Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~


O Batalhão de Caç. 1891.. Cumprimenta com Amizade,todos os que visitam esta página..Forte abraço.

segunda-feira, 13 de março de 2017

INHAMINGA: O ÚLTIMO MASSACRE. LIVRO DE JORGE RIBEIRO. PREÂMBULO

                       
                           PREÂMBULO





                     Deus manda combater, não manda vencer.

                    Marcelo Caetano na  tomada de posse do último governo da Ditadura

O atípico Colonialismo Português prolongou no Ultramar esse prodigioso embuste dos Brandos Costumes, tão nossos -- como sublinhava o Chefe. O coma induzido em que se mantinha a população permitia uma violência permanente e segura, fazia parte. Palmatória? Faz bem! Chicote?  Tem de ser! Torturar? Portou-se mal! Prisão? Está na lei! Escravatura? É natural! Matar? Vai com Deus...
Ainda hoje ouvimos palavras - passe desse tempo que só num país desmemoriado sobrevivem sem explicação. Nós não éramos racistas. Sobrava sempre comida, dávamos aos pretos. Roupa que já não usávamos, eles recusavam. Queriam andar descaços, nós deixávamos. faltavam ao trabalho, nós perdoávamos. Eram mandriões e ingratos!, no discurso da burguesia colonial.
No Quénia em 1950, quando os mandriões e ingratos desse recanto do Império Britânico se colocaram no terreno para impedir a ocupação das terras altas -- oferecidas aos heróis ingleses da II Grande Guerra --, o Governador de Sua Majestade traçou com firmeza os seus planos contra os revoltosos, executando desde logo massacres e erguendo campos de concentração. Em Lar e Chuka mancharam de sangue o ano de 1953. Já depois da rebelião dos Mau - Mau, em 1959, os ingleses ainda torturavam em Hola. No campo de Kamiti, o Império onde o Sol nunca se punha mostriu a sua verdadeira face. Matou à fome e maus tratos milhares de mulheres e crianças. Foram condenadas à morte e executadas três vezes mais pessoas do que as que os franceses assassinaram na Argélia.
Em Moçambique a fleuma foi portuguesa. E com discrição, paulatinamente, em pouco mais de três meses implementaram esta calamidade que foi o Massacre de Inhaminga. Como foi possível liquidar tanta gente indefesa?
A matança, a carnificina, mesmo sem planeamento, é uma decorrência do estado psicológico, onde o funesto axioma Se não matares, matam-te a ti não carece demonstração.
O ardil dos colonos, defendidos no terreno pelas tropas, foi aproveitar um método antigo das campanhas majestáticas, que consistia em fazer circular camiões pelos caminhos e picadas, qual rede de transporte público, com o objectivo de arrebanhar mão - de - obra. Era simples. Os interessados, fosse para tarefas pontuais, sazonais, de contrato -- o que houvesse .., bastava colocaram-se nos habituais locais de passagem do camião e era só subir o taipal e sentar na caixa, nem sempre coberta. Como ninguém voltava para revelar o verdadeiro destino final, a sórdida actividade contou com o silêncio durante muito tempo. Em Inhaminga, todos estiveram envolvidos.
No beco sem saída por onde se metera o império português. dir-se-á que, já no estertor do Regime, os celebrantes deste massacre começaram a trabalhar por conta própria. Convergiam na acção a maior parte das vezes, porque o objectivo era o mesmo: esmagar a subversão, a todo o custo  de qualquer forma. Veremos algumas iniciativas estratégicas e tácticas emanadas de cima, como a africanização progressiva e generalizada dos operacionais; a retida das águas aos peixes -- como preconizava Kaúlza de Arriaga  -- para cortar o apoio logístico à Guerrilha  através do internamento das populações em campos, e o fechar de olhis à violência progressiva dos soldados em direcção ao descontrole absoluto.


Uma família de colonos
Quanto aos colonos, era fácil ganhá-los para a causa, explorando os instintos deseducados. Na sua ignorância, fragilidade cultural e ingenuidade política, eles não dispunham de alternativa. Bastava que, em paralelo com a tropa ou em missões próprias, se convencessem estar a defender a sua terra, a sua família, os seus bens, Portugal! Protegendo, na realidade, interesses alheios que quase sempre desconheciam.
Aquando da implantação e aldeamentos em Sofala, alguém se atreveu a chamar a atenção para a região ambiental protegida que, a ocidente, iria ser invadida. As populações, aí, fazem parte da fauna viva da Gorongosa, considerou o Governador - Geral, Teotónio Pereira. Ainda hoje a interpretação é ambígua. Quereria o responsável dizer que os seres humanos, ali, podiam ser enjaulados como os animais selvagens? Ou abatidos, como nas caçadas, poupando o trabalho e a despesa de os aldear?
Trasladar milhares e milhares de famílias cortando-lhes as raízes, o berço, a terra, o clima, o ambiente, os laços étnicos e culturais, a vida -- isso obedecia a um conjunto de medidas normativas que é mister tomar para pôr as populações a trabalhar connosco e torná-las repulsivas à propaganda do inimigo. No accionamento das populações, nós tentaremos conseguir trazer até à nossa órbita, integrar no nosso meio e na nossa civilização, na nossa cultura e nacionalidade, as populações que nos estão entregues. Esta será, digamos, uma das finalidades. A outra será conseguirmos que as populações trabalhem activamente connosco na detecção e no combate às acções subversivas que o inimigo venha porventura a desencadear.
Para os promotores destas operações, a verdadeira medida do seu sucesso, mais do que nos resultados concretos de detecção e neutralização de combatentes nacionalistas, estava no número de camponeses das aldeias que conseguiam envolver. Deste esforço de conquista das populações nasceram os aldeamentos, as sanzalas protegidas em Angola, e as tabancas defendidas na Guiné, novos aglomerados rurais fortificados e controlados pelas autoridades, na sequência de um gigantesco programa forçado de reordenamento nas regiões em guerra. Ou onde as autoridades esperavam que ela viesse a irromper.
Os aldeamentos surgiram, assim como verdadeiros espaços concentracionários de produção de violência. A aglomeração de pessoas, em números até então inéditos, implicou a quebra de laços com a terra, desde sempre fonte estruturante da coesão comunitária e recurso base da sua reprodução material e cultural, da sua sobrevivência. Afectou gravemente as relações políticas e familiares cuja lógica sempre assentara no território; criou problemas de acesso aos recursos , sobretudo de terra e água; estabeleceu terreno fértil para a irrupção de surtos de doenças.
Segundo estudos da Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique cerca de mil aldeamentos receberam mais de um milhão de habitantes. Só na província de Tete, nos seis anos que durou o programa, cerca de 70% da população rural foi aldeada. No caso dos N`Cungas, um relatóriodos serviços médicos coloniais revela malnutrição das pessoas, com falta de proteínas, gorduras e vitaminas, uma vez que a sua alimentação se baseava quase exclusivamente na farinha de milho, e mesmo esta em quantidades insuficientes, As condições sanitárias e de habitação situavam-se ao mais baixo nível, abaixo do mínimo tolerável de sobrevivência. As pessoas mostravam-se deprimidas e desinteressadas da evolução da sua situação.
Ao mesmo tempo, foi para estes mesmos aldeamentos que as autoridades coloniais transferiram o mecanismo de autodefesa que procuravam instalar nas aldeias tradicionais, constituídas por grupos de milícias. Camponeses recrutados à pressa, mal treinados, usando as suas próprias armas e quase sempre sem comando a enquadrá-los. Sobre os milícias ficaram também de Tete, onde chegou a haver perto de 4000 em 1973, significando uma média de 15 milícias por aldeamento.
Quanto às ideias e propostas do poder civil para responder ao terrorismo, é elucidativa a seguinte passagem da ACTA da II Conferência de Administradores de Concelho e Circunscrição, logo em 1967. Devíamos ir para soluções por assim dizer maquiavélicas, que levassem as populações a pensar na sua auto-defesa como necessidade imperiosa....Se colocássemos algum fornilho  (armadilha explosiva) que fizesse alguma vítima, poderíamos também tirar partido do facto, criando no espírito das populações uma atitude reprovadora contra os terroristas. Desta forma, os agentes subversivos que chegassem depois às terras com o intuito de montar fornilhos não teriam já um bom acolhimento. de 
Aquando da criação da dos Grupos Especiais, a hierarquia político-administrativa da Colónia sugeriu outro estratagema que consistia em colocar essas formações de mercenários pretos a actuar disfarçados de guerrilheiros, o que revela mais uma interpretação livre do processo africanização da guerra.
Para as altas esferas, a africanização dizia respeito à intensificação do recrutamento local para as forças armadas regulares e à criação de unidades militares aficanas definidas não jé em termos auxiliares ( na auto-defesa das aldeias ou actuando como batedores ou infiltrados em busca de informações), não já em termos universais ( como unidades de cidadãos portugueses chamados a defender a pátria), mas definidas precisamente em termos rácicos, regionais ou étnicos, e actuando operacionalmente de forma semi-autónoma ou mesmo autónoma.
No massacre de Inhaminga, cada um faz o que lhe apetece e considera mais conveniente. A PIDE sobe o nível de violência e coloca no terreno os mercenários Flechas. Como Nampula se recusa a fornecer-lhes armas, a polícia política vai buscá-la à África do Sul, com carta branca do ministro da Defesa, Joaquim da Silva Cunha.
O costumeiro arrebanhar da força braçal para trabalho agrícola, utilizado com embuste; o desvario dos colonos plasmados na sua organização civil armada, sob o absurdo lema Prescindimos da Tropa!; o desespera de uma PIDE feroz culpando continuamente o Exército pelo colapso iminente; e excessos, não poucos, pressentindo o fim. A intersecção de todas estas linha de forças produziu o terrível MASSACRE DE INHAMINGA.
NOTÍCIAS DO MASSACRE


No dia 9 de Fevereiro de 1974, um sábado. O responsável pela Fábrica de Cimento de Nova Maceira, no Dondo, chega a Muanza, sul de Inhaminga. Acompanhado de um agente da PIDE/DGS, o engenheiro Góis vem visitar a pedreira de calcário que abastece aquela unidade industrial. Desloca-se às ordens do patrão, António Chapalimaud, que pretende saber O que se passa neste lugar periférico da Gorongosa.
Na frente da pedreira, o director da Cimenteira depara-se com um cenário montado pelo seu gerente em Muanza, um branco de nome Jacinto. Doze corpos de nativos, passados pelas armas, jazem espotejados por terra De forma a que todos vejam o que acontece a quem apoiar os terroristas.
Jacinto orienta, no local, uma força de matança em série constituída por elementos da Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil de Moçambique -- OPVDCM, acolitados por efectivos da 2ª Companhia do Batalhão de Artilharia 6221, incumbida de montar segurança à pedreira.
O engenheiro confere, num ápice, a informação que desliza pela cidade da Beira há já algum tempo e chegou agora de forma mais consistente aos ouvidos no Dondo, Centenas e centenas de homens´arrebanhados em inúmeras aldeias de Manica, da Zambéziae, sobretudo, de Sofala, estão a ser sumariamente executados em Muanza.
O proprietário da serração em Cheringoma mais próxima de Muanza está presente nesta visita ao complexo da pedreira. O seu nome é José Mendonça Teixeira e pede para falar. Garante ao administrador vindo de Nova Maceira que Este sistema de limpeza já vigora há uns meses e é o mais eficaz para acabar com a guerra. Acrescenta que AS valas, lá atrás, já têm à volta de uns três mil turras, Um número redondo que o colaborador de Chapalimaud já trazia na cabeça.
O madeireiro Teixeira, o subchefe da OPVDC, o furriel do Destacamento, PIDE da Lusalite e o gerente Jacinto olham fixamente o rnviado da Fábrica. Sem pestanejar. Permanecem assim até o silêncio se esfumar com a ruidosa chegada, lá trás, de mais um camião carregado de pretos. 

 O ACELERAR DA GUERRA

No distrito de Tete, quando se atingiu o mês de Agosto de 1973, a FRELIMO tinha conseguido saltar para a margem direita do Zambeze, superando um obstáculo formidável: a barragem de Cabora Bassa e a sua albufeira. avançou para sul e entrou em Manica. E no início de 1974 encontrava-se às portas de Vila Pery. Para leste, descendo do Niassa, a guerrilha completava o efeito de tenaz com a travessia da extensa Zambézia, reforçando de forma expressiva a sua acção em Sofala. Objectivo: Beira.
Em Inhaminga, o primeiro relatório da tropa portuguesa referindo um ataque directo ao exército colonial data do último dia de Julho, cinco meses antes. No cruzamento Mazamba--Goronga, a 40 Kms da vila, foram registados dois feridos numa emboscada. A resposta foi desproporcionada, para o que concorreu o trabalho complementar da PIDE/DGS.
Os soldados portugueses invadiram aldeias, arrasaram e incendiaram todas as palhotas. Os pides seleccionaram adultos para serem torturados, na mira de obter informações. O chefe tribal foi barbaramente espancado na situação de pendurado de uma árvore pelos pés. No final do suplício levaram o idoso, ainda vivo, para uma prisão na Beira. A população -- velhos, mulheres e as suas criaças -- fugiu aterrorizada. Os novos alistaram-se na FRELIMO, como aconteceu, entre outos lugares, em Nhansole com catorze rapazes.


Padre André Van Kampen
A distribuição estratégica dos grupos de guerrilha em Sofala tornou-se perceptível nos dois ataques seguintes, a 16 e 17 de Agosto. Em menos de 24 horas, duas Berliet do Exército foram alvejadas em Massanza, resultando feridos, com gravidade, três soldados portugueses. Um Jipe, lotado com agentes da PIDE/DGS, foi baleado 7 Km para sul de Muanza. De Muanza a Massanza distam cerca de 100 KM.
No rescaldo do primeiro ataque sofrido, a tropa colonial atingiu mortalmente uma moleira que, no momento, assomava à picada com um filho ao colo. Que também morreu. Os militares assaltaram também a escola da Missão  prendendo a turma inteira. O professor Carlito Chapo e os seus alunos foram levados para o quartel de Inhaminga onde, no dia seguinte, sofreram sevícias pelos mesmos agentes da PIDE/DGS que sobreviveram ao ataque ao ataque da guerrilha em Muanza.
Na terça-feira dia 21, ainda nesse mês de Agosto , o presidente da Câmara de Inhaminga deslocou-se à Missão e intimou o assistente religioso Jan Tielemans para ser interrogado, De hoje a oito dias, na delegação da PIDE/DGS na Beira. Este missionário, que nos últimos anos drsenvolvera com sucesso um projecto agrícola no Lundo, foi acusado de possuir documentos sobre os acontecimentos de Wiriamu em Tete

DA TORTURA AO NAPALM

Até final do ano, Inhaminga viveu horrorizado o clima angustiante da guerra suja que alastrou, de fora progressiva, a esta região. Penosamente, o Comando-Chefe tentava transplantar a experiência de Nangade --símbolo da empresa dos aldeamentos no Rovuma -- para a Zona Operacional de Tete --ZOT, e para o Comando Territorial do Centro -- CTC. O plano consistia em criar uma barreira intransponível ao terrorismo no seu caminho para Sul. Mas os guerrilheiros  já se encontravam a percorrer, sem dificuldade, esses mesmos caminhos disputando as mesmas populações.
Nas margens do rio Bawa, em Thombo, um administrador de Posto mais inflamado antecipou-se ao programa de concentração das populações e proclamou a criação pessoal de um aldeamento em pleno coração da tribo Suere. De novo, os jovens partiram para o mato, e os mais velhos recusaram ser aldeados. A reacção da FRELIMO veio a seguir, através da destruição das viaturas da tropa que patrulhavam a construção desse aldeamento privado.
Sem aviso prévio, a companhia de caminhos-de-ferro Trans-Zambezia Railwais --TZR despediu em Novembro a maior parte dos trabalhadores das bombas de água e outro pessoal que operava ao longo da Linha de Inhaminga. Os poucos que não foram mandados embora, a TZR despachou-os, igualmente sem qualquer explicação, para instalações de que esta multinacional dispunha no Corredor a Beira, muito longe das suas habitações. Foram substituídos por soldados rodesianos que ocuparam nas bombas de água de Mazamba, a 25 Km dee Inhaminga, Nhamatope, mais para norte, e Muanza, a sul. O medo cresceu nos funcionários da TZR deslocolizados.
Em Novembro de 1973, o Quartel - General em Nampula ordenou ao batalhão estacionado em Inhaminga um novo plano de acção que devia passar ao terreno de imediato. E a Companhia de Comando e Serviço, CCS, do BART 6221 deu início ao reconhecimento  ofensivo  e destruição de palhotas traçado na mesma ordem superior. A devastação começou em Nhantaze, perto do rio Timo
 da buine, 30 Km para o interior da Doronza, a ocidente de Muanza.
Ao mesmo tempo, a PIDE/DGS decidiu reforçar a sua rede de agentes e operações em Inhaminga. Os seus informadores deslocam-se constantemente às aldeias onde, palhota em palhotas, lêem avisos escritos em língua Sena onde se acusam os camponeses de fornecer alimentos aos terrorista. No final de cada incursão no mato, com o apoio da tropa, os pides regressavam sempre a Inhaminga com várias famílias detidas, para interrogatório e martírio.
Em Dezembro, a força aérea da Rodésia -- Special Air Service - estendeu os bombardeamentos, incluindo o napalm. à faixa que vem de Tete até Inhaminga, abrangendo a parte norte da Gorongosa. Os ataques dos dia 22, 24, 26 e 29 destacaram-se pela grande intensidade de fogo. No dia seguinte ao Natal, a coluna da 1ª Companhia do BART 6221, em missão de reabastecimento a Sena, accionou uma mina que destruiu uma Berliet à cabeça e deixou cinco dos seus homens moribundos.

A GUERRILHA ATINGE A BEIRA

Primeiros instantes de 1974,. O Comandante - Chefe das Forças Armadas de Moçambique, General Tomás Bastos Machado, festeja, discretamente, no aquartelamento do Fingoé, a passagem o ano.
As comunicações são péssimas, mas o oficial de quatro estrelas está rodeado de tropas especiais que lhe garantem, ao som do conjunto <<Os Unimogs do Ritmo >>, que toca no refeitório, celebrar em segurança a entrada de mais um ano de guerra em Moçambique.
No momento de erguer as improvisadas taças de plástico com cerveja morna, Tete profundo, a FRELIMO lançava o 



Estas locomotivas foram atacadas pela Frelimo
Uma série de explosões fez descarrilar comboios em Inharuca, e entre Machipanda e Beira. O número de feridos desta obriga a arrancar de Manica uma composição de socorro, que outro ataque do Inimigo também imobiliza, rapidamente. A oito Kms daqui, potentes rebentamentos projectaram pelo ar duas chaimites o exército. O dia de Ano Novo não acaba sem a destruição das bombas de água onde, em Novembro, a TZR tinha substituído guardas moçambicanos por rodesianos.
Na cidade da Beira há já guerrilheiros -- alguns armados -- que se passeiam pelas ruas principais, jantam nos restaurantes do cais, vão ao cinema no Scala ou no Olypia. Na manhã seguinte, os representantes da TZR sobrevoam de avioneta as bombas de água destruídas. Cantante Pinho, engenheiro-chefe da companhia, Elídio Tavares, director, e José Augusto Barros, administrador, declaram as bombas 
A PIDE/DGS abre novas instalações em Inhaminga, inauguradas com a detenção do Superior da Missão Católica, padre holandês Josep Martens, para efeitos de interrogatório.
É ano velho em Inhaminga.

O CALENDÁRIO DA AGONIA -- JANEIRO de 1974

1 de Janeiro. A 1ª CART montou segurança à ponte Dona Ana sobre o rio Zambeze, que liga Sena a Mutarara. Trata-se da maior ponte ferroviária de toda a África Austral -- 3750 metros -- construída nos anos 30 pelo engenheiro Edgar Cardoso.
Ponte Dona Ana. Liga Sena a Mutara. Obra do Engº Edgar Cardoso.
Inaugurada em 1936
2 de Janeiro. O Exército chega a Inharuca para dar início à Operação de salvamento e recuperação do descarrilamento do comboio ocorrido na passagem de ano. Reza a Ordem de Serviço que dois grupos de combate da 2ª CART. fazem a abertura da linha Inhaminga--Vila Fontes motivado por em 3123H30DEZ73 o comboio Sena--Beira ter accionado uma mina em Inharuca (3503,5.1730,5) (Operação Libélula 1). Durante esta operação foi capturado um elemento suspeito que transportava dentro de um saco uma caçadeira desmontada. Na mesma data, UM grupo de combate da 2ª CART deu escolta ao engenheiro da TZR até Inhatope e Mazamba onde a 31de Dezembro duas acções IN tinham destruído as bombas da TZR -- Operação Libélula 2.
3  de Janeiro. A bomba de água na Estação de Inhaminga foi alvo de ataque e ficou seriamente danificada. Por esse motivo, a tropa colonial deteve alguns transeuntes acidentais transportando-os para a esquadra da polícia onde, na condição de suspeitos, foram violentamente agredidos. Nestes calabouços encontrava-se sem culpa formada o régulo de Massanza. A sua situação foi denunciada pelo padre Martens quando este perguntou às autoridades o porquê da gritaria lancinante que continuamente ecoava,, dir-se-ia por toda a Inhaminga. Eram as mulheres ali detidas que, dessa forma, procuravam, e conseguiram, chamar a atenção sobre o seu chefe tribal.
4  de Janeiro. Dois grupos de combate da 2ª CART. iniciaram a Operação Libélula 4 com a finalidade de dar protecção, durante parte do seu percurso, a um comboio com materiais de construção para a barragem de Cabora Bassa.

6  de Janeiro. Chega a Inhaminga nova composição ferroviária com material para a barragem, desta vez acompanhada por militares do Comando das Cargas Críticas, estrutura com efectivos e vagões preparados para a defesa do comboio com fogo anti-aéreo, dirigida directamente pelo Comando-Chefe em coordenação com o Comando Operacional da Defesa de Cabora Bassa. Partira da Beira e registava já irremediável atraso pelo trabalho de desactivação de várias minas detectadas ao longo da linha. Comboio e Comando foram ainda alvo de fogo cerrado na própria estação de Inhaminga.
7  de Janeiro. Dez quilómetros após a retoma da marcha do comboio. à passagem da Milha 104, a guerrilha accionou à distância novo engenho explosivo que, desta vez, destruiu os carris numa distância de 20 metros. A PIDE/DGS entendeu castigar mais uma vez o professor de Massanza, preso desde 16 de Agosto, agora como suspeito-implicado no recente atentado ao comboio para a barragem. Às agressões matracas de borracha e cintos com fivela, os polícias juntam, a partir desta data, um novo aparelho recebido de Lisboa -- uma máquina de choques eléctricos.
8  de Janeiro. Um grupo de combate da 2ª CART iniciou a Operação Liébula 5 com a finalidade de reconhecimento ofensivo e perseguição a um grupo inimigo que em 07 de Janeiro às 21H30 atacou a pedreira da Companhia de Cimentos de Moçambique na Muanza.
Neste dia a a 1ª CART. efectua a Operação COLINA 5, nomadização e emboscada que terminou com a destruição de 8 palhotas. Neste dia, um avião DC  47/Dakota da FAP , ido da Beira para Vila Cabral, foi abatido antes de chegar ao destino.
12  de Janeiro. A 1ª CART. faz a Operação COLINA 7, nomadização e emboscada que terminou com a destruição de 20 palhotas e a captura de 7 elementos que tinham desertado do Centro de Instrução de Grupos Especiais (GE) durante a recruta no Dondo.
14  de Janeiro. As autoridades em Inhaminga reúnem e combinam, no decorrer da semana que hoje começa, tomar várias medidas de defesa e prevenção. O comandante da Companhia e Artilharia ordenou a evacuação de toda a população que reside perto da linha de caminho-de-ferro entre Santa Fé e a Milha 100. Mais decretou recolher obrigatório em Inhaminga a partir das 20 horas, para os brancos, e das 18 horas, para os pretos. Estes , durante as buscas diárias realizadas pelas Nossas Tropas às suas habitações, serão avisados do perigo de morte que corre todo aquele que seja visto nas imediações do caminho de ferro. O coordenador da PIDE/DGS, chefe Gorgulho, dterminou aplicar o método dos choques eléctricos na cabeça e no sexo não apenas aos adultos mas também às crianças que, no entanto, serão poupadas a esta tortura se confessarem ter visto os pais a fornecer alimentos aos terroristas
20  de Janeiro. A 1ª CART. cumpriu a Operação COLINA 11, nomadização e emboscada. Durante esta operação foram destruídas 60 palhotas e libertada do controle do inimigo uma mulher.
23  de Janeiro. Às 3h30, uma hora antes do nascer do Sol, a FRELIMO atacou o aquartelamento do Exército em Inhaminga. O telhado do refeitório destruído e as janelas todas estilhaçadas. Os guerrilheiros afastaram-se. Não houve baixas, mas a tropa foi incapaz de qualquer reacção. Só duas horas depois soldados saíram à rua e abateram com rajada dois homens que passavam a caminho do seu trabalho -- Catemo, o pintor da TZR, e Creva, funcionário municipal da Inspecção da Madeira, ambos pessoas muito conhecidas na comunidade de Inhaminga. A população branca, em pânico com a acção terrorista, manifestou-se logo nessa manhã junto do aquartelamento metralhado. O comandante reagiu, aos primeiros gritos na rua, determinando que os corpos dos cidadãos pretos Catemo e Creva permaneceram expostos na via pública durante todo o dia, e justificou a sua descisão com a necessidade de mostrar a determinação do Exército em defender as famílias do terrorismo. Os brancos que se juntaram no local exigiram, ali mesmo, que a topa fosse destruir a bomba de água da Missão. Os padres foram ruidosamente acusados de apoiar os guerrilheiros.
24  de Janeiro. Chegou a Inhaminga o Governador da Beira, Coronel Souza Telles, para se inteirar da situação e tratar de ouvir as queixas dos brancos. É-lhe exigida a atitude firme contra os missionários, insistentemente acusados de proteger a guerrilha e de esconder os seus elementos dentro da própria Missão, alimentando-os e prestando-lhes cuidados aos ferimentos de guerra. De maneira exacerbada, os colonos também garantiram ao Governador que a Missão sempre funcionou como depósito de armas e munições da FRELIMO. Neste contexto, o alto representante do Governo Geral autorizou uma minuciosa revista a todas as instalações da Missão em Inhaminga. As buscas foram acompanhadas pelo Presidente da Câmara, pelo chefe da PIDE/DGS, pelo intendente da OPVCM, pelo próprio Governador da Beira e por muitos brancos armados que devassaram a instituição religiosa durante longas horas. Nada foi encontrado que comprometesse os religiosos. Apesar disso, o Presidente da Câmara foi incumbido de notificar o Superior da Missão de que, a partir de agora, os padres e os seus colaboradores não poderiam do centro urbanizado de Inhaminga . O padre Martens considerou que a situação assim criada correspondia a prisão domiciliária. E recordou, acautelando decisões futuras das mesmas autoridades, que a bomba de água da Missão abastece não apenas a comunidade missionária mas também a maior parte das famílias brancas que vivem em Inhaminga. O Superior foi obrigado a aceitar por escrito as ordens recebidas, sob a ameaça de sofrer medidas mais graves, caso continuasse a alegar neutralidade em relação ao conflito. O Governador deu por finda a vistoria, sugerindo aos missionários que  Em vez de apoiarem os selvagens, deveriam antes dedicar-se a convencer os gentis a deslocar-se para os aldeamentos construídos para eles pelo governo. Cá fora, durante o dia foram espalhados por áreas estratégicas da Vila  -- como as imediações do aquartelamento -- panfletos redigidos em português, em inglês e em chisean, exigindo a libertação do chefe tribal Moisés Pangacha. A guarda ao quartel, que não conseguiu detectar quem distribuíra os papeis acabou por abrir fogo intimidatório sobre os barracos onde se depositam os terroristas antes de serem transportados para as valas de execução, nas imediações do aeródromo. Alguns morreram, por antecipação.
28  de Janeiro. 
Na Missão o número de crianças que ali procura curativos aos flagelos sofridos por parte dos agentes da PIDE/DGS aumenta de dia para dia. A Irmã Joana anotou o nome de Nhamataka Miti, 10 anos de idade, e Tembo Lole, de 8, com dedos a sangrar por lhe terem sido arrancadas unhas. aviam respondido NÃO à pergunta Os turras estão lá em tua casa? Os miúdos não recorreram ao hospital porque Também tem PIDE. Hoje um helicóptero da Força Aérea munido de altifalante passou a manhã a convocar. Toda a população de Massanza para se juntar no último dia de Janeiro, quinta-feira, dentro de três dias. Folhetos coloridos caídos do céu reforçavam que Os habitantes  vão ser deslocados para novos aldeamentos, ainda por construir. 


Antigo quartel do Exército português em Inhaminga
A FRELIMO atacou pela terceira vez o aquartelamento do Exército português. Ao cair da tarde chegaram 60 GE - Grupos Especiais apresentados apresentados pelo Governador do Distrito como parte de um contingente de 650 já deslocados do Norte, lá de Cabo Delgado, para o Dondo.
31  de Janeiro. Manhã cedo, várias Berliet partiram de Inhaminga para Massanza com o objectivo de recolher a população local, conforme o anunciado três dias antes. Quando a tropa lá chegou a povoação encontrava-se deserta. Os seus habitantes tinham partido para o interior da Gorongosa. A Norte, um grupo inimigo emboscou a coluna da 1ª CART de reabastecimento a Sena sem consequências

NOTA: a Wikipédia explica que "SENA" não é só o nome de uma localidade junto ao Rio Zambeze na qual os antigos portugueses desde o Século XVI  tentaram fazer negócio com os locais, É o  nome do grupo étnico distinto e que a partir do Séc. viveu "encaixado" entre as então grandes potências na região, o reino da MONOMOTAPA a Sudoeste (onde fica o ZIMBABUÉ hoje), de extracção SHONA, e os MARAVI a Norte (onde fica o MALAWI), de extracção NYANHA-CHWA.



SENA é ainda uma língua falada em Moçambique por cerca de um milhão de pessoas, em pelo menos dois dialectos diferentes.
A ponte ferroviária de DONA ANA , o nome vem-lhe de uma célebre D. ANA CATIVA, arrendatária do grande PRAZO de MUTARARA, que se estendia pelas margens do ZAMBEZE, ZIUZIU e, muito provavelmente, do CHIRE - foi aberta ao tráfego em 14 de Janeiro de 1935. Os seus 3.677 metros de comprimento, distribuídos por trinta e três arcos principais (arcos metálicos triangulados, sobre pilares maciços), com oitenta metros de altura cad, tornaram-na na époc, a maior pontr ferroviária de África e a terceira a nível mundial, senso sem dúvida ainda hoje uma das peças mais valiosas do património arqueológico industrial moçambicano.
Em 1930, a recém constituída NYASSALAND RAILWAY LTD decidiu estabelecer uma ligação directa entre as linhas da CENTRAL AFRICA RAILWAY CO. LTD e da TRANS-ZAMBEZIA, garantindo assim o tráfego ferroviário continuo entre a NIASSALÂNDIA e a Beira.
A construção iniciar-se-ia do lado de SENA, em Janeiro de 1932. O trabalho de construção foi muito difícil, em virtude de não se terem encontrado fundos de rocha no leito do rio ( dos trinta e quatro pilares principais, apenas dois são cravados directamente na rocha, na margem esquerda) tendo-se empregado cerca de 6.000 trabalhadores durante a realização da obra.
Durante a década de 1960, as populações pediram como solução de recurso, o lançamento de uma passadeira rodoviária na ponte, para evitar onerosas e demoradas travessias de automóveis em cima de vagões. Porém, a construção da ponte rodoviária (Ponte Marcelo Caetano/ Ponte Samora Machel) ligando a cidade de TETE ao MATUNDO, em 20 de Julho de 1972, veio pôr fim a estas reivindicações. Após a independência, e no decorrer da guerra civil em que viveu o país, viria a ser convertida em ponte rodoviária, situação que se manteve até Setembro de 2008, quando se realizaram trabalhos que a reconduziram à sua vocação inicial, no âmbito da reabilitação da LINHA do SENA.

A Ponte Dona Ana na sua fase de construção

A chamada experiência colonial com os SENA foi ainda mais típica que o costume: durante quase quinhentos anos de essencialmente contactos esporádicos (salvo a partir da primeira metade do Século XX, e mesmo aí)os portugueses fizeram aquilo que melhor sabiam fazer nas suas colónias: pouco, quase nada, ou rigorosamente nada. No caso da terra dos SENA, fizeram quase rigorosamente nada a não ser chateá-los a partir dos anos 20-30 para cultivarem algodão obrigatoriamente, o  que não caiu lá muito com os agora "colonizados". Eventualmente apareceram uns senhores da recentemente criada Frelimo a prometer correr com os portugueses dali para fora, o que foi mais ou menos bem recebido, e hoje os SENA fazem parte do rico mosaico moçambicano, não sem antes levarem em cima com os efeitos das guerras de Samora contra Ian Smith e logo a seguir da guerra civil. continuam a reclamar que ninguém faz nada por eles.

86 anos depois do início da sua construção, ela aí está, toda imponente!!!

Foi destruída mas.... reconstruída!!!

OS CAMIÕES DA MORTE


 1 de Fevereiro - O 8º período de actividades do BART 6221, que hoje tem início, não trouxe alterações de monta em relação ao previsto no papel. Dá ênfase à necessidade de operações conjuntas CCS/2ª CART. mas, sobre a situação de Muanza, o Comandante Tenente-Coronel Rubi Marques decide Manter uma secção de combate na Pedreira com reforçoU a sua auto-defesa - a Operação Ovo 6.
 2 de Fevereiro - Seis carruagens de um comboio misto, passageiros e mercadorias, oriundo da Beira, foram pelos ares na passagem da Milha 65, a cerca de 10 Kms da estação de Cundué. A PIDE/DGS chegou ao local e prendeu um seminarista de Murraca, o único preto que viajava no comboio sinistrado.
 3 de Fevereiro - À Milha 94, mais perto de Inhaminga, os guerrilheiros interceptaram João Carrelo, mecânico da empresa Codauto, que viajava de jipe para a Beira. Nada se sabe sobre a sua reacção, mas quando tentou fugir foi abatido. Acorreram alguns soldados que prontamente detiveram, de forma avulsa, homens e mulheres atraídos ao local pela curiosidade dos tiros. Neste domingo a morte do Carrelo esvaziou de colonos a primeira missa na Missão, mas encheu o centro da vila com uma pequena multidão de brancos assustados. Em cólera voltaram a dar à tropa e à polícia exemplos de como se deve tratar os pretos. Três africanos, que se preparavam para entrar no autocarro para Quelimane, foram encurralados na padaria, perto da paragem, e sovados até o sangue espirrar. Os colonos repetem que estas agressões, em defesa das suas famílias, provam o Ódio ao terrorismo que sentem. No final arrastaram as vítimas até à entrada da Esquadra da polícia  e deram início a um cortejo automóvel que, por entre gritos e disparos para o ar, passeou pelas ruas de Inhaminga, até ao pôr do Sol, o cadáver do branco Carelo morto de manhã.
 4 de Fevereiro - Uma anunciada DELEGAÇÃO de BONS CATÓLICOS , foi denunciar à PIDE/DGS o facto de a Missão manter a porta aberta durante a noite para receber os terroristas. O responsável da Missão foi imediatamente chamado à polícia. Na ausência do Superior, compareceu o padre Andreas van Kampen, que repetiu aos pides ser a porta da Missão fechada , todos os dias, por ele própria, às 5h30 da noite, só reabrindo de manhã. Um numeroso grupo de OPVDC partiu, fortemente armado e sem desvendar intenções, para Muanza. A PIDE/DGS prendeu o professor da escola em Dimba, Luanga Manuel Chomba. Mais panfletos lançados de uma avioneta convocaram desta vez  toda a população da  comunidade de Moisés Pangache para ser transladada para Inhaminga. Pára-quedistas do BCP 31, estacionados na Beira, chegaram a Inhaminga. À Beira deslocou-se o Superior da Missão Padre Josep Martens, que, acompanhado do Administrador Apostólico, Monsenhor Francisco Nunes Teixeira, Bispo de Quelimane, e do Vigário-Geral da Diocese, padre José António Sousa, apresentou queixas formais ao Governo do Distrito sobre os maus tratos infligidos às populações em Inhaminga, perpetrados pela tropa, pelos brancos e pelos agentes da PIDE/DGS.
  7 de Fevereiro - Uma patrulha do Exército transportada em Unimog chega a Condué, já depois de Nhondima e perto do local onde estrada e comboio se cruzam. A força chega ao centro da localidade e os elementos da população ali presentes, junto às lojas, dispersam e afastam-se rapidamente. Alguns desatam a correr e a tropa faz fogo de prevenção ou atira a matar, mesmo que estejam quietos - como aconteceu com o guarda do armazém de madeira na Estação de caminhos-de-ferro, José Thembo. Quando o Exército reparou nele, Thembo encontrava-se sentado à porta da sua palhota, juntamente com a mulher, Farenca, os filhos Carlos, Rita, Rufa e Chana, mais a cunhada Flora, todos paralisados de medo. Rajadas de metralhadora atingem o guarda na cabeça e a cunhada numa perna. A mulher caíu para trás fulminada, José e Flora, que ainda davam sinais de vida foram levados para dentro da palhota, a que a tropa chegou fogo. O estalar do colmo pelas chamas, cada vez mais forte, abafou os gritos lancinantes das criaturas a serem queimadas, O Condué fora pacificado, e o relatório da operação apresentou bons resultados.



  9 de Fevereiro - O dia em que o enviado da fábrica do Dondo toma conhecimento factual do santuário do massacre montado em Muanza - e que constitui a abertura, em destaque, deste capítulo - coincide com novos ataques da FRELIMO em Inhaminga. Os alvos de hoje foram as bombas de água da vila, o acampamento dos pára-quedistas na estação dos caminhos de ferro e o palacete de férias do Governador de Sofala. Uma coluna de tropas que regressava do Caia, foi alvejada pelos guerrilheiros, que provocaram um morto e vários feridos. Um comboio de passageiros sofreu o descarrilamento de 12 das suas carruagens, quando passava em Derunde, no local onde os parafusos dos carris haviam sido desapertados. Tropas de Comandos e de Pára-Quedistas efectuaram uma operação de limpeza à aldeia de Dimba, obrigando a sua população a abandonar as palhotas que a seguir foram reduzidas a cinza. Os agentes da PIDE/DGS ameaçam, a partir de hoje, individualmente, todos os  Régulos da região de Inhaminga para que obriguem os nativos a deslocarem-se para os novos aldeamentos. Chico Romão, chefe tribal de Souce, perguntou onde foi construído o seu aldeamento, uma vez que que queria ir pelo se pé. Luís Nhaguta, agricultor da região muito popular pela quantidade e qualidade da lavoura que produzia, foi igualmente intimidado a abandonar as suas machambas. Os camiões vêm buscar toda a gente nos próximos dias. Romão e Nhaguta recusaram-se a partir, motivo pelo qual deram entrada nos calabouços de Inhaminga, sofrendo agressões diárias. Até chegarem os prometidos camiões, então com destino diferente.



10 de Fevereiro -  A FRELIMO ataca a pedreira de Muanza, mata o gerente Jacinto e a sua mulher, e fere gravemente o comandante e subcomandante do Destacamento da 2ª CART. no local. No momento, os quatro percorriam de Jipe a zona das valas. O responsável pela segurança militar à pedreira foi evacuado para o Hospital de Lourenço Marques . Milícias brancos da OPVDC e mercenários pretos dos GE encerraram as escolas com paredes e telhado do Corredor de Inhaminga, começando pela de Santa Fé, no paralelo de Pangache. Patrões as serrações e régulos que operam e habitam perto da linha de caminho de ferro queixaram-se ao Exército do fogo que constantemente vitima os seus trabalhadores e habitantes, atingidos pelos disparos dos soldados que, em missão de vigilância  e protecção, viajam dentro dos comboios. Eles vêm às janelas das carruagens, apontam aos desgraçados e atiram a matar, reclama João Menano, o madeireiro de Inhaminga, para quem nem tudo o que é preto é turra, alguns são meus e fazem-me falta,
11 de Fevereiro - No dia seguinte ao ataque em Muanza, o BART 6221 reage e faz avançar uma força no terreno. Regista a Ordem de Serviço da Unidade que a Operação OUVIDO 9, 1 Grupo de Combate da 1ª CART. iniciou batida e perseguição do IN onde ontem o pessoal da 2ª CART. destacado na Pedreira de Muanza havia sofrido uma emboscada. Sem resultados.
13 de Fevereiro - Na Missão, após o acto litúrgico da manhã, católicos que trabalham em Inhaminga e habitam na periferia mostram-se apavorados com as atitudes continuadas dos militares portugueses que sempre fazem mal nas nossas famílias. Queixam-se ao religiosos que agora cada vez fazem mais entrar na palhota, mostrando G 3 ao homem e violam mulher ou filha, mesmo pequena, e isso traz gente muito assustada com medo em Inhaminga. Deram o exemplo mais recente de Catarina Bramo, mulher de Rengo Charengi, violada por dois soldados. Esta mulher dirigiu-se ao hospital. Esta mulher dirigiu-se ao hospital onde o médico confirmou os motivos da dor, dos danos, das ofensas e o grau de violência, Tudo visto pelo senhor Director. Com esta declaração, assinada pelo Drº Arménio Janeiro, Catarina e Rengo foram apresentar queixa no quartel da tropa. Aqui, o casal foi informado de que Ninguém se pode queixar da tropa. Vão-se embora!
14 de Fevereiro - Mais um contingente de 160 GE chegou a Inhaminga, que já não dispõe de espaço para levantar bivaque. O chefe Gorgulho da PIDE/DGS contactou a Missão exigindo que esta tropa seja aí alojada. O Superior recordou ao polícia que tal que tal só seria possível com autorização conjunto do Bispo da Diocese e do Governador do Distrito. O pide retira-se e escolhe a escola de Santa Fé, encerrada na véspera pelos colonos. Os GE, quando se instalaram, intimaram os professores a obrigar As alunas, só as raparigas, a voltar para a escola porque vai haver aulas.

PÂNICO EM LOURENÇO MARQUES

15 de Fevereiro - Dois camiões carregados de homens, mulheres e crianças - trazidos de Cherimazi e de Matondo - chegaram ao aquartelamento de Inhaminga, onde foram despejados e submetidos a um simulacro de interrogatório. Às mulheres, já noite, foi autorizado o regresso, a pé, às suas aldeias, com as crianças, a maioria e colo. Os homens voltaram para os camiões. Pides, milícias, nem os tropa sentiram necessidade de invocar os aldeamentos. Foram todos conduzidos às valas, abertas pelos bulldozers do Exército, no meio do mato, mas perto da picada que, pelas traseiras do Hspital de Inhaminga, vai dar a Thombo e, na continuação, a Massanza. Neste local são executados. Caem nas covas.
16 de Fevereiro - Os páras avançaram sobre TUTU, situada nas imediações, cerca de 4 Km, de Inhaminga, do lado esquerdo da linha de caminho de ferro. Incendiaram as palhotas enquanto a população fugia, em pânico, impedida de recuperar qualquer haver. O presidente da Câmara e o pide Teixeira partiram para Muanza com mais 50 colonos armados. 
Entre Sena e  Caia, o comboio foi atacado pela guerrilha, registando-se vários mortos e feridos, entre os quais alguns cidadãos do Malawi. Seguno a PIDE/DGS, neste dia faleceram na prisão o régulo Moisés Pangacha, Zenha Nhenua, Cerveja e Maria, todos vítimas de cólera. Não foi possível provar a existência da doença de cólera, mas, em relação ao chefe Pagacha, a notícia é falsa.
17 de Fevereiro - A 1ª CART. faz a Operação OUVIDO 23 para colocar os Guardas Rurais da Administração de Cherigoma nos locais dos futuros aldeamentos em Mazamba, Souce, Codzo e Birira. As forças desta operação vieram a ser emboscadas por três vezes, duas delas na picada Inhaminga - Mazamba e na picada Inhaminga - Codzo, sem consequência para as NT.
18 de Fevereiro - O administrador do Concelho de Inhaminga revelou que os chefes das aldeias de Nhansol, Nhataza, Goronga, Chiquiri,, Muandimai, Nhaminga e Goinha desapareceram na floresta, levando consigo as respectivas populações calculadas em 15 mil nativos, que agora se encontram nas mãos da FRELIMO. 
A Administração nada sabe dos seus paradeiros, não sendo possível ir buscá-los ao interior do mato. A PIDE/DGS, aproveitando a a abertura de mais valas nas picadas de Massanza, decidiu aliviar os calabouços da tropa e da própria polícia, sobre-lotados nos últimos tempos, transportando para a frente dos pelotões de fuzilamento mais quatro dezenas de terroristas e seus apoiantes . Ainda nesta data, a tentativa de aldear a população de Nharuge custou uma batalha de fogo intenso entre o Exército Colonial e a FRELIM, em torno da aldeia, com baixas nos dois lados. Na zona de Inhamitanga descarrilou mais uma composição ferroviária.
19 de Fevereiro -  Com o reforço de mais tropas auxiliares deslocados de Cabo Delgado e Niassa, o número global de GE, GEP - pára-quedistas e GEPC - pisteiros de combate - já atingiu 500 combatentes em Inhaminga. Parte desta tropa, fardada de negro, acompanhava o Exército regular nas acções de controlo e intimidação sobre as populações. Nas lojas, nas paragens dos machimbombos , no Hospital, às portas da Câmara e da Igreja, os GE interpelavam homens e mulheres, jovens e velhos. Com quem estiveram a falar? Porque fizeram compras? Para quem é isso que levam aí? Que foram fazer à Missão? Onde estão os teus pais?
20 de Fevereiro - Ao raiar do Sol, grupos da 1ªCART efectuaram uma Batida na região de Codzo 33555.1832, em virtude de na noite anterior os Guardas Rurais ali estacionados terem sido atacados. - OPERAÇÃO OUVIDO 26. Pelas 9 horas, observa-se um movimento intenso de pessoas, no centro de Inhaminga. A inquietude é grande. Já não é possível aos camiões civis, ou da tropa, entrar ou sair da vila de forma despercebida. Em camions de caixa aberta, dezenas de homens e rapazes, condicionados entre taipais de Berliet e canos de G 3, transitam em direcção às valas comuns. Os de hoje foram capturados em Mbawa, Codze, Nhamabere, Massanza e mesmo Inhaminga. Nenhum vai regressar para contar como foi, tinha garantido o chefe da PIDE/DGS aos comandantes das diferentes forças no terreno, logo nos primeiros carregamentos.
21 de Fevereiro  Um Grupo de Combate da 1ª CART., iniciou uma nomadização de 3 dias entre o Matondo e Santove - OPERAÇÃO OUVIDO 27, e outro GC deu escolta a pessoal dos CTT a fim de repararem a linha telefónica de Inhaminga-Vila Fontes, a OP. OUVIDO 28. O comboio da manhã para a beira sofreu um ataque entre Nhangue e Lavos. O fogo da guerrilha matou soldados da NT e civis.-Um deles é branco - Fernando Oliveira, funcionário da Companhia TZR. Registou-se também um número elevado de feridos, muito mal tratados. As autoridades foram instruídaspara capturar todos os indígenas que se encontrem numa área de emboscada e transportá-los para as instalações da PIDE/DGS em Inhaminga. Neste dia, os militares trouxeram três centenas de aldeões. O comandante da força GE destacada esclareceu que a ordem de captura nada ter a ver com o metralhar do comboio, mas sim com a evasão de um terrorista que seguia como prisioneiro numa das carruagens sinistradas. A morte do branco Oliveira serviu de motivo para outra manifestação de repúdio em Inhaminga. A população branca concentrou-se muito exaltada em frente da Administração do Concelho, exigindo a presença do Governador-Geral da Província, engenheiro Pimentel dos Santos, e o encerramento imediato da Missão Católica. Esta reunião dos colonos prolongou-se durante o rresto do dia e só se desfez quando, por telefonema de Lourenço Marques, chegou a promessa de deslocação a Inhaminga do Secretário Regional para a Indústria e Transportes do Governo, Vilar de Queiroz, acompanhado pelo Governador da Beira, Souza Telles.
Num voo da Beira chegaram ao aeródromo de Inhaminga os responsáveis da TZR, Pinto Bessa e Elídio Tavares, Para se inteirarem da situação e tomar medidas urgentes, como anunciaram os próprios à chegada. No mesmo avião foi despachado o corpo do empregado Oliveira da TZR, A FRELIMO flagelou Massanza, surpreendendo por completo os pelotões de GE ali em acção, que não reagiram. A tropa colonial sofreu vários feridos, entre eles o próprio comandante da força.
22 de Fevereiro Nova concentração de colonos é convocada manhã muito cedo em Inhaminga. Um Jipe, com altifalante instalado, atroou pelas ruas Todos os portugueses brancos!-14 horas! - Em frente ao Posto! - Vamos mostrar a nossa força às Autoridades! - Que ninguém falte! Do miolo dos manifestantes saiu um grupo que foi reunir no interior do edifício com o Secretário do Governo Provincial e o Governador do Distrito. Pelas 21 horas, a reunião foi dada por concluída. O Coronel Telles declarou que, Para já, não foram encontrados motivos, fornecidos pela PIDE/DGS ou outrem, que justifiquem a prisão dos padres da Missão, respondendo desta forma à reivindicação fundamental dos colonos. À saída, governante e delegado foram informados da paralisação dos comboios, que decorre. Os altos funcionários da TZR haviam já comparecido na Estação gritando ordens para Pegar imediatamente ao trabalho! No entanto, as mulheres dos maquinistas, dos outros funcionários a bordo e do pessoal em terra da TZR acorreram às instalações ferroviárias e sentaram-se na linha, apoiando desta forma os seus maridos em greve. E os comboios não andaram. Os madeireiros da região deram a conhecer ao Engº Queiroz a sua decisão de abandonar as serrações.


Comboio da TZR em Inhaminga
23 de Fevereiro Os camions da morte seguem sempre o mesmo trajecto. Em Inhaminga vão por trás do hospital, por trás da pista de aviação. Em Muanza, por detrás das minas, por detrás do monte. Bem no centro da Vila, o sussurro já é um grito, o boato já é certeza. Nas aldeias dizem que estão a desaparecer muitos homens no mato. Vão empurrados, na ponta dos tapa-chamas, a furar as costas. Hoje, às seis horas da manhã, quem os viu à saída da prisão contou quarenta e oito, metade de cada vez. Eles estão a conferir os nomes à polícia e já voltam. Mas, como os antecessores não regressaram nunca. À tarde apresentaram-se os Comandos em Inhaminga. Saudaram a tropa convencional com um MAMA SUMA, AQUI ESTAMOS, Prontos para o sacrifício! e continuaram para Norte, também já não cabem aqui. A 6ª Companhia de Comandos vai montar as tendas junto à Estação de Inhaminga, onde já se encontram estacionados os páras. Também para Inhaminga seguiu partiu uma formação da 1ª CART. Levaram a missão de salvar - Operação Ouvido 30 - os camaradas da mesma Companhia que se encontravam perdidos na Serra de Tchiquizire desde o dia 19, altura em que procuravam cumprir a Operação Ouvido 24.

25 de Fevereiro Com o tráfego ferroviário paralisado ao longo de todo o Corredor da Beira , o secretário dos Transportes Queiroz tomou uma medida no regresso ao Palácio da Ponta Vermelha, onde prestou contas ao Governador-Geral. Deu ordens à DETA para a criação da Ligação Beira-Inhaminga três vezes por semana, fazendo anunciar nos jornais a sua decisão como o Fim do isolamento da Vila. O relatório da Operação 15/74 - Ouvido 27 - regista que foi destruído um número incontável de palhotas por meios de incêndio em Inhaminga. O mesmo documento não refere mais dados, mas esclarece que no local da acção não havia homens. Só mulheres.   



28 de Fevereiro O BART 6221 elaborou um breve estudo das vias de comunicação na região e refere asfixiamento da picada no Cumdué, no Codzo e em Inhaminga. Deixou de ser possível abastecer as cantinas de Mazamba e no Monte Tchiquirize. O trabalho de desmatação de oito quilómetros de picada de Inhaminga até Pangache demorou oito dias.

CÓLERA e ÊXTASE

  2 de Março  A denúncia do massacre das populações de Inhaminga já tem as primeiras listas. Às mãos do Suprior da Missão chegaram relações de vítimas com origens surpreendentes, como são os casos de homens arrancados ao Dondo e até, mais a norte, a Mafambisse. Mais próximo, porque ligados ao trabalhodos missionários, chocam os nomes do professor de Dimba, Lwanga Manuel Chombe,dos régulos Chidanga e os seus filhos José e Santove, de Luís Vontade e os seus dois filhos já homens, de Manuel Penga, de Jone Sampaio, de Jorge Maio, de Nicolau Alfândega, de Sande Nensa, de Chale Nkalamu, de José Cadeado e tantos outros abatidos na condição de supostos suspeitos. 
  3 de Março É domingo. Final da missa na Missão. À porta da Igreja, os dois únicos cantineiros de Mazamba, Mussa e Barroso, aguardam, em silêncio, a presença do padre Martens. Chegaram de madrugada a Inhaminga, transportando consigo todos os haveres e mercadorias das suas lojas. Pela tarde, também de forma inesperada, chegaram os professores do mesmo regulado. Nenhum quer voltara a Mazamba.
 7 de Março Os pára-quedistas anunciaram em Inhaminga ter alcançado um grande sucesso numa operação de elevado risco levada a cabo em Mazamba. Na sequência dessa acção decidiram expor, durante o dia de hoje, no seu acampamento - base, cinco corpos de frelimos mortos por nós em combate. A PIDE/DGS, paralelamente, organizou para o fim da manhã uma manifestação espontânea da população branca, cujos principais representantes aceitaram pagar um Almoço de Honra aos Vencedores, enquanto sinal de gratidão pela Derrota do Terrorismo. Como complemento desta Homenagem à Valorosa Tropa Portuguesa, a PIDE/DGS trouxe desde os calabouços de Inhaminga o régulo da circunscrição onde alegadamente terão sido abatidos estes cinco homens ali em velório festivo. Esse régulo era Moisés Pangacha, o mesmo que a própria polícia política dera como morto há três semanas atrás. Sobrevivente aos azorragues da prisão, Pagachaé agora obrigado a novo tese, Vais identificar os turras aí no chão, alinhados ao lado das armas que os pára recuperaram heroicamente. O régulotinha a seus pés, dilacerados por balas, os corpos de Domingos Moisés Pangacha e de Marcos Moisés Pangacha, os seus dois filhos mais velhos. Respondeu Não conheço, Não sei quem são. Os pides foram então buscar a uma das suas viaturas, onde mantinha escondida, Bastiana Moisés Pangacha, a filha do soba. Ao chegar à zona da homenagem aos páras, Bastiana caiu de joelhos a chorar sobre os restos dos seus irmãos, denunciando-os involuntariamente sem dar conta da macabra encenação montada pela PIDE/DGS. Pangacha e Bastiana foram imediatamente levados e executados. Em Inhaminga, ao relatar mais tarde o espectáculo que os brancos aplaudiram, o chefe Gorgulho gabou-se de ter soterrado o Pangacha ainda vivo. A partir de hoje, a Base Aérea nº 10, da Beira, estreou os sseus bombardeiros em Inhaminga. Durante quatro dias, os Fiat despejaram quantidades incalculáveis de napalm sobre as aldeias do régulo Pangacha - Nhamatope, Massanza, Noto, Nhamabere, Nhaduwe e Mfepo. Cá em baixo, os colonos brindavam à Força Aérea.
 9 de Março A 1ª  procedeu, na sua área de intervenção, à destruição de 15 palhotas - Operação Trovoada.
10 de Março Os sapadores da 3ª CART. levantaram um engenho explosivo com trinta petardos de trotil, mais dois detonadores pirotécnicos e um dis parador de pressão ao Km 227 dda linha de caminho de ferro da TANZÂNIA  
13 de Março A 1ª CART. procedeu, na sua área de intervenção, à destruição de 20 palhotas - Operação Toupeira.
14 de Março Mulheres, algumas com filhos às costas, outros pelas mãos, correm à Missão para denunciar a partida de mais berliês, repleta de pretos, em direcção às valas comum de Inhaminga
15 de Março  Em Inhaminga, de frente para a Missão, a comunidade branca mais activa organiza uma manifestação de ódio e repulsa pelos padres, obstinadamente acusados de apoiar os turras da FRELIMO. O Superior Josep Martens, regressado de um périplo por todas as missões dependentes da sua Congregação no Corredor da Beira, promoveu uma reunião com os missionários António Verdaasdonk, André van Kampen, João Tielemans e a freira Joana, coordenadora das irmãs rodesianas que trabalhavam em Inhaminga. Decidiram, por unanimidade, abandonar a Missão, cancelando a partir de hoje a rede de apoio às populações. Escreveram um documento com as suas razões, que enviaram ao Bispo de Quelimane e ao Administrador Apostólico da Beira, monsenhor Francisco, e ao Vigário-Geral, Padre Souza. Ambos os responsáveis religiosos foram convidados a deslocar-se com urgência a Inhaminga. Chega às valas de Inhaminga mais um camion de terroristas presos.
17 de Março Bispo e Vigário chegaram à Missão e reuniram de imediato com sacerdotes e irmãs. Deslocaram-se a seguir `sede da Administração local de Inhaminga, onde comunicaram o encerramento das suas instalações religiosas. Celebraram, durante o dia, três missas em português, durante as quais explicaram, perante a Igreja quase vazia, que já não faz sentido ser missionário nesta terra. O chefe do Município lamentou ao bispo que os missionários tenham sempre assumido uma posição neutra no conflito, uma Posição que lhes serviu de capa na ajuda aos terroristas contra nós, os europeus. Além disso. quase gritou, os senhores padres nunca colaboraram na fundação dos aldeamentos para as populações, exasperou aos padres o administrador colonial. Antes de partir, já ao fim da tarde, o bispo ainda ouviu duas mulheres. Ao telefone, desde a Beira, atendeu a irmã Maria di Carli, das Filhas de S.Paulo, que dirigia o Centro Pastoral da Beira, informando que a PIDE/DGS, na ausência do Bispo, lhe entregara um aviso de expulsão da Província, pelo qual teria que deixar Moçambique até às 16 horas de amanhã. Em plena rua Monsenhor Francisco sentiu agarrar-se-lhe à sotaina em choro convulso, uma mulher que apontava, de dedo e braço estendidos, um camião repleto de pretos, a caminho dos campos de abate. MEU-MA-RI-DO-VAI-A-LI. soletrava a infeliz, um soluço por cada sílaba. O Bispo de Quelimane terá muito que contar na Conferência Episcopal que se realiza já na próxima sexta-feira.
19 de Março No caminho para o aeródromo de Inhaminga, onde uma avioneta os esperava, missionários e irmãs passaram inevitavelmente pelos calabouços da PIDE/DGS, a menos de um quilómetro da pista. A azáfama era grande, para horror dos religiosos, sentados nos jipes que os transportavam. Os camions chegavam, repletos de homens. Todos entravam na prisão, enquanto outros saiam. Estes, após curta espera ao ar livre, subiam para os mesmos camions da morte. Neste lapso, fugaz, de tempo, os padres conseguiram reconhecer os irmãos Jorge e António Sapateiro, Chico Salis e Albino, o fiscal dos contadores da água em Inhaminga.
20 de Março  A FRELIMO, ao atravessar a região de Inhaminga, reforçou a sua estrutura de combate na floresta pa ESTE da linha ferroviária, na antecâmera da Gorongosa. O avanço para SUL, ultrapassada Muanza, apontava Semacueza, a seguir o Dondo e, finalmente, a cidade da Beira.
No Mapa poderão ver as localidades Inhaminga, Gorongosa, Muanza, Condué Dondo e Beira.
O domínio de Cheringoma, vencido o Planalto, permitiu controlar as oito serrações de  madeira ali montadas e a pedreira de calcário. Hoje registou-se o primeiro ataque a um carregamento de minério, já em trânsito com destino a Nova Maceira. Antes do entroncamento em Muanza, perdeu-se a pedra, perderam-se os camions e um dos condutores perdeu a vida. Esta situação repetiu-se nas tentativas seguintes de escoamento do minério.
A 1ª CART. procedeu, na sua área de intervenção, à destruição de vinte palhotas - Operação Tostão. À noite em Inhaminga, a PIDE/DGS entregou cópia de um telegrama aos comandantes da tropa onde se anuncia terem sido detectados mísseis SAM 7 n Zona Operacional de Tete.
23 de Março A 1ª CART. procedeu, na sua área de intervenção, à destruição de doze palhotas - Operação - Tontice. A Conferência Episcopal de Moçambique, reuniu em Quelimane, declara que não está contra a autonomia e a independência.

MATAR TODOS, DESTRUIR TUDO!

 1 de Abril  Na sequência de um protesto pelos acontecimentos em Muanza no passado dia 20, apresentado directamente ao Governo de Lisboa pelo explorador da pedreira, o Comando-Chefe em Nampula reforçou a Directiva OP de 23 Fevereiro e fez rodar para o local ais tropas especiais com ordem expressa de eliminar a população hosti l. Da população, hostil ou não o que resta nesta altura são algumas famílias cujos homens trabalham nas serrações, sobretudo em Chinapaminde e Chinadziwa. Estes já tinham sido ameaçados pelos madeireiros de que,se tentarem fugir, serão mortos. Um testemunho enviado à Conferência Episcopal de Moçambique, reunida a partir de hoje em Quelimane, confirma que, quando as recentes operações das tropas especiais em Muanza detectaram corredor sanitário montado montado  do Quartel General foram emanadas ordens para supressão sumária do Inimigo.pela FRELIMO - evacuação de crianças e mulheres para o Dondo -, do Quartel General foram emanadas ordens pela supressão sumário do Inimigo.

Pimentel dos Santos, Governador-Geral de Moçambique,
numa cerimónia em Loureço Marque com a comunidade Islâmica 
2 de Abril  O Governador Geral da colónia, Engº Manuel Pimentel Pereira dos Santos, substitui o Coronel Souza Telles na governação do distrito da Beira pelo Capitão de Fragata, Guerra Corujo. Na tomada de posse dirige-se ao marinheiro nos seguintes termos: Não oculto ao senhor Governador que vai ocupar um dos mais difíceis governos de distrito neste Estado. Aí, não tem apenas de preservar da subversão as populações não atingidas, tem também de eliminar alguns focos ainda existentes e fazê-lo de forma radical e definitiva.
 4 de Abril A pedreira de Muanza está parada desde que os mineiros fugiram, aterrorizados, com a existência das valas. A Administração da Cimenteira determinou que fossem nomeados substitutos entre os trabalhadores do Dondo. A fábrica entrou, no mesmo dia, em greve total.
 6 de Abril   O lançamento , pelos guerrilheiros, logo à saída da Estação de Inhaminga, de duas granadas foguetes - foguete contra a locomotiva gorou a tentativa de fazer circular um comboio de passageiros até à Beira.
 9 de Abril A destruição de 36 palhotas e inúmeras machambas cultivadas, com a captura de três homens, três mulheres e sete crianças, foi o resultado da Operação Pinhal - nomadização e emboscadas - postas em campo pela 1ª CART. Com os habitantes em fuga para a floresta da Gorongosa, a estação dos caminhos - de - ferro deserta, as cantinas e outros serviços encerrados, Inhaminga transformou-se, perdeu meios de vida. Só funciona a indústria da morte. As valas, todas valas da região, são os altares do caos. Os fuzilados, ao tombar, empilham-se de forma desordenada, há cabeças a deitar por fora, a lâmina do caterpillar arrasta algumas quando passa com a terra, para tapar. As populações ficaram às mãos, aos instintos e aos critérios de crueldade de colonos desvairados protegidos por tropas convencionais, Inhaminga afogou-se em sangue.
12 de Abril Sexta - feira Santa. De Nampula, um oficial de duas estrelas foi enviado, em segredo, ao limbo da Gorongosa com a missão se observar as valas comuns em Muanza, situadas a curta distância da estação dos caminhos - de- ferro e  escondida detrás da pedreira de cimento. O Brigadeiro, disfarçado de soldado, anotou no seu relatório Duas situações a evitar no futuro: 
1. Observou-se que a terra com que foram cobertos os corpos cresceu por motivos das fortes chuvas que caíram nos últimos tempo, vendo-se alguns a descoberto.
2. Os militares que controlam a segurança no local manifestaram o seu incómodo ao deparar sempre com os camions pejados de dejectos e urina quando regressam da pedreira.
Isto acontecia porque os prisioneiros, ao aperceberem-se bruscamente do que os esperava, entravam em pânico e perdiam controlo fisiológico. 
No Mapa estão sinalizadas as regiões de: Moatize; Zóbué; Sabonda-Chiuta; Viúva Henriques e Tete
O Conselho de Defesa de Moçambique, reunido de urgência nesta data em Lourenço Marques, analisou informações que garantiam uma grande concentração de guerrilheiros em vários pontos de fronteira com a Zâmbia, na estrada Moarize para o Zóbué, em Sabondo - Chiuta, em Vila Henriques, e nos arredores da própria cidade de Tete
23 de Abril A operação PIÃO 4da 1ª CART, para três dias de nomadização, terminou hoje com a destruição de dois refúgios inimigos, 31 palhotas, 300 quilos de mapira, e a captura de um canhangulo, um homem, quatro mulheres e três crianças.
24 de Abril A guerrilha levou a cabo vários ataques a camions de transporte de mercadorias, com a morte de quatro dos seus motoristas, ao longo do primeiro terço da estrada da Beira para Lourenço Marques. A FRELIMO abateu três aviões militares rodesianos nos céus de Manica e Sofala.
25 de Abril Golpe de Estado em Lisboa que conduzirá ao fim do colonialismo português em Moçambique. Antes dos massacres, a população de Inhaminga estava calculada em 45 mil habitantes africanos. Nesta data, o número de cidadãos assassinados ou em fuga nesta região ultrapassou os 33 mil. Até hoje, o Comando - Chefe em Nampula nunca mencionou nos seus comunicados o estado de guerra em Inhaminga. No entanto, o esforço militar encontra-se espelhado no aparato em presença - um batalhão completo de tropa regular do Exército com mais de 400 homens; um batalhão de P´ra- quedistas com 240 unidades; duas companhia de Comandos com 200 operacionais; Grupos Especiais de recrutamento na Colónia ultrapassando os 650 GE, GEP e GEPC; e um efectivo policial de 80 elementos, incluindos os agentes da PIDE/DGS especialmente deslocados da Beira e da Casa Amarela em Lourenço Marques. Oficialmente, o objectivo deste universo de segurança pública destinava-se à protecção de aproximadamente mil brancos

A declaração da FRELIMO que dá por consolidada a situação da guerrilha em Tete, e anuncia que a luta armada tinha chegado a Manica e Sofala fora proferida em Agosto de 1973 e publicada no jornal do Movimento, A Voz da Revolução. Trata-se da Mensagem ao Povo Moçambicano e aos Combatentes do presidente Machel, e constituía o programa de acção da guerrilha para este ano de 
1973.  Que foi cumprido.


CAMARADAS:

Vimos anunciar-vos um acontecimento de extrema importância no processo de desenvolvimento do nosso combate. A nossa luta armada de libertação nacional acaba de estender-se para mais uma Província.
Cumprindo a palavra de ordem da mensagem de 25 de Setembro do ano passado, as Forças Populares de Libertação de Moçambique iniciaram operações militares na Província de Manica e Sofala. A luta prossegue de acordo com plano traçado: no dia 25 de Julho atacámos diversos objectivos estratégicos nesta província.
(...) O desencadeamento da luta em Manica e Sofala certamente que resultada da determinação, da coragem, do patriotismo e da consciência da população, dos combatentes, dos quadros e responsáveis da Província. (...) Neste contexto, devemos saudar a consciência exemplar dos nossos camaradas da Província de Tete, que souberam assumir a nossa linha e assim transformaram-se em base de apoio para a expansão da luta para novas zonas. Fazendo-o, também consolidaram a situação em Tete.
Mais feridas sangram no corpo da fera colonialista, mais débil se torna a sua força real, ainda que maior seja o seu rancor e raiva de desespero. A população de Manica e Sofala soube assumir a nossa disciplina, os nossos princípios estratégicos e tácticos. Ainda que submetida a trabalho forçado. à palmatória, ao imposto, embora levada para os campos da morte das companhias de açúcar, mesmo sofrendo a asfixia da poeira nas fábricas de cimento, apesar do chicote na construção das estradas, a população de Manica e Sofala com consciência esperou a palavra de ordem do partido, com disciplina aguardou que o esforço comum criasse as condições propícias ao desencadeamento da luta.
(...) A abertura de nova frente é uma grande derrota para o colonialismo e o imperialismo. Manica e Sofala é um centro estratégico de desdobramento das tropas colonialista; a recente transferência da sede do Alto Comando Militar inimigo de Nampula para a Beira, demonstra bem a importância militar da Província. Pela riquezas agrícolas, minerais, pela sua actividade industrial, pela importância da sua rede de comunicações, Manica e Sofala goza dum lugar preponderante no dispositivo de exploração económica colonial e imperialista do nosso país. Dezenas de companhias americanas, inglesas, francesas, alemãs, japonesas e portuguesas, auferem lucros fabulosos, explorando as riquezas e os trabalhadores nesta Província.
(...) É certo também que o inimigo, ferido num num dos seus pontos mais sensíveis e dolorosos, vai reagir mais brutalmente, mais sensíveis e dolorosos, vai reagir mais brutalmente, mais ferozmente, mais criminosamente. Devemos estar conscientes de que as vagas de prisões e torturas, bombardeamentos e massacres serão mais numerosos, mais intensos, mais sistemáticos. O que mais é, devido à situação estratégica da Província em relação ao resto da África Austral , devemos saber que em Manica e Sofala o imperialismo, os racistas sul-africanos e rodesianos farão tudo para esmagar a nossa luta. Fracassarão. Os crimes que cometem, a agressão contra o nosso Povo, é gasolina lançada na fogueira da guerra popular. Estamos seguros também que ao esforço da aliança imperialistas e racista corresponderá um desenvolvimento consequente a solidariedade internacional, do campo das forças progressistas que nos apoiam. A nossa vitória de hoje é também de todos os povos, dos que combatem ao nosso lado, especialmente, em Angola e na Guiné - Bissau.
MUANZA, Agosto 1974. Soldados portugueses a confraternizarem
com guerrilheiros da FRELIMO
(...) Ao desencadearmos a luta em Manica e Sofala, onde se encontra implantada uma fracção importante da comunidade portuguesa do nosso país, queremos reafirmar que a nossa luta não é contra ela, que a nossa vitória só pode beneficiar os que vivem do trabalho honesto, os que sofrem da exploração colonial e fascista. O Povo moçambicano, fraternalmente, convida os soldados portugueses, a população portuguesa, a unirem-se ao esforço comum de libertação.
Neste décimo ano da FRELIMO, no momento em que , terminadas as celebrações do 25 de Junho, nos preparávamos para celebrar o 25 de Setembro, a acção unida do Povo e  dos combatentes da FRELIMO abriu uma nova frente. É um momento de grande alegria e orgulho para todo o Povo Moçambicano. 

No calendário de guerra da FRELIMO, o golpe final da estratégia para alcançar pelas armas a independência de Moçambique fixava em 1976. (A)

Revelação feita pelo dirigente da FRELIMO Sérgio Vieira que, com Samora Moisés, negociou com o governo português após o 25 de Abril.

OS EXECUTORES

É a Geração Nato que faz as guerras coloniais, marcadas pelos métodos, organização e tácticas introduzidas nas Forças Armadas em 1951

António José Telo, professor na Academia Militar 

As Forças Armadas Portuguesas evidenciaram cedo a necessidade de constituir tropas suplementares em todas as frentes da Guerra Colonial. Enquadraram os colonos em milícias brancas, recrutaram nativos, atraíram desertores dos movimentos de libertação, pagaram a mercenários e autorizaram a própria PIDE/DGS a constituir grupos militarizados paralelos - todos genericamente designados por forças auxiliares. O teatro de operações em Moçambique não fugiu ao esquema.
Quanto às tropas regulares, o seu trabalho operacional na quadrícula cedo se revelou insatisfatório. As Companhias chegavam às unidades sem preparação própria nem específica. Soldados assustados, comandados por dois ou três oficiais do quadro, eram sacrificados ao absurdo de uma guerra que Salazar garantia não existir.
E como se apresentaram, no terreno, todos estes combatentes? Que armas lhes foram distribuídas?

MAUSER
A 1 de Agosto de 1960, quando se dá a primeira afronta ao Império, em S.João Baptista de Ajudá, no Golfe da Guiné, o Depósito Geral de material de Guerra armazena a versão KARABINER 98 K da MAUSER, construída em 1898; a metralhadora ligeira DREYSE MG10, que os alemães venderam a Portugal em 1930; a metralhadora pesada BREDA - M37, cujo produção Mussolini encerrou em 1942; e a artilharia de campanha adquirida durante a II Guerra  -- obuses de 10,5 cm e de 7,5 cm à Alemanha, e obuses de 8,8 e 14 cm à Inglaterra.
Nos Anos 50, a chegada da OTAN a Portugal trouxe canhões sem recuo de 5,7 cm, 7,5 cm e 10,6 cmlança granadas foguetes de 6 cm e 8,9 cm, morteiros de 60, 81 e 107 m/m, e metralhadoras pesadas Browning M2, de 12,7 m/m, criadas pelos americanos em finais da I Guerra; a pistola-metralhadora FBP produzida em Portugal em 1947 - com o inconveniente de apenas fazer tiro de rajada.
Foi com este material já obsoleto - e tecnicamente inadequado para contra-guerrilha no mato - que, no início da Década de 60, os herdeiros das Descobertas quiseram carregar de novo as caravelas.
Voltemos a Inhaminga e às forças em presença.

OPVDCM

A Organização Provincial de Voluntários de Defesa Civil de Moçambique - OPVDCM era uma milícia constituída essencialmente por colonos brancos. Constituíam uma organização do tipo milícia, subordinada directamente ao governador-geral da província
Em Moçambique, a OPVDCM esteve activamente empenhada na Guerra. Cada corpo auxiliava as Forças Armadas em situações de emergência, contra o inimigo externo, preparando a defesa dos colonos e dos seus bens sobretudo em núcleos populacionais situados em zonas isoladas.

GRUPOS ESPECIAIS 

Os Grupos Especiai - GE eram Voluntáris pretos, de preferência oriundos das regiões para onde iriamser enviados em combate e a quem o exército colonial ministrava vaga instrução militar, manuseamento da arma que lhe era confiada e forma de progredir no mato. Na prática eram mercenários, os GE eram comandados por brancos, e o seu valor residia na capacidade de odiar os que tinham a mesma cor de pele e o elevado grau de violência empregue nas acções de assalto e explorada pelos portugueses. Deles disse o próprio Marcello Caetano que os GE tinham uma concepção cruel da guerra, mantendo os seus preconceitos tribais. No tempo do massacre de Inhaminga, estes paramilitares, sem qualquer vínculo às Forças Armadas - alguns deles desertores da FRELIMO -, distribuíam-se por 84 grupos, três secções de nove elementos cada grupo.


Os GE também tiveram pára-quedistas,os GEP. dependiam directamente do Comando-Chefe, e a sua definição era a mesma dos GE, com a diferença do salto com pára-quedas que lhes era ensinado no Centro de Instrução do Dondo por pessoal do BCP 31 e uma das filhas, branca, de Jorge Jardim. Os GEP chegaram a formar dez grupos, alegadamente com 70 homens cada - números improváveis para este tipo de força. Não existe, contudo, um único relatório atestando que alguma vez os GEP  tenham sido lançados do ar de teatro de operações. Operando com os pés na terra, os GEP combatiam disfarçados de guerrilheiros da FRELIMO - equipamento e Kalashnikov.


Mais sentido prático enformou a criação dos Grupos Especiais de Pisteiros de Combate - os GEPC. Foi a formalização, com farda e pré fixo, de uma função exercida por membros da população cuja característica de interesse para o exército por elementos da população cuja característica de interesse para o exército colonial era o penetrante conhecimento do mato. tinham a missão de descobrir pistas para localizar os terroristas, o que lhes dava um prémio individual

EXÉRCITO

O exército colonial, enquanto tropas expedicionárias regulares de rendição, estacionou em Inhaminga a partir de 1963 - ano em que  estalou a guerra de libertação de Moçambique
A Companhia de Artilharia 179, montou base na Vila entre Janeiro e Novembro de 1963. Foi rendida pela Companhia de Caçadores 591, que cumpriu comissão até Fevereiro de 1966.
Só quase sete anos depois, já com Kaúlza de Arriaga, é colocada em Inhaminga a Companhia de Caçadores 3353 do Batalhão de Caçadores 3842.


 Em Novembro de 1973 chegou o Batalhão de Artilharia 6221/72, que adoptou o nome de Guerra Os Castores. A sua Companhia de Comandos e Serviços - ficou em Inhaminga, sede do Batalhão. Uma companhia normal, com homens normais. Por isso têm interesse alguns dados da sua história, também normais mas pertencentes a uma tropa anormal, mal preparada, mal conduzida, sem capacidades físicas, psicológicas e de equipamento para cumprir cabalmente aquilo que se lhes exigia.
A CCS do BART 6221 chegou à Beira a 19 de Abril de 1973. Esperou quatro dias para viajar para Caldas Xavier. Aqui ficou perdida, mais dois dias, em plena Estação de Caminhos de Ferro, regressando à Beira por falta de condições. A 29 do mesmo mês voltou a pegar nas trouxas, desta feita em direcção a Inhaminga. Quando lá chegou as instalações encontravam-se ocupadas pela CCAÇ 335. Os soldados foram espalhados pelas bermas da linha e aí esperaram por melhores decisões dos altos comandos.
Na Ordem de Serviço de 30 de Junho pode ler-se no capítulo Castigos e Promoções: Abatido ao efectivo o soldado atirador NC7270571, Tomás António Sabão, por ter sido considerado desertor; Graduado em 1º  Cabo o soldado GE 1293/72 Semião Alfinete, por ter capturado três crianças na região 3220.1605 e destruído os seus cantis e livros escolares.
Escolta a comboios com cargas críticas, patrulhas de reconhecimento ofensivo, (destruição de palhotas), acção psicológica no Rio Mufo, e protecção das viaturas de geologia e minas até Savane, constituíram o grosso das missões da CCS, operando não raras vezes em conjunto com o pessoal da 2ª CART. Desta parceria, a manutenção da secção permanente de reforço à auto defesa da pedreira em Muanza (Operação Ovo 6) constituiu o serviço de maior relevo, pelo seu significado e responsabilidade.

Pedreira de MUANZA

A 1ª CART do 6221 partiu para CANXIXE a 6 de Maio de 1973 e assumiu de imediato a principal missão de que foi incumbida - o controlo da segurança das minas de fluorite, em interminas, onde instalou um dos seus dois destacamentos permanentes. O outro ficou em SENGA-SENGA, Escassos dias depois da chegada ao teatro das operações, a FRELIMO deixou aos chekas - topa recém chegada ao mato -a primeira demonstração da dureza da guerra. Numa emboscada a caminho de Sena, os guerrilheiros mataram cinco agentes da PIDE/DGS que acompanhavam a Companhia, comandada pelo Capitão José Victor Serra Cavalheiro.
A destruição sistemática de palhotas habitadas - dito reconhecimento ofensivo - , a montagem de segurança permanente à Ponde de Dona Ana em Sena e a recuperação de descarrilamentos na via férrea ocuparam longos períodos operacionais desta Companhia. As acções de nomadização, com destruição de meios de vida e destruição de meios de subsistência, apresentam números desastrosos nos documentos da 1ª Companhia do BART 6221. Em Setembro de 1973 - foram queimados 158 palhotas em apenas seis operações Lídia. No mês seguinte, foi a vez do ataque a celeiros do povo, com a destruição de meia tonelada de mapira e meia tonelada de amendoim a sul de Interminas.
No dia 29 de Outubro, a 1ª CART arrancou às suas casas e à sua aldeia 31 homens, 67 mulheres e 205 crianças para serem concentrados num campo determinado pelo Comando - Chefe no desenrolar da operação Leca Falsa 2. Outubro foi o mês da campanha de algodão, cuja apanha privada tinha o direito de protecção militar, tarefa que deixa extenuada a 1ª CART.
Em Novembro, a destruição de casas subiu às centenas. Só na operação Lupa 7, a 27 deste mês, um heli-assalto arrasou 300.
No relatório 15/74, datado de 25 de Fevereiro de 1974, lê-se que o Alferes Carlos , na Operação Ouvido 27, só ele destruiu um número incontável de palhotas por meio de incêndio numa aldeia de Inhaminga onde não havia homens, só mulheres.

Militares do BART 6221 "OS CASTORES"

A acção da guerrilha chegou a Fevereiro com o asfixiamento das picadas a Inhaminga, como acontecera antes com as de Cumdué e Codzo. Já era completamente impossível abastecer as cantinas mais próximas, como as de Mazamba.

A actividade da 1ªCART entra por Abril dentro, destruindo na sua área mais machambas e mais palhotas, num total de 162. Na véspera da Revolução em Lisboa, a Operação Pião 4 destruiu dois refúgios abandonados do IN, 31 palhotas abandonadas, 300 quilos de mapira, e capturou um velho, quatro mulheres, um canhangulo e e três crianças.
A 1º CART. passou ainda por um dos exercícios mais pavorosos para quem penetrava no mato denso: desbravar o capim, cortar árvores, com aquela sensação aflitiva de estar permanentemente na mira dos guerrilheiros. Desmatar a picada de Inhaminga a Pangache, com menos de dez Kms, custou oito dias de esforço e terror.
A 2ª CART do 6221 -  que a 11 de Maio de 1973 partiu para a região de Macossa, Barué, Vila Gouveia e Vila Pery, rendendo a CCAÇ 3570 no Maringués, foi reservado o papel de bombeiros, independentemente do trabalho comum a todo o Batalhão, de reconhecimento ofensivo, nomadização e destruição continuada. Como aconteceu logo nas primeira operações Macio, no mês de Junho,
Já em 1974, as operações Libélula 1, reabertura da linha Sena - Beira após rebentamento em Inharuca, Libélula 2, socorro ao engenheiro da TZR, Libélula 3, recuperação dos motores de água,
 Lidador 1, protecção aos comboios de cargas críticas, Libélula 4, escolta a comboio de socorros a Bencanta, Libélula 5, tentativa de perseguição ao Inimigo que atacou a pedreira em Muanza - seis acções nos primeiros oito dias do ano - ilustram o tipo de trabalho da 2ª CART.
A 3ª CART do 6221 chegou à cidade da Beira a 3 de Maio de 1973, mas só onze dias depois arrancou para Sena, onde chegou a 15.
Protecção de cargas críticas ao longo da linha de caminho de ferro na sua Zona de Acção no sentido Beira - Moatize, Vigilância permanente do Monte Balamuana, e captura e entrega de  elementos do IN à PIDE/DGS preenchiam o plano de actuação da 3ª. Quando saiu para o mato na sua primeira operação, a companhia enviou um grupo de combate para o Rio Nhambombué, e uma secção para Balamuana, onde a vigilância passaria de esporádica a 24 horas por dia.
Em 10 de Março de 1974, os sapadores deslocaram-se ao KM 227 da linha da TZR e levantaram um engenho  explosivo constituído por trinta petardos de trotil de 200 gr. cada, dois detonadores pirotécnicos e um disparador de pressão.
Nesta região de Sena, o comandante da FRELIMO também escrevia mensagens e cartas ao Exército Colonial, que deixava nas picadas frequentadas pelos portugueses ou mesmo nas imediações do aquartelamento da companhia. Um dia, uma carta deixada à porta da 3ª CART. revelava um outro 
lado da guerra. Dizia: o branco Soares tem boa fama de algodoeiro e uma cantina em Inhamalicombe. É nosso íntimo amigo, alimenta-nos com seis sacos de farinha e quatro sacos de peixe por mês.

A RETIRADA DO BART 6221

Inácio Matsinhe

Após o 25 de Abril, a generalidade das tropas do Exército Colonial dá um passo atrás, recolhe-se em expectativa. Os relatórios das companhias do BART 6221 referem apenas patrulhamentos de vigilância defesa próxima, dos aquartelamentos e, a partir de certa altura, a participação de militares nas banjas - reuniões, assembleias - promovidas pela FRELIMO para informar as populações da nova situação política.
Nos primeiros dias de Agosto realizaram-se em todas as companhiad do BART encontros entre os seus comandantes e o Emissário da base Provincial  de Manica e Sofala. Inácio  Matsinhe. Nas conversações para os acordos de cessar-fogo participaram ainda o chefe da FRELIMO para esta zona, Armindo Mabote. - 3ª CART - no dia 6, o chefe do Sector Vila Fontes/Sena - 1ª CART., no dia 11 -, e chefe Tigre - CCS/2ª CART.- no dia 12. No último caso, narra a Página 68 no 14º período da Comissão desta Companhia que foi nesta altura que seu início às conversações com a FRELIMO. Assim um oficial da 3ª CART. que havia contactado na área de Sena o emissário Matsinhe, contactou na região de Chide juntamente com um oficial do BCAÇ 4217, o sr. Delegado de Saúde., quatro civis europeus e um grupo da FRELIMO de oito elementos armados. Este contacto correu de forma amistosa, tendo sido  marcado um encontro formal para dois dias depois numa cantina em Massanza. Aqui foi acertada entre as duas partes a reunião onde então seria assinado o Acordo de Cessar-Fogo. Local - a casa do Delegado de Saúde. Data - o dia 14 de Agosto de 1974
No dia 23 de Agosto os efectivos da CCS partiram pa ra Mocuba (Zanbézia). ficando o pessoal adido ao BCAÇ 3886. A 29, pelas duas da manhã, foi a vez da 2ª CART..Chegaram a Mocuba às 22H do mesmo dia.
Militares do BART. 6221 a saudar a chegada de militares do BCAÇ 4217
A 26 de Abril a 1ª CART. ainda realiza a Operação Pião 5 - destruindo 52 palhotas - e a Operação Pião 7, três dias depois - emboscada e destruição de base IN mais 30 palhotas. No dia 9 de Agosto o comboio correio accionou dois minas ao Km 158, a que se seguiu uma emboscada com dois mortos e três feridos graves para os portugueses. Ficaram descarrilados a locomotiva e vinte vagões. A 11, oficiais da 1ª companhia participam numa Banja com o Comandante Provincial e o Chefe de Sector da FRELIMO em Vila Fontes - Sena. No dia 18, um grupo de combate da 1ª CART. desloca-se a Marromeu - era a Operação Vento - para discutir a situação laboral dos trabalhadores da empresa Sena Sugar Estates. Uma semana depois chega a Vila Fontes a 2ª CCAÇ do BCAÇ 4217/74 para render a 1ª CART. do 6221. E a companhia parte para Milange, de regresso à Metrópole.
Quanto à 3ª CART., a sua tropa dá por concluída, a 1 de Agosto, a Operação Nação 7 e inicia as acções de vigilância Varanda 1, Varanda 2, Vaso e Vagem com apenas um grupo de combate em cada uma. No dia 5, o comandante de Companhia participa na reunião com o comandante provincial da FRELIMO Inácio Matsinhe, durante o qual fica combinado contactar todos os responsáveis, deambas as partes, destacadas desta Zona de Acção para informação da actuação política. Esta reunião decorre no Gabinete do Plano do Zambeze - GPZ. A 7 de Agosto em Sena, tem então lugar uma banja com autoridades portuguesas, os comandantes da guerrilha Matsinhe e Sebastião Mabote, para elucidar sobre os objectivos da FRELIMO. Esta assembleia registou numerosa assistência, entre brancos, negros, mestiços e indianos, e decorreu em boa harmonia. A 10 e a 15, novas banjas, respectivamente em Murraça e em Sena, mas desta vez com a presença de jornalistas convidados pela FRELIMO. Na sequência, guerrilheiros e soldados da tropa colonial passam a integrar, a partir do dia 15 de Agosto de 1974, grupos mistos de patrulha e vigilância às populações da região onde se estabelece um clima de amizade e confiança dentro do espírito de colaboração e respeito mútuo. 

Agosto de 1974MUANZA, confraternização de
 soldados portugueses e guerrilheiros da FRELIMO
Dia 25 chega a Sena, para rendição da 3ª CART., a 1ª CCAÇ do BCAÇ 4217/74. Quatro dias depois dá-se o regresso atribulado da companhia, com a população branca tentando desesperadamente impedir a sua partida. A 3ª CART.escapou por Mopeia, apresentando-se em Mabu - Tacuane, na estrada de Mocuba


COMANDOS


Os Comandos actuaram em Moçambique. A 17 de Julho de 1965, clika aqui para leres a crónica: Grupos, Companhias e Batalhão de Comandos em Moçambique, chegou à Colónia um Grupo desta troa especial. Um Batalhão foi entretanto instalado em Montepuez, Cabo Delgado, por onde passaram, até ao fim da ocupação do território. Idas da Metrópole foram: 2ª; 4ª: 7ª; 9ª; 10ª; 17ª; 18ª; 21ª; 23ª; 28ª; 29ª; 34ª; 2040ª; 2043ª  e 4040ª , e nove constituídas em Moçambique, da 1ª à 9ª. Estes contingentes, foram distribuídos em número crescente com o avançar da guerra no tempo. Entre Julho de 1973 e Abril de 1974, já combatiam no mato oito Companhias de Comandos - quatro com base em Montepuez e as outras quatro destacadas em Estima, Caniaculo, Vanduzi e Inhaminga.
Em Moçambique, os Comandos do recrutamento local eram alvode uma instrução que explorava conflitos tribalista dos soldados fomentando o ódio ao inimigo com base nas ssuas origens étnicas. O comportamento bárbaro que alardeavam sobre as populações, por exemplo, correspondia à indizível acção psicológica que lhes era injectada, a um nível próximo da que era ministrada no Dondo aos GE. As 5ª e 6ª Companhia de Comandos são contemporâneas no Comando Territorial do Centro.
A 5ª cometeu erros no terreno próprios de uma qualquer CCAÇ impreparada. A 7 de Fevereiro de 1973, os Comandos moçambicanos da 5ª denunciaram o péssimo estado em que recebiam o crachá, manchando por tabela o prestígio das companhias formadas na Metrópole e mobilizadas para África. Nesse dia, a 5ª deixou-se cair numa emboscada, consentindo ainda a morte de um dos seus comandantes, o alferes metropolitano Fonseca Nabais, considerado o modelo dos Comandos portugueses.


Um Grupo da 6ª Companhia de Comandos de Moçambique

A 6ª, que ficou lamentavelmente famosa por aquilo que Marcelo Caetano designou por acções violentas e desproporcionadas, excessos cometidos sobre aldeias indefesas como aconteceu em Wiriamu, uma ignomínia denunciada pelos mass media à escala universal. Os seu Comandos abateram-se sobre Inhaminga entre 24 de Fevereiro e 29 de Abril de 1974, sendo seguidos por um oficial do Inimigo.


CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

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Antes do 25 de Abril eram conhecidos os Campos de Concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, e o de S.Nicolau, no deserto de Moçâmedes, em Angola. 
Em 1973, a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos - CNSPP, na clandestinidade, denunciava o Campo da Machava, em Moçambique, situada nos arredores de Lourenço Marques. A Prisão da Machava estava às ordens da PIDE/DGS.
É um documento histórico a Circular nº 19 da CNSPP, posta a circular no dia 9 de Maio de 1973 e de onde se pode transcrever:

Oito pavilhões compõem o campo de concentração da Machava - construções baixas, compridas e isoladas uma das outras por pátios de terra solta. Nos pavilhões, as celas distribuem-se ao longo de um corredor central que vai de topo a topo. As dimensões das celas individuais é normalmente 2x3x3,5 metros, mas nelas estão metidos em geral seis a oito criminosos de consciência. As celas maiores têm cerca de 3x12x3,5 metros e uma lotação para vinte prisioneiros, masnesse reduzidíssimo espaço estão em geral amontoados cinquenta.
Estão internados no campo de concentração da Machava cerca de 2100 moçambicanos - muito para além da sua lotação máxima de oitocentos detidos.
O aspecto mais chocante na prisão da Machava é o confronto inevitável entre o tratamento que têm os presos de delito comum da Cadeia Central propriamente dita - tratamento muito próximo do de uma cadeia legalmente organizada - e o tratamento dos presos políticos.

Santos Correia. Director da Cadeia Central da Machava
Aqui, o preso político, ainda que apenas suspeito da prática de actividades subversivas vive em condições sub - humanas: dorme apertado entre os sete companheiros no exíguo chão da cela, sobre uma esteira. Na cela passa 23 horas por dia; na cela come; e a sua diete é inconcebível de pobre, além de repelente, além de debitante. É-lhe proibida a convivência com os detidos dos outros pavilhões na meia hora de recreio; são-lhe proibidos os exercícios físicos, a leitura, os actos religiosos, o cantar até! As visitas, que só lhe são autorizadas dois a três meses após a detenção, são difíceis de conseguir, pois os seus familiares são encarados pela PIDE/DGS como potencialmente subversivos. Para os presos políticos a visita só acontece uma vez por semana - quando acontece!, porque mesmo depois de autorizada qualquer guarda pode suspendê-la por iniciativa própria - dura 15 minutos. Realiza-se num parlatório com má iluminação e com péssimas condições acústicas e diante de dois pides, um branco e um auxiliar negro. A conversa, que tem que ser gritada através de uma barreira de arame, é obrigatoriamente em português. Caso o detido ou os seus familiares não saibam falar português, a visita é muda - isto passa-se na maior parte dos casos. Além de que estas condições já têm de deprimente, os guardas da PIDE/DGS, na sua maior parte antigos comandos, pára-quedistas e fuzileiros navais que actuam em Moçambique, tudo fazem para sujeitar os detidos a um clima de terror, com espancamento, ameaças, insultos, rusgas às celas, contínuas revistas aos detidos.

Vila Algarve. Sede da PIDE/DGS em Lourenço Marques
E contra este estado de coisas nenhuma reacção é possível, uma vez que os detidos estão sujeitos ao chamado processo administrativo, que é instruído pela PIDE/DGS e não tem instrução contraditória, não admite a intervenção de advogado, não é remetido a tribunal e acaba por ser julgado  pela autoridade administrativa sem a presença e o conhecimento do arguido que, em caso de sorte, pode vir um dia a ter conhecimento do número de anos a que foi condenado. Por asiim ser, os tribunais, onde muitas vezes os familiares dos detidos se dirigem, respondem invariavelmente não saberem e não poderem saber da detenção de que falam, e portanto não poderem intervir em relação aos maus tratos que porventura sofram os prisioneiros do Campo da Machava.
A violência normal neste campo de concentração é precedida pela vigilância particular e já denunciada dos interrogatórios feitos pela PIDE/DGS na formação dos processos políticos. Só que, no caso da Machava, para além da já tradicional tortura do sono, da estátua, do puro espancamento e da cela disciplinar utilizada para extorsão de confissões, os métodos incluem outros requintes como a aplicação do feijão - macaco - um pó extremamente urticário que se espalha pela cela e que se torna mais insuportável com os baldes de água que, de três em três horas, se atiram ao supliciado. Ao fim de 24 horas o preso tem o corpo em sangue de tanto coçar, e está afónico de tanto gritar. Em muitos casos a tortura já não visa a obtenção de matéria incriminatória, visa apenas a eliminação do preso. E quando a morte sobrevém a PIDE/DGS informa os familiares que o preso fugiu.



Na Wikipedia lê-se que a Machava não era exactamente um campo de concentração, mas sim um presídio. Como colónia penal, antes da sua utilização para deter presos políticos, Machava já existia como prisão para delinquentes. Após o início da luta armada, a Machava, em complemento da prisão de Sommerchild - está dentro da cidade de Lourenço Marques, e que também passou a ter uso misto - e dos cárceres da sede da PIDE em Moçambique usados durante os interrogatórios e as torturas - a vivenda Vila Algarve, também dentro do perímetro urbano da capital moçambicana, passou a ser utilizada não só para os presos que a PIDE pretendia ter à mão, mas também para guerrilheiros da FRELIMO, apoiantes e militantes  independentistas citadinos, como Craveirinha, Malangatana e outros, bem como presos políticos incómodos como os padres brancos do Macúti ( clika aqui para leres o livro: O Julgamento dos Padres do Macúti). A rede prisional da PIDE Somerchield - Machava era completada com as utilizações da Fortaleza de Ibo, Ponta Mahone e as prisões de Nampula, Quelimane, Beira e Tete. Em termos de preencher a categoria de campo de concentração, a PIDE tinha em Moçambique um único, o de Mabalene, região desértica a 500 Kms a norte de Lourenço Marques.

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