida no Lunho pela CART 7260 em Março de 1974

                              Companhia de Artilharia 7260
                                           Texto de António Caldas
                                           Soldado da CART. 7260

Em Março de 1974 chega ao Lunho a CART. 7260 que destaca para Miandica o seu 2º Pelotão que ali permace até ao final da guerra.

 

As novas instalações eram em tendas de campanha.Foi aberto um poço para abastecimento de água perto do destacamento.
Depois da reocupação, as instalações e a captura de água eram bem distintas, para melhor, do que as existentes no antigo destacamento.


 A reocupação de Miandica foi feita com o objectivo de controlara região, o que não aconteceu na primeira ocupação.

A 20 de Março, o 2º Pelotão, comandado pelo Alferes Lourenço e acompanhados por alguns militares da CCAÇ 4141 foram a pé pela picada até Miandica. Por todo o caminho, viam-se buracos feitos por minas, pendurados nas árvores restos de pneus, pedaços de ferro retorcido e aros de jantes de viaturas militares destruídos pelas minas.
Paisagem do outro mundo, paisagem de guerra, paisagem do inferno, visão de meter medo a quem como nós acabados de chegar da Metrópole. Se o Lunho tinha fama de ser o inferno, nós estávamos para lá do inferno.
Depois de algumas horas de marcha, chegámos a uma nascente de água
barrenta e cansados ouvimos um camarada dizer: ainda faltam 10 Kms. Olhei na direcção que ele apontava e vi um bocado de madeira agarrado a um pau que indicava MIANDICA 10Kms. 

 Abrindo caminho para esgotar a água    

 e alguns deitaram-se no chão. Era mentira!!! Cerca de 500 m mais acima, lá estava o acampamento de Miandica. Eram 3 grandes tendas rodeadas de um muro de terra. Eram 16 horas de 20 de Março de 1974.

Depois de 6h de marcha pela picada, onde a cada passo se viam sinais de uma guerra terrível. Era Miandica, a mítica Miandica, nome de mulher, doce no falar, mas temida por todos, entranhou bem fundo na alma e coração dos Combatentes que por lá passaram. Mas para a grande maioria que lá viveu e a sentiu será sempre MIANDICA TERRA DO OUTRO MUNDO.
Na visita guiada dentro do acampamento, deparámos com três tendas e um muro de terra em volta. Os velhinhos (Kokuanas) informaram que para Norte, nem um passo, são as zonas libertadas. A Oeste havia um antigo acampamento que tinha sido abandonado em 1968 e com ele uma pista de aviação. Tudo estava coberto de capim. Era perigoso lá ir devido à possibilidade de minas
 Restos do acampamento,que foi construído nos finais de 1966 
 pela CENGª  1531,com a protecção dum Pelotão 
da CCAV.1505 em 1966 e abandonado a 3 de Abril de 1968


A Sul é aonde se podia ir á lenha e lá havia uma nascente de água barrenta. Era necessário filtrá-la com dois lenços. O banho era tomado na nascente com uma lata de ração de combate. Devido ao único Unimog existente estar inoperacionais íamos a pé uma vez por semana a picar a picada para detecção de minas. Íamos ao encontro dos camaradas que estavam no Lunho e que nos levavam os géneros alimentícios e o correio. O local do reencontro era uma grande árvore que ficava a meio caminho. Dias e noites, foram passando, manhã ir à água à tardinha ver o espectáculo dos macacos, que passavam a norte de este para oeste em grandes bandos, à noite era dormir com a G3 na mão, era rara a noite que os sentinelas, não davam alarme, quase sempre do lado sul , penso que eram animais, eu nunca vi luzes à noite, era o medo que fazia os meus camaradas verem luzes, muitas foram as vezes, que a minha respiração e o meu coração quase pararam, para que eu pudesse sentir e ver com os ouvidos, era naquelas noites escuras que eu sentia, MIANDICA penetrar no mais profundo do meu ser.
A 28 de Março, o 4º Pelotão que nos ia abastecer, localizou e desactivou uma mina anti-carro com dispositivo anti-pessoal.
Sexta Feira 5 de Abril de 1974, grande ataque ao Lunho. Neste dia entregou-se à sentinela uma jovem mulher autóctone. Depois de várias peripécias, o Capitão Salaviza deu por bem enviá-la no dia seguinte de helicóptero para Vila Cabral para ser interrogada pela PIDE.
Um guerrilheio da FRELIMO e o Caldas no Lunho
Ao anoitecer desse dia começou a cair “chuva” de granadas de morteiro 122 sobre o Lunho. Os dois obuses 14 não paravam de “vomitar” fogo. O Capitão pediu ajuda à aviação, como era de noite esta não foi enviada. Vila Cabral resolveu enviar os GES que estavam aquartelados em Nova Coimbra. Era de noite e eram 17Kms que separavam estes dois aquartelamentos. . Já havia poucas munições de obuses e de morteiro 80. No Lunho só estavam o 3ª e 4º Pelotões e face à ferocidade do ataque e à escassez de pessoal, o Capitão chegou a dar ordens para fugir para Nova Coimbra.
Os GES ainda se deslocaram para o local de onde os homens da Frelimo atacaram o aquartelamento, mas estes já tinham debandado e só encontraram vários rastos de sangue e muitas cápsulas vazias de muitas armas de fogo.
Em Miandica assistíamos ao cruzar de bombas sem nada poder fazer. No dia seguinte, recebemos em Miandica, o 1º Pelotão comandado pelo Alferes Raposo que andava em patrulha na zona.
Durante toda a manhã ouvimos os helicópteros mas nunca os vimos. O Alferes Raposo com o seu Pelotão, sem qualquer apoio, resolveu ir para o Lunho, eram cerca de 24 Kms entre estes dois aquartelamentos.

O Caldas um dos últimos soldado Portugueses em Miandica
Nesse dia não entendi a não intervenção da Força Aérea.
Sexta Feira 12 de Abril 1974, veio ordem para abandonar Miandica. A ordem dizia que só podíamos levar as G3 e objectos pessoais, o restante seria abandonado, tendas, utensílios de cozinha e o velho Unimog.
EM MIANDICA, FICou MUITO SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS DE MUITOS SOLDADOS PORTUGUESES!!!.