Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~


O Batalhão de Caç. 1891.. Cumprimenta com Amizade,todos os que visitam esta página..Forte abraço.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

2º Capítulo. Como eu vivi e o 7 de Setembro de 1974 em Lourenço Marques Por: António Manuel Gomes Lopes (Pintinhas)


Edifício das antenas do RCM, na MATOLA
Chego ao edifício das antenas por volta das 11 h, já havia pessoas a tentar entrar para o cercado onde ficava  o edifício de controlo de emissão das várias estações do RCM.
Uma pequena reunião com o Trajano estabelecemos logo as prioridades. Eu fiquei com a segurança.
Fecharam-se os portões, contra a vontade do povo, mas tinha que haver disciplina. Só entrava quem o Trajano e o Ferreira desse autorização, visto que eu não conhecia muitos dos indivíduos que colaboravam na causa, Tínhamos quatro pessoas da nossa confiança, que geriam a entrada e saídas.
O Trajano telefona ao Manuel (locutor), para que este através dos microfones do RCM convocasse para a Matola todos os GE (Grupos Especiais), pois o alferes "Pintinhas" os convocava.
Era uma manobra de diversão, os GE estavam no Norte.  Apareceram três ex-furriéis, , a primeira coisa  que me perguntaram foi: "armas", disse-lhes muito simplesmente que não havia armas porque não íamos fazer guerra.
Havia que vigiar as estradas  que davam acesso às antenas. Para as que vinham de Lourenço Marques ou de Boane, pela estrada velha da Matola, não foi difícil a vigilância, visto que havia um restaurante perto da passagem de nível, falei com o proprietário, para estar atento a qualquer passagem de viaturas militares com destino à Matola nos informasse por telefone.
A vigia na nova estrada da Matola também foi fácil. Um funcionário da SOVIM, que tinha aderido ao movimento, entrou em contacto com um colega para este os informar se havia movimentações militares na estrada.
A estrada que ligava a Matola a Boane era a mais problemática. Não conhecia ninguém nessa zona. Sendo assim um dos meus homens parte para Boane, fala com uns cantineiros e tudo fica resolvido. Assim, o perímetro das antenas  estava protegido e defendido. 
Só faltava sabermos o que de importante se passava no Quartel General. no Esquadrão, e no BCAÇ18. Tínhamos que  contactar com militares da incorporação moçambicana, entre os quais tínhamos muitos amigos. Para esse efeito, contactámos com alguns dos seus familiares e estes por sua vez pediram-lhes que se algo de anormal se passasse nas sua unidades que nos informassem.
Notícias vindas de LM, davam-nos conta que o RCM estava a abarrotar, o aeroporto tinha sido ocupado por ex-paraquedistas, da Cadeia da Machava tinham sido libertados os agentes da PIDE/DGS.
Estava convicto que até certo ponto tínhamos atingido o objectivo de tentar convencer o governo português que também éramos moçambicanos, não queríamos mais guerra, queríamos um Moçambique multiracial e unido. 
No dia 8, ao raiar do sol começam a aparecer boatos de todas as formas e feitios por exemplo: a vinda de armamento proveniente da África do Sul, para nos armar. eu sabia que isso era impossível,pois nas conversas havidas meses antes entre nós e o BOSS, ficou claro que eles jamais deixariam passar armas para Moçambique.
O 8 de Setembro foi um dia de muito diálogo, via telefone, entre Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques e as antenas na Matola  do RCM, soube-se que a OPVDC, também se alia à causa. O comandante desta força, Tenente Coronel Vasconcellos Porto, era um pessoa sobejamente conhecida e de grande carácter. Privei com ele durante 2 anos em Nangade em Cabo Delgado.
Junto aos portões do edifício da antenas da Matola, era uma mole humana. As pessoas traziam comida, palavras de apreço e de confiança. Não sei porquê, o meu instinto de defesa em movimentações militares, dizia-me que íamos ter problemas, as chefias militares portuguesas já me tinham desiludido várias vezes.Sabendo eu que o MFA, apenas olhava para o seu "umbigo" e não queriam saber dos portugueses que nasceram, viveram e trabalhavam nas Províncias Ultramarinas.

Nangade 1971. General Kaúlza a passar revista aos novos GE,
acompanhado pelo Alferes "Pintinhas"
Recebemos um telefonema do restaurante da estrada velha da Matola, avisando-nos que uma viatura militar, com soldados armados de deslocava na nossa direcção, friamente pensei: quem quer que seja vou falar com eles.
Pedi ao povo para se afastar dos portões e que não molestassem oral e fisicamente os militares.
Esperámos por eles mais de uma hora e nada. Recebemos um novo telefonema do restaurante, dizendo que eles tinham voltado para trás. Mas tarde, soubemos que a cerca de um Km das antenas o oficial mandou a viatura de regresso a LM, tinha recebido a informação do condutor da viatura, que o RCM informava que os GE`s estavam tinham montado segurança às antenas.



Texto retirado do livro de Ribeiro Cardosos e já publicado neste Blog

"O capitão Gardete dizia que bastava cortar o cabo que alimentava as antenas, acrescentando que para as silenciar não era preciso deitá-las abaixo -- e lá se organizou uma coluna com meia dúzia de viaturas militares de transporte cheia de soldados negros com capacetes de aço e armados de G3. Chefiada por um capitão cujo nome não recordo, e integrando dois ou três oficiais, entre os quais o capitão Gardete e eu próprio que nunca me vira em tais preparos e apertos, lá chegámos à Matola, onde tínhamos à nossa espera centenas de brancos armados de caçadeiras, algumas de canos cerrados, apontados na nossa direcção.
O comandante da nossa coluna (Hoje Major-General das FAP, Ribeiro Cardoso) falou com o chefe da multidão de brancos que diziam que estavam a defender as antenas e que não obedeciam a nenhum militar. Assim, ala que se faz tarde, regressámos com o rabo entre as pernas ao  QG, como teria acontecido numa digna guerra de Solnado.
A explicação foi a de sempre: não fazer correr sangue. Para além, claro, de entre nós não haver um único atirador ou especialista em combate"...

Hoje continuo a pensar que teria sido uma chacina pois os militares que seguiam na viatura eram soldados pretos de 2ª sem preparação militar. No, meio da multidão havia pessoas com armas de pequeno calibre.
As horas iam passando, dramáticas, não sabíamos o que se passava e o que no esperava. Recebíamos alguma informação via telefone  do RCM em LM, ou de populares que chegavam à Matola e nos informavam dos acontecimentos junto ao RCM. Neste caso e  devido à minha experiência não podia acreditar em tudo. O boato é o pior dos inimigos.


Continua na próxima 2ª Feira

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Como eu vivi o 7 de Setembro de 1974 em Lourenço Marques Por: António Manuel Gomes Lopes (Pintinhas)

Eu sou o António Manuel Gomes Lopes, nascido a 10 de Junho de 1948 na linda Cidade de Lourenço Marques, no mítico Hospital Miguel Bombarda.
Vivi até aos 12 anos no carismático, bairro da Malhangalene. Mais tarde, vou viver para o bairro clandestino do Aeroporto paredes meias com a cidade do caniço. Daí a minha aproximação aos pretos de Moçambique, que sempre estimei e fui retribuído.
Em 1958 os meus pais vieram de licença graciosa para Portugal, Figueira de Castelo Rodrigo, na Beira Alta, onde tomo conhecimento do que era Portugal desses tempos. Um exemplo que jamais esquecerei era o do "Barbas", colega de turma, que no inverno ia descalço e o Toninho Cigano apresentava umas botas que fazia inveja a um rei.
Fiz por cá a 4ª classe e a admissão aos Liceus. Regressei a Lourenço Marques e vou para o Ciclo Preparatório na época a funcionar na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque. É aqui que nasce a minha alcunha de "Pintinhas", pela qual ainda hoje sou conhecido. Foi-me "dada" pelo professor de português, Pinto Martins, pessoa muito conhecida no âmbito escolar.
Ingresso na Escola Comercial  Drº Azevedo e Silva, na qual tiro o Curso Geral de Comércio. Finalizado o Curso, vou trabalhar nos escritórios da Cooperativa de Criadores de Gado.
Passei como bom COCA-COLA uma infância normal e feliz.

Em 1969, vou cumprir o serviço militar obrigatório. Faço a recruta em Boane. Este Centro de Instrução era o local de incorporação dos mancebos da Província de Moçambique. Frequentei o Curso de Sargentos Milicianos (CSM).
Nesse ano começaram a ser formadas companhias de Comandos de Moçambicanos em Montepuez, e os Grupos Especiais (GE). Ambos na época só para voluntários.
Decidi pelos GE por uma questão simples. O Alferes e o Furriel que vieram a Boane recrutar pessoal para os GE tinham sido meus colegas na Escola Comercial.
Quando acabámos o Curso de GE já sabia que tinha como destino a Companhia de Caçadores de Mocímboa da Praia.
Fiz algumas operações com esta companhia enquadrada com os GE de Palma, até que sou chamado a formar o Grupo de Nangade, o 205.
Sou graduado em Alferes e durante 26 meses fui conhecido pelo Alferes Pintinhass.
Em Agosto de 1972, termino a minha comissão em Cabo Delgado.


Alferes "Pintinhas"
A convite do general Kaúlza de Arriaga, fiz como capitão, um contrato de dois anos e, fui para o conhecido "TRIÂNGULO BRANCO"; Portugal, Moçambique e Rodésia do Sul. 
Eram comandados por mim na vila rodesiana de Kayemba, 2 alferes e quatro praças moçambicanos todos de raça negra. A nós juntaram-se 23 rodesianos. 
As reuniões de planeamento operacional eram efectuadas na cidade de Tete ou em Kyembe.
A 28 de Abril de 1974, a cooperação terminou, mas no entanto o grupo português ainda ficou por lá  até Junho desse ano. Neste mês regresso a  Lourenço Marques, à espera do que fariam da minha carreira militar.
Precisamente nessa época, sou convidado por dois portugueses radicados à longos anos em Lourenço Marques. Foram eles o Dr. Velez Grilo, que tinha sido meu médico pediatra e o Trajano da Mata, ambos muito amigos do meu pai. Foi a pedido deles que o meu pai me contactou para ter uma reunião com estes altos dirigentes de um partido, mais tarde vim a saber que era o FICO.
A primeira reunião, foi efectuada no restaurante do Aeroporto de LM, era um local que eu bem conhecia. Em caso de algo correr mal, eu estava em casa, pois vivi nove anos no bairro clandestino do Aeroporto. Paredes meias com a cidade do caniço. Por ter lá vivido convivi e fiz muitos amigos pretos e falo o seu dialecto.
A primeira reunião foi para os ouvir e ter a certeza, que o objectivo se coadunava com os meus princípio, mais ainda eu não poderia interferir directamente no assunto, pois ainda era militar.
Sucederam-se reuniões e numa esteve presente o sr. Rodolf  Botha que era da CID, (Centro de Inteligência e Defesa), sul-africana, que mais tarde me abriu as portas da África do Sul.
Havia uma sintonia perfeita para a construção em Moçambique de uma sociedade multirracial que a FRELIMO, Samora Machel que, assim não entendia. Houve uma tentativa de acordo antes da assinatura dos Acordos de Lusaka de encetarmos uma conversação com a própria FRELIMO através de um amigo de infância e de estudos que passarei a tratá-lo por "M".
Na época já se sabia quem era ou não pró FRELIMO e este meu  amigo que ainda o considero, apoiava a FRELIMO, mas não o radicalismo.
Três semanas depois, através dele tivemos como resposta um contundente, NÃO!
Sentimos-nos de mãos atadas e tomei a liberdade de falar com adidos militares de quatro países, que partilhavam as nossas ideias.. Mas, mesmo esses nada puderam prometer e muito menos fazer.
Gostaria que ficasse bem explicito que nas nossas conversas nunca se pediu armamento ou apoio militarizado. Queríamos apenas consensos. Eu e muitos outros moçambicanos brancos já íamos na terceira e quarta geração.


Alf. Alberto Chissano  e ALf. Toni Pintinhas
No entretanto acendeu-se uma luz ao fundo do túnel, o adido militar norte-americano, disse-nos para termos calma pois algo estava para acontecer que poderia levar a um entendimento.
As conversações continuaram e já com partidos cujos líderes eram dissidentes da FRELIMO. Homens e mulheres bem conhecidos que tinham pertencido aos quadros da FRELIMO.
Tivemos uma reunião numa residência no Alto Maé, não sabíamos o que se estava a passar. Estávamos apavorados.
Esperávamos que por parte do Governo português, que não houvesse um lavar de mãos, um abandono, mas foi isso que aconteceu, com a assinatura do Acordo de Lusaka entre o governo português e a FRELIMO. 
As promessas feitas pelo PCP e por Mário Soares à FRELIMO foram cumpridas. Com o Acordo, Portugal entregou Moçambique à FRELIMO e abandonou a população branca, para eles colonos.
No dia 6 de Setembro de 1974, sou procurado pelo Trajano, em casa dos meus sogros que moravam muito perto das antenas da Matola, contando-me o que se estava a passar em LM. A nossa bandeira estava a ser estropiada e davam-se vivas à FRELIMO e com ameaças à população branca.
Combinámos, não enfrentar os arruaceiros, porque não queríamos-nos colocar à sua imagem.
O interessante, é que os que estropiavam a nossa bandeira pela avenida da República, eram pessoas de uma família muito conhecida em Lourenço Marques, pelos seus dotes desportivos e passados dois anos foram corridos pela FRELIMO e foram viver para Portugal, que tanto ofenderam.
Foi uma noite sem dormir, houve uma enorme explosão nos paióis da Forças Armadas no bairro de Benfica. Pensei o pior. O Trajano telefona-me para casa dos meus sogros. Tínhamos combinado na reunião anterior que iríamos mais o Ferreira para as antenas do RCM na Matola,
Depois de muitas escaramuças, o povo, a 7 de Setembro de 1974, toma posse do Rádio Clube de Moçambique, já lá estávamos nas antenas para proteger a emissão do RCM.

Edifício das antenas do RCM, na MATOLA
Chego ao edifício das antenas por volta das 11 h, já havia pessoas a tentar entrar para o cercado onde ficava  o edifício de controlo de emissão das várias estações do RCM.
Uma pequena reunião com o Trajano estabelecemos logo as prioridades. Eu fiquei com a segurança.
Fecharam-se os portões, contra a vontade do povo, mas tinha que haver disciplina. Só entrava quem o Trajano e o Ferreira desse autorização, visto que eu não conhecia muitos dos indivíduos que colaboravam na causa, Tínhamos quatro pessoas da nossa confiança, que geriam a entrada e saídas.
O Trajano telefona ao Manuel (locutor), para que este através dos microfones do RCM convocasse para a Matola todos os GE (Grupos Especiais), pois o alferes "Pintinhas" os convocava.
Era uma manobra de diversão, os GE estavam no Norte.  Apareceram três ex-furriéis, , a primeira coisa  que me perguntaram foi: "armas", disse-lhes muito simplesmente que não havia armas porque não íamos fazer guerra.
Havia que vigiar as estradas  que davam acesso às antenas. Para as que vinham de Lourenço Marques ou de Boane, pela estrada velha da Matola, não foi difícil a vigilância, visto que havia um restaurante perto da passagem de nível, falei com o proprietário, para estar atento a qualquer passagem de viaturas militares com destino à Matola nos informasse por telefone.
A vigia na nova estrada da Matola também foi fácil. Um funcionário da SOVIM, que tinha aderido ao movimento, entrou em contacto com um colega para este os informar se havia movimentações militares na estrada.
A estrada que ligava a Matola a Boane era a mais problemática. Não conhecia ninguém nessa zona. Sendo assim um dos meus homens parte para Boane, fala com uns cantineiros e tudo fica resolvido. Assim, o perímetro das antenas  estava protegido e defendido. 
Só faltava sabermos o que de importante se passava no Quartel General. no Esquadrão, e no BCAÇ18. Tínhamos que  contactar com militares da incorporação moçambicana, entre os quais tínhamos muitos amigos. Para esse efeito, contactámos com alguns dos seus familiares e estes por sua vez pediram-lhes que se algo de anormal se passasse nas sua unidades que nos informassem.
Notícias vindas de LM, davam-nos conta que o RCM estava a abarrotar, o aeroporto tinha sido ocupado por ex-paraquedistas, da Cadeia da Machava tinham sido libertados os agentes da PIDE/DGS.
Estava convicto que até certo ponto tínhamos atingido o objectivo de tentar convencer o governo português que também éramos moçambicanos, não queríamos mais guerra, queríamos um Moçambique multiracial e unido. 
No dia 8, ao raiar do sol começam a aparecer boatos de todas as formas e feitios por exemplo: a vinda de armamento proveniente da África do Sul, para nos armar. eu sabia que isso era impossível,pois nas conversas havidas meses antes entre nós e o BOSS, ficou claro que eles jamais deixariam passar armas para Moçambique.
O 8 de Setembro foi um dia de muito diálogo, via telefone, entre Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques e as antenas na Matola  do RCM, soube-se que a OPVDC, também se alia à causa. O comandante desta força, Tenente Coronel Vasconcellos Porto, era um pessoa sobejamente conhecida e de grande carácter. Privei com ele durante 2 anos em Nangade em Cabo Delgado.
Junto aos portões do edifício da antenas da Matola, era uma mole humana. As pessoas traziam comida, palavras de apreço e de confiança. Não sei porquê, o meu instinto de defesa em movimentações militares, dizia-me que íamos ter problemas, as chefias militares portuguesas já me tinham desiludido várias vezes.Sabendo eu que o MFA, apenas olhava para o seu "umbigo" e não queriam saber dos portugueses que nasceram, viveram e trabalhavam nas Províncias Ultramarinas.

Nangade 1971. General Kaúlza a passar revista aos novos GE,
acompanhado pelo Alferes "Pintinhas"
Recebemos um telefonema do restaurante da estrada velha da Matola, avisando-nos que uma viatura militar, com soldados armados de deslocava na nossa direcção, friamente pensei: quem quer que seja vou falar com eles.
Pedi ao povo para se afastar dos portões e que não molestassem oral e fisicamente os militares.
Esperámos por eles mais de uma hora e nada. Recebemos um novo telefonema do restaurante, dizendo que eles tinham voltado para trás. Mas tarde, soubemos que a cerca de um Km das antenas o oficial mandou a viatura de regresso a LM, tinha recebido a informação do condutor da viatura, que o RCM informava que os GE`s estavam tinham montado segurança às antenas.

Texto retirado do livro de Ribeiro Cardosos e já publicado neste Blog

"O capitão Gardete dizia que bastava cortar o cabo que alimentava as antenas, acrescentando que para as silenciar não era preciso deitá-las abaixo -- e lá se organizou uma coluna com meia dúzia de viaturas militares de transporte cheia de soldados negros com capacetes de aço e armados de G3. Chefiada por um capitão cujo nome não recordo, e integrando dois ou três oficiais, entre os quais o capitão Gardete e eu próprio que nunca me vira em tais preparos e apertos, lá chegámos à Matola, onde tínhamos à nossa espera centenas de brancos armados de caçadeiras, algumas de canos cerrados, apontados na nossa direcção.
O comandante da nossa coluna (Hoje Major-General das FAP, Ribeiro Cardoso) falou com o chefe da multidão de brancos que diziam que estavam a defender as antenas e que não obedeciam a nenhum militar. Assim, ala que se faz tarde, regressámos com o rabo entre as pernas ao  QG, como teria acontecido numa digna guerra de Solnado.
A explicação foi a de sempre: não fazer correr sangue. Para além, claro, de entre nós não haver um único atirador ou especialista em combate"...

Hoje continuo a pensar que teria sido uma chacina pois os militares que seguiam na viatura eram soldados pretos de 2ª sem preparação militar. No, meio da multidão havia pessoas com armas de pequeno calibre.
As horas iam passando, dramáticas, não sabíamos o que se passava e o que no esperava. Recebíamos alguma informação via telefone  do RCM em LM, ou de populares que chegavam à Matola e nos informavam dos acontecimentos junto ao RCM. Neste caso e  devido à minha experiência não podia acreditar em tudo. O boato é o pior dos inimigos.


Continua na próxima 2ª Feira
  









   

domingo, 8 de outubro de 2017

LIVRO DE RIBEIRO CARDOSO:"FIM DO IMPÉRIO: 7 DE SETEMBRO DE 1974. MEMÓRIA DE UM SOLDADO PORTUGUÊS". DO 7 DE SETEMBRO AO 21 DE OUTUBRO, 45 DIAS ALUCINANTES



LOUCURA E INCONSCIÊNCIA BRANCA
                            
Esta é uma história que trazia na cabeça desde que, em 1974, a vivi por dentro -- tendo por fundo, a guerra colonial, a descolonização e a traição a dois povos: o moçambicano e o português.
Em Setembro de 1974, Lourenço Marques testemunhou um crime sem perdão. Um crime que originou incontáveis mortos, na esmagadora maioria negros -- graças à loucura e irresponsabilidade de um punhado de brancos  que, sentindo o seu mundo de privilégios a ruir, se lançou numa aventura sem sentido, arrastando emocionalmente milhares de compatriotas que, desinformados e impreparados politicamente, no contexto de então eram presa fácil de qualquer patriotismo rasteiro.
O resultado foi, num primeiro momento, uma euforia balofa, difundida via rádio desejos e boatos como se fossem realidades -- com os seus membros mais exaltados entregando-se, ao som do potente Rádio Clube de Moçambique assaltado, a uma autêntica orgia de sangue negro nas ruelas sem esgoto no caniço.
Ao terceiro dia o medo de que se havia apoderado a população negra, que ouvia a rádio a apelar à intervenção sul-africana e rodesiana, transformou-se em levantamento generalizado, sob a forma de uma marcha de catanas sobre a cidade branca.
O feitiço virava-se contra o feiticeiro. Chegara a hora de a população branca ser tomada pelo medo, primeiro, e pelo pânico, depois
. Polícia incluída, quando as suas comprometidas chefias descobriram, tarde demais, que não tinham capacidade para enfrentar milhares de negros em fúria,
Ao mesmo tempo, muitos brancos perceberam que tinham um pesado preço a pagar: a fuga, o adeus doloroso a uma terra amada mas onde só aceitavam viver com as regras iníquas que sempre os favoreceram e permitiram que, de forma abjecta, vivessem à custa da exploração do negro.
E, ironia da vida, com o peso da última humilhação; a cidade branca só se salvou graças à intervenção da FRELIMO e de um seu militante , Aurélio Le Bon,Clika aqui para leres o livro: MAFALALA, 7 de Setembro de Aurélio Le Bon, que, à pressa, PSP e Exército fardaram e levaram aos microfones do RCM para transmitir a senha que faria  parar os negros em fúria.
Talvez alguns brancos mais extremistas tenham então compreendido que nunca houve, nem podia haver, uma colonização justa -- e muito menos uma descolonização perfeita. Mas poderia ter sido bem melhor do que foi se não se tivesse criminosamente lançado gasolina na fogueira.

Do 7 de Setembro ao 21 de Outubro, 45 dias alucinantes
Loucura e inconsciência branca

Em Lourenço Marques, naquele início de Setembro de 1974 sentia-se que algo de estranho andava no ar.
(...) depois de no aeroporto me ter despedido de mulher e filha, que partiram num avião da TAP, regressei à nossa casa no Bairro Militar, que de imediato me pareceu medonha de silêncio e ausência -- e mais uma vez me levou à pergunta: que faço aqui?
Mal dormido fui cedo para o Rádio Clube de Moçambique para, em conjunto com o alferes Fernando Lopes Cardoso e o chefe dos serviços Redatoriais gizarmos a programação e a informação dos próximos e decisivos dias.
Estávamos no centro do furacão: nessa segunda feira 2 de Setembro, Portugal e a FRELIMO anunciaram que iriam iniciar, três dias depois, em Lusaka, as negociações com vista à transferência de poderes e  à marcação de uma data para a Independência de Moçambique.


Acordo de Lusaka. Mário Soares e Samora Machel
O que estava em cima da mesa era o que, sabia-se, não podia deixar de ser -- mas pôs alguns brancos de cabeça perdida:
-- o reconhecimento do direito inalienável do povo moçambicano à independência;
-- a transferência de poderes para o povo do território;
-- o reconhecimento da FRELIMO como único representante legítimo desse povo.
Isto é: o inelutável, depois de 10 anos de luta, de guerra, de milhares de mortos e feridos em ambos os lados. E de isolamento internacional de Portugal. o que a História, vinda de longe, andou até aqui chegar!
Samora Machel, a exemplo do que já anteriormente tinha dito por várias vezes, afirmou de novo, e de viva voz, na rádio:
" Não vamos negociar a independência. O nosso objectivo é o de estabelecer a forma como o poder será transferido para a FRELIMO, o que corresponde aos interesses tanto do povo moçambicano como do povo português".
Anunciado igualmente foi um megacomício pró-FRELIMO, no Estádio da Machava, nos arredores de Lourenço Marques. A iniciativa pertenceu aos "Democratas de Moçambique", teve o apoio tácito da FRELIMO e do Governo Provisório que decretou a tolerância de ponto para os funcionários públicos e durou 72 horas -- o tempo que duraram as negociações em Lusaka.


Estádio da Machava. manifestação de apoio à FRELIMO
Neste contexto histórico, não havia alternativa e não foi difícil definir as linhas mestras da programação e da informação do RCM: grande relevo para o que se iria passar em Lusaka durante os três dias de conversação, estipulando-se desde logo que se iria mandar à Zâmbia uma equipa de 4 elementos -- dois jornalistas (Eduardo Rebelo e César Moreira de Sá), o chefe dos serviços técnicos (António Alves da Fonseca) e um locutor ( Fernando Rebelo) -- que entraria em todos os noticiários do RCM, de hora a hora, com apontamentos do que de mais relevante se passasse -- sem prejuízo de reportagens e entrevistas que pudessem entrar noutros espaços da grelha. Além disso em Lourenço Marques, reportagens de rua, entrevistas a propósito das negociações e da independência, recolha de depoimentos junto de líderes políticos portugueses e estrangeiros, com relevo para os africanos, resenhas históricas, o quem é quem na FRELIMO que em breve estaria no poder e, obviamente, o acompanhamento ao pormenor do comício na Machava,

                          Ambiente efervescente

Em Lourenço Marques, de resto como em todo o país todos nós vivíamos em estado de sofreguidão. Nos cafés, nos lares, nas fábricas, nas ruas, idem, aspas. A independência, e respectivas consequências, tomavam conta de todas as conversas, discussões e preocupações. Uns, nitidamente uma pequena minoria mas ainda com poder, não aceitavam o caminho anunciado. Outros, a esmagadora maioria, nomeadamente a população negra, morriam de impaciência e alegria pelo futuro a chegar.
" A poucas horas do reinício das negociações entre a FRELIMO e o governo Português" -- escrevi eu na manhã de 5 de Setembro de 1974 numa crónica enviada para Lisboa:
" Moçambique inteiro participa numa gigantesca manifestação patriótica que assume a forma de paralisação total do trabalho seguida de comícios
A partir das 9 horas, e cumprindo a palavra de ordem vinda de Dar-es-Salam, onde se situa a sede da FRELIMO, o povo veio para a rua e para os estádios manifestar o seu regozijo pelo reinício das negociações de Lusaka e o seu completo apoio à posição da FRELIMO. Porém os hospitais, farmácias, correios, polícias, centrais eléctricas, bazares e todos os outros serviços considerados vitais funcionam normalmente.
Ontem, os jornais apareceram cheios de comunicados dos Democratas, de associações e organismos sindicais convidando o povo para a gigantesca manifestação verdadeiramente sem precedentes na história do povo moçambicano.
( ...) Para se avaliar da magnitude deste comício, refira-se que a sua organização representa a união de esforços por parte dos Democratas de Moçambique, Centro de Associação de Negros, Associação Africana, Associação dos Naturais de Moçambique e representantes de associações de classe, nomeadamente carpinteiros, alfaiates, barbeiros, engraxadores, polidores, sapateiros, empregados de mesa, etc...
(...) Paralelamente continuam todos os cuidados na vigilância de certos sectores vitais, pois receia-se uma acção espectacular da reacção no recomeço das negociações que -- já não restam dúvidas a ninguém -- irão entregar o poder à FRELIMO.
O Centro Associativo de Negros tem recolhido amiúde, nestes últimos dias, telefonemas ameaçadores e afirmando que "na quinta - feira começaremos a actuar " Já temos um lugar reservado para o Machel e vocês é que o vão lá levá-lo". Idênticos telefonemas têm sido recebidos noutras organizações pró-frelimistas, mas a PSP, já avisada, parece estar atenta, tendo reforçado a vigilância em locais estratégicos.
(...) Os agrupamentos políticos que apareceram depois do 25 de Abril e se opunham à FRELIMO remeteram-se ao mais completo silêncio, com excepção do PCN -- Partido da Coligação Nacional que fez publicar um comunicado atacando ferozmente os Democratas. No entanto, de tão desacreditado que está, o PCN não consegue fazer ouvir a sua voz (...)
Já no dia seguinte, 6 de Setembro, tudo mudou de figura; ao fim do dia a violência tomou conta das ruas da capital moçambicana e andou à solta e andou à solta a impunemente até tarde na madrugada -- e, o que é bem mais grave e incompreensível, com a conivência clara da PSP e, no mínimo, com a passividade das Forças Armadas colocadas em Lourenço Marques.


Av.. de Lourenço Marques, onde começou o 7 de Setembro
Na manhã do dia 7, já não me atrevi a ir de carro para o RCM. Fui a pé, à civil como gostava -- era arriscado, nesse então, andar fardado e sozinho no espaço laurentino. Pelas ruas, como na véspera tinha tido ocasião de ver, já circulavam de novo centenas de carros, talvez milhares, buzinando sem cessar, com brancos dependurados nas janelas e até nos tejadilhos, bandeiras portuguesas ao vento, mãos ao alto e dedos em sinal de vitória. Uma cena surreal e ensurdecedora. Gritavam sem parar " Vitória, vitória" davam vivas a Portugal e vociferavam abaixo a FRELIMO e os turras, numa excitação desmedida.
Entrei no Rádio Clube, já nessa altura com um furriel e seis soldados  da Polícia Militar à porta, em resultado dos alertas que a Comissão Administrativa Militar do RCM, nomeadamente através do seu presidente, comandante Alfredo Rodrigues Lobo, da Marinha, havia feito na véspera junto da PSP e do Quartel-General, ainda antes de, à noite, terem sido lançadas granadas para a sala da redeacção, que se situava do chão e tinha janelas gradeadas que davam para a rua.
Numa primeira e rápida reunião de alguns dos membros da Comissão Administrativa Militar, fizemos um ponto da situação, avaliámos os riscos, telefonou-se novamente para o major Marinho Falcão, 2º Comandante da PSP de Lourenço Marques, que nos descansou, dizendo-nos que o Rádio Clube não corria perigo, que era preciso somente deixasse que o pessoal deitasse cá para fora o que lhes ia na alma, nada de os afrontar, tudo voltaria ao normal em breve.
Como o Notícias não fora publicado nessa manhã devido aos tumultos da véspera, dei um salto à redacção do RCM, vi o que sido transmitido e o que estava a ser preparado, ainda ouvi o último despacho proveniente da equipa do RCM que estava em Lusaka, falei com vários trabalhadores da casa que relataram tudo o que tinham visto, voltei ao meu gabinete, fiz dois ou três telefonemas para oficiais amigos colocados no Quartel General e outros tantos para jornalistas que haviam assistido por dentro aos acontecimentos da véspera e, jogando com a diferença horária entre Lisboa e Lourenço Marques, escrevi, rapidamente, uma crónica longa que o Diário de Lisboa publicou com grande destaque nessa tarde, pois ainda tive tempo para me dirigir ao edifício dos Correios, que se situava mesmo ao lado do RCM, onde uma menina dos telex, que já me conhecia há muito, bateu a uma velocidade supersónica o texto da crónic para aquele vespertino.
Intitulada "GRAVES INCIDENTES EM LOURENÇO MARQUES" -- eu não imaginava o que estava para vir... -- rezava assim:


Edifício dos Correios de Lourenço Marques nos anos 60
" A capital moçambicana tem vivido nas últimas horas uma situação de angústia resultantes de actos de vandalismo que causaram grandes estragos nas instalações da impresa e organiismos progressistas.
Este clima de tensão atingiu o ponto máximo cerca da 1 da manhã, quando toda a cidade foi acordada por uma poderosa explosão que abalou os  prédios situados nas proximidades, e se veio a saber ter sido causado pelos rebentamentos de munições de um paiol das Forças Armadas situados à saída da cidade e próximo do aeroporto.
Entretanto, já tinha sido destruída por completo e incendiada a sede dos Democratas, estilhaçando todos os vidros do rés do chão do RCM, totalmente partidas as montras e mobiliário da cantina da Associação Académica , assaltada a revista Tempo, e apedrejadas durante horas as instalações do diário Notícias a ponto de não ter sido possível fazer sair a edição de hoje do matutino.
Na sede dos Democratas, os assaltantes ameaçaram dois jovens negros que serviam de guarda, forçaram a entrada, regaram tudo com gasolina, destruíram documentação, propaganda e máquinas, fazendo depois explodir três cargas de trotil que deixaram tudo queimado e originou a intervenção dos bombeiros.
No Notícias os ataques verificaram-seem dois períodos distintos: às cinco da tarde, quando um grupo de pouco mais de 40 jovens enfurecidos lançaram pedras contra as suas instalações, entraram lá, tentaram arrancar os telefones e ameaçaram jornalistas, virando depois três carros de reportagem  daquele jornal que se encontravam estacionados fora.
Este mesmo grupo dirigiu-se seguidamente para o RCM e revista Tempo, onde causou enormes estragos, e mais tarde, cerca das 23 horas, já acompanhados de enorme multidão que desfraldava uma enorme bandeira portuguesa, cercaram o Notícias, apedrejando-o novamente, não permitindo que nenhuma luz se acendesse no interior das oficinas, impedindo desse modo a saída do jornal.
O operador cinematográfico Rui Marote foi agredido quando tentava filmar o apedrejamento e o cineasta Melo Pereira foi atacado também nessa altura, tendo-lhe sido danificada a máquina de filmar e retirada a película.
Na Associação Académica, o grupo de vândalos também esteve duas vezes, tendo atacado a seu bel-prazer cerca da meia noite, destruindo as suas instalações.
De realçar que todas estas acções foram praticadas sem qualquer intervenção da PSP ou do Exército que, nalguns casos, assistiram ao desenrolar dos acontecimentos, Na Associação Académica, por exemplo, os terroristas urbanos, na sua segunda actuação, chegaram ao local bastante depois de lá terem sido colocadas forças policiais e militares que nada fizeram. Já à tarde também se verificara um incompreensível atraso na actuação da polícia, quando os responsáveis actuais pelo Rádio Clube de Moçambique  alertaram as autoridades com cerca de uma hora de antecedência para o que se iria passar, dado que os desordeiros diziam abertamente quando atacassem o Notícias, que a seguir iam dar cabo do RCM que "está vendido à FRELIMO".
Por outro lado, desde as seis da manhã de hoje, centenas de carros ostentando bandeiras e conduzidos por brancos, percorreram as ruas de Lourenço Marques dando vivas a Portugal e gritando contra a FRELIMO, receando-se que se dirijam a qualquer momento para o Estádio da Machava, onde está a decorrer pelo terceiro dia consecutivo um comício de apoio à FRELIMO enquanto decorrem as negociações de Lusaka.Se isto se verificar, o confronto racial poderá ser inevitável, dado que os agitadores profissionais estão a actuar impunemente, sendo visível a organização da reacção.
Como repetidamente tem sido emitido pelo RCM, espera-se uma importante declaração de Machel, directamente de Lusaka, dando conta do êxito total das negociações e anunciando a constituição a breve prazo de um Governo de trabsição onde a FRELIMO deterá dois terços da totalidade das pastas.
O ambiente em Lourenço Marques é portanto altamente efervescente , vivendo-se momentos de grande expectativa e esperando-se não só manifestações de alegria das populações negras em face dos resultados das negociações mas também a reacção violenta da facção extremista branca que, como repetidamente tem afirmado, não ficará de braços cruzados com a "entrega de Moçambique à FRELIMO"
A PSP e o Exército estão de prevenção, e particularmente o RCM encontra-se protegido com a presença de efectivos da ordem, pois espera-se que a reacção pretenda calar a voz progressista daquela estação emissora e simultaneamente a mensagem de Samora Machel".

O Assalto ao Rádio Clube











Regressei ao RCM, que continuava, naturalmente a dar notícias, com relevo para o que se passava em Lourenço Marques e em Lusaka. Já se sabia do acordo e de muitos dos seus pormenores. E a multidão de brancos, salpicada de alguns rostos negros, continuava a engrossar. A sua concentração mais forte era junto à Praça Mouzinho de Albuquerque, de onde saía uma rua que passava mesmo em frente ao Rádio Clube, a escassos centenas de metros. Quando entrei, já a manifestação de brancos tinha tomado essa mesma rua e muita gente estava a gritar palavras de ordem em frente à entrada do RCM.

Com alguns rostos negros, a multidão continuava a engrossar
Estranhamente, muito estranhamente, a PSP não isolou a rua onde estava o RCM. Pelo contrário: apenas colocara um cordão de agentes e carrinhas a impedir os manifestantes de ultrapassarem o primeiro cruzamento após o RCM, logo a seguir ao edifício dos CTT. Um tampão estratégico perfeito: continuava a sair gente da Praça Mouzinho de Albuquerque, mas depois do edifício do RCM não podia (nem queria) passar. E a multidão tornava-se, ali, cada vez maior e mais compacta.
Subi ao primeiro andar. Os membros da Comissão Administrativa Militar, começando a prever o pior mas mesmo assim ainda acreditando que não haveria qualquer invasão, entraram de novo em contacto com o major Marinho Falcão, que tentou mais mais uma vez acalmar-nos, que não havia perigo, que era necessário muita serenidade. Mesmo assim, viria já de seguida ao RCM para falar connosco.
Cá fora, os protestos subiam de tom. A determinada altura, já a tarde ia a meio, os manifestantes quiseram ser recebidos pelos militares que dirigiam o RCM. O segundo-comandante da PSP chegou. Decidimos então receber uma delegação de três representantes da multidão.Por ordem do Presidente da Comissão Militar, comandante Alfredo Rodrigues Lobo dirigi-me ao furriel da PM que comandava o escasso grupo de seis soldados que estava a "fazer a segurança" ao Rádio Clube, dei-lhe instruções precisas no melhor estilo militar que fui capaz de arranjar naquele momento.
Entrei finalmente no Salão Nobre do RCM onde ia começar a reunião com os três representantes dos manifestantes, cujos nomes não recordo. Da Comissão Administrador Militar, para além do presidente, comandante Rodrigues Lobo, estavam, que me lembre, o capitão Oliveira, da Força Aérea, o alferes Fernando Lopes Cardoso e eu próprio. Não sei se o segundo-tenente da Marinha que tinha a seu cargo a área jurídica, por lá se encontrava - mas em contrapartida sei que o alferes João Barroso, responsável pelo pelouro do pessoal, estava de férias em Lisboa. Havia ainda um capitão do exército, fardado que eu não conhecia de lado nenhum e nem sequer sabia a que título ali se encontrava - e, claro, o incontornável major Marinho Falcão, o nº 2 da PSP de Lourenço Marques.
Todos em pé, que a conversa era informal, ouvimos as reivindicações dos representantes dos manifestantes: queriam ter cesso aos microfones para dizerem à população de todo o Moçambique, em directo, a vergonha do que se passara na baixa laurentina, com uns energúmenos conduzindo uma viatura com a bandeira da FRELIMO bem ao alto e uma bandeira portuguesa a ser arrastada pelo chão, já meia rota. Mais queriam também manifestar o seu desacordo total pelo que se passava em Lusaka, com a entrega de Moçambique numa bandeja aos terroristas da FRELIMO - sem referendo, sem eleições, sem terem ouvido o povo, nada. Uma entrega vergonhosa e inaceitável, na sua opinião.
A reunião no RCM com a delegação de representantes dos manifestantes: serena mas claramente, foi-lhes explicado que acesso directo aos microfones, nem pensar. Porém, poderiam gravar uma declaração com tudo o que entendessem dizer, garantindo nós que seria de imediato radiofundida.
A nossa proposta não foi aceite, a argumentação continuou e, ainda não tinham passado 15 minutos sobre a conversa que mantivera com o furriel da PM que no piso zero comandava a força dita de segurança do RCM, ouviu-se um estrondo medonho seguido de tremenda gritaria de uma multidão em fúria. Saí do salão, a correr dirigi-me para os elevadores e, absolutamente atónito -- é o termo --, vi a loucura nos olhos e nos gestos daquela gente que, subindo as escadas, continuava a empurrar-se, a partir os vidros das portas de ferro no 1º andar, a meter os braços pelos espaços onde ainda havia pedaços de vidro partido, tentando agarrar as correntes e rebentar os cadeados com que aquelas portas tinham sido fechadas. Como uma marabunta, começaram a entrar por ali dentro com gritos de "Abaixo a FRELIMO", "O povo unido jamais será vencido", "Morte aos traidores", "Moçambique é nosso", "Viva Moçambique livre e independente", "Fora com os militares comunas"... Instintivamente , e como estava à civil e não era figura publicamente conhecida, misturei-me com eles, sendo levado pela multidão que continuava a subir as escadas do RCM, podendo ver angustiado, parte das bárbaras e violentas agressões de que foram vítimas o comandante Lobo e o capitão Oliveira, os únicos membros da Comissão Administrativa Militar que estavam fardados -- pontapeados, socados, caindo, levantando-se, agredidos de novo, a cara ensaguentada. Também vi, ainda que de um modo fugidio o major Marinho Falcão, que pedia calma a toda a gente mas não foi agredido, apesar de fardado... 

Multidão junto ao RCM

Com novos manifestantes sempre a aparecer em estado de euforia ( para a esmagadora maioria aquele acto constituía uma novidade absoluta, pois nos tempos de Salazar e Caetano nunca se manifestaram ou puseram minimamente em causa a ordem ditatorial e colonial estabelecida) os que chegaram lá acima ao 7º andar começaram a inverter a marcha. E eu, claro, tenso por dentro mas tentando aparentar calma por fora, comecei igualmente a descer aquelas escadarias que me pareciam intermináveis. Sempre a pensar como poderia sair discretamente daquele filme, e sem ter a mínima ideia do que estaria a ser dito aos microfones do RCM ( de resto como acontecia com todas aquelas almas excitadas), vi-me envolvido de repente num incidente que poderia ter tido um desfecho complicado: um ex-funcionário do RCM, o único que a Comissão Administrativa Militar tinha despedido depois de lhe ter sido instaurado um processo disciplinar por comportamento grave, viu-me, parou por  uns segundos, apontou-me o dedo e gritou desvairado: "Este é um dos alferes da FRELIMO! Este é um dos militares responsáveis por esta vergonha"  Fez-se um silêncio de morte. Surge então um funcionário qualificado do RCM chamado Benjamim, que, ao que intuí e mais tarde ele me confirmou, andou por ali a pôr água na fervura, indicando várias coisas aos assaltantes, ajudando-os sempre na perspectiva de nada estragarem ou destruírem na parte técnica, pois seria sempre fundamental manter operacional o RCM fosse quem fosse o poder de turno. Entrou em diálogo com o tal ex-funcionário despedido, a discussão alargou-se, passou um polícia a quem deitei literalmente a mão explicando-lhe a situação e mostrando-lhe que estava armado, ele ficou aflito, disse-me:
"Acompanhe-me meu alferes, acompanhe-me, não mostre a arma por amor de Deus, isto por aqui há centenas de armas, o primeiro tiro transforma tudo isto num inferno, conversa comigo, vamos, vamos descendo, sairemos pelas traseiras, aí as coisas estão mais calmas, o que é me diz? Eu? Digo Ok, vamos a isso e vamos ver no que dá esta loucura. Pois é, meu alferes, esse é o problema, saber no que isto vai dar, estávamos nós por aqui tão bem. Pois, mas havia quem estivesse mal. Eu sei, eu sei, também esse é o meu medo, só não sei se os que estavam mal vão ficar melhor, olhe, meu alferes, vejo negro, vejo a minha vida andar para trás, vá isto por onde for, mas olhe, já chegámos, pode ir calmamente à sua vida, só o acompanho ainda mais uns metros aí na rua, para ver se não há problema, se está tudo bem. Muito obrigado  pela sua ajuda. De nada, meu alferes, estamos cá para nos ajudar uns aos outros. É verdade, mas diga-me, como é que o srº guarda se chama? Todos me chamam Barrigana , porque sou do Futebol Clube do Porto e gosto de jogar à baliza nos jogos entre amigos, que são o pretexto para umas patuscadas, já sabe, meu alferes, se precisar de alguma coisa é só dizer, estou colocado no Comando Geral, às suas ordens, meu alferes"
Fui a pé à nova casa dos meus cunhados, que ficava relativamente perto e onde me aboletara de novo depois de ficar sozinho em Lourenço Marques. Fardei-me, meti-me no carro e rapidamente cheguei ao Quartel General, onde se vivia um ambiente surrealista a todos os níveis


BASTA

(...) Não foi por Amor dos homens
que os homens brancos 
invadiram o meu país
Não foi em nome da Liberdade
que os homens brancos
escravizaram os meus irmãos
Não foi a Justiça
que a mim a meus irmãos
atirou para o canto da vida

Não

Não quero mais escutar
as vozes gritando Amor
enquanto o chicote
cruzar o mundo dos meus olhos (...)

Marcelino dos Santos, Canto de Amor Natural
Casa dos Estudantes do Império, 1962

Assustadora passividade e cumplicidade

É difícil e penoso relatar o ambiente que fui encontrar no Quartel General de Lourenço Marques naquele fim de tarde de 7 de Setembro de 1974. Mas o que ali vi e vivi deu-me em grande parte a resposta a duas interrogações que não me largavam:
-- como tinha sido possível, durante quase três e numa impunidade total, uma multidão de brancos andar desvairada à solta, atacando jornais, incendiando sedes de organizações cívica--política, destruindo instalações universitárias, libertando Pides detidos na Penitenciária, estourando um paiol das Forças Armadas, invadindo os jardins do Palácio do Governador nas barbas da PSP, acabando por tomar conta dos CTT, do aeroporto civil e do mais importante e potente emissor de rádio de todo o Estado.
-- Como fora possível que durante três dias permanecessem de microfone aberto desinformando deliberadamente a população e, recorrendo a um patrioteirismo fácil e repugnante, mobilizar emocionalmente milhares de compatriotas -- ao mesmo tempo que lançavam apelos ao vizinhos do apartheid e a militares portugueses de especialidade combatentes, uns na reserva, outros ainda no activo.
Afinal, a resposta ali estava, à vista desarmada , naquele Quartel General. A indecisão, a confusão, a falta de um chefe com capacidade e vontade de mandar -- se é que não houve nada de mais grave . Como gritante foi o jogo duplo de oficiais de topo da PSP  e a cumplicidade de muita gente com responsabilidade naquela chamada força de segurança. Até um ceguinho distrádo via.


Manifestantes em Lourenço Marques
Mas voltando ao Quartel General: quando lá cheguei ao fim da tarde do dia 7, já sabia que os manifestantes laurentinos tinham ido à Penitenciária libertar os PIDES que ainda lá estavam presos -- 200 segundo umas fontes, 89 de acordo com outras,
Por outro lado, também já tinha ouvido, através do RCM assaltado e ocupado, apelos à intervenção de sul-africanos, rodesianos e comandos de Montepuez. E tinha registado a lenga-lenga das intervenções dos cavalhairos que em primeiro lugar deitaram as mãos aos microfones, exibindo sem-cerimónia o desvario que ia dentro da casa da rádio, onde não havia rei nem roque e muito menos um fio de intervenção política coerente. A própria escolha das músicas, que a partir decerta altura começaram a intervalar a torrente de palavras ocas, disso foi prova: a Grândola Vila Morena cantada  por Zeca Afonso, o Avante, Camarada interpretado por Luísa Basto, o Lemos, Ouvimos e Lemos, do Francisco Fanhais, e, repetindo até à exaustão, o instrumental Winchester Cathedral.
Salvas as devidas distâncias, quase parecia o PREC, misturado embora, de quando em vez, com batuques africanos e canções da FRELIMO -- o que lhe dava um toque chique de uma África branca do reviralho...Mas era apenas a bagunça e a facilidade do que estivesse mais à mão.
Resumindo: depois de ter saído da rádio e de ter escutado durante uns bons minutos o que estava a ser transmitido, rapidamente concluí  que em Lourenço Marques se estava a viver um puro momento Kafkiano - só possível, na mais benigna das hipóteses, graças à inacção/incompetência das chefias militares e à cumplicidade activa das forças policiais. Com consequências bem funestas...

Nervosismo e indecisão

No QG o ambiente era de nervosismo e de indecisão quanto ao que seria mais aconselhável fazer.
Decorria naquele momento uma reunião com oficiais oriundos de várias unidades da capital -- como pude comprovar quando o então major Maia me mandou entrar. Dirigia o coronel Melo Egídio, Chefe do Estado Maior do Comando Territorial do Sul e do Comando Operacional de Lourenço Marques, estando igualmente presente o almirante Brinca, comandante da Força Naval de Moçambique.
Pouco depois e na ausência de qualquer membro da Comissão Militar do RCM, relatei o que se passara e o que tinha vivido. Percebi que a prioridade da chefia militar era encontrar maneira de silenciar o RCM, mas estava-se num beco sem saída porque se queria evitar a todo o custo o que chamavam banho de sangue. Apesar de aqueles dias se terem tornado uma orgia de sangue
Os palpites, as hipóteses de acção foram saltando para a discussão, percebendo-se claramente que nunca antes tal situação, ou aproximada, fora equacionada ou prevista, não existindo portanto qualquer plano de actuação.
Curiosa a todos os títulos foi a intervenção so comandante do AB8, Aeródromo-Base de Lourenço Marques, que para minha surpresa era meu homónimo -- refiro-me ao tenente-coronel Jorge Ribeiro Cardoso, militar da Força Aérea que viria a integrar mais tarde o Conselho da Revolução e hoje é major -- general na reserva.
Telefonei-lhe agora e fomos rebobinar algumas das cenas passadas no QG em Lourenço Marques, naquela histórica tarde de 7 de Setembro de 1974.
" Às vezes parece-me mentira que tenha vivido o que li vivi. Tudo foi surpreendente e surreal. A cena do Quartel General, por exemplo, ainda hoje é, para mim, inacreditável. Ainda oiço Melo Egídio a dizer que a situação era caótica, pedindo a todos os comandantes de unidade presentes para, um a um, fazerem o ponto da situação. fui ouvindo, espantado, coisas no género:
Unidade A -- podemos contar com os oficiais,mas não com as praças;
Unidade B -- podemos contar com as praças, mas não com os oficiais;
Marinho Falcão, da PSP -- com a polícia não contem. Não chegamos para as situações de emergência. Andamos a correr de um lado para o outro;
Polícia Militar -- os meus homens estão prontos para proteger edifícios, mas actuar contra a população, não. Somos moçambicanos na maioria e não podemos entrar nesse jogo".
Perante o que viu e ouviu, o hoje major-general Ribeiro Cardoso ficou com a sensação " de que não tínhamos em Lourenço Marques Forças Armadas capazes". Nesse contexto, pediu a palavra:         " A minha unidade está comandada e faz o que for necessário. Contudo, devo esclarecer que não temos armas nem pessoal -- temos apenas cerca de vinte elementos da Polícia Aérea e alguns mecânico, sargentos de manutenção e pilotos. Mas a minha unidade vai para onde eu for".

 O cristal e as antenas na Matola

Proveniente de Nampula, o então capitão Gardete, hoje coronel na reserva, cuja especialidade era Transmissões, tinha chegado na véspera, dia 6, ao quartel de Boane, nos arredores da capital, com a missão de instalar uma rede rádio a partir daquele local. Não imaginava o que iria acontecer no dia seguinte.
Interior do Quartel de Boane
Assim, no dia 7 à tarde, ao aperceber-se da ocupação do RCM.dirigiu-se imediato ao QG, onde acabou por ficar de prevenção rigorosa durante 15 dias. Em finais de 2012, sabendo-o em Lisboa, telefonei-lhe e. à volta de um café, recordámos esses momentos que em parte vivemos em conjunto.
" Esse foi um período verdadeiramente agitado, com uma situação político--militar muito volátil e até confusa, como certamente o meu amigo recordará"--  começou o coronel. " Tempo para nunca mais esquecer, esse. Ninguém estava à espera de uma coisa daquelas, o coronel Melo Egídio quis analisar ao pormenor a situação existente e o modo como a solucionar e acabaram por ficar de pé duas hipóteses: ocupar rapidamente o RCM, embora no sul não houvesse grandes forças de combate; ou arranjar outro emissor que granelasse as emissões do RCM . Foi também posta a hipótese de deitar abaixo um poste de alta tensão que alimentava um transformador que distribuía a energia para a zona onde estava situada aquela estação de rádio. Porém, como não sabíamos as consequências, visto que não conhecíamos o sistema (tentámos ainda contactar alguém da EDP local que pudesse dar as informações necessárias, o  que não se conseguiu) abandonámos tal hipótese. Na sequência dessa discussão, alguém lembrou que no Liceu Salazar tinha existido uma rádio estudantil, que emitia para a região de Lourenço Marques. Então vários militares, entre os quais estava eu mas também o meu amigo -- ainda não se esqueceu, pois não? -- tomaram a iniciativa de ir ao liceu procurar o cristal dessa rádio estudantil, o qual seria fundamental para pormos no ar um outro emissor pequeno que estava já a ser montado numa torre do Regimento de Intendência..."
"Lembro-me perfeitamente" -- respondi de imediato. " Até fardámos à pressa um civil chamado Eurico, que era especialista nessa área, para ajudar a descobrir o tal cristal. O guarda do liceu, que ficou paralisado quando viu aquela meia-dúzia  de homens fardados que lhe apareceram de surpresa, sem resmungar mas com cara de poucos amigos lá nos abriu as portas necessárias para chegarmos ao emissor que já não funcionava...E quanto ao cristal, nem o cheiro... A operação abortou, ponto final."
No QG , onde regressámos pouco depois, era quase noite quando foi decidido organizar uma pequena coluna militar para ir à Matola com a finalidade de neutralizar as antenas do RCM que, agora pela voz do autodesignado locutor Manuel, continuavam a anunciar repetidamente uma imaginada adesão generalizada das populações de Moçambique ao chamado MML -- Movimento de Moçambique Livre.
O capitão Gardete dizia que bastava cortar o cabo que alimentava as antenas, acrescentando que para as silenciar não era preciso deitá-las abaixo -- e lá se organizou uma coluna com meia dúzia de viaturas militares de transporte cheia de soldados negros com capacetes de aço e armados de G3. Chefiada por um capitão cujo nome não recordo, e integrando dois ou três oficiais, entre os quais o capitão Gardete e eu próprio que nunca me vira em tais preparos e apertos, lá chegámos à Matola, onde tínhamos à nossa espera centenas de brancos armados de caçadeiras, algumas de canos cerrados, apontados na nossa direcção.
O comandante da nossa coluna falou com o chefe da multidão de brancos que diziam que estavam a defender as antenas e que não obedeciam a nenhum militar. Assim, ala que se faz tarde, regressámos com o rabo entre as pernas ao  QG, como teria acontecido numa digna guerra de Solnado.
A explicação foi a de sempre: não fazer correr sangue. Para além, claro, de entre nós não haver um único atirador ou especialista em combate...


Elementos da 7ª CCMDS de Moçambique
Só que, como isso não satisfazia a minha curiosidade, continuava a perguntar a mim próprio ae a outros camaradas fardados: por onde andariam, por exemplo, do membros da Companhia da Polícia Militar existentes em Lourenço Marques? E o destacamento de fuzileiros que também na cidade se encontrava? E a 7ª Companhia de Comandos, ali estacionada? Que missões lhes haviam sido atribuídas?
Mistério...
Regressado de novo ao QG, vivi outro momento inolvidável que, de forma clara, me fez perceber onde eu estava metido: o major Maia (hoje general reformado a viver no Porto), reuniu alguns oficiais subalternos, uma mão cheia de furrieis e uma quantidade razoável de praças, quase todos negros, e mandou distribuir G3 e capacetes de aço. Fez-nos a seguir uma espécie de prelecção em voz alta, assim no género:
" A situação que estamos a viver é grave. Os civis que assaltaram o Rádio Clube de Moçambique estão agora a utilizar os seus microfones tentando aliciar militares e a população branca para a sua causa -- que é fazer abortar os Acordos de Lusaka. Estão de cabeça perdida. Neste momento, tudo leva a crer, têm a intenção de assaltar igualmente o Quartel General, na convicção se o fizerem conseguirão um tremendo golpe publicitário a nível mundial. Estão a ver, naquele último prédio, um dos mais altos, como lá estão duas metralhadoras apontadas na direcção deste QG? Vamos ter o máximo cuidado com esta situação, preparando-nos o melhor possível com os parcos meios de que dispomos. Durante toda a noite haverá uma ronda permanente no exterior e na parte de dentro do QG estaremos igualmente vigilantes. Os pormenores ser-vos-ao comunicados a seguir"
Não ouvi qualquer referência a uma acção militar para eliminar o perigo daquela e outras armas nas mãos dos civis. Só vi um incompreensível e triste jogo de defesa mal--amanhada.
Felizmente, nada aconteceu -- embora muitos de nós não tivessem pregado olho... Pessoalmente, apesar do incómodo capacete que também trazia na cabeça, ainda tentei falar telefonicamente com o Diário de Lisboa e até com alguns camaradas de outros jornais de quem tinha o contacto e que imaginava a dormir calmamente em casa, mas os CTT já há horas estavam nas mãos dos "rebeldes" e não foi possível ligar para Lisboa -- ou porque as linhas estavam sobrecarregadas, ou porque era difícil fazer chamadas para Portugal a partir do QG de Lourenço Marques.




A bagunça total

Durante a noite de 7 para 8 de Setembro, nas ruas de Lourenço Marques e na rádio não houve sossego. O movimento de carros e motociclos festejando a "vitória" e o RCM ocupado, "defendido" no exterior por um escudo protector de largas centenas de pessoas, entre as quais muitas mulheres e crianças, que não arredavam pé, continuou sem parar a sua propaganda, anunciando adesões ao "Movimento Libertador", revelando o nome de civis e militares que já tinham chegado à Casa da Rádio, anunciando outros que estariam a chegar, uns no activo, outros já na peluda. E quem os ouvia, e muitos milhares foram, uns em Moçambique, outros em diversos países africanos, até acreditava que tal Movimento estava triunfante por todo o lado e que vários tinham sido que de norte a sul de Moçambique haviam aderido à "revolução" -- bem como numerosas unidades militares. O que era redonda mentira, pois de norte a sul da colónia os militares cortaram cerce as veleidades dos brancos extremistas, não lhes dando hipóteses de tomar os emissores regionais do RCM e pondo-os na ordem sempre que necessário. Foi o que se passou, nomeadamente em Nampula e na Beira.
Mas a propaganda desvairada e irrealista a partir da sede do RCM em Lourenço Marques continuava sem parar e sem que ninguém a parasse. Era uma "festa", com direito a linguagemcifrada noite dentro: " Atenção Montepuez, atenção Montepuez, Mocho chama Bravo, Mocho chama Bravo. Pede-se a Bravo que se junte a nós, esperamos por si em Lourenço Marques." E depois de mais uma vez lançar para o ar o Hino Nacional, o locutor de serviço -- o Manuel, pois claro, que esteve quase três dias ao microfone com a energia e know how de quem está vender automóveis em segunda mão -- lá voltava à carga: " Atenção sr, comandante da 7ª companhia de Comandos, agradecemos a fineza de contactar com Mocho. Esperamos o seu contacto. O nosso obrigado."
( Um pequeno parêntesis/explicação: a 7ª Companhia de Comandos era de recrutamento provincial, o que queria dizer que os seus membros eram fundamentalmente moçambicanos brancos ou negros. A 7 de Setembro já estava em Lourenço Marques, instalada no quartel da Companhia de Caçadores, como me confirmou de viva voz Fernando Margarido que a integrava.
Já o Bravo, que o Mocho não se cansava de chamar via Rádio, era o major Belchior, um transmontano que na altura comandava o Batalhão de Comandos, que englobava várias companhias, a maior parte das quais de recrutamento nacional.
Mocho, por sua vez, era o nome de código do ex- capitão Comando Gonçalo Fevereiro, que em Moçambique tinha feito duas comissões e entretanto passara à vida civil, chefiando uma delegação de um banco em Lourenço Marques.)

O cap. Abrantes dos Santos a receber em Montepuez do
general Kaúlza Arriaga o guião da 7ªCCMDS Moçambique
Continuando a citar o RCM depois de assaltado e tomado pelos chamados rebeldes: mais musica, mais chamamentos para João Belo, Tete, Vila Pery, Nampula, Porto Amélia e muitas outras localidades dando indicações do local e hora onde as populações deviam concentrar-se. Até que chegou a vez de vir ao microfone o célebre Daniel Roxo: " Atenção Niassa, atenção Reserva de Intervenção e GEs, é o vosso comandante Roxo que vos fala daqui de Lourenço Marques. Estejam a postos como sempre, prontos para actuar se necessário, muita calma e nada de distúrbios. Repito, é o vosso comandante Roxo que vos fala, prontos para actuar se necessário, mas calma, muita calma."
A partir de certa altura o locutor Manuel começou a referir que o Presidente da República, General Spínola, iria falar ao país, anunciando que o RCM transmitiria em directo, pedindo a todos os ouvintes para escutarem com muita atenção o que sua Excelêcia ia dizer. Pouco depois, aconselhou os homens e mulheres que, qual escudo humano, se mantiveram à volta do RCM, para irem para casa ouvirem Spínola. O que logo a seguir -- tal era o desnorte dos ocupantes da rádio --foi desmentido pelo mesmo microfone, pois deixar a multidão sair dali nem pensar, a mensagem transmitida não reflectia o pensamento do  directório, a ordem era para não arredar pé e ouvir ali mesmo o que o Presidente da República ia dizer -- e afinal não disse, pois Spínola não discursou.
E mais hino, mais canções do reviralho, mais apelos, mais anúncios de adesão por todo o Moçambique, a "revolução" ia de vento em popa, continuava a vir gente da África do Sul, mais apelos, bla,bla,bla que só terminaria dois dias depois,no dia 10, após muita tragédia, muita violência e centenas ou milhares de mortos e feridos. 
Pense-se um pouco nalguns nomes desses "dirigentes": Gonçalo Mesquitela -- era só naquela altura, o nº 1, em Moçambique, da ANP, o partido único do fascimo-salazarismo; sua esposa D. Clotilde Mesquitela -- ex-presidente do Movimento Nacional Feminino de Moçambique; Velez Grilo, um ex. dirigente nacional do PCP, que depois de expulso daquele partido foi para Moçambique,onde trabalhava na Câmara Municipal de Lourenço Marques; Manuel Gomes dos Santos, vendedor de carros em segunda mão e homem de extrema-direita; Joana Simeão mulher negra com comprovadas ligações à PIDE, Daniel Roxo, transmontano de Mogadouro que foi para Moçambique em 1951. Com a guerra colonial e passou a combater a FRELIMO, tornando-se um lendário comandante antiguerrilha. Embora não sendo militar recebeu duas Cruzes de Guerra. 
Entre muitos outros nomes, este era o tipo de gente que queria rejeitar os Acordos de Lusaka, muito preocupada com a democracia. Gente que, incentivada por Spínola e apoiada com dinheiro de grandes industriais e comerciantes receosos de perder os seus privilégios, e ainda com o apoio, mais prometido que  real, dos serviços secretos dos dois países do apartheid, andavam a formar partidos à pressa para, em igualdade de condições, em imaginadas eleições e referendos, concorrer -- que ideia mais idiota -- com aqueles que, sofrendo milhares de mortos e feridos em combate pelos seus ideais, andavam há dez anos de armas na mão lutando contra a situação colonial e pela conquista da independência do seu país


COLONOS

Desde que chegaram
ficou sem repouso a baioneta
ficou sem descuido a palmatória
e os chicotes tornaram-se
atentos e sem desleixo (...)

Trouxeram-nos a luta
sem trégua
e da carne do vencido,
durante séculos, fizeram silêncio e cinza (...)

Guerreiros antigos
desceram da residência da águias
e com os pés despidos,
untaram as terras de chamas
para que de esperança e coragem
fosse temperado o tempo por vir
Nos idiomas vários
enrolámos sílabas submersas
Clandestinos rios turbulentos
enroscaram-se nos lagos adormecidos.
Colocámos o sonho no arco Embora 
e dele fizemos flecha certeira
e transportámos-nos no vento
como se fôssemos a semente derradeira
Para sermos homens
desocupamos o silêncio
e com um firmamento de esperança
cobrimos o rosto ferido da nossa Pátria.

Mia Couto, Raíz de Orvalho, 1999

Gonçalo Fevereiro, descrição arrepiante

Já na parte final do 7 de Setembro de 1974, conheci em Lourenço Marques o então major Belchior, comandante do Batalhão de Comandos em Montepuez, que acabara de chegar à capital política de Moçambique numa missão que adiante relatarei com pormenor.
Quis o acaso que estando eu no QG, acabasse por o acompanhar de helicóptero a vários pontos dos arrebaldes da cidade grande, onde havia muita população negra aí concentrada. "Venha daí" ordenou-me ele com a maior naturalidade quando o aparelho aterrou pela primeira vez. Saímos, desarmados, e ele dirigiu-se à população, por vezes com a ajuda de um intérprete -- a todos explicou que a violência acabara, que a tropa portuguesa era agora dominava a situação e os defenderia, e que ainda durante a manhã , naquele local, iam aparecer camions com alimentos e outros produtos para distribuir (as cantinas estavam há dias fechadas ou destruídas e nos subúrbios da cidade havia fome).
O helicóptero subiu e desceu várias vezes, sempre com a mesma cena: toda a gente a dizer adeus. Embora ninguém mo tivesse dito, pressentia-se que havia pessoal organizado a trabalhar no terreno com a população. E durante mais uns dias em que continuei no QG, fui contactando com o hoje coronel Belchior, cujas qualidades humanas, naquelas circunstâncias, me impressionaram vivamente.~
Voltei a encontrá-lo em 2012, trinta e oito anos depois....primeiro em Lisboa depois no Porto, durante largo tempo falei com este homem que é como a Nau Catrineta: tem muito que contar, embora eu suspeite que ele só conta o que quer, guardando para si muita coisa que não pode, ou acha que não deve contar.
O mais curioso, contudo -- e aqui queria chegar antes de falar na sua participação no 7 de Setembro -- é que Belchior, ao saber o tema do meu trabalho, disse-me de imediato: "Tem que falar com o Gonçalo Fevereiro. Ele esteve no RCM logo no primeiro dia e sabe o que ali se passou. Vou arranjar-lhe um encontro com ele..."
Homem simples e divertido, de estatura mediana e só aparentemente frágil, Gonçalo Fevereiro contou-me boa parte da sua vida aventurosa e a sua participação no 7 de Setembro, que agora considera "uma coisa sem pés nem cabeça". Admitiu mesmo que fou uma espécie de "hara kiri" dos brancos em Moçambique.


Gonçalo Fevereiro, Alf. Milº Comando da  4ª CCMDS
 de Lamego a ser condecorado com a Cruz de Guera
Sentados à mesma mesa, ficámos a conversar longas horas.
" Antes de lhe falar no 7 de Setembro deixe-me que fale dos antecedentes. Verá que é importante" -- disse, antes de continuar:
"Ainda andava eu -- e  todos nós -- a digerir o 25 de Abril quando começou a aparecer em Moçambique uma catrefada de partidos e de grupos de pessoas assumindo publicamente posições e apresentando programas. Todos eles com pessoas conhecidas à cabeça. Uns de esquerda outros de direita e até extrema-direita. Uns independentista ou por aí, outros contra. Mais manifs, menos manifs. Fui contactando por um ou dois desses grupos, mas pus-me sempre de fora. Ninguém fazia ideia, ou tinha sequer uma noção mínima da realidade, do que estava acontecer, do que se iria passar. Costa Gomes lá ia dizendo umas coisas que davam alguma garantia de que os nossos direitos iam ser salvaguardados, ia-nos acalmando nos nossos maiores receios.
E assim iam as coisas quando, aí por Julho, fui abordado por um grande amigo, cujo nome se me permite e espero que compreenda, não revelo, que me veio dizer que se estava a organizar um movimento, com negros incluídos, para se dar uma resposta política ao que se estava a passar. Política mas também com alguma força, coisa que não percebi muito bem mas tinha um significado. Foi tudo muito genérico, muito por alto, mas que era preciso estar preparado para dar uma resposta se fosse necessário. E perguntou-me qual seria a minha disponibilidade, pois precisavam de homens como eu, com conhecimentos e contactos militares. sendo que convém sublinhar que essa pessoa amiga era um nome muito importante em Moçambique e sobretudo em Lourenço Marques, o que dava a ideia de que algo com muito peso estava a mexer. À posteriori vê-se que provavelmente fui contactado, cerca de dois meses antes, para o 7 de Setembro. Isto é, a meu ver: andava-se já naquela altura a preparar, com tempo, qualquer coisa, mas confesso que nunca soube nada de concreto. Mesmo assim também devo dizer que por esses dias falei com meia dúzia de ex-militares meus amigos e ficámos na expectativa.
Ora, o tempo foi passando, ouvia-se muita coisa, havia muito burburinho, mas a verdade é que a 7 de Setembro estava eu na piscina do Hotel Polana, onde passei o dia, e ao fim da tarde, enquanto no bar bebia uma cerveja fui completamente surpreendido quando comecei a ouvir "Aqui Rádio Moçambique Livre", e coisas dessas. O barman também estava estupefacto. E eu ainda fiquei mais embasbacado quando comecei a ouvir os apelos à companhias de Comandos em Montepuez. E davam nomes: chamavam este, chamavam aquele, tudo gente conhecida. Pensei cá para os meus botões: será que isto tem alguma coisa a ver com a conversa de há dois meses? E fiquei numa dúvida incrivel. Que fazer? Como saber? Após uns minutos concluí: sá há uma maneira de saber --ir ao RCM. Dirigi-me para lá, entrei, aquilo era uma bagunça incrível, levaram-me até ao locutor Manuel, que eu conhecia mas não era pessoa da minha intimidade, e ele ao fim de uma breve troca de palavras, avançou:
"Como és um militar experiente e conhecido ficas responsável pela parte militar"
Eu olhei para o lado, para trás e para a frente e perguntei: "Parte militar?"
E ele respondeu: "Claro. Tudo o que for militar é contigo"
"Mas onde estão os militares? Quem são?
" Estão por aí. Ou estão a chegar"
"E armamento, onde há? -- Continuei a perguntar
"Armamento? Por enquanto não temos. a não ser algumas armas que a OPVDC está a distribuir. Mas virá mais armamento"
"Quando? Quem o traz? Que tipo de armamento? A quem se distribui? -- continuei a indagar
"Isso já não é comigo. Tu é que és o responsável por essa área. Organiza a coisa"
Gonçalo Fevereiro ao contar este episódio. "Ninguém tinha pensado em nada, não havia organização, ocuparam o Rádio Clube de Moçambique, começaram a falar ao microfone e só aos poucos é que se foi tentando dar um mínimo de organização ao movimento, ou lá o que era aquilo"
Depois tomou um ar muito sério:
"Olhe, continuou a aparecer muita gente, aquilo era uma bagunça total, não havia segurança, só havia uma malta à porta para tomar nota de que entrava, já se estava nisso há umas horas, era só desenrascanço, e achei que devia ajudar a arrumar a casa. Comecei por perguntar se já tinham ocupado o aeroporto, nomeadamente a torre de controlo, ainda não, então arranjei uma malta que foi logo para lá. Depois perguntei se já controlávamos os CTT, que funcionavam no prédio contíguo, também ninguém se tinha lembrado disso, tivemos que enviar para lá gente o que viria a ser, como era óbvio, de uma grande utilidade. Mas aí a meio da noite, já de madrugada, comecei a ver o pessoal mais sonante a ir para casa dormir um bocado, assim no género de uma revolução com horário de entrada e saída, e torci o nariz. E perante o exemplo também fui até casa para retemperar forças. Mas como ninguém conhecia ao certo o nosso peso real, o nosso grau de organização, nem sequer desconfiando que nada estava preparado, que não tínhamos um plano de operações, nem apoios concretizados, nada, zero, só microfone aberto a chamar gente que desorganizadamente ia aparecendo cheia de vontade mas sem saber exactamente ao que ia, a coisa continuou a crescer. Durante mais de 24 horas escutámos todos os telefonemas de Lisboa com o Governo provisório de Moçambique, e ficámos a saber que eles, Costa Gomes incluído, estavam à rasca, pois não sabiam que forças estavam do nosso lado, que armamento tínhamos, quantos homens, que apoios, etc., etc. O general Spínola que era o Presidente da República, também mandou dois militares de alta patente para falar connosco, isso para nós foi um sinal de que tínhamos peso, a onda de apoios presenciais e verbais era de tal monta que houve ali um momento em que começámos a acreditar que podia ser possível negociar outra solução em Lisboa, diferente de Lusaka. Mas foi sol de pouca dura. Entretanto comecei a lançar apelos personalizados para Montepuez, eu era o Mocho, o major Belchior, que comandava o batalhão de Comandos e de quem eu fui subordinado e ao qual ainda me liga uma forte amizade, era o Bravo. Mocho e Bravo, nomes de código. Queríamos que os Comandos se juntassem a nós em nome de Portugal. Se isso acontecesse, acreditávamos, os Acordos de Lusaka seriam para esquecer. Estávamos longe da realidade"
"Mas o major Belchior apareceu no RCM ..." interrompi.
" Pois apareceu, respondeu inteligentemente à chamada, veio sozinho, deixou duas companhias de Comandos na Beira pois não queria que corresse sangue entre os portugueses, e procurou-me logo. Estivemos reunidos com os nomes mais sonantes dos "políticos" do grupo e com  representantes das Forças Armadas -- mas o major Belchior deixou claro que aquilo não tinha pernas para andar, que o melhor era abandonarmos pacificamente o RCM , havia garantias que durante 24 horas ninguém seria preso para podermos sair de Moçambique, essas coisa. Mas ninguém cedeu e cada um ficou na sua"
" Mas dois dias mais tarde, quando os negros se levantaram nos subúrbios e se aproximara da cidade do cimento, vocês saíram, depois daquele homem da FRELIMO ter ido aos microfones anunciar: "GALO AMANHECEU" Quem era esse homem? sabe? 
Não sei e acho que esse homem só foi aos microfones depois de nós termos saído. Mas não garanto, pois a bagunça era tanta que apesar de ter pomposamente a parte militar e a segurança a meu cargo, ali dentro tudo era possível, O amadorismo de quem estava de quem estava a fazer segurança às entradas e saídas era de tal monta que ainda hoje, quando falo disso, nem eu próprio acredito que tenha sido possível, que tenha acontecido mesmo. Só me lembro de que a certa altura todos nós já tínhamos concluído que não havia saída -- a não ser a da porta e o mais depressa possível. Aliás, quando reparei, já quase toda a gente importante tinha desaparecido, tendo eu ficado a queimar papéis com nomes e acções que tinham ficado abandonados por ali. Só depois é que dei o salto, indo dormir a sítio seguro e preparando a minha fuga para a África do Sul.


O cerco à Nave dos Loucos

A resposta ao 7 de Setembro, embora com lentidão e graves contradições e hesitações, começou de imediato a gizar-se em simultâneo em Lusaka, em Lisboa e em Nampula/Lourenço Marques. Nalguns casos nos bastidores, sem ser anunciada.
A Mesa das negociações dos Acordos de Lusaka
Centremo-nos agora no que se passou na capital da Zâmbia, mal Samora soube do que se passou no RCM em Lourenço Marques tinha sido tomado por "rebeldes". E onde há um militar português, recentemente falecido, que teve um papel de grande dignidade e importância. Refiro-me ao tenente-coronel Nuno Lousada que, por decisão do então coronel Sousa Menezes, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Moçambique, integrou à última hora a comitiva portuguesa que assinou os Acordos de Lusaka. Voou a 5 de Setembro num Cessna alugado de urgência, partindo de Nampula às 5 da madrugada para chegar a tempo ao início das conversações que nessa manhã arrancariam no Palácio do Governo zambiano.

A missão de Nuno Lousada era só uma: convencer os outros membros da delegação portuguesa, que poderiam eventualmente não conhecer ao pormenor a situação militar existente em Moçambique, da necessidade absoluta de um cessar-fogo imediato, sendo indispensável, " mesmo que houvesse que ceder no campo político" o estabelecimento de um mínimo de 9 a 12 meses para a retirada da tropa portuguesa da colónia do Índico.
A missão foi cumprida com pleno êxito. Mas Lousada não podia imaginar o que estava para lhe cair em cima.
Mal o acordo foi assinado, toda a delegação portuguesa regressou a Lisboa -- e apenas Lousada permaneceu em Lusaka para participar na recepção que o Presidente Kaunda ofereceria ao fim da tarde..
Mas as coisas são o que são e, ainda antes da recepção, a equipa do RCM, que tinha ido a Lusaka fazer a cobertura das conversações, acabara de preparar mais um trabalho e ia enviá-lo para Lourenço Marques a partir da Rádio Zâmbia.
"Como era normal quem telefonou para o RCM foi o António Alves da Fonseca, que era o nosso técnico" disse-nos agora, Eduardo Rebelo, chefe dos Serviços Redactoriais que integrara a equipa do RCM que a Comissão Militar que administrava a Casa da Rádio enviara à capital da Zâmbia.


Os jornalistas moçambicanos presentes no Acordo de Lusaka
Só que a surpresa não podia ser maior: do outro lado da linha, quem atendeu foi Eduardo Pereira, que no momento era o chefe de turno dos serviços técnicos e ... pôs-se a falar baixinho, em segredo, dizendo que o RCM tinha sido assaltado e tomado, sintonizando a emissão para os enviados especiais ouvirem e perceberem o que estava a acontecer. 
" Espantados, lá ficámos por momentos a ouvir o locutor Manuel. Ligámos de imediato para o Palácio do Governo zambiano onde ia decorrer a recepção, pedimos para falar com o Óscar Monteiro, alto dirigente da FRELIMO, pusemo-lo ao corrente da situação e ele só disse venham já para cá" -- contou ainda Rebelo.
 A recepção presidencial já tinha começado. E sobre o que lá se passou,o  Engº Monteiro da Silva amigo de Nuno Lousada e com ele conversou a propósito, publicou em 2008 no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Em síntese, segundo Monteiro da Silva, Lousada estava naquela recepção quando um mensageiro de Samora Machel, com um cartaz, o veio chamar dizendo que o Presidente da FRELIMO queria Vê-lo de imdiato, facto que o surpreendeu.
Nuno Lousada foi então ter com Samora Machel a uma sala onde o presidente da FRELIMO estava acompanhado de sua mulher Graça Machel e dos generais Sebastião Mabote (Chefe do Estado-Maior), Alberto Joaquim Chipande (futuro ministro da Defesa), Armando Panguene (futuro primeiro embaixador de Moçambique em Lisboa) e outros elementos da FRELIMO, entre os quais, sublinho, Óscar Monteiro e Aquino de Bragança, homem que desempenhou um papel fundamental nas ligações de membros do Governo de Lisboa e de militares do MFA com a FRELIMO
 Samora acusando o Ten-Cor. Nuno Lousada de traidor

Quando Nuno Lousada entra na sala, é recebido por Samora Machel com gritos de "Traição! Traição!, logo de seguida "Traíram-nos" 
Surpreendido, perguntei qual era a "traição" e Samora Machel -- escreve o Engº Silva -- "por seu lado confuso pelo desconhecimento de Lousada, disse-lhe para ouvir o que estava a transmitir o RCM".
Foi então que Nuno Lousada tomou conhecimento da amotinação de parte significativa da população branca de Lourenço Marques.
Nuno Lousada esforçou-se então para convencer Samora Machel não só do seu desconhecimento do que se passava na capital moçambicana mas também da sua certeza que o Quartel-General de Nampula nada tinha a ver com o assunto.
"Deu mesmo a sua palavra de honra de que não havia qualquer golpe português contra o acordo que acabara de ser assinado em Lusaka" -- Garante Monteiro da Silva, que acrescenta ainda:
(...) Mas as notícias do RCM eram tão afirmativas do bom e extensivo levantamento que Samora Machel diz para Lousada que ia dar ordens para as forças da FRELIMO atacarem todas as posições portuguesas em Moçambique -- e voltando-se para Mabote deu-lhe instruções nesse sentido. Aqui, Lousada (o próprio também ainda hoje não sabe de onde lhe veio a força para o fazer) disse com toda a veemência para Samora, "Não faça isso" e este pergunta-lhe "Então o que faço", ao que Nuno Lousada respondeu: "Faz o que fôr melhor para o povo moçambicano e para o povo português" e Samora Machel volta-se para Mabote e suspende a ordem para atacar as posições portuguesas. Em seguida, Lousada convence Samora a falar directamente com Spínola, em Lisboa, e arranja-lhe o contacto telefónico
Clika aqui para leres a crónica: Rui Vergueiro, Alf. Milº no pós 25 de Abril no Niassa
Segue-se a descrição do Engº Monteiro da Silva da conversa telefónica Lusaka--Lisboa:
"Da parte da FRELIMO é dito que o general Spínola afirmou a Samora Machel desconhecer o que se passava em Lourenço Marques.
Samora terá retorquido, indignado, que Spínola tinha estado no Buçaco, dias antes, com pessoas responsáveis pelo golpe de Lourenço Marques e, contra o protesto de Spínola, grita-lhe ao telefone o "Presidente de Portugal mente"
De facto, o Presidente Spínola tinha acolhido no Buçaco elementos afectos ao FICO que se deslocaram a Lisboa e para ali foram numa viatura cedida pela Presidência da República -- e por coincidência curiosa, cruzaram-se à saída com os ministros Melo Antunes, Mário Soarese Almeida Santos, que também tinham lá ido.
Spínola terá respondido que não admitia tal grosseria e desliga a chamada. O aparelho telefónico desta troca de palavras foi depois oferecido pelo Presidente Kaunda para o Museu da FRELIMO, em Maputo, por ter sido aquela troca de palavras considerada um acontecimento histórico"
Monteiro da Silva escreve que Nuno Lousada lhe confessou a sua aflição naquele momento, "e propôs de novo que Samora falasse para Lisboa"
Aqui entra o CEMGFA Costa Gomes (ou, segundo outra versão, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves), e ficou combinado que Nuno Lousada regressaria de imediato a Nampula juntamente com uma representação da FRELIMO, nomeadamente os generais Alberto Joaquim Chipande, Sebastião Mabote e Armando Punguene, para negociar, no terreno, a implantação do acordo para o cessar-fogo a entrar em vigor às zero horas de 8 de Setembro de 1974. O que aconteceu, começando também nessa altura a gizar-se a resposta dos colonos brancos. No dia 8 Alberto Joaquim Chipande já estava em Lourenço Marques Num programa da RTP2 emitido em 2001, Chipande disse de viva voz:
"Quando cheguei disse que queria falar com o encarregado do Governo. Na altura era um caboverdiano que esta lá, não me lembro do nome, veio ter comigo e disse que não tinha poderes para decidir. Então reuniu com oficiais militares portugueses. Eu disse: têm que encontrar solução. "Nós não temos poderes. O que podemos fazer, como você é dirigente da FRELIMO, é disponibilizar alguns elementos simpatizantes da FRELIMO para falar com eles, para verem o que podem fazer. Eu disse: está bem. Disponibilizem lá. O Amaral Matos veio ter comigo.(Clika aqui para leres o livro de Aurélio Le Bon: MAFALALA. Memórias do 7 de Setembro) 
A partir daí a FRELIMO passou a actuar em Lourenço Marques já não em clandestinidade total, organizando os seus militantes e mantendo o contacto com personalidades da cúpula político-militar portuguesa.

A última acção da CHERET

Entretanto, em 2012 surgiu um livro intitulado História da CHERET, do tenente-coronel António Eduardo de Carvalho Lopes, que apresenta uma nova versão sobre a ordem que Samora deu à FRELIMO para atacar os quartéis portugueses na sequência do 7 de Setembro.(Clika aqui para leres a crónica: 8 de Setembro de 1974. A acção da CHERET em Nampula, evitou uma catástrofe)


Os homens da CHERET em Nampula
Ao centro o Ex. Cap. Melo Carvalho. A ladeá-lo
os ex. 1º Cbo Pedro silva e Victor Ferreira
Tal livro dedica todo o último capítulo a uma acção fantástica, mas quase desconhecida: a intrusão, na rede de Transmissões da FRELIMO, do Serviço de Reconhecimento das Transmissões (que no exército português ficou conhecido por CHERET), que em cima da hora consiguiria levar a FRELIMO a anular a decisão de Samora.
Aeroporto

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio. 
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon 
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe que não

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscreta,
preservando apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

Só me importa esquecer, esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso do cimo da palmeira esquiva,
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.

Rui Knopfli, O Monhé das Cobras, 2005

O "Bravo" em acção

Voltando agora ao major Belchior, hoje coronel; a sua intervenção no caso do RCM tem que se lhe diga.
No primeiro encontro que tive com ele no âmbito deste trabalho foi com visível prazer que me começou a contar:

"No de Setembro estava em Montepuez e, como toda a gente, estava colado ao rádio. E para meu espanto, comecei a ouvir o "Mocho", que era o Gonçalo Fevereiro, um excelente Comando que tinha sido meu subordinado , a chamar-me pelo meu nome de código, "Bravo". Queria que eu aderisse e fosse por ali abaixo juntar-me a eles, levando o pessoal todo... Eles não sabiam, ou não quiseram saber, que eu não podia ir por aí abaixo com os meus homens... Uma loucura"

Belchior riu-se, coçou levemente a cabeça e desbobinou: no dia seguinte, 8 de Setembro, recebeu instruções de Nampula para preparar rapidamente duas companhias de Comandos e avançar para Lourenço Marques (LM) para tomar o  RCM. Foi ainda informado que iam chegar a Montepuez quatro aviões NordAtlas para transportar as duas companhias, ele não tinha alternativa, mas pediu para não voar directamente para LM, parando em Nampula para falar com o coronel Sousa Menezes, chefe   do Estado-Maior do Exército. e com o comandante-chefe general Orlando Barbosa.




Assim aconteceu e Belchior explicou em Nampula que tinha uns zun-zuns quanto o que esperava dos Comandos quando aterrassem em LM: ex-Comandos e as famílias dos muitos dos actuais Comandos iriam tentar envolver os seus homens logo no aeroporto, convencendo-os a não desocupar o RCM. Além disso, ele, Belchior, não podia ordenar aos seus subordinados que atirassem ou usassem violência sobre civis.
"Qual a alternativa" -- perguntaram Meneses e Barbosa. Belchior explicou: as duas companhias ficariam na Beira  e ele seguiria, sozinho, para LM onde estudaria a situação e falaria com os revoltosos. Além disso o general comandante-chefe deveria chegar a LM pouco depois dele, pois se fosse necessário tomar alguma decisão séria e violenta ela teria de  ser ordenada pelo nº1 e não por ele, Belchior.
A proposta foi aceite, voaram para a Beira onde instalou as duas companhias e de imediato, num táxi-aéreo seguiu sozinho para LM , onde se desfardou na messe de oficiais e se dirigiu para o RCM . Entrou sem qualquer dificuldade: "Estava à civil, ninguém me conhecia, aquilo era uma confusão indescritível."
Falei com o Mocho e com o Roxo (outro homem que tinha sido meu subordinado e com quem se dava bem), que ficaram surpreendidíssimos  com a sua presença. Falou muito com eles e com outros conhecidos que ia encontrando, ("havia por ali muitos ex-Comandos e ex-Para-quedistas"), esteve no local cerca de oito horas e verificou pouco a pouco que eles que eles começavam a ter a noção que estavam isolados, que não vinha nenhum apoio nem da África do Sul, nem da Rodésia e muito menos de Portugal. Estavam também cansados e, parecia-lhe, até assustados. Sem horizontes, Aconselhou-os a pôr fim à aventura  e disse-lhes que iria negociar com o comandante-chefe, ficando eles admirados por o saberem estarem algures em LM, e não em Nampula, à espera do resultado desta conversa. Às quatro da matina foi en tão a Sommerschild (bairro chique de LM) encontrar-se com o general Barbosa, obtendo seu acordo para se dar 24 horas aos homens para que, sem perder a face, abandonassem o RCM  saindo para a África do Sul ou Rodésia. "O resto é que foi mais complicado, pois eles tinham divisões internas e não saíram. Tudo aquilo foi uma chatice. Ninguém se entendia. foi preciso ter muita paciência até eles perceberem que não havia saída para a embrulhada que se meteram" -- concluiu.
Nessa altura já estávamos na manhã do dia 9.

Balbúrdia no aeroporto e não só

O aeroporto civil de Lourenço Marques foi tomado pelos "rebeldes" às 05h45 do dia 8 -- mas isso não teria acontecido se os repetidos alertas do director do aeroporto, David Orlando Cohen tivessem sido ouvidos pela PSP e restantes autoridades, nomeadamente as militares. 
Na verdade, o "Relatório das Ocorrências Registadas no Aeroporto Gago Coutinho", redigido por Orlando Cohen em 12 páginas.é de bradar aos céus, mostrando com clareza a passividade a incompetência -- se é que não foi nada de mais complicado -- de quem tinha a obrigação de perceber que um aeroporto civil, ainda por cima colado a uma base militar, deveria obrigatóriamente constituir uma das prioridades na defesa da cidade.
Lê-se no documento, no que toca ao dia 6 de Setembro.

"Em face do que se estava passando na cidade de LM (cortejos ruidosos de automóveis pelas ruas). e prevendo que estes acontecimentos viriam a culminar com actos de maior gravidade, na manhã de sexta-feira, dia 6, o signatário, como director do aeroporto, telefonou para o Comando Geral da Polícia pedindo que fosse mandada uma força para guardar o aeroporto, em virtude dos meios que dispunha, compostos na altura apenas por dois elementos da PSP, um trabalhando de manhã e outro à tarde, por o terceiro se encontrar de licença disciplinar, serem nitidamente insuficientes.
Foi respondido pelo Sr. comandante que iria fazer os possíveis para satisfazer o pedido, o que não aconteceu até às 22 horas, horas do encerramento da estação, segundo o horário vigente do aeroporto.

O director seguiu depois a via-sacra de pedir reforços de segurança a numerosas entidades, sempre sem êxito.
Como os alertas e os pedidos, apesar de continuarem a ser feitos, não obtiveram respostas positivas, "no fim da tarde do dia 7 já foi difícil manter a ordem e disciplina na aerogare, que esteve sempre cheia de manifestantes, perturbando o bom funcionamento dos serviços" -- lê-se no relatório.
Entretanto, e após várias peripécias, aconteceu o que era mais do que previsível: manhã muito cedo, no dia 8, as zonas mais sensíveis do aeroporto civil foram ocupadas por centenas de brancos, muitos dos quais armados. Sem qualquer oposição.
O comandante do AB 8, que "morava" ali mesmo ao lado, foi alertado para o que se estava a passar  -- por trabalhadores do aeroporto e, obviamente, pelo director, que coitado, continuava a telefonar para todo o lado para ver se sensibilizava as autoridades para a necessidade imperiosa de defender o aeroporto.
Pelo que me contou em 2013 o hoje major-general Jorge Ribeiro Cardoso, aquilo foi de truz. Ele próprio, por vezes, sorrindo com sarcasmo ao recordar o drama que na altura viveu, começou a contar:

"Como lhe estava a dizer, entretanto deu-se a ocupação do aeroporto civil, torre de controlo incluída. Fui falar com alguns dos invasores, achei melhor ter calma pois já sabia o que a casa gastava e eu não tinha meios, deixei-os a falar com o director do aeroporto, fui de novo ao quartel-General  e comuniquei: a situação é complicada, só aterram os aviões que eles quiserem. E aproveitei para esclarecer mais uma vez que na Força Aérea éramos pouquíssimos  e a Polícia Aérea tinha umas FBP, que como nós sabíamos eram mais perigosas para nós do que para o inimigo.Acrescentei que eu próprio nem arma pessoal tinha e foi aí que o major Marinho Falcão, da PSP, me emprestou uma arma de bolso. Foi-me igualmente prometido que me enviariam para a Base uma companhia indígena comandada por um oficial que não era daquela unidade, o que na verdade veio a acontecer mais tarde. Aliás, também no dia seguinte a Unidade acabou por ser reforçada com três grupos, cada um com cerca de trinta homens.. Com um porém: só um desses grupos estava decidido a a actuar se fosse necessário, pois os outros dois, segundo os oficiais que os comandavam, não tomariam qualquer posição contra a multidão. Fenómeno parecido ao que já acontecera quando os "revoltosos" foram à Penitenciária libertar os PIDES.
Regressei à Base pela avenida que ia desembocar no portão da frente do aeroporto, depois era só atravessar a pista e ia para a minha Unidade. Mas pelo caminho -- sublinho que estávamos no dia 8 -- já vi vários cadáveres de negros estendidos na estrada e disse logo de mim para mim: "Isto está a complicar-se muito, já se mata de qualquer maneira".

O calvário do director

Voltando agora ao relatório do director do aeroporto, um documento da maior importância para se perceber o que ali se passou naqueles dias.
Lê-se a certa altura:

"O signatário, mantendo-se sempre no aeroporto 
, por diversas vezes evitou que a placa fosse invadida por manifestantes que em grande número se encontravam com bandeiras e cartazes na varanda da aerogare. (...) Diziam estar para chegar dois NordAtlas com Comandos e queriam obstruir a pista de aterragem.
Entretanto aumentava o número de elementos armados que já se encontravam na Torre de Comando vigiando os controladores, junto do PBX, à porta do gabinete do director e junto às escadas de acesso à Torre. 
Vários tentativas de telefonemas para as entidades governamentais foram infrutíferas por não se conseguir contacto.

A noite passou-se com relativa normalidades, continuando os ocupantes brancos nas mesmas posições.  Cerca das 8h30 da manhãs de segunda-feira, dia 9, chegou o avião da TAP com os emissários do presidente Spínola e aí, sabia-se, não haveria problemas porque, como o RCM ocupado não se cansou de divulgar, alta era a expectativa dos amotinados nesta visita.
À tarde, porém. tudo se modificou: voltou o boato de que estariam a chegar vindos da Beira, os famosos NordAtlas com duas companhias de Comandos a bordo,
Foi um pandemónio: milhares de manifestantes voltaram a ocupar o aeroporto exigindo os cabecilhas que as ditas aeronaves não rolassem para as placas do AB 8 (os responsáveis do RCM, que tinham as comunicações sob escuta, deram esta notícia). Já não era uma questão de impedir que aterrassem -- agora a perspectiva a de envolver emotivamente os "irmãos fardados" que iam chegar, levando-os a apoiar o Movimento. Só não sabiam que afinal nenhuns dos NordAtlas estava para chegar, pois tinha havido contra-informação da parte militar ao descobrir que as suas conversas estavam a ser escutadas...
Entretanto, já cerca das 20 horas, lê-se no tal relatório do director do aeroporto, "começa a constar no meio dos manifestantes que um enorme grupo de africanos, aí à volta de cinco mil, estava a organizar-se para invadir e destruir o aeroporto, estando já em marcha nesta direcção" Rematou David Cohen: "Dali a pouco aterraria o avião da DETA, (Companhia Aérea de Moçambique).
Aflito, voltou a telefonar para o comandante da AB 8, "informando-o da situação, e pedindo-lhe encarecidamente que viesse salvar o aeroporto. Ele respondeu que só o faria se os intrusos abandonassem as instalações. Estes, que assistiam ao telefonema, afirmaram que defenderiam o aeroporto e não o abandonariam. O sr. comandante do AB 8 respondeu: "Então que o defendam" Lê-se ainda no documento, onde são de destacar igualmente estes três expressivos parágrafos:

"(...) Tendo entretanto chegado o avião da DETA, passageiros, tripulantes, pessoal do aeroporto e outro que aguardava o avião, entraram em pânico, ao saber da marcha dos africanos em direcção ao aeroporto. Deram-se então  cenas indescritíveis.
Perante isso o signatário ordenou que se abrisse a porta nº 1 a fim de dar passagem às viaturas que se encontravam no parque em grane número, tendo autorizado o seu estacionamento na placa.
E às 21h30 telefonou novamente o  comandante da Base pedindo-lhe que desse abrigo aos passageiros que tinham chegado no avião da DETA, tendo ele respondido que o daria apenas às senhoras e crianças, pelo que o signatário, no meio da maior confusão, providenciou para que uma carrinha da DETA transportasse esses passageiros para o AB 8"
Retomemos agora às declarações que majo-general Jorge Ribeiro Cardoso me prestou no início de 2013:


Aeroporto de Lourenço Marques
"Sim é verdade, nesse dia 9, ao princípio da noite recebi a informação de que um grupo numeroso de negros ia atacar o aeroporto. Para mim foi um sinal de que os negros, que estavam a ser atacados pela rádio e agora também nas ruas dos subúrdios, já começavam a  organizarem-se e a reagir. Um péssimo sinal quanto ao que poderia acontecer. Também é verdade que o director do aeroporto me telefonou nos termos que o sr.refere -- e a minha resposta foi a a que o sr. acaba de citar.
Mas verdade, verdade é que fiquei com o coração a roer-me todo cá dentro. Logo a seguir reuni o meu pessoal e perguntei quem queria defender o aeroporto. Todos quiseram. Todos quiseram
Entrei com os meus homens , a tropa indígena deixei cá fora, demos uns tiros de metralhadora e os brancos pensaram que era tropa especial.Eles ocupavam a torre de controlo e a parte do Despacho e  Movimento. Não se podia tolerar.
Entrámos por ali dentro, cá em baixo estavam uns tipos armados, ordenei ao meu pessoal que os desarmassem, entrámos de seguida na sala de Despacho e Movimento, puxei da pistola e  ordenei "já para ali" -- era uma sala pequena onde os queria fechar --, um deles deita-me a mão à arma , eu num gest instintivo desvio a pistola que dispara atingindo-o, foi levado para o hospital onde esteve internado seis dias, o Drº Branco, médico da Força Aérea , é que acompanhou o processo"
"Morreu?" -- perguntei.
"Não, não morreu."
"E o que lhe aconteceu depois?"
"Nunca mais soube nada dele. Ou melhor, mais tarde disseram-me que tinha regressado e ido para o  Porto. É tudo o que sei dele"
Nem o nome? quem era esse homem?" -- insisti.
"Nome, não recordo. Não sei. ao que me disseram era um médico que estava à espera de um familiar. A mulher, salvo erro. Estranhei, todavia, que se encontrasse no meio dos rebeldes e num local a que não deveria ter acesso e por onde não saem passageiros. Sei também que depois de visto pelo médico militar do AB 8, que o acompanhou sempre, dei ordens para que a ambulância da Unidade o levasse para o hospital, onde esteve internado seis dias, salvo erro. 
Nessa noite, ou melhor já de madrugada e com o aeroporto live de intrusos, os dois enviados de Spínola regressaram a Lisboa, deliberadamente sem terem ido ao RCM mas com uma ideia formada sobre a realidade que se vivia na cidade.
Por outro lado, não se registou qualquer ataque ao aeroporto por parte dos negros, mais interessados em avançar sobre a cidade de cimento -- e pouco a pouco começou a ser descoberta a terrível matança que homens da equipa que havia tomado o RCM, nomeadamente os membros dos Dragões da Morte 1) e os elementos armados da OPVDC, andavam a fazer à socapa na cidade do caniço.
Registo ainda uma afirmação que me fez o ex-comandante do AB 8: "No dia 10 sobrevoei os negros a  avançar para a cidade de cimento. Foi de arrepiar: o que se via era milhares de negros a caminhar por todas as estradas e ruas que levavam à entrada da LM dos brancos. Pareciam multidões de formigas, aos milhares, a avançar em direcção à cidade. Não se via o chão. Assustador. De lá de cima é que se tinha uma ideia de conjunto do que estava prestes a acontecer".

1)  -- Dragões da Morte -- organização clandestina durgida no 7 de Setembro composta fundamentalmente por jovens ex-militares, fundado por alguns filhos - família de brancos, com destaque para os Mesquitela e Cardias. Tinham por fim -- como consta no seu Boletim nº1 -- " pôr termo às guerrilhas (...) e pôr trermo às conversações com a FRELIMO, nem que tenhamos de começar a fazer terrorismo urbano, para fazer calar os inconscientes que dão VIVAS à FRELIMO" Responsáveis em grande parte do morticínio no caniço.

Telexes secretos de Crespo para Lourenço Marques" 

Em Lisboa, as autoridades civis e militares, vieram logo a público condenar veementemente, ainda na noite de 7 para 8, o assalto ao RCM e sua ocupação, começando de imediato a gizar uma resposta adequada em ligação permanente com os comandos das Forças Armadas portuguesas em Moçambique..
Havia, porém, um travão e uma contradição: o Presidente da República, de consciência pouco tranquila, não só não condenou o movimento dos colonos brancos extremistas como foi mais além -- enquanto retinha em Lisboa Victor Crespo, já indigitado mas não nomeado Alto - Comissário, decidiu enviar a Lourenço Marques dois oficiais superiores (Tenente-Coronel Dias de Lima, que chefiava a sua Casa Militar, e o Comandante Duarte Barbosa, também ali colocado) para que estes fizessem o ponto da situação e regressassem, só se actuando depois. Com o requinte de esses dois enviados terem partido para Lourenço Marques na noite do dia 8, após Spínola, fortemente pressionado pelo MFA, primeiro ministro e CEMGFA, ter promulgado os Acordos de Lusaka.
Isto é: contradições e divisões não existiam apenas na Nave dos Loucos. Aliás, havia mesmo quem suspeitasse que o louco-mor residia em Belém.
Entretanto, Victor Crespo percebeu que não podia ficar parado  à espera da sua nomeação e tomada de posse e, ao contrário de Spínola, entrou em acção.
Assim. membros do MFA que estavam em Nampula indicaram-lhe o tenente -coronel Cunha Lopes como interlocutor em LM -- e o futuro Alto Comissário, que queria estar informado ao minuto do que se passava na capital moçambicana para gizar a sua estratégia, com a ajuda do comandante Contreiras (seu camarada da Armada e também destacado membro do MFA) começou de um modo discreto mas imediato, via telex militar situado na cave do Ministério da Marinha no Terreiro do Paço, a trocar telexes em código com Cunha Lopes, cujo conteúdo é bastante revelador e merecedor de uma reflexão atenta
Poesia do guerreiro involuntário 

Foi para lá
Com medo
De sentir medo
(...)
Foi para lá 
Com a vergonha
De sentir vergonha
(Talvez até mate crianças
Tenho dois filhos Senhor...)
Foi para lá
Com a vontade
Que os outros lhes impuseram
Foi para lá 
E a coragem não era dele
E o ódio não era dele
Não era 
mas foi
E com a raiva dos outros
Matou matou matou
Até que um dia
Oh! ironia
Nesse dia 
Havia Sol
Havia esperança
Havia mulher
Havia os filhos a mãe uma carta
Havia havia havia
Mas esfarelou-se todo
Todo
No gargalhar traiçoeiro
Das granadas
De bico amarelo
E rabo encarnado

Rui Nogar, Poetas de moçambique. Antologia da Casa dos Estudantes do Império. Lisboa, 1962

Situação militar em LM

Victor Crespo, a quem coloquei esta questão dos telexes secretos, limitou-se a confirmar ser verdade ter estado em contacto permanente com Cunha Lopes naquele período difícil.

"Repare" -- sublinhou o almirante Crespo -- "eu não podia ficar de braços cruzados. Lourenço Marques era um vulcão em plena actividade, a situação era de extrema gravidade, as informações que chegavam a Lisboa eram desencontradas e alarmantes, eu queria partir para Moçambique mas estava a ser travado pelo então Presidente da República. A única saída que encontrei para se começar, cuidadosamente, a tomar algumas medidas, foi essa que o  senhor referiu"
Mostrei-lhe então cópias de telexes que tinha conseguido pbter em Lourenço marques em 1974.
"O primeiro contacto verificou-se na manhã de 9 de Setembro de 1974. E a primeira coisa que o senhor almirante quis saber foi que forças seguras, colocadas noutros pontos de Moçambique, poderiam ser enviadas para LM - sem reduzir perigosamente a segurança local" --adiantei.
"Está bem informado. Pouquíssima gente tem conhecimento desses telexes" respondeu de imediato.
Perguntei então ao ex- Alto-Comissário:
"Nos meus papeis percebe-se que o tenente -coronel Cunha Lopes lhe responde que não seria complicado transferir algumas companhias do Norte, mas há depois referência à DETA  -- a empresa de transportes aéreos de Moçambique -- que, tanto quanto consigo decifrar, estaria solidária com os colonos revoltosos. Pode confirmar?"

Tanto quanto me lembro, o que o tenente -coronel Cunha Lopes me disse é que havia grande falta de transportes aéreos, uma vez que a DETA, por solidariedade com o movimento dos colonos, não transportava elementos militares para LM. E falava também em agravamento da situação na zona da fronteira entre o caniço e a cidade de cimento, já com muitos mortos e feridos".


Almirante Victor Crespo. Último Alto-Comissário em Moçambique
De acordo com os documentos na minha posse, o tenente-coronel Cunha Lopes pediu a Victor Crespo para que em Lisboa se conseguisse convencer o general Spínola a fazer o mais rapidamente possível uma alocução à população europeia de Moçambique, que dando, à luz dos Acordos de Lusaka que ele já havia ratificado, uma palavra de esperança e garantia quanto à salvaguarda dos bens e das pessoas que lá ficassem. "Pensamos que essa palavra de esperança poderá aguentar a crise que está iminente" -- escrevia Cunha Lopes, que chamava a atenção de Victor Crespo para o facto de as unidades militares existentes em LM serem extraodinariamente  reduzidas e, pior ainda, com a agravante de "a maioria dos seus elementos estar comprometida ou ser simpatizante com o Movimento dos europeus".
A pedido do futuro Alto-Comissário, informou, preto no branco, Cunha Lopes:

"Companhia de Polícia Militar é essencialmente constituída por europeus. Dispõe de quatro auto-metralhadoras. Metade dos seus elementos estão com o movimento popular, os restantes, embora não estejam com o movimento, negam-se a tomar uma atitude de força contra crianças e mulheres misturadas com elementos armados;
Companhia de Comandos é constituída por elementos moçambicanos e ainda está mais fortemente comprometida do que a PM;
Batalão de Caçadores 18 tem apenas em LM um grupo de combate negro e Companhia de Comandos e Serviços. Estes elementos estão ansiosos de se dirigirem para a zona do caniço a fim de proteger os seus familiares;
Destacamento de Engenharia com cerca de 400 soldados negros que também não cumprem missão de atacar o RCM e apenas pretendem ir para o caniço para defesa dos seus  familiares: 
Batalhão de Intendência e Batalhão de Serviço Material e Centro de Instrução de Transporte que não podem ser considerados como Força Militar;
Em Boane, 4 Grupos de Combate que já foram mandados avançar para LM mas foram retidos no caminho por elementos armados do chamado Movimento Moçambique Livre"

Conversações com os amotinados

Mostrando estar por dentro do que se passava, Cunha Lopes revela igualmente que as autoridades têm mantido conversações sucessivas com os cabecilhas do Movimento, tentando chamá-los à razão e ao bom senso.

"Eu próprio estive ontem no RCM durante três horas tentando chegar a uma solução pacífica, tudo me foi prometido mas o que é certo é que os cabecilhas já não têm mão na multidão que conseguiram trazer para a rua. À noite o Sr. general Comandante-Chefe , também teve idênticas reuniões com resultados idênticos aos meus. Hoje (dia 9) os emissário do general Spínola têm estado continuamente reunidos com os chefes do Movimento, mas emissões continuam no mesmo teor e a convocar todos os ex-militares para virem-se apresentar no RCM.
Os chefes do Movimento são Gomes dos Santos, Dr.Velez Grilo, Dr. Pires Moreira, todos do FICO, dois elementos dos Federalistas, dois elementos da Convergência Democrática e ainda Uria Simango, padre Mateus, Joana Simeão, Daniel Roxo, OPVDC e ainda vhefes dissidentes da FRELIMO. O tema batido é a não aceitação dos Acordos de Lusaka, mas penso que neste momento, se houver uma palavra do general Spínola garantindo-lhes a segurança, ainda  será possível fazê-los reconsidera. É tudo. Fico à espera":

Tropa em LM está num frangalho

Mais tarde, nesta história de telexes, entra outo militar da Marinha. o comandante Contreiras, que a pedido do futuro Alto-Comissário -- que estava reunido em Belém com a Junta de Salvação Nacional -- informa Cunha Leal de que a investidura de Victor Crespo apenas se verificaria ao fim  da manhã do dia seguinte (dia 10) , e que à noite rumaria para Lourenço Marques, conjuntamente como coronel Morgado, "a influenciar decisões sentido ocupar militarmente o RCM e fronteira" comunicando-lhe igualmente que "o general Costa Gomes já havia dado instruções sentido ser deslocado Batalhão paraquedista de Nacala.".
Na resposta, dirigida directamente ao comandante Contreiras, que se mantinha em linha, Cunha Lopes faz um resumo da situação:
--depois do levantamento das populações dos subúrbios houve pânico generalizado, mesmo no RCM;
--a crise parecia estar a atenuar-se: o aeroporto tinha sido retomado e estava iminente a ocupação do RCM pelas nossas forças sem o emprego a meios coercivos:
--continuava, no entanto, a existir uma certa apreensão uma vez que não havia garantia que os cabecilhas do Movimento o consigam controlar -- embora os dirigentes tenham já garantido entregar o RCM ao controlo das Forças Armadas. "pedindo apenas para não serem vexados e que nas nossas comunicações afirmemos que o bom senso chegou depois de diálogos dignificantes para ambas as partes"
-- o problema, agora, era saber se seria possível controlar a agitação das populações negras, estando-se a envidar esforços junto de militantes da FRELIMO para que sejam porta-vozes, junto das populações negras, da aliança FRELIMO-Forças Armadas, "uma vez que as emissões do RCM deixaram dúvidas quanto a essa aliança".


Varanda do RCM. A revolta estava no fim.

Entretanto apareceu Victor Crespo, retomou o diálogo com Cunha Lopes e este, para além de muitos outros assuntos abordados, comunicou ao Alto-Comissário indigitado:

"Neste momento com as tropas que temos é impossível controlar a fronteira. Temos apenas garantido o controlo do aeroporto. A tropa que cá está encontra-se num frangalho e está absolutamente dispersa para fazer face aos últimos incidentes que ocorrem junto dos subúrbios. Quando ocuparmos o RCM vamos ter dificuldades em garantir a sua segurança. Eu sei que o Comandante-Chefe já ordenou a vinda de Paraquedistas de Nacala. A ver vamos quando cá chegam. os nossos meios de transporte são reduzidíssimos. No entanto, a ocupação militar do aeroporto efectuada esta noite dá possibilidades de que o transporte das referidas unidades se possa fazer"

E assim, nestas condições reais e concretas, se foi fazendo e desfazendo o 7 de Setembro de 1974 em Lourenço Marques, ou seja, os três dias que abalaram Moçambique. E a descolonização.


História do levantamento geral

Luís Andrade de Sá, correspondente no Maputo ( ex.-LM) da agência Lusa, escreveu em 2004 um conjunto de textos muito interessantes sobre o 7 de Setembro de 1974.
Um desses textos começa assim:

"Trinta anos depois , a BASE GALO nada diz aos jovens que levantam halteres numa casa da Mafalala, o bairro onde nasceu Eusébio e o poeta José Craveirinha e a atleta moçambicana Maria de Lourdes Mutola.
Nessa casa modesta, na zona que divide a cidade do caniço da cidade do cimento, simpatizantes da FRELIMO montaram o quartel-general da resistência ao Movimento Moçambique Livre (...)"

Aurélio LeBon, então um jovem  que tinha acabado de cumprir o serviço militar nos Comandos portugueses, contou a Luía Andrade de Sá:
"Numa primeira reunião juntámos 60 jovens, depois passámos para 100 e decidimos que a partir daí a base ficava ali como centro de coordenação de todos os bairros, passando a haver reuniões de quatro em quatro horas ppara que nada descambasse"

Segundo o correspondente da Lusa, "no dia 8 de Setembro, o discurso da Rádio Moçambique Livre, ocupada pelos revoltosos brancos, endurece e nos arredores de Lourenço Marques dão-se os primeiros confrontos de que resulta um número elevado de vítimas"
O jornalista recolhe depois ao testemunho de Pedro Bule, hoje administrador de uma seguradora e na época responsável pela segurança daquele bairro:

"No Infulene (perto da Matola), os fuzileiros dispararam indiscriminadamente e a partir daí avançámos para as barricadas nos subúrbios , controlando a saída dos moradores e a entrada de estranhos.
(...) Até então ninguém tinha a ideia do que era a fortíssima  inserção da FRELIMO na população nem do desejo, da ganância mesmo, das pessoas pela independência".

Igreja de S.Francisco de Assis, no INFULENE
Este é, digamos o início da resistência organizada dos negros dos arrebaldes de LM. O princípio do fim da impunidade dos ocupantes da Nave dos Loucos, que  continuavam a sua demente propaganda. Até que, na madrugada de 9 para 10, e durante todo este dia -- verdadeira terça-feira negra -- o terror e o pânico tomaram conta da cidade branca e dos aventureiros do microfone.
E não era para menos, como eu próprio pude testemunhar: o levantamento da população do caniço era generalizado, milhares e milhares de negros avançaram de todos os lados com fúria e determinação em direcção à cidade europeia, começaram a destruir fábricas e casas de brancos na periferia, alguns carros que iam a passar foram incendiados com gente branca lá dentro, a PSP confessava-se impotente para deter aquela massa populacional em movimento, chegara a estar refugiados no Comando da Polícia largas centenas d brancos em pânico que moravam junto ao caniço, como me disse agora Marinho Falcão, naquele então segundo-comandante daquela organização policial que tantas culpas tem no cartório. "Foi uma situação terrível, como nunca tinha vivido" -- confessou
Como fogo em palha seca , na população de origem europeia propagou-se um sentimento de incredulidade, impotência absoluta, desamparo total -- e medo, muito medo.


O terror, segundo Eugénio Lisboa

No 7 de Setembro, Eugenio Lisboa, o respeitável intelectual branco com um cargo de relevo numa importante empresa de Moçambique, vivia numa pequena moradia na Avenida Massano de Amorim, quase na fronteira da cidade do cimento com a cidade do caniço.
Relatou-nos assim o modo como viveu aquele tempo de triste memória:


Eugénio Lisboa
"Quando a população negra se começou a levantar contra as agressões de que estava a ser vítima -- quer pelas mensagens lançadas pelos ocupantes do RCM, quer pelos disparos de armas de brancos, que criaram o pânico e originara muitas mortes entre a população negra-- fiquei em pânico com as notícias do que estava a acontecer. Percebi que depois de ateado o ódio racial, aqueles milhares de negros em movimento não iriam parar e os habitantes da cidade de cimento estavam indefesos. A polícia, cuja posição na ocupação do RCM era muito dúbia, surpreendida pelo levantamento que nunca fora previsto, mesmo que quisesse nada podia fazer contra aquela força em movimento. O que se ia sabendo era horrível. Percebi também que, nestas condições, a minha casa estava muito exposta, mesmo à mão de semear. Mudei-me com a minha família para a casa do meu amigo Vieira Simões, que vivia mesmo em frente mas num 9º andar...Aí sentia-me mais protegido, embora, no fundo, apenas ganhasse mais uns minutos de vida -- o tempo para chegarem ao 9º andar.
O terror era assim tão grande? -- perguntei.
"Sei que é difícil de explicar, e mais ainda fazer compreender a quem não viveu na carne essa experiência, o que foi a angústia que se apoderou de todos nós. O que nos veio à cabeça . O que temíamos que podia acontecer . Os cenários que imaginávamos. Talvez ajude a perceber contando-lhe o que se passou com um grande amigo meu que, noutro local da cidade, mas bem perto, viveu esses momentos: o terror era tal que, om o receio do que poderia acontecer a duas filhas menores, e com o acordo da mulher, preparou uma espingarda, que ficou sempre a seu lado, determinado a matar as miúdas para que não fossem entregues vivas à multidão justamente sedenta de sangue"
Acha que os ocupantes do RCM tinham consciência dos sofrimentos que estavam a causar quer à população negra quer à branca?
"Não sei se teriam ou não. A minha convicção profunda é que o chamado MML (Movimento Moçambique Livre) foi uma loucura e um crime. Meia dúzia de pessoas arrastaram emotivamente milhares de brancos assustados com a independência negra de Moçambique. Pela rádio ocupada, que tínhamos permanentemente ligada, fui sabendo que um dos responsáveis -- para além de outros, entre os quais sobressaía o Mesquitela, deputado em Lisboa e um dos nomes maiores do regime colonial em Moçambique -- era o Velez Grilo, antigo secretário-geral do PCP que depois de expulso daquele partido tinha ido viver para Lourenço Marques, trabalhando na Câmara Municipal, dando-se muito bem com as autoridades coloniais. Velez Grilo andou sempre junto do governador-geral a pedir a minha cabeça... E agora estava ali no RCM, sendo um dos principais responsáveis pelo MML...Prenunciava o pior. Para quem o conhecia, Velez Grilo tinha um problema insolúvel: o carácter. Megalómano, desleixado, muito mentiroso, egocêntrico, denunciante. Um perigo. E estava, com relevo, entre os dirigentes daquele movimento. Até ao microfone veio".
Este homem de facto teve um percurso estranho... comentei.
"É verdade. mas curiosamente, um outro elemento ex-PCP , Russel, logo que o 7 de  Setembro rebentou, foi a minha casa. Um locutor do MML, tinha pronunciado o seu nome como uma das pessoas a abater.Pediu-me para o acolher em minha casa. Disse-lhe imediatamente que sim, mas lembrei-lhe que a minha casa era provavelmente um dos locais menos seguros da cidade e, com o seu acordo, levei-o ao consulado brasileiro, cujo cônsul eu bem conhecia, e ele lá ficou em segurança. Nesta altura ainda ninguém imaginava o levantamento negro".
No início, quando as emissões do RCM assaltado começaram, as populações do caniço, ficaram assustadas mas mantiveram-se apenas na expectativa...-- lembrei
"Certo. mas as populações rapidamente ficaram aterrorizadas. E eu também, claro. Um dos momentos mais emocionantes da minha vida foi quando eu ouvi, e nem queria acreditar, aquela mensagem mágica: ATENÇÃO, ATENÇÃO, GALO AMANHECEU, GALO AMANHECEU. Aí comecei a acreditar que iríamos sobreviver e deixei de pensar, angustiado, como sempre aconteceu quando ia à janela e olhava cá para baixo, para a minha casa que ficava no outro lado da rua: Lá se vai a minha rica biblioteca. E a minha vida.
Canção negreira

Amo-te
com as raízes de uma canção negreira
na madrugada dos meus olhos pardos

E derrotas de fome
nas minhas mãos de bronze
florescem languidamente na velha
e nervosa cadência marinheira
de cais donde os meus avós negros
embarcaram para hemisférios da escravidão

Mas se as madrugadas
das minha órbitas violentadas
despertam as raízes do tempo antigo...
mulher de olhos fadados de amor verde-claro
ventre sedoso de veludo
lábios de mampsincha (1) madura
e soluções de espasmo latejando no quarto
enche de beijos as sirenas do meu sangue
que meninos da mesma raízes
e das mesmas dolorosas madrugadas
esperam a sua vez.

José Craveirinha, Obra poética I, 1999

 (1) fruto comestível de planta rasteira

Atenção, atenção, Galo Amanheceu

Com os efeitos tremendos que o levantamento do caniço originou na cidade de cimento, onde vivia  a população de origem europeia, o comportamento da Polícia, mudou radicalmente. Pelo menos na pressa, na urgência da tomada de medidas que parassem a marcha violenta da população negra sobre a cidade branca. Exactamente a pressa  e a urgência que não houve para evitar o assalto ao RCM, primeiro, e a chacina que se verificou no caniço depois.
Os contactos dos homens fardados com os "revoltosos" brancos -- muitos deles também já em pânico -- multiplicaram-se a uma velocidade e com um empenho nunca visto. Negociava-se freneticamente a entrega do Rádio Clube, com garantias de que a tropa não avançaria de imediato para que os assaltantes, escandalosamente, pudessem fugir sem serem presos.  Ainda mais uma vêz com o pretexto de evitar um banho de sangue que agora já estava a acontecer na cidade branca mas por enquanto só na periferia.
Na "Nave dos Loucos" a confusão era total, com os mais jovens, os operacionais -- ou, segundo os Mesquitelas, os "rapazes" -- a virarem-se de forma nada meiga contra os mais velhos, os "políticos".
Por outro lado, quer para os ocupantes do RCM quer para a polícia e para as forças portuguesas, a ironia do destino não podia ser mais cruel: a grande e salvadora ideia para evitar a catástrofe anunciada, foi recorrer aos militantes da FRELIMO, Até Spínola entrou na dança ao perceber o que estava em jogo. O susto foi de tal modo que o homem do monóculo aceitou falar ao telefone com um mestiço que vivia no caniço. A isso já lá vamos.
Para se ter uma ideia realista do que foram aqueles momentos o melhor é recorrer, cruzadamente, a fontes "credenciadas", conforme as matérias.
Começo pelas patéticas palavras do locutor Manuel a meio da manhã do dia 10 de Setembro de 1974, dirigidas às pessoas que há três dias permaneciam em frente ao RCM.




"(...) Dentro de pouco tempo vem aqui uma delegação da FRELIMO falar democraticamente com Moçambique Livre. Deixem passar essa comissão. É preciso que a população junto ao RCM compreenda que essa delegação vem aqui democraticamente. Deixem passar esses elementos. A Comissão da FRELIMO tem que ser recebida dentro dos sãos princípios da tradicional paz e hospitalidade portuguesa. (...) Já nos constou que junto à Rádio houve agressões e excessos.
População de Lourenço Marques aqui junto de nós: (...) é preciso que percebam que ser patriota é tanto nos momentos de vitória como até os momentos de derrota . Não fomos nós os derrotados.. Não somos nós os culpados. Os homens da FRELIMO que vêm falar connosco são moçambicanos como nós. Moçambicanos a falar com moçambicanos. Paz, dignidade e liberdade. O futuro é vosso! (...) Sejam hospitaleiros. Nada de excessos. Somos um povo livre. Mas somos disciplinados. Nada de pretender tirar a liberdade seja a quem for. Que a população abra alas para quem vem do lado da Central Telefónica. Para entrarem sem atropelos, com galhardia, com orgulho, é tudo gente de Moçambique, não estou a fazer propaganda da FRELIMO, estou a fazer propaganda da paz, sou um ex-militar que nunca fui traidor.(...) Se chegarmos a uma situação de derrota a História dirá quem teve a culpa. Hoje é dia de Paz. (...) Deve chegar brevemente gente da FRELIMO e da PSP -- não vêm prender ninguém. Não é com patriotismo exaltado que vamos entregar o que tanto nos custou a obter. (...) Em calma e com educação saberemos cumprir o nosso dever. Por outro lado, há nos subúrbios forças reaccionárias produzindo distúrbios. Com isso prejudicam moralmente o nosso movimento, que é de paz. (...) Vivemos um momento histórico. A FRELIMO aceitou o nosso convite. Há conversações entre a FRELIMO e o MML. Felizmente não há ninguém dos pseudo-democratas, nenhum Mário Soares ou Almeida Santos. É o povo de Moçambique que fala com o povo de Moçambique, a bem da paz. Viva Moçambique, viva Portugal.".

Mais uns minutos de palavreado deste género, com uns elogios pelo meio ao comandante da PSP, coronel Tavares, e o locutor chegou ao que interessava, lendo um "comunicado dos líderes" da Nave dos Loucos.

"O Comité Central do Movimento Moçambique Livre comunica ao povo de Moçambique que, em virtude dos graves distúrbios que estão a assolar os subúrbios de Lourenço Marques, deliberou entregar o controlo das das instalações do RCM ao comandante - geral da PSP de Moçambique, pelo que fazemos um apelo final às Forças Armadas Portuguesas estacionadas em Moçambique para que finalmente ajudem Moçambique a ser livre e que defendam a população de Lourenço Marques que já está a ser molestada, mas não por nossa culpa. Viva Moçambique,viva Viva Portugal".
Entregamos este posto emissor ao sr. coronel Tavares, digníssimo comandante-geral para que todos possam colaborar com ele na manutenção da paz em Lourenço Marques, (...)

Casa dos Calianos, na Mafalala

No 7 de Setembro de 1974, o bairro da Mafalala, no caniço,surgiu todo decorado com bandeiras da FRELIMO. Com escreveu mais tarde João Craveirinha, sobrinho do poeta José Craveirinha, na sua qualidade de correspondente do jornal lisboeta Correio da Manhã  (08-09-2004), nesse dia os boatos de imediato começaram a circular: havia guerrilheiros da FRELIMO naquele bairro.
E os autodesignados "Dragões da Morte" começam a organizar ataques aos subúrbios. É nesse momento que a casa de Nuno e Teresa Caliano é transformada na famosa "BASE GALO" e em Quartel-General da Resistência. Mais: a família Caliano dirige também todo o processo de acolhimento de "refugiados" muitos da elite do Polana. Segundo João Craveirinha, "a maioria, brancos da esquerda gorda, chega aterrorizada à casa dos Calianos, Teresa, a esposa de Nuno, seria uma verdadeira e incansável MÃE CORAGEM".


Teresa Caliano, a Mãe Coragem, em 2017 com Aurélio Lebon
Voltando ao cronista correspondente do Correio da Manhã, que sabia do que falava:

"Perseguido, o poeta José Craveirinha, responsável por uma célula clandestina da FRELIMO, reffugia-se em casa da cunhada, no interior da Mafalala, com sua esposa Maria. Seu filho mais velho, Stélio Newton (a terminar o serviço militar português), apresenta-se ao seu destacamento de Engenharia militar como voluntário enviado para defender o aeroporto de Mavalane. Suspeita-se da chegada de mercenários madeirenses vindos da África do Sul em apoio aos Dragões da Morte.
O filho mais novo do poeta, Zeca Craveirinha, é um dos vigilantes (desarmados) da Mafalala. O efeito psicológico prevalece e as cantinas da Mafalala são poupadas. Reina alguma harmonia multirracial graças à organização cívica do bairro, alguns "Dragões da Morte" (Ex-Comandos, GEP,S, etc...) patrulhariam em particular a Mafalala "procurando turras ou terroristas" da FRELIMO, entrando pela rua da Guiné. Isaías Tembe , o único com uma G3(que não sabia manejar), é ferido e capturado pelos Dragões da Morte na Mafalala.
Em Lourenço Marques colonos portugueses e naturais (brancos) mais extremistas entram aos tiros pelos subúrbios atingindo muito cidadão negro e mestiço desprevenido. Centenas de  feridos e mortos. (...)
 CLIKA NO VÍDEO. PARA O VERES 

Spínola entra na dança

Ora, é este morticínio que dá origem ao levantamento generalizado das populações negras, que começaram a avançar em massa sobre a cidade branca.
Quando os militares, bem como a PSP, tomam consciência da amplitude do levantamento, percebem que não há força que resista ao seu avanço. Em desespero de causa recorrem à ajuda de militantes da FRELIMO -- e é assim que uma delegação da "BASE GALO", sediada no bairro da Mafalala, que inclui Amaral Matos, o escultor Alberto Chissano, Orlando Machel (irmão de Samora) e Aurélio LeBon (antigo Comando da 5ª Companhia de Comandos de Moçambique do Exército Português), se desloca na manhã do dia 10 de Setembro para o Quartel - General do Comando Territorial Sul (CTS) para em, conjunto com os militares e polícia, gizar a estratégia para recuperar a estação de rádio e, através dos microfones, dar a senha para deter o avanço dos negros que, em fúria, já estavam a entrar pela cidade do cimento fazendo numerosas vítimas brancas completamente inocentes. Independência já
Recorro de novo a Fernando Magalhães e ao seu excelente trabalho intitulado:Independência já -- uma história a pretos e brancos, passado na RTP 2 em 2001. Aí se encontra com pormenor,
 e pela voz dos próprios  intervenientes esta história.


Amaral MatosNós tínhamos os nossos oficiais milicianos, jovens, era o caso de Aurélio Lebon, do Joel Lebon, do Isaía Tembe, que faleceu.
Teresa Caliano: Entretanto o Aurélio, como era realmente Comando e estava preocupado ofereceu-se.
Amaral Matos: O Auréliojá tinha recebido orientação, se você conseguir falar dá uma no cravo outra na ferradura, dá um viva à FRELIMO, viva lá o Spínola ou qualquer coisa, viva o Samora Machel, viva Spínola, ou assim, e depois fala logo "GALO, Galo amanheceu" que é para poder pegar e nós saberemos que de facto já temos o controlo da situação. E essa palavra de ordem "GALO, Galo amanheceu" eu a criei, ele a levou.
Locutor: Os militantes da FRELIMO avisaram que não poderiam continuar a conter a ira popular. O Comando militar português desespera e pelo telefone insiste com Spínola para que autorize uma operação conjunta de militantes da FRELIMO com o Exército. Avisa-o de que esses militantes ameaçam tomar medidas radicais. Spínola chama Lebon ao telefone. (VEJA VÍDEO)
LebonEntão eu expliquei. Meu general, nós não queremos de forma nenhuma criar distúrbios, sabemos  quanto isso custa, queremos evitar  ao máximo que a população sofra com isto, mas é preciso que haja cooperação com o Exército. Então ele doz assim: eu vou dar instruções para que as primeiras medidas possam avançar. Mas mantenha a sua palavra, não avance com medidas dessa natureza, mas vou dar instruções ao comando que está aí para poder avançar. Penso que entendi bem, e pronto, muito obrigado e bom trabalho.
Locutor: Spínola dá instruções ao comando português. Lebon vai à rádio acompanhado pelo comandante da PSP . Dificilmente consegue atravessar a multidão e entrar.
Lebon: Logo que entrei na rádio viraram o carro. Para ver que não havia muita paz cá fora. Mas no interior havia todo o interesse em negociar. A razão para que eles queriam negociar é que a situação em Lourenço Marques estava descontrolada -- mas nós, através das nossas células e através da Base Galo tínhamos o controlo rigoroso da população. Já não conseguíamos controlar era a 2ª província, Gaza, de lá vinham em massa. Traziam catanas, zagaias, etc., e caminhavam para a capital. Ora, eles tinham a certeza absoluta de que chegando iam estimular os outros para tomar a cidade e tomar rapidamente. Nessa ocasião a situação seria pior que a do Congo.
Teresa Caliano: Foi quando, de repente nós ouvimos, "GALO, GALO AMANHECEU". Aí foi uma alegria, foi um barulho que ainda hoje me arrepia.



No interior do Rádio Clube

Dentro do Rádio Clube, o "glamour revolucionário e chique" esfumara-se. Reinava não só a grande confusão mas, fundamentalmente, o medo,a raiva, as recriminações, o clássico", uns contra os outros" -- como se concluiu pela leitura do livro Aqui Moçambique Livre de Ricardo Saavedra, um jornalista afilhado dos Mesquitela que, juntamente  com Rui Forjaz e Albano Melo Pereira, liderou o gabinete de imprensa na rádio e foio responsável maior pela edição fantasma do jornal Diário nos três dias que durou a "revolução".
Diz Saavedra, com autoridade de quem esteve desde o princípio, militantemente, dentro da "Nave dos Loucos", 
"(...) Há rostos contraídos torcer de mãos, ranger de desespero em quantos rodeiam as cabinas de locução.
Nas salas da direcção procede-se à destruição de listas de nomes e documentos. O dinheiro recebido -- ascendendo a algumas centenas de contos é confiado, por três homens e duas senhoras, ao antigo forcado João Miguel. Continua a confusão, com gente que corre por todos os lados.
O Engº Gonçalo Mesquitela fala aos homens de segurança, em nome do comandante Roxo. São cerca de uma centena, dispostos a liquidar os dirigentes que entretanto negoceiam a entrega. Há  tiros, berros descontrolados. Pouco depois é o próprio Daniel Roxo,  quem, explica aos jovens a situação, convencendo-os de que não se trata de uma derrota mas sim de uma retirada estratégica.  no anfiteatro do RCM. Transmite-lhes a garantia, dada pela polícia, de que ninguém será preso e todos poderão levar as suas armas. Marca-lhes depois um encontro, para as nove da noite, numa propriedade agrícola a meia centena de  quilómetros da cidade. Poucos comparecerão. Mas três jornalistas estrangeiros, dois homens e uma mulher estavam presentes. Para nada. (...) Dentro da rádio cresce o drama. Enquanto vários dirigentes extenuados, abandonam sem protecção o que fora o Rádio Moçambique Livre, jovens da segurança mantêm-se em estado de crise e impaciência, nos seus postos, aguardando a chegada dos elementos da FRELIMO. Dois oficiais da Polícia, o capitão Silva Marques e o comissário principal Fernando Segurado, são coagidos a permanecer, sob mira de duas armas (uma caçadeira e uma Kalashnikov cromada) na secção técnica.
Passa das três da tarde quando o capitão Santa Rita se aproxima da casa da rádio, acompanhando um intérprete da PSP. A multidão ao vê-lo vira-lhe o Vauxhall, corre-o a pontapé e murro.


Coronel Tavares ao entrar no RCM
 O coronel Tavares, contudo, consegue passar com o representante da FRELIMO, que fora buscar ao Quartel-General. Haviam tido o cuidado de disfarçar o negro com uma farda e com galões de alferes do Exército português.
Pouco depois, o falso alferes está diante dos microfones. Com voz firme, demonstrando excepcional autoconfiança, inicia um dos mais lancinantes períodos daquela emissão consecutiva:
"Atenção ,atenção. Galo, Galo Amanheceu. (Em nome do MFA e da FRELIMO) Peço a todos os camaradas que se dirijam com a maior calma possível para todos os pontos da cidade, a fim de controlarem as massas que se dirijam para o centro da cidade. (...) Galo, galo amanheceu. Galo amanheceu. Peço a todos os camaradas que estejam à escuta do Rádio Clube de Moçambique, mas todos sem qualquer excepção, que se dirijam às áreas onde se sabe haver violência, a fim de procurar dominá-la, seguindo à risca o programa de paz e amizade tão proclamado pelo Presidente Spínola e Moisés Samora Machel. (...) Galo, galo, amanheceu. Pede-se que toda a população colabore, sem qualquer hesitação, com as Forças Armadas  e policiais na garantia da segurança das pessoas e haveres. Só de um esforço conjunto poderá resultar a  paz para todo o povo de Moçambique!.
E pouco depois: "Atenção, camaradas. Galo, Galo, Galo AMANHECEU. Foi esta a senha combinada com todos os camaradas. Dêem a vossa ajuda Viva o Presidente Samora Machel,  Viva o Presidente Spínola"



Aurélio Lebon continuou ainda por mais uns largos minutos ao microfone. Mas na Nave dos Loucos o pano tinha descido. Os "revolucionários" desapareceram com a garantia de que não seriam importunados. cada um foi para seu lado, preparando a fuga. O destino para a esmagadora maioria foi para a África do Sul, o país por excelência do aparrtheid. Onde reinava a democracia que sonhavam.
A partir do dia seguinte, agora já com a presença da FRELIMO e das tropas portuguesas patrulhando em conjunto as ruas, Lourenço Marques voltou, pouco a pouco, à normalidade.

A intervenção dos militantes clandestinos da Frente de Libertação de Moçambique tinha sido absolutamente decisiva para salvar a cidade e a população de origem europeia.

A chegada de Crespo e a fuga dos assaltantes

Enquanto os assaltantes do RCM, e muitos dos brancos que se tinham deixado envolver emocionalmente na cantiga patrioteira, fugiam como podiam para a África do Sul, no dia 11, após uma surrealista  viagem aérea, chegava a Lourenço Marques o almirante Victor Crespo, que apenas na véspera, dia 10, havia sido nomeado e tomado posse do cargo de Alto-Comissário de Moçambique. Uma viagem e uma tomada de posse que mostram bem as contradições existentes no seio dos militares portugueses e o papel profundamente negativo de Spínola , então Presidente da República, teve em todo o processo de descolonização.

O almirante Victor Crespo, com quem me encontrei em Lisboa, disse-me a propósito:

"Antes de falar no 7 de Setembro ou no 21 de Outubro -- duas datas profunda e negativamente marcantes em Moçambique -- o importante é perceber que, para analisar o processo de descolonização, em todas as colónias, é indispensável ter sempre presente que em Lisboa havia duas posições bem diferentes e que se digladiavam : a de Spínola e a do MFA/Costa Gomes"

Dando um exemplo concreto, abordou o seu caso:

"Já nem falo do esforço que foi preciso fazer para que Spínola promulgasse os Acordos de Lusaka com rapidez, ainda no dia 8 de Setembro. Quero lembrar apenas que eu já estava indicado pelo MFA como Alto-Comissário para Moçambique e o Presidente da República, que me devia nomear de imediato dada a situação que se vivia, mantinha-se silencioso. Costa Gomes, então Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, tinha outra compreensão, outra visão da realidade, e devido aos acontecimentos do 7 de Setembro em LM queria que eu partisse sem demora com duas Companhias de paraquedistas  -- mas o general Spínola não concordava. Por razões conhecida não estava interessado na minha partida urgente, e muito menos com paraquedistas -- apesar de ser óbvio que eu partisse quanto antes por forma a assumir responsabilidades que a situação de falta de autoridade local e a grave convulsão reinante exigiam"

No dia 10, já depois de terem regressado a Lisboa os enviados de Spínola a Lourenço Marques  -- que lhe relataram que na capital moçambicana havia uma grande emotividade, tudo era uma barafunda e tudo podia redundar num banho de sangue -- é que o Presidente como que quebrou, tomando consciência da gravidade da situação e, sobretudo, da derrota dos seus objectivos e estratégia.
Este episódio , de resto, mostra de uma forma clara a gravidade do comportamento presidencial , que não autorizou nenhuma acção militar em LM sem ouvir , de viva voz, o relato dos seus enviados, assim permitindo aos assaltantes da rádio estarem não só 72 horas a dizer tudo o que lhes deu na cabeça através dos microfones daquela potente emissora mas também terem atacado impunemente as populações do caniço, originando milhares de mortos e feridos. Para além de, com essa atitude, ter menorizado  e desmoralizado por completo as chefias militares no terreno, confiando apenas nos homens da sua Casa Militar que foram obrigados a ir almoçar a Lourenço Marques e regressar logo após o jantar... Uma loucura só comparável à dos ocupantes da Nave dos Loucos.

Fuga rocambolesca de Gonçalo Fevereiro

O famoso e já referido "Mocho", nome de código do então capitão Comando Gonçalo Fevereiro , foi como ele próprio disse, dos últimos a abandonar o RCM.
Pedi-lhe que me contasse a sua fuga, como tinha saído de LM, se havia ido de carro até à fronteira da África do Sul.
Respondeu se hesitar:

"De carro? Nem pensar. Era o que faltava. O meu nome tinha sido muito citado e tinha a cabeça a prémio. Sabe, essa é uma história recambolesca. Um italiano, Nichi Bernini, casado com uma intelectual, a Manuela Arraiano, falou ao comandante de um barco italiano que estava ancorado em Lourenço Marques, e fui de noite na bagageira do carro do meu irmão, até ao barco que ia partir para a África do Sul. Mas o raio do comandante começou a fazer muitas perguntas, algumas delas muito esquisitas para o meu gosto e para o meu feeling, e disse logo ao meu irmão: nã, nem pensar, quero voltar já para casa. Isto não me cheira bem. E assim foi, voltei para o prédio onde o Champalimaud tinha um andar onde eu já estivera quando saí do RCM. Era um lugar seguro. E comecei a pensar sair de Moçambique a pé, pois eu conhecia bem o terreno, estava preparado e a fronteira perto"

Mas essa hipótese de ir a pé não se concretizou...

"Pois não, depois surgiu outro amigo que me arranjou um barco alemão que também estava no porto. Fui novamente na bagageira do carro, agora conduzido por esse amigo cujo nome quero resguardar. Fomos recebidos por um comissário, que me aceitou sem o comandante saber. Meteu-me dentro de um armário, que se situava num vão de escada, ficando a noite toda com os joelhos no peito.
De manhã o comissário veio ter comigo e disse-me: vamos lá para cima que está lá a sua mulher. Fiquei estarrecido: a minha mulher? Como é que ela veio parar aqui? O que é que está por trás disto tudo? Fiquei desconfiado e aflito. Mas quando cheguei lá acima vi várias famílias laurentinas em fuga, que também tinham seguido o mesmo método que eu... O barco ia para East London , um porto sul-africano no sul. Como logo vi, os sul-africanos estavam preparadíssimos para nos receber. A minha mulher tinha trazido a nossa filha que tinha 3 anos, e tivemos muito apoio dos sul-africanos. Bom, mas a verdade é que depois fui para Joanesburgo onde cheguei com uma mão à frente e outra atrás -- só uns trocados que eu tinha e a minha mulher também. Em Joanesburgo havia muito português -- e também várias organizações, algumas de trazer por casa. Acabei por me afastar daquele ambiente, havia muito boato, disse logo para mim: aqui não me entendo. Sozinho ainda me safo, mas com a patroa e a miúda nem pensar. Por isso as mandei para Lisboa, onde tinha família, mas eu fiquei até porque em Lisboa , naqueles tempos ainda podia ir dentro. Portanto fiquei por ali a ver no que dava aquilo tudo. Mas o ambiente começou a chatear , entretanto apareceu o Bernardo Figueiredo , homem com muita massa e influente, depois apareceu o célebre Batalhão Chipenda, muitas movimentações, muitos boatos, disse mais uma vez para mim próprio, nã, isto não é para mim, aqui é que não fico, e sozinho também não, vou permanecer na África do Sul mas com a minha família, raspei-me para Durban onde tinha pessoas amigas e mandei vir a minha mulher e a miúda. A minha mulher que era filha do Abreu, sabe quem é, aquele que era proprietário de hotéis  em Lourenço Marques, começou a servir num restaurante, pois ali tínhamos que trabalhar e era isso mesmo que queríamos, o trabalho não nos assustava, eu fiquei a trabalhar na Sandok Austral Company Maining, uma grande empresa de construção e reparação naval, e fomo-nos aguentando bem. E já agora lhe digo que um dia bateram-me à porta dois cavalheiros da BOSS (Serviços Secretos Sul-africanos) que queriam dizer-me que sabiam das dificuldades por que tinha passado e que embora sabendo que agora estava bem podia contar com a ajuda do Governo sul-africano se quisesse e precisasse. Agradeci, mas não me meti nisso, pois sabia o que significava. Gosto dos sul-africanos, mas serviços secretos não era para mim.
Mais tarde , ainda em 1975, recebi um telefonema de Lisboa, convidaram-me para voltar aos Comandos, a minha mulher achou boa ideia regressar à Europa, disseram-me que o Eanes garantia que os ex-comandos milicianos que quisessem regressar às fileiras entrariam para o quadro, embora as promoções apenas pudessem ser feitas respeitando e nunca ultrapassando os do quadro permanente, é bom não esquecer que em grande parte os ex-comandos é que fizeram o 25 de Novembro, e logo que pude disse by-by à África do Sul e zarpámos para Lisboa. Quatro dias depois de termos chegado já estava fardado, o meu ingresso foi muito contestado pelos comandos de esquerda mas não houve problemas de maior. Fiquei no Regimento de 76 a 84, quando passei à reserva a meu pedido".

Sei que teve várias condecorações...

"É verdade . Na primeira Comissão  (4ª Companhia de Comandos) deram-me a Cruz de Guerra, e na 2ª Comissão (6ª Companhia de Comandos de Moçambique) deram-me a dos Serviços Distintos com Palma.
Como Alferes da 4ª CCMDS, a receber a Cruz de Guerra
O senhor foi para Moçambique quando tinha 4 anos....

"É verdade. O meu pai era médico, especializado no combate à tuberculose e em 1947/1948 foi para Moçambique acompanhado pela família"

Como é que entrou para a tropa e foi para os Comandos

"Essa é uma longa história. Assentei praça em Lourenço Marques, mas vim para a Metrópole para fazer a especialidade, pois nesse ano não houve curso de oficiais nem de armas em Moçambique. Fui para Santarém, dado que fiquei em Cavalaria, que era o que eu queria, pois sabia que quando voltasse tinha lugar nos Dragões de Lourenço Marques (Cavalaria)"

Mas como um Alferes de Cavalaria acaba nos Comandos?

"Eu gostava de ser Comando. E uma vez em Santarém -- a propósito Mário Tomé foi meu comandante -- apanhei uma grande bebedeira e ofereci-me para os Comandos. E nunca mais pensei nisso. Mas um dia, o comandante chamou-me e disse: "Tem que se apresentar em Mafra. Não fez um requerimento para ir para os Comandos?" Bati com a mão na testa, nunca mais me lembrara disso, fui para Mafra, fiz testes e mais testes, voltei para Leiria e pouco depois comunicaram-me que tinha sido escolhido para ir para Lamego, para os Comandos...
Fiquei a pertencer à 4ª Companhia e com ela fui mobilizado para Moçambique, Vila Cabral.

Ao que julgo saber, chegou ao fim da comissão de dois anos e regressou à vida civil

"Sim, sim, fui para LM trabalhar num banco, onde rapidamente cheguei a gerente duma dependência do BCCI, na baixa da cidade. Tinha 26 anos, fazia uma vida bonita e boa, estava casado e tinha uma filha pequena, mas um dia encontrei-me com o Jaime Neves, que tinha sido meu comandante e com o qual me dava muito bem e, para grande surpresa minha, ele convidou-me para voltar para os Comandos, agora já em Montepuez...
Fiquei de pensar no assunto, inicialmente pensei que não fazia sentido, mas o bichinho começou a roer, a roer, pensei muito na hipótese e passados uns tempos tomei uma decisão: falei com a minha mulher, dei um beijo na minha filha e apresentei-me em Montepuez sem avisar ninguém. Para espanto do Jaime Neves e de outros oficiais que estavam a bater cartas, era já madrugada, cheguei e disse: aqui estou. O Jaime Neves nem queria acreditar. Aceitaram-me, fizeram-se as démarches necessárias e assim comecei a minha segunda comissão nos Comandos. E que comissão!"

Mas como é que um jovem de 26 anos, com bom emprego, casado e com uma filha pequena larga tudo para ir, como capitão miliciano, fazer uma segunda comissão como Comando, num local perigoso, em pleno centro da guerra?

"Sei lá. Talvez porque aos 26 anos acreditasse em muita coisa"

E hoje, já não acredita?

"O senhor também acredita nas mesmas coisas em que acreditava quando era jovem? Quando tinha sonhos?"

Comandos protegem brancos em fuga


Os alferes Frade e furriel Ferreira pertencera à 2043 Companhia de Comandos, de Montepuez, que, chamada de urgência, chegou a LM no dia 12 de Setembro de 1974, depois de ter sido colocada em estado de prontidão na Beira durante quatro dias.
A 2043 veio para Lourenço Marques , na sequência dos acontecimentos do 7 de Setembro trazida pelo então major Belchior. Os seus homens ficaram a fazer segurança conjunta com os membros da FRELIMO, ali chegados ao mesmo tempo. Mas segurança conjunta não queria dizer lado a lado. Em muitos casos fizeram segurança sem FRELIMOS e quando se diz em conjunto quer significar que, por exemplo, na segurança ao jornal NOTÍCIAS de Lourenço Marques, embora a patrulha fosse mista, os FRELIMOS estavam num dos lado do edifício e os Comandos noutro.
"Nós tínhamos consciência de que era preciso ter muito cuidado, que era preciso separar águas, pois embora agora estivéssemos do mesmo lado, a faísca podia surgir de repente, inadvertidamente, sem que ninguém tivesse culpa" -- disseram-me Frade e Ferreira enquanto conversávamos no Clube dos Jornalistas , em Lisboa, no início de 2012.

Capitão Comando João Ventosa a receber em Montepuez o guião da 2043
Uma das coisas que mais impressionou estes dois Comandos Milicianos foi as numerosas patrulhas de segurança que, sem FRELIMOS, fizeram a colunas de carros civis de portugueses que quiseram ir para a África do Sul na sequência do 7 de Setembro.

"Foram dias seguidos, de manhã e à tarde:100, 200, 300 e até mais carros diariamente,conforme a malta se organizava. Lembro-me de que uma das colunas a que, um dia, demos protecçãotinha mais de 2 Kms de extensão. Havia medo e pressa de chegar a Ressano Garcia. Os carros iam a abarrotar -- de pessoas e objectos. Até cadeiras levavam nos tejadilhos. Impressionava. À frente ia um jeepe  e um Unimog. A meio da coluna ia outro Unimog. E a fechar também. A chefiar ia um alferes, havia sempre um furriel e vários soldados. Todos armados. Durante o percurso já havia três ou quatro postos de controlo fixo, com pessoal da FRELIMO. E tamb´m íamos encontrando soldados da FRELIMO isolados que andavam por ali a patrulhar. Por regra nunca tivemos problemas, embora tivesse havido ou ou outro caso em que os FRELIMOS quiseram revistar as viaturas. Mas nunca tocaram em nenhuma, depois de nós lhes dizermos que ali ninguém punha um dedo. Uma vez vivemos uma cena que parecia digna dos filmes fe Far-West: eles tinham as armas em posição de ataque, e nós a mesma coisa. Assim no género de ver quem dispara primeiro. Mas nós sabíamos que não havia ordens superiores da FRELIMO para aquele tipo de comportamento. Nestas coisas o que há é sempre o perigo de algum soldado, ou guerrilheiro, se armarem em importantes. Mas havendo firmeza e calma tudo se resolve, como resolveu. E pela nossa parte a 2043, éramos muito disciplinados, havia sangue-frio, muita calama e muita firmeza" sublinhou Frade.
Recuando um pouco no tempo, falámos do ambiente que, a seguir ao 25 de Abril, se instalou nas tropas portuguesas colocadas no teatro de guerra, nomeadamente no Norte de Moçambique. Os dois olharam-nos divertidos quando lhes pus a questão.
Disseram de sua justiça:

"Está a falar das operações"embondeiro", não é? Não sabe o que é isso? Nunca ouviu falar do nome? Olhe que não eram tão raras assim...E não foi só depois de Abril...Na tropa falava-se de "operação embondeiro" quando uma coluna ou um grupo saía , dava coordenadas erradas e ficava uns tempos perto da base de onde partira em vez de ir ao local pré-determinado onde era suposto haver "terroristas"...Não se pode generalizar, mas lá que havia fizesse isso, lá isso havia...
Mesmo antes de Abril, convém não esquecer"

Aquichegados, o ex-alferes Frade contou um caso concreto, logo a seguir à Revolução dos Cravos na Metrópole:

"Foi em Maio de 1974. A FRELIMO, apesar do que se estava a passar em Portugal, ou se calhar até por causa disso mesmo, atacou Mueda à morteirada, aí a 3 Kms do enorme acampamento militar português, uma autêntica cidade, onde havia sempre dois mil homens armados e uma enorme pista de aviação, tudo cercado por arame farpado. Logo a seguir à flagelação com morteiros, tiveram a ousadia de chegar junto do arame farpado atacando a base com RPG 7. Quando Mueda sofreu o ataque a companhia de Comandos mais próxima era a nossa, que estava em Macomia. Dois grupos partiram imediatamente para Mueda, e outros dois grupos permaneceram em Macomia. Pediram-nos para ir atrás dos gaijos que tinham feito o ataque junto ao arame farpado e que tinham ido na direcção do Vale de Miteda.  Fomos, mas não apanhámos ninguém. E aquilo que era para ser uma ajuda temporária foi-se mantendo e nós fomos ficando em Mueda para fazer a segurança à base. Todos os dias saíamos para o mato e andávamos à roda de Mueda , a ver o que se passava, para que o pessoal não fosse atacado outra vez. Isto repetia-se e um dia, melhor, uma noite, quando regressávamos, encontrei um capitão ali colocado e perguntei-lhe o que estavam ali a fazer dentro do arame, sem nunca saírem,apesar de nas redondezas haver armamento armazenado da FRELIMO . Perguntei e perguntei bem:  porque razãp não montavam eles a segurança, no exterior, à cidade militar? A segurança não é só nos locais onde há água, ou  sentinelas no arame, É muito mais que isso. E havia uma base de morteiros do Inimigo nas proximidades. E os cavalheiros, nada.Só dentro do arame, porquê? E o capitão respondeu com a maior das naturalidades: É que nesta fase já estamos em contactos com a FRELIMO. Os guerrilheiros deixam cartas na picada, e nós respondemos pela mesma via. Depois do 25 de Abril o fim da guerra está próximo. Ao que eu respondi: Então o que é que nós estamos aqui a fazer?
Alferes Frade da 2043 CCMDS
Frade e Ferreira riram-se ao recordar este episódio. Mas, garantiram, naquela época ficaram furiosos . Eles a dar o coiro ao manifesto. Os "residentes" no bem bom, a trocar mensagens escritas com o inimigo que já não o era -- mas que ainda há dias tinha mandado morteirada em grande e ainda por cima foi ao arame disparar para dentro da base. Mas a verdade é que a realidade era a que acabara de ser relatada.

Morrer antes do grande dia

Ouve, Mário
Quantas vezes falámos da tua morte provável?
Quantas vezes falámos da tua morte provável?
Quantas vezes falámos da tua morte inadiável?
Já não ouves, Mário!
Escrevo-te neste silêncio
distante da Malanga
donde me ajudaste a libertar
No rectângulo arenoso
onde te manténs
os bacilos morrem definitivamente
antes da libertação. 
Mas a terra ouviu, Mário!
Todos os bacilos e vírus
devoram a boca das serpentes
que hoje rastejam sob as botas vitoriosas
Já ouves, Mário? 
Ouviste, Mário?

Calane da Silva, Dos Meninos da Malanga, 1974

Movimento Moçambique Livre: fuga,livros e outras histórias

Ricardo Saavedra, foi um dos líderes da "Japress", uma central de contra informação ao serviço de Pimentel dos Santos, o último governador-geral de Moçambique. Depois da queda deste na sequência do 25 de Abril, Saavedra passou a trabalhar para o grupo Chapalimaud, situação em que se encontrava aquando do 7 de Setembro -- tendo então sido nomeado responsável pelo gabinete de imprensa do RCM assaltado pelos colonos brancos extremistas. E nos três dias que durou a "festa" foi ainda  o coordenador e editorialista das edições fantasmas do jornal diário,propriedade da Igreja Católica, na altura, suspenso, e que se tornou porta-voz dos "revoltosos"Saavedra foi mobilizado foi mobilizado para Moçambique como alferes miliciano nos finais da década de 60. Terminada a comissão , ali permaneceu, tendo colaborado no Notícias de Lourenço Marques. Em 1975, cerca de um ano depois de ter fugido para a África do Sul, tornou-se famoso junto dos emigrantes portugueses ali residentes por ter escrito, em Joanesburgo , o livro AQUI MOÇAMBIQUE LIVRE, sobre a ocupação do RCM em que participou -- o qual  foi verdadeiro êxito editorial  junto da comunidade portuguesa no país do apartheid, engrossada na sequência do 7 de Setembro por milhares de fugitivos moçambicanos que, naturalmente, gostaram do que viram escrito.
Tal livro que conheceu cinco edições, foi a primeira obra sobre aqueles acontecimentos e a grande fonte onde foram beber quase todos os que posteriormente escreveram sobre a mesma temática -- a começar pelo livro MOÇAMBIQUE, 7 de SETEMBRO -- MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO, de Clotilde Mesquitela, ex-presidente do Movimento Nacional Feminino em Moçambique. (, CLIKA AQUI PARA LERES O LIVRO)
Ambos são farinha do mesmo saco, escritos de forma emotiva e sem grandes preocupações com a verdade. Boato que circulasse não era confirmado -- era publicado. E em muitos casos nem havia boatos -- mas tão só imaginação "criativa" nascida no momento, confundindo deliberadamente desejos com  a realidade.
Lendo-se os dois livros, percebe-se de forma clara o carácter irresponsável e criminoso daquele arremedo de golpe que só não foi rápida e facilmente morto à nascença graças ao papell de travão de Spínola junto das cúpulas militares de Nampula e Lourenço Marques, já de si, na mais benigna das hipóteses, hesitantes, passivas, com falta de pulso e iniciativa.
Ricardo Saavedra regressou a Portugal nos finais dos anos 80, tendo entrado directamente, através de cunha, para a empresa do Diário de Notícias, onde chegou a ocupar postos de relevo.
Sabendo-o a viver em Lisboa, telefonei-lhe, dizendo-lhe que estava a escrever uma história sobre o 7 de Setembro e que, dado o seu envolvimento na matéria, considerava importante recolher o seu testemunho.

Primeiro surpreendido, e depois afável, mostrou grande abertura e, dias mais tade, falámos longamente sobre o que foi o 7 de Setembro, os seus objectivos, o que se passou, o que falhou, que consequência teve, pedindo lhe também que me contasse a sua fuga para a África do Sul. E sublinhei: "Como foi um dos fundadores do FICO e esteve lá desde o princípio, o seu testemunho tem muito interesse"
Interrompeu de imediato: "Não, não. Eu não sou nada fundador do FICO. Nem sequer fui membro. Participei nalgumas reuniões, levado pelo meu amigo e ex-padre Pires Moreira, ele sim, fundador do FICO, mas nada mais. Ele era o dono da Escola Infante de sagres na 24 de Julho, onde eu era professor. Portanto eu não tive nada a ver com o FICO e muito menos com a sua fundação" --começou por explicar.

De qualquer modo esteve no RCM desde a primeira hora...

"Isso também não é verdade. a minha mulher estava internada no hospital e ouvia muito bem o RCM . Eu estava com ela e a certa altura disse-me: Ocuparam o RCM,E eu perguntei de imediato: O quê? Peguei no rádio e continuámos a ouvir a emissão. A certa altura começaram a chamar jornalistas, a pedir para irem ajudar a passar a mensagem, etc... A minha mulher perguntou-me/incentivou-me: Não queres ir? E a minha resposta foi sim. Quis ir. E fui. Primeiro para o Diário, cheguei por volta das 19 horas,fiquei a ajudar a fazer a edição, estavam lá, entre outros, o Varela Afonso e o Francisco Sebastião, que era do desporto, entregaram-me a parte dos editoriais , eu já tinha experiência de chefia, cerca das 10 da noite recebi um recado do Dr. Mesquitela para ir para o RCM , estavam a precisar de um chefe, que era preciso que eu fosse para lá para assumir!coordenar a informação, esse tipo de coisas. Foram várias pessoas comigo para o RCM  -- uns jornalistas e uns simpatizantes. Albano Melo Pereira, Rui Forjaz de Brito e Botelho de Melo foram alguns deles. Fomos dando várias notícias, mas não havia uma agenda, foi tudo um bocado ad hoc".

Depois de uma curta pausa, Saavedra -- que se revelou um excelente conversador e um homem de convicções firmes e fortes ligações ao regime anterior -- adiantou sem cerimónia:

Quer então saber a minha opinião sobre o 7 de Setembro, o número de mortos e feridos que originou e..."

Eu quero recolher o seu testemunho, dado que esteve por dentro do chamado Movimento Moçambique Livre. E se achar por bem podemos começar pelo fim: o número de mortos e feridos que houve no caniço, e foram muitos...

"Houve sim brancos e negros"

Mas os negros levantaram-se apenas ao fim do segundo dia de cantinas fechadas e de propaganda ameaçadora do RCM com apelos à África do Sul, à Rodésia e aos Comandos de Montepuez -- e mesmo assim só depois de muitos colonos brancos, em carrinhas abertas, terem andado pelas ruelas do caniço a disparar sobre tudo que mexia e sobre as casas de colmo com telhados de zinco, fechadas mas com pessoas lá dentro...

"Não foi bem assim. Claro que houve casos, como o do comissário Segurado da PSP, que comandando um grupo de polícias deixou no terreno mais de 140 cadáveres de negros. Onde foi? Na zona do aeroporto, nuns musseques que por ali havia. Também houve outros brancos que dispararam a eito. Mas quando os negros se levantaram as mortes de brancos foram muitas e de uma crueldade inacreditável. Uma coisa bárbara, pior que em Angola em 1961"

No conjunto quantas pessoas morreram?


"È difícil apontar um número certo. Têm sido adiantados muitos números, que vão dos trezentos ao três mil. O mais próximo da verdade, parece-me, andará à volta dos três milhares. Mas a única certeza que tenho é que foram muitos, os mortos."


Mais uma vítima do 7 de Setembro de 1974 é enterrada
em campa rasa. Esta foi a número 51. Quem seria?
Quando tudo acabou e vocês tiveram que abandonar o RCM, que fizeram das armas que tinham?

"Como sabe houve uma acordo com a PSP. Pudemos sair com as armas, mas depois todos entregaram as que tinham, para ninguém ser apanhado com elas. Foram escondidas. Os Dragões da Morte também as entregaram, claro. Mas as armas eram poucas , Sabe, os Dragões eram mais virados para fazerem comunicados, para dizerem que tinham não sei quantos homens e não sei quantas armas. Cantigas, que resultaram. Até os militares, na dúvida, ficaram assustados. As armas foram todas recolhidas e escondidas"


Fugiu logo para a África do Sul?

"Não. Só saí no dia 15, com o Albano Melo Pereira, depois de um irmão dele, que trabalhava no Governo-Geral, o ter avisado de que ele e eu íamos presos. Clotilde Mesquitela -- ela e o marido eram meus padrinhos -- também me aconselhou várias vezes a irmos embora, pois a situação estava cada vez a ficar mais perigosa. Então nesse dia vesti-me de fato com colete e gravata e fui para a estação de caminho-de-ferro como se fosse para uma reunião: sem passaporte /estava caducado) mas com o cartão de livre-trânsito no RCM  (uma espécie de troféu e amuleto que ainda hoje mantenho), 30 Rands e oito contos no bolso. E levava também uma mala de mão com meia dúzia de camisas e roupa interior, mais uns livrecos. 
Aquilo parecia a cena de um filme: eu e o Albano de fato e gravata e uma mala de mão, a entrar no comboio. Na cabeça levava ainda uma informação preciosa para a fuga: Clotilde Mesquitela disse-me que quando chegasse à fronteira encontraria facilmente um tipo da Guarda-Fiscal que me fazia "passar o arame" sem problema, como já o tinha feito dezenas de pessoas"

Passar o arame significa passar ilegalmente a fronteira?

"Isso mesmo. Aquilo foi tudo complicado: o tal guarda-fiscal tinha desaparecido. Ao que soube depois, no mesmo dia o Notícias de Lourenço Marques trazia uma notícia sobre o homem, denunciando a ajuda que ele dava às pessoas em fuga, e ele, zás, fugiu também. O que me valeu é que o revisor havia sido meu soldado quando eu era alferes, reconheceu-me e cumprimentou-me logo perguntando: Também vai embora meu Alferes? Ao que respondi: Que remédio. E como estava aflito e o comboio ainda ali estava, procurei-o, expliquei-lhe a situação e ele disse-me: Meta-se já no comboio que eu trato disso. Escondeu-me num espaço com uns aparelhos para o ar condicionado, e enquanto ia fechando a porta -- que era de ferro e tinha uma espécie de respirador para o ar circular -- disse-me que voltaria quando passássemos a fronteira. Entretanto o Albano ficou ali perto, falando sempre comigo. Mal o comboio passou a fronteira e parou, abriu-me a porta e ala que se faz tarde: já estava livre e fui para o campo de refugiados, que ficava ali a uns quatro ou cinco quilómetros, Fiquei na lista dos gajos sem passaporte, uma coisa muito fraca e muito frustrante. Eu  estava muito preocupado, a minha mulher tinha ficado em LM já grávida de vários meses e com os nossos três filhos, o ambiente era muito complicado, nomeadamente quando distribuíam comida. Ninguém se entendia, assim não podia ser, não havia organização mínima e então falei ao pessoal, mostrando a necessidade de termos regras, a coisa começou a organizar-se e  a distribuição de comida e de colchões ficou facilitada. Pouco depois o pessoal já estava organizado e tudo correu à mil maravilhas. Os sul-africanos, que não conheciam o modo de ser dos portugueses, ficaram boquiabertos e no final desse dia deram-me os documentos de que necessitava e fui-me embora, Fui viver para a casa do Rui Forjaz de Brito, que era correspondente do Notícias em Joanesburgo e estivera em LM no 7 de Setembro e comecei logo a escrever o livro AQUI MOÇAMBIQUE LIVRE, A minha mulher entretanto, juntou-se-me em Dezembro. Para ir ganhando a vida inicialmente fui distribuidor no Século de Joanesburgo e a seguir fundei a revista RR Mexilhão que foi um êxito. O meu primeiro editorial tinha o seguinte título:RR MEXILHÃO; PRÁ CRIADA E PARA O PATRÃO. Passei a assinar com o pseudónimo de Luís Gomes"

Clotilde, uma tia na "Revolução"

Não fora a tragédia humana  e política  que a loucura branca originou com o 7 de Setembro, o já referido livro de Clotilde Mesquitela poderia ser lido como uma divertida sátira sobre uma tia "revolucionária" no meio de uma "sublevação" radiofónica.



Porém, é lá que se encontra verdadeiramente testemunhada a conivência da PSP de Lourenço Marques com os assaltantes do Rádio Clube, bem como a fuga precipitada dos principais dirigentes do chamado "MML -- Movimento Moçambique Livre", incluindo os auto designados líderes negros que, em África, só conseguiram fugir do perigo com a ajuda de brancos, tal era a sua representatividade junto da "sua" gente.

Prisão do filho e fuga do marido e dos "líderes" negros

Numerosas são as páginas dedicadas por D. Clotilde  à fuga, em circunstâncias diversas, dos principais responsáveis pelo assalto ao RCM. No dia 11 de manhã, Gonçalo Nuno, filho dos Mesquitela, foi preso pela guarnição de Boane. Informado pela nora, o pai Mesquitela "iniciou imediatamente diligência para que o filho fosse solto, invocando o acordo do Rádio Clube. .
Telefonou ao coronel  Cunha Tavares. Este prometeu ver o que se passava e o que poderia fazer".
Contudo, apesar das insistências, desanimada, D.Clotilde : 
"No dia 12 meu filho continuava preso e não tínhamos quaisquer indicações do coronel Tavares. Amigo comum, a pedido do meu marido, foi ao Comando da PSP para com ele contactar directamente. Declarou-se, então ultrapassado e impotente para cumprir o acordo"
Isto é: os Mesquitela só então começaram a perceber que os tempos tinham mudado, mesmo para eles.
A 12 de Setembro D. Clotilde revela no seu livro que "a maior parte dos responsáveis do MML já saiu e outros andam escondidos" e escreve depois:

"(...) Paulo Gumane, Uria Simango e os outros que, quando saímos do RCM  tínhamos deixado em segurança numa casa que uma pessoa de um dos partidos tinha alugado depois do 25 de Abril, pensando que poderia ser útil para qualquer emergência, passaram aí a noite. Logo de manhã, acompanhados por Pires de Carvalho, Vasco Ferreira Pinto, Sara Cabral e Mohamed Hanif, dirigiram-se para o cais do porto, à hora combinada, quando estava de serviço aos portões um piquete de gente nossa. Já lá dentro da área do cais, são abordados por um carro da PSP e pensam que vão ser presos! Mas, afinal, os polícias, tendo-os reconhecido, querem avisá-los de que se o navio para que se dirigiam não os recolhesse, mais adiante outro estava a aceitar refugiados. (...) Conseguem chegar ao navio alemão a que se dirigiam.. Mas o capitão recusa-se a aceitar os líderes negros como passageiros e exigem que estes abandonem imediatamente o navio. Os seu companheiros recusam-se a ficar nestas condições e saem com eles.
O grupo embarca então no comboio que se dirige para a África do Sul. Paulo Gumane e Mohamed Hanif resolvem arriscar-se a seguir de automóvel para a Suazilândia, onde chegaram sem incidentes.
Com a saída de Velez Grilo, Pires Moreira e Ferraz de Freitas, estavam na Província só dois dos responsáveis do Rádio Clube: Daniel Roxo e meu marido".


A família Mesquitela
D. Clotilde revela seguidamente que seu filho João Afonso, colocado no GEP -- Grupo Especial de Paraquedista, lhe telefonara a comunicar que esta na Beira prestes a embarcar para Nampula por ordem do general comandante - chefe Orlando Barbos. Dedica então um elucidativo parágrafo de gratidão pública ao general.
D, Clotilde conta que por artes de berliques e berloques conseguiu ser recebida pelo brigadeiro Ilharco, já a chefiar o CTS, que lhe deu autorização para visitar sempre que quisesse o filho que estava na prisão em Boane (e onde se manteve 30 dias), ao mesmo tempo que, sobre o seu marido, a avisou: "Só estou em condições de não o prender até às 16 horas de hoje"
Gonçalo Mesquitela, claro, passou a fronteira para a África do Sul em tempo útil: faltavam escassos dez minutos para as quatro da tarde.
Os dias seguintes -- lembrou-me Victor Crespo

A 12 de Setembro, o Alto - Comissário português chegou ao aeroporto de Lourenço Marques. Por motivos de segurança, foi de helicóptero para o Palácio da Ponta Vermelha, agora a sua residência oficial.
"Ainda havia atiradores furtivos em alguns terraços de prédios, procurando  atingir pessoas negras" -- Lembrou-me Victor Crespo, 39 anos passados sobre esses dias de brasa e de História qe lhe ficaram gravados para sempre na memória e no coração.
No dia seguinte, transportados num VC 10 da East African Airways, foi a vez de pisarem o solo da capital moçambicana alguns dirigentes da FRELIMO -- e também os primeiros guerrilheiros daquele movimento de libertação que, deixando para trás anos de mato e emboscadas, se apresentaram agora como guerrilheiros da ordem e da segurança, desta vez nas ruas asfaltadas da cidade grande,
Recordo, como se fosse hoje, a expectativa e a excitação criadas na cidade com a chegada destes homens de quem nada se sabia. A curiosidade de ver com olhos de ver aqueles qhe há dez anos andavam na mata de armas na mão e talvez de pés nus -- e a quem as autoridades e os jornais portugueses chamavam terroristas -- era irreprimível. 
Mas ali estavam eles , à mão de semear e, com olhos de espanto, olhando para aquela realidade nova 
Respigo do vespertino TRIBUNA, que na sua edição de 13 de Setembro de 1974 tinha apenas três textos/notícias na 1ª página: 
Inequívoca que os envolvia, decididos a defender todos os cidadãos do seu país a nascer. Com direito a fotografias nos jornais e imagens nas televisões de todo o mundo. Bem vindos para muitos, malquistos para uns tantos, mas indiferentes para ninguém. Com um pormenor curioso: de repente, Lourenço Marques ficou mas segura.oco propósito de restabelecer a normalidade -- Victor Crespo ao cidadão";
 "A crise foi vencida -- planeadas acções conjuntas com base no Acordo de Lusaka"; 
"Situação Normalizada", uma caixa a duas colunas com declarações do comandante Mário de Aguiar, camarada de armas e amigo íntimo de Victor Crespo, que o acompanhou desde Lisboa, do seguinte teor:
Extensas filas para reabastecimento das populações do caniço
"A crise por que a cidade passou está vencida, Na noite passada, tanto quanto o o gabinete do alto-Comissário está informado, não se registaram quaisquer perturbações de ordem pública e, durante a madrugada de hoje, o regresso das populações dos subúrbios  ao trabalho processou-se normalmente.
Temos notícias de dificuldades surgidas no que respeita ao abastecimento de géneros alimentícios àquelas populações, devido ao facto de as cantinas terem o seu funcionamento perturbado. Porém está a ser elaborado um plano de abastecimento de géneros às populações que, provavelmente, ainda hoje será divulgado"



Continuando a noticiar a situação , disse o comandante Mário de Aguiar:

"Chegou esta manhã a Lourenço Marques o primeiro contingente de forças militares da FRELIMO composto por aproximadamente 200 guerrilheiros que vêm colaborar na manutenção da ordem, conforme os Acordos de Lusaka. Deste modo a cidade passará assim a ser patrulhada:
1º) Os subúrbios serão controlados por patrulhas compostas exclusivamente por elementos da FRELIMO.
2º) Na cintura que separa o caniço e a cidade de cimento a FRELIMO actuará conjuntamente com forças militares e para-militares portuguesas.
3º) A cidade do cimento será controlada por militares e forças para-militares portuguesas".


Guerrilheiros da FRELIMO a desembarcar em Lourenço Marques
Completa calma no cimento e no caniço

Nas páginas interiores e na contracapa da Tribuna, muitas eram as notícias e os ângulos de abordagem da vida em Lourenço Marques no pós-7 de Setembro em Lourenço Marques. Vários jornalistas, a pé, de automóvel e de helicóptero, percorreram o cimento e o caniço para relatar a vida e o aspecto da cidade e dos subúrbios.
Registaram, é certo, "atitudes inqualificáveis" nos subúrbios, onde "grupos isolados de brancos, pintados de preto, andaram na noite de ontem por algumas zonas (próximo do campo do Benfica) a fazer estragos e matando alguns moradores" tendo sido detidas três pessoas.
Isso, porém, foi a excepção: os machimbombos e outros transportes públicos, bem como os automóveis particulares recomeçaram a circular, os trabalhadores voltaram ao trabalho, as Forças Armadas começaram a distribuir alimentos dado que muitas cantinas haviam sido destruídas ou saqueadas, a Baixa voltou a ter o movimento normal, no mercado Vasco da Gama passava-se o mesmo. E em fundo, o RCM a todos ligava de novo.
Ficou igualmente a saber-se que oito navios tinham saído do porto de Lourenço Marques ilegalmente, alguns dos quais transportando passageiros sem que os respectivos passaportes fossem visados pelas autoridades de emigração. O Tribuna admitia que centenas  de residentes de Lourenço Marques, entre nacionais e elementos de colónias estrangeiras, terão então abandonado o território ilegalmente.
Já os jornalistas que de helicóptero sobrevoaram a cidade e desceram em vários pontos, descreveram assim o que viram:a vida a regressar à normalidade, cantinas e viaturas destruídas (algumas ainda fumegando), militares revistando carros em barreiras propositadamente levantadas para esse efeito, forças da ordem a patrulhar intensamente a zona do aeroporto, filas de pessoas junto de cantinas, lojas e padarias entretanto reabertas, o hospital guardado por militares, muitas e muitas casas queimadas nos bairros do caniço -- umas já em cinza, outras ardendo ainda. 
Com uma pequena explicação: em várias zonas a população do caniço destruiu as próprias casas para que o fogo não alastrasse a outras habitações. Um cenário de devastação em algumas áreas, como na Av. do Brasil, com a população a falar de "mabandidos".
E uma conclusão: as cantinas foram as grandes vítimas, a violência e os estragos elevados, mas agora reinava a calma.

As primeiras medidas

Perguntei a Victor Crespo quais foram as primeiras medidas que tomou quando chegou ao Palácio da Ponta Vermelha.
Mexeu-se um pouco no sofá da sala da biblioteca do Clube Militar Naval, em Lisboa, onde nos encontrámos para falar sobre o 7 de Setembro e o seu efeito na descolonização em Moçambique -- e a resposta surgiu sem a mínima hesitação:

"A prioridade absoluta era a do apoio à comunidade portuguesa , acabar com o caos e a controversa então reinante e criar um clima de segurança e de entendimento que permitisse o mais amplo conhecimento possível das novas realidades, para defesa de direitos, apreciação ponderada da situação e a tomada individual de decisões conscientes.
Ora, a criação desse ambiente de segurança grande remodelação na estrutura da Forças Armadas, por forma a torná-las mais coesas e disciplinadas e imbuídas de sentido de missão, cujo significado nacional, por mim claramente  exposto, foi profundamente sentido.
Dito de outro modo: quis, em primeiríssimo lugar, criar uma Forças Armadas portuguesas que tivessem a tarefa e o propósito de cumprir o Acordo de Lusaka. Decisão imediata: não ficaria ninguém em Moçambique que não quisesse cumprir o Acordo. Admitia que alguns Oficiais quisessem regressar a Portugal, o que aconteceu. Mas ficou logo claro que quem ficasse comigo na chefia militar teria que ter grande qualidade profissional, e teria  que aceitar sem reserva o Acordo de Lusaka. Ao mesmo tempo, era ainda indispensável que os que comigo ficassem tivessem a capacidade de fazer uma ligação entre  o passado  e o presente. Isto é: queria também que não houvesse tensão com as Forças Armadas de Libertação de Moçambique -- o que foi conseguido totalmente"

Victor Crespo, porém, não ficou por aí.

"Por outro lado, tive  que simplificar ao máximo a organização operacional das nossas Forças Armadas: entre uma companhia operacional e o comandante-chefe passou a existir apenas o comandante de Sector (um coronel). Ou seja: grande capacidade, rapidíssima, sem comandos intermédios. A isto acresce que as  principais forças tinham que ser da mais alta confiança. Como acontecia com os Sectores da Beira e de Lourenço Marques.

Foi bem sucedida essa política? -- questionei

"Sem dúvida. Repare: nunca foi declarado o estado de sítio, que a situação inicial chegou a fazer ponderar. A coesão e o poder rapidamente assumido pelas Forças Armadas , a determinação e a autoridade do Estado, conjuntamente com o intenso uso esclarecedor da comunicação social, permitiu obter em poucas semanas a normalidade da vida social, possibilitando então encarar com serenidade os momentosos assuntos que enfrentámos".com os militares da FRELIM

E no que toca ao relacionamento dos militares portugueses con os militares da FRELIMO?

"Uma questão fundamental que a todos nós se colocava era a resposta à pergunta sempre presente: como nos vamos relacionar com a FRELIMO? como os vamos integrar? Como sabe, a integração das forças da FRELIMO no território era assunto difícil e suscitava grande tensão entre a comunidade portuguesa. Mas, após estudos preparatórios, decidiu-se pela sua instalação nos mesmos quartéis das nossas tropas, embora em espaço separados. A superioridade militar que procurámos manter sem alarde, o contacto directo e a atribuição de tarefas comuns, revelou-se muito eficaz"

Resumindo correu tudo bem, nesse capítulo

"Sem dúvida. Nesse capítulo e noutros. A decisão foi a mais correcta, como os resultados comprovaram: os soldados da FRELIMO foram colocados em quartéis conjuntos com os soldados portugueses. Em total igualdade de condições. Eles mantinham a sua organização, nós a nossa -- ms estavam nos mesmos quartéis, comiam as mesmas refeições, conviviam, falavam uns com os outros, conheciam-se, integravam-se. A FRELIMO inicialmente ainda pôs reservas a tal solução, mas falei com o Chissano e acabou por prevalecer essa fórmula -- e tudo correu muitíssimo bem."

Mas havia ainda outro ponto muito importante a resolver: as nossas tropas continuavam espalhadas por todo o território...

"Sim, embora já se tivessem verificado algumas alterações, nomeadamente no Norte, ainda antes  de Setembro. Mas mal cheguei começámos a estudar e a realizar a retracção do nosso dispositivo militar, saindo de muitas zonas e concentrando-nos profundamente nas cidades. Entretanto, numa operação de grande envergadura planeada por nós e pela direcção da FRELIMO, foram transportados para o interior do território e para as principais cidades os efectivos militares e quadros dirigentes deste movimento de libertação por forma a cumprir-se os Acordos de Lusaka e a permitir que o Governo de Transição, presidido por Joaquim Chissano, tomasse posse a 21 de Setembro. Deve também referir-se acções de cooperação em vários domínios, a entrega metódica das instalações e materiais que ficavam e outros apoios à sua instalação como exército regular, o que gerou um bom clima de solidariedade e segurança durante toda a transição"


Chegada de tropas da FRELIMO aoaquartelamento do
 Exército português em Nova Coimbra, no extremo Norte
do Distrito do Niassa
Onde ficaram alojadas essas forças da FRELIMO

"Como acontecia quando chegava de Lisboa uma companhia que ia render outra, o mesmo se passou com a chegada de tropas da FRELIMO que, em Moçambique inteiro, foram para as nossas instalações -- tudo lhes era entregue nas melhores condições. Entregámos o que tínhamos, respeitando sempre as ordens de Lisboa quanto ao que deveria voltar a Portugal e o que deveria ficar. E muita coisa por lá ficou, que já não seria útil ao nosso país, mas tinha muito interesse para Moçambique. Armas e munições vieram, mas, por exemplo, ficaram lá incontáveis viaturas e até alguns navios, como o S.Brás (transporte de combustível), o navio hidrográfico com aparelhagem fundamental para Moçambique e uns navios pequenos  que estavam no Norte. Aliás,deve dizer-se que tudo o que havia sido pago pelo Governo de Moçambique ficou lá. E no capítulo de museus e arquivos tudo o que era estritamente português veio, tudo o que respeitava a Moçambique lá ficou. Naturalmente." 

Já agora deixe-me colocar a seguinte questão: por que razão houve tanta "meiguice" com os homens que assaltaram o RCM?

"Suponho estar a referir-se ao facto de quase todos terem fugidos sem serem incomodados. Bom, quanto "à caça ao homem" em relação aos que ocuparam o RCM , houve algumas detenções -- mas a verdade é que essa caça não nos interessava muito, isso não era fundamental. Não tivemos essa intenção. O essencial, aquilo que era mais necessário, era a estabelização social -- e prender e julgar não era favorável, e muito menos prioritário, para conseguir tal objectivo. Pelo contrário: não ajudava. As questões prioritárias, mais urgentes, não passavam por aí. Dou-lhe um exemplo: uma grande preocupação era a libertação dos prisioneiros portugueses. Devo realçar que o Governo de Transição só tomou posse depois de todos os presos portugueses, incluindo obviamente os prisioneiros de OMAR, terem sido libertados. Esse era o nosso espírito"

E o que aconteceu aos Grupos Especiais (GE) e Grupos Especiais Paraqudistas (GEP) que tinham sido formados no Dondo e eram tidos como homens de Jorge Jardim? Dizia-se que entravam nas contas dos brancos portugueses que sonhavam com uma independência tipo Ian Smith para Moçambique...

"Essa foi uma questão a que demos particular atenção, até porque tinha informações de que os sul-africanos e os rodesianos andavam à cata desses elementos para os integrar nas suas forças militares. A decisão que tomámos, para além de destruir tdos os ficheiros com informações sobre esses elementos, foi desmobilizá-los e colocá-los nas sua terras natal com algum, pouco, dinheiro, para subsistir nos primeiros tempos, dando-lhes uma ajuda para se adaptarem a uma nova vida"

Formado o Governo de Transição

Sempre num frenesim, os dias iam correndo na cidade das acácias, onde a vida voltara a uma espécie de normalidade, mas com a população branca -- sentia-se -- de nervos à flor da pele, pois o futuro não era claro.
No dia 20 de Setembro com pompa e circunstância, o Alto-comissário português, deu posse ao Governo de Transição -- chefiado por Joaquim Chissano, destacado membro da FRELIMO -- composto por 9 ministros, seis dos quais indicados por aquele Movimento de Libertação e três por Portugal.
(...) Houve dois discursos -- o do Alto-Comissário almirante Victor Crespo e o do 1º Ministro Joaquim Chissano -- e a leitura de uma longa mensagem de Samora Machel, que estava em Dae-es-Salan.
No seu estilo inconfundível, Machel não esteve com meias medidas nem paninhos quentes.
Começou por lembrar:


Victor Crespo, com os membros do Governo de Transição de Moçambique
(...)Herdamos uma situação difícil e grave do ponto de vista social, económico, financeiro e cultural, resultante de séculos de opressão e pilhagem colonial, agravada por décadas de dominação e repressão colonial-fascista e exacerbada pela aventura criminosa de um pequeno bando de racistas e reaccionários que nos últimos dias vitimou a cidade de Lourenço Marques.
Afrontamos a herança do analfabetismo generalizado, da doença, da miséria e da fome.
Encontrámos destruição, ressentimento e ódio, criados por séculos de opressão, estimulados pela guerra colonial de agressão, que os reaccionários colonialistas e fascistas desencadearam com o fim de semear a divisão e confusão.
(...)Antes da vitória popular o poder pertencia ao colonialismo e era a expressão da dominação das Companhias sobre o nosso país.
Quem governava? Eram governantes aqueles que serviam interesses de um punhado de exploradores.
Os anos de governação permitiam-se acumular fortunas através do uso do poder, do roubo, das grossas somas recebidas em troca de favores feitos às Companhias, como recompensa pela cedência das riquezas do país e da venda dos próprios homens. depois de terminado o serviço como governadores, estes transitavam imediatamente para os conselhos de administração de grandes empresas onde recebiam grossos salário como recompensa dos serviços prestados(...

População Branca: tranquilidade e confiança

Depois de abordar numerosas questões -- Machel dirigiu-se com todo o vigor à população branca:

"(...)A primeira que lhes queremos transmitir é uma palavra de tranquilidade e confiança. A FRELIMO nunca lutou contra o povo português ou contra a raça branca, A FRELIMO é a organização de todos os moçambicanos sem distinções de raça, cor, de etnia ou de religião. A luta sempre se dirigiu contra o sistema colonial de opressão e exploração: por isso todos aqueles que vivem do trabalho honesto e que sabemos constituírem a esmagadora maioria da população branca, têm uma contribuição a dar à reconstrução nacional do nosso país, com todo o Povo Moçambicano.
É necessário liquidar radicalmente todos os complexos de superioridade e inferioridade criados e vinculados por séculos de colonialismo.
Não há minorias, não há direitos ou deveres especiais para qualquer sector do povo moçambicano: somos todos moçambicanos com os direitos que o trabalho nos confere, com o idêntico dever de construir a Nação Unida, próspera, justa, harmoniosa, pacífica e democrática".

Amizade ao povo português

Por fim, Samora guardou uma palavra para o povo português:

"Queremos reafirmar a amizade que nos une ao Povo Português, e em particular às forças democráticas portuguesas, amizade forjada na luta contra o regime colonial--fascista.
Essa luta comum continua.
É com o Alto-Comissário que o Governo de Transição construirá pedra a pedra o edifício da amizade e cooperação que nós desejamos exemplar na História.
A FRELIMO, na linha da sua política de princípio e fiel aos compromissos assumidos, cooperará lealmente como Alto-Comissário da República portuguesa e com as Forças Armadas portuguesas para realizar em conjunto as tarefas da fase presente e construir o futuro." 

O contrato de Honra

O Alto - Comissário português, Victor Crespo, por sua vez, começou por sublinhar e dirigindo-se directamente ao primeiro-ministro  Chissano lembrou, com elegância firme, a obra dos trabalhadores portugueses em Moçambique e o significado do Contrato de Honra agora rubricado pelos dois povos:

"Conhece V. Exª  muito bem a obra árdua que os trabalhadores honestos e humildes de Portugal semearam pelos quatro cantos deste país imenso. Pode V.Exª continuar a contar com eles, com o seu trabalho, com o seu sentido humano de convivência, com o seu desejo muito sincero de continuar em Moçambique no caminho livre e próspero que todos nós lhe auguramos.
(...)O contrato de Honra entre o povo português e o povo moçambicano, que esta cerimónia de posse do Governo de Transição consubstancia, obriga-nos a todos sermos dignos, conscientes e vigilantes para que o nosso exemplo de convivência fraterna possa constituir uma nova e luminosa alvorada de novos mundos ao Mundo".

RECORDANDO MOMENTOS DA NOSSA HISTÓRIA

Dia 7 de Setembro - Dia da Victória 
Um Importante Momento Histórico

  • A Assinatura dos Acordos de LUSAKA em 1974
  • A Grande Manifestação dos Moçambicanos no Estádio Salazar em Lourenço Marques em Apoio a Assinatura dos Acordos de Lusaka entre a FRELIMO e o Governo Português Rumo á Independência de Moçambi
  • que.
  • Tomada da Rádio Clube pelos Colonos Revoltosos numa Acção Contra a Assinatura dos Acordos e o Início de uma INTENTONA GOLPISTA com o Objectivo de Instalar em Moçambique um Governo semelhante ao da RODÉSIA como aconteceu com IAN SMITH.

A Partir de 8 de Setembro a População Moçambicana de Lourenço Marques e Arredores decide-se Organizar no BAIRRO da MAFALALA na Residência da Heróica Família CALIANO DA SILVA para Contra o Movimento denominado Criminoso "AQUI MOÇAMBIQUE LIVRE que fez Derramar Muito Sangue.

A 10 de Setembro de 1974 o POVO UNIDO Liderado por um Amplo Grupo de Nacionalistas, realiza com Sucesso a GRANDE OPERAÇÃO, retomando a RÁDIO CLUBE DE LOURENÇO MARQUES, hoje RÁDIO MOÇAMBIQUE na Grande Operação "GALO, GALO AMANHECEU" que pôs termo aos Longos DIAS e NOITES SANGRENTAS que Ceifaram Vidas sob Comando dos ESQUADRÕES DA MORTE e do GRUPO FICO apoiados pela famigerada Polícia Política (PIDE - DGS) com o Apoio da PSP, do EXÉRCITO e POLÍCIA MILITAR que se ALIARAM a INTENTONA na Globalidade.

A OPERAÇÃO GALO em Duas Decisivas Etapas teve o Único e Decisivo Apoio do CORONEL NUNO DE MELO EGÍDIO (Comandante do CTS) fiel ao Governo Português, apoiando o passo importante de Lançamento da Senha Chave que a População Aguardava com Muita Ansiedade:

  • "GALO, GALO AMANHECEU" 
  • A Segunda Etapa com o Apoio de Duas Companhias de Paraquedistas que Decididamente e sob o Comando do "COMANDANTE GALO" executou o ASSALTO FINAL e CONTROLO DEFINITIVO da Estratégica Emissora de RÁDIO que Extremamente Importante para a Reposição da Ordem.

A 12 de Setembro por Decisão e Orientação do Presidente Samora Machel, chegam a Lourenço Marques os Comandantes ALBERTO CHIPANDE e BONIFÁCIO GURVETA recebidos por nós no Edifício do Comando Territorial Sul (hoje Ministério da Defesa) com a DECISIVA MISSÃO de ASSEGURAR que os HEROICOS JOVENS do 7 de SETEMBRO não Sofressem uma NOVA INTENTONA com a possível e eminente Intervenção de Forças Militares da ÁFRICA DO SUL e da RODÉSIA.

Recordamos aqui e a título póstumo as Heróicas Figuras que deram o Seu Contributo na Base Galo na MAFALALA ao Lado daquela Juventude Heroica de Setembro de 1974:

  • AMARAL MATOS
  • NUNO CALIANO DA SILVA
  • ORLANDO MACHEL
  • JOAQUIM CHAÚQUE
  • MILAGRE MUTEMBA
  • ISAÍAS TEMBE 
  • ANA MARIA AKUY
  • GILBERTO ANTONIO
  • ANTÓNIO MEIRINHO 
  • SALVA MUTEMBA
  • AREOSA PENA EUGENIO DE LEMOS
  • ANTONIO MATSINHE
  • ABDUL REMANE (BUBULE)
  • ISSUFO BIN ABOOBAKAR
  • ALBERTO MASSAVANHANA 
  • ALEXANDRE MATOS
  • RAPOSO PEREIRA
  • LEITE DE VASCONCELOS

VIVA O 7 DE SETEMBRO - DIA DA VITÓRIA
VIVA O 43º ANIVERSÁRIO DA GRANDE OPERAÇÃO




Em Anexo um Vídeo Especialmente Concebido e Editado por JOÃO ALMEIDA, para a Obra Literária "MAFALALA 1974 - Memórias do 7 de Setembro - A GRANDE OPERAÇÃO".

ESTE VÍDEO DEMORA ALGUNS SEGUNDOS A ABRIR. 

21 de Outubro, quatro horas que abalaram Moçambique

Ao fim dos primeiros trinta dias do Governo de Transição -- uma experiência  completamente inédita que estava a correr muito bem apesar do difícil caminho a trilhar -- aconteceu o impensável.
É certo que as marcas do 7 de Setembro continuavam presentes e a desconfiança e o receio de parte significativa da população branca ainda se fazia sentir -- embora, ns quentes noites laurentinas, já fosse mais espaçado e menos audível o  simbólico som de martelos fechando contentores dos colonos que haviam decidido regressar a Portugal ou, pura e simplesmente, abandonar Moçambique partindo para outras paragens.
Contudo, a 21 de Outubro, o trigésimo dia de vida e acção  do Governo de Transição, foi a surpresa dolorosa. Mais uma machadada na descolonização. Um caso fortuito, embora indesculpável -- dizem uns. Um caso trabalhado na sombra, jogando com desconfianças e conflitos raciais avivados com o 7 de Setembro e ainda muito à flor da pele -- dizem outros. E, mais uma vez, bem no coração da capital moçambicana -- a Baixa de Lourenço Marques , muito frequentada pelos europeus, que sempre enchiam as esplanadas ali existentes.
Em síntese, um desentendimento entre um pequeno grupo de Comandos portugueses e de soldados da FRELIMO que estavam na baixa da cidade originou uma troca de tiros que causou mortes, feridos, confusão generalizada -- e, de novo, medo, muito medo, com o retorno de fantasmas racistas que se queriam enterrados e bem enterrados. Um incidente que, graças aos boatos que de imediato cruzaram a cidade, permitiu que "mabandidos", na fronteira entre o cimento e o caniço, aí criasse o terror, matando selvaticamente dezenas de cidadãos. Tudo num ápice, pois a reacção do Alto-Comissário, do Governo de Transição e dos militares, portugueses e da FRELIMO, foi rápida e eficaz. O que, contudo, não impediu um balanço de 35 brancos e 13 negros mortos e 88 feridos graves.

O almirante Victor Crespo, com quem agora falei sobre estes acontecimentos, começou por sublinhar:

De seguida, o almirante rebobinou a sua memória e descreveu o que se passara:

"Tudo começou com um pequeno conflito de um Comando português com um engraxador de rua, negro, que terá pedido um preço novo pelo serviço. O Comando teve uma reacção verbal agressiva, um FRELIMO que também andava por ali a "policiar" as ruas não terá gostado, apareceram mais Comandos e  desentendimentos e insumais frelimos, registaram-se desentendimentos e insultos, a coisa aqueceu, houve um disparo acidental de um soldado da FRELIMO, ambos os lados chamaram reforços, os Comandos que estavam instalados no parque de Campismo enviaram logo uma força armada, os frelimos também, ainda houve uns tiros trocados, registaram-se duas mortes de transeuntes, eu e o Chissano actuámos de imediato, uma força da Polícia Militar, capitaneada pelo capitão Cebola, apoiada por duas Panhards chegou rapidamente ao local e prendeu o Comandos, do lado da FRELIMO também aconteceu coisa semelhante, o brigadeiro Melo Egídio, que comandava o CTS interveio igualmente, tudo acalmou e tudo ficou localmente resolvido por esforço conjunto dos responsáveis portugueses e moçambicanos.
Não houve qualquer conflito institucional. Porém a "onda" propagou-se rapidamente pela cidade e pelo caniço, na zona próxima do aeroporto, verificou-se uma revolta espontânea  da população negra, com barricadas na rua, com os mabandidos -- sim, mabandidos que estavam misturados com a população, ali não houve mão da FRLIMO -- a actuar de uma forma selvagem, parando carros com brancos e ateando fogo às viaturas com passageiros lá dentro, outros foram tirados para fora e chacinados à catanada, um horror.


Militares portugueses armados na baixa de Lourenço Marques, 
em 21 de Outubro de 1974
Logo que soube disto chamei o primeiro - ministro Chissano, que veio ao meu gabinete, o que prova o bom relacionamento que existia entre os responsáveis dos dois lados, e tomámos medidas em conjunto. O próprio Chissano quis ir de imediato numa brigada mista, eu é que o convenci a não o fazer pois não queria ficar sem primeiro-ministro, não me parecia justo nem necessário. O comandante Mário Aguiar, que veio comigo de Lisboa, quis ir de imediato ao RCM  para se avisar pela rádio quem viajava de carro e iria passar por aquela zona, ou quem estava para sair de casa e não sabia o que se passava, mas o Sérgio Vieira, ministro da FRELIMO, que também estava no meu gabinete, quis fazer um comunicado muito correcto, pesando as palavras que depois seria lido aos microfones, perdendo com isso alguns minutos que pareceram uma eternidade -- quando o que era preciso era rapidez, era urgência. No final, quando a ordem foi reposta , e foi-o num espaço relativamente curto, tinham sido assassinados de forma horrível 48 pessoas. Um crime hediondo"

Voltando a 21 de Outubro : ainda nesse dia o Alto-Comissário Victor Crespo  e o primeiro-ministro Joaquim Chissano emitiram comunicados que foram lidos repetidamente no RCM e publicados nos jornais no  dia seguinte, descrevendo e caracterizando o que se havia passado, anunciando as medidas  de imediato tomadas e aconselhando calma à população, a quem garantiram que tudo estava sob controlo.
Entre as deciões avançadas, a que maior impacto teve junto da opinião pública foi a expulsão imediata das duas companhias de Comandos que estavam  na capital moçambicana  e tiveram alguns soldados envolvidos nestes incidentes.
Disse-me Victor Crespo:

"As duas companhias de Comandos foram metidas nessa mesma noite em dois aviões civis da Deta, a companhia aérea de Moçambique e rumaram a Montepuez para depois sere enviados de regresso a Portugal onde deveriam ser punidos" (o regresso a Lisboa verificou-se mais tarde, tendo os Comandos ficado retidos em Luanda, onde se mantiveram três meses e com serviços relevantes aí prestados na área da segurança).

A versão de dois Comandos

O alferes comando Manuel Frade eo furriel comando José Ferreira -- já referidos anteriormente -- pertenciam à Companhia de Comandos 2043, de Montepuez, e tinham chegado a Lourenço Marques , chamados de urgência, em 12 de Setembro, após 4 dias de espera.
Sobre o 21 de Outubro, em que acabaram por serem envolvidos, dispuseram-se  a dar-me a dua versão, na convicção de que assim contribuiriam para a reposição da verdade.
Na opinião desses dois ex-Comandos, naquela data havia duas situações para si claras: por um lado, alguns dos brancos que ficaram depois do 7 de Setembro adoptaram uma posição de empurrar uma parte (os Comandos) contra a outra (os soldados da FRELIMO).

"Evidentemente é uma interpretação, mas é a nossa e estamos seguros disso" -- sublinharam. "Nós, nas nossas tarefas do dia a dia, tentámos sempre que houvesse apenas um mínimo de cruzamento entre as duas partes. Isto é: serviços e tarefas comuns, mas sem misturas,. Mas os brancos tentavam aliciar as duas partes: ofereciam cervejas, cafés, almoços -- e diziam sempre mal da outra parte. Por outro lado, também referir que os frelimos andavam sempre armados, quer fosse em serviço ou não. Estavam armados quando iam beber uma cerveja, quando iam almoçar e até em discotecas sempre de arma a tiracolo. Nós só andávamos armados em serviço. Estas duas coisa -- a intriga dos brancos e a questão do armamento -- criavam um mal estar indefinido, vivia-se num ambiente de uma certa desconfiança e tensão, as relações estavam minadas. E, a nosso ver só podia dar naquilo"

Dito isto, a duas vozes, adiantou depois o ex-alferes Frade:

"Só um exemplo. Quando fazíamos segurança ao DN de LM, nós combinávamos: uns vão para aquele lado, outros ficam neste lado de cá. Traduzindo: Frelimos para um lado comandos para outro. Mas o objectivo era o mesmo : segurança ao DN. Os graduados da FRELIMO , os chefes, nunca levantaram problemas. Pelo menos eu nunca tive qualquer problema, combinávamos pacificamente a coisa e também sempre consegui que os meus soldados se cruzassem com os da FRELIMO sem qualquer tipo de problema. Mas nós sentíamos que a faísca podia acontecer a qualquer momento. Como foi o que aconteceu a 21 de Outubro. A verdade, verdadinha, é que nós nem eles, habituados a anos e anos de ódio, anos e anos a olharmo-nos como inimigos, como adversários a abater, estávamos bem preparados para aquele trabalho conjunto, assim de um momento para o outro -- por muito boa vontade que tivéssemos. E muitos dos brancos, que sofriam do mesmo mal, sempre a instilar suspeitas, a acordar velhos demónios nas nossas cabeças e corações"


Lourenço Marques. 21 Outubro 1974. Início dos confrontos
Mas no concreto o que é que se passou no 21 de Outubro? Como é que tudo se passou? Como se desenvolveu? -- perguntei.

"Olhe foi a tal faísca" replicou de imediato o ex-furriel miliciano José Ferreira.

"Pois, lá isso foi. Mas até hoje ainda não se conseguiu apurar exactamente como tudo começou e desenvolveu" -- disse por sua vez o ex-alferes Frade.

E a partir daí cada um deu uma achega. Sempre com ar sincero, quase de supetão, testemunhando como quem quer esconjurar sentimentos que, apesar de 39 anos passados, teimam em ver ao de cima. Apesar de ser uma história mil vezes repetida. Em síntese:

Alferes Frade: O problema é que há várias descrições do que se passou. Da faísca. Da chispa. Nós os dois não assistimos ao momento em que tudo começou. Fala-se do engraxador. Soldados-comandos estavam sentados no famoso Scala, na baixa laurentina. Como muitas vezes acontecera, um miúdo negro engraxava as botas de um soldado nosso. Mas no fim pediu mais dinheiro do que o habitual. Há discussão: pago, não pago, estás a pedir mais, porquê, o que é  que julgas, somos otário ou quê. O miúdo traz vestida uma camisola da FRELIMO. Há quem diga que um dos nossos a certa altura puxou pela camisola do miúdo. Há quem chame uma patrulha da FRELIMO que estava ali perto. Os da FRELIMO aproximaram-se armados como sempre. Os Comandos estavam de folga e não estavam armados. Tudo no centro da cidade, em plena Baixa de LM, centro nevrálgico da grande urbe, com muitos brancos. Frelimos e Comandos a discutirem. A faísca, pressente-se, anda no ar. O ambiente aquece. A certa altura alguns elementos da patrulha da FRELIMO querem prender Comandos, sendo que apesar de estarem todos desarmados alguns estão fardados. Tudo isto começa envolvendo quatro ou cinco Comandos. Mas depois surgem mais uns Comandos que andavam por ali. Há uma fase de discussão de vários minutos e entretanto chega um alferes da nossa companhia a 2043, que entra em diálogo com o chefe da patrulha da FRELIMO.

Furriel Ferreira interrompe:

"Eu vinha a pé para a Baixa, fardado mas desarmado, para tomar um café, para passear, quando passou um carro civil com vários Comandos lá dentro, iam para a Baixa regressavam de um almoço com civis, entre eles estava o Furriel Vasco que ao ver-me mandou parar o carro  e deu-me boleia. Quando chegámos à baixa o que é que vimos? frelimos e Comandos a discutir, centenas de pessoas a assistir, e isso já não era em frente do Scala, era um pouco mais acima. O pessoal da FRELIMO estava armado e de serviço. Ficámos espantados, não estávamos a perceber o que era aquilo, um dos soldados que vinha no carro comigo sai, agarra dois frelimos, empurra-os é empurrado, nariz com nariz, chega para lá, o que é que queres, os gajos da FRELIMO começam a recuar com as armas na anca em posição de fogo...


Baixa de LM, confrontos ente Comandos e Frelimos
Nesse momento tivemos a nossa clara que dentro de poucos segundos iam disparar, continuaram a recuar com as armas apontadas para a gente. Esta  atitude originou uma debandada na zona, debandada de civis e também debandada de alguns militares. Pensámos: quando se encostarem à parede disparam. Tipos a esconderem-se atrás de carros. Frelimos sempre a recuar. Entretanto há um gajo dos nossos que vai atrás deles. Eu não vejos esse momento, essa parte da história -- mas sei que esse nosso soldado deita a mão a um FRELIMO que se atrasara um pouco, desarma-o e mata-o com a arma a que deitara mão. Os frelimos começaram a disparar . Toda a gente começa a fugir. Mas há pessoal firme a ver o que vai dar. Civis brancos foram avisar os Comandos ao Parque de Campismo, onde as nossas companhias estavam instaladas. Em poucos minutos chegaram várias viaturas com Comandos armados. Intensifica-se a troca de tiros. Partem-se montras, há tiros por todo o lado. Em plena Baixa de Lourenço Marques! Um cenário inacreditável, surrealista, inesperado, só visto se pode acreditar! O soldado Comando que matou o soldado da FRELIMO, também fica marcado com um tiro que leva numa perna e ficou a dever a vida a um civil que, debaixo de fogo, foi buscá-lo onde ele estava deitado, levou-o primeiro para uma papelaria ali perto onde o escondeu e mais tarde transportou-o para o hospital. Nós não o pudemos socorrer porque ele tinha avançado atrás dos frelimos e nós estávamos longe dele.
Só mais tarde soubemos do que aconteceu"

Perante o silêncio que se fez entre nós os três, "saltou" o ex-alferes Frade:

"Pela minha parte o que posso dizer é que fui apanhado naquela merda ainda hoje não sei porquê nem como. Andava a passear pela Baixa, o que fazia com alguma frequência, Lourenço Marques era uma cidade bonita, fantástica, nem parecia África, e dei de repente com aquela bernarda. Com gente da minha companhia a 2043, porra. Pensei logo: isto não tem jeito nenhum. E a minha preocupação foi reunir o meu pessoal para ver se acabava rapidamente com aquela merda. Juntar os Comandos desarmados -- os da 2043 e os da 2045, que estavam misturados. Apesar de desarmado, consegui reunir uns 30 ou 35 Comandos armados numa transversal. Havia um logradouro , e comecei a juntar o pessoal todo ali para acabar com o tiroteio. E de seguida pedi uma viatura ao Parque de Campismo para virem buscar o pessoal que tinha conseguido reunir. Entretanto chegou uma Panhard  da PM que se pôs à nossa frente. Um capitão da PM dá ordens ao seu pessoal: "Desarmem toda a gente" Eu digo-lhe: Você está muito nervoso. Tenha calma. Um alferes da PM percebe o que se estava a passar e o que podia acontecer e falou comigo. Eu propus colocar todas as armas no chão e um pé de cada um em cima da respectiva arma. Foi o que foi feito. E combinei com o alferes e o capitão da PM que todos os "meus" homens iriam para o "quartel" e depois os graduados iriam à PM falar e esclarecer tudo. Ainda conseguimos reunir mais alguns Comandos, mas não todos -- havia Comandos "desgovernados", mas não houve mais problemas . Julgo que com os frelimos aconteceu coisa parecida. 
A PM levou as armas quando o nosso pessoal entrou nas viaturas para regressarem ao Parque de Campismo.
21 Outubro. Comandos de regresso ao seu aquartelamento
O então coronel Melo Egídio, que salvo erro era o comandante da Região Territorial Sul, veio mais tarde devolver as armas todas. Ainda nessa noite fomos recambiados para o Norte. Não fomos directos para o aeroporto -- demos uma grande volta para não passarmos junto do local  onde os negros se tinham levantado mais uma vez e mataram numerosos brancos, como soubemos depois. Mas quando chegámos ao aeroporto de LM estavam lá centenas de pessoas brancas que queriam "só" duas coisas: a segurança que o aeroporto lhes proporcionava e que nósficássemos para os defender. O medo, para não dizer pânico, era muito. Mas a verdade é que nessa mesma noite voámos para Nampula e, mal chegámos fomos em viaturas para Montepuez, a nossa base.
Aí começou logo a transpirar, a constar, que íamos ser recambiados para a Metrópole no  dia seguinte -- mas isso só aconteceu no dia 30 de Outubro. Foi neste período de sete ou oito dias que se cozinhou a solução para ficarmos em Luanda. Mas nós, os da 2043, apenas soubemos desse destino na placa do aeroporto de Nacala, quando nos preparávamos para subir as escadas da aeronave, O major Florindo Morais, qque era o comandante da companhias mandou-nos reunir e explicou que a situação era muito complicada para as duas companhias, existindo a possibilidade real de ainda irmos parar todos ao presídio de Elvas...

Por fim os dois relatam:

"Em 19 de Dezembro de 1974 a nossa companhia chegou, à socapa, a Figo Maduro, meteram-nos num hangar e ninguém pôde sair com uma única roupa militar. Tudo à civil. Nem a farda que tínhamos pago pudemos ficar com ela. Um soldado que não tinha roupa civil só se safou porque eu lhe dei uma leva de roupa minha... Tudo à civil à uma da manhã em Figo Maduro...A  comissão acabava em Maio e 1975.

O 21 de OUTUBRO de 1974, QUE VIVI EM LOURENÇO MARQUES
Texto de João afonso

1º cabo da 3ª Companhia do Batalhão Caçadores 4213

João Afonso junto

Após as minha férias na então Metrópole, regressei a Moçambique, tendo chegado salvo erro, à Beira, a 2 de Setembro de 1974. Rumei a Porto Amélia (PEMBA) nos TAM e fiquei a aguardar transporte para Diaca 
Apresentei-me no quartel  e um Sargento disse-me: a tua Companhia, a 3ª do BCAÇ 4213, está prestes a sair de Diaca com destino a Mocímboa da  Praia e daqui para Lourenço Marques.
Perguntei?: Como vou sair daqui?
O Sargento respondeu-me: Vais de coluna para Nampula e aí apanhas um avião para LM, se não, não te safas.
Foi o que fiz. Quando cheguei só se me viam os olhos e os dentes de tanta pó comer na picada.
Passados dois dias lá fui para LM, fazendo escala na  Beira, onde encontrei dois camaradas da minha companhia que me disseram que o pessoal já estava em LM.
Chegámos já bem de noite, e apanhámos um Táxi que nos levou para um hotel. Quando parou estávamos na Baixa, em frente ao Hotel Turismo. Espanto o nosso, mas não havia volta a dar. Aquilo era um luxo demais para nós,
Pela manhã do dia seguinte fui para onde a companhia estava aquartelada. No Hospital Psiquiátrico S. João de Deus em Marracuene, logo a seguir a Benfica na estrada para Vila Luísa.
Resolvi tirar a minha carta de condução em Malhangalene, na escola Transmontana, porque tinha tempo de sobra, Tudo correu, até porque ia sempre bem armado, sabendo dos problemas do 7 de Setembro., nesse gia fui desarmado
A 21 de Outubro lá fui para a escola, e por incrível que pareça nesse dia fui desarmado. Ia fardado com o camuflado. Não sabia o que estava a ocorrer na Baixa, junto aos Cafés Scala e Continental. 

Saí das aulas, acompanhado por um camarada, chegámos ao Alto Maé  e pedimos boleia a um carro Peugeot, preto, conduzido por um casal na casa dos cinquenta anos que iam para a Matola.
Começamos a descer a Avenida do Trabalho, e uns metros mais à frente, fiquei com o regaço repleto de vidros por pedradas lançadas à viatura. Parámos ao fundo da avenida junto à Polícia Montada. O carro e o casal seguiram um destino trágico. Nós seguimos a passo meio da estrada em direcção ao quartel da polícia, na ânsia de outra boleia, quando nos surge pela frente onze guerrilheiros da FRELIMO armados de Kalasnikov. Pus as mão à cintura, pensando que estava armado, e logo o meu camarada me segredou: está quieto, que eles não vêm por bem. Gritavam: é Comando...vai matar...é Comando...vai matar...vai morrer. Não estava a perceber o porquê daquelas curtas frases. Só falavam em dialecto Maconde. Quando chegaram junto de nós enterraram-nos os canos das Kalasnikov nas costas, e continuaram com as mesmas insinuações. Chegados junto à porta de armas da polícia, encostaram-nos à parede e gritaram: vai matar. Ainda os vi recuar uns passos e colocarem as patilhas em posição de fogo. Tudo se fez escuro e eram cerca das 17h3o. Senti uma dor profunda ao perceber que ia morrer sem glória. Nisto, oiço um grito em Maconde, mas nada via. quem era? Era o comissário político da FRELIMO de nome Pedro, que tinha estado connosco em Diaca em Julho de 1972, após termos enviado um machambeiro a uma base dos guerrilheiros, para lhes comunicar que estávamos dispostos  a parar os combates. E assim foi. Acordo de cavalheiros, após uma simulação de sequestro do capitão para o isentar de problemas com os oficiais superiores do QG em Nampula.
Nisto oiço um diálogo aceso entre os militares da FRELIMO, que acordaram prenderem-nos. E lá fomos com os canos das Kalashnikov "enterrados" nas costas. Chegámos a uma sala onde também havia polícias detidos. Recuperei a visão. Tive necessidades fisiologicas mas não consegui urinar com as armas apontadas.
No entretanto, constou-se na minha Companhia a 3ª do BCAÇ 4213 que tínhamos sido abatidos.O Capitão Milª Armando Moreira Rodrigues, comandante da companhia, perto das 02h da madrugada do dia seguinte, deslocou-se num Jipe acompanhado por um alferes e por um furriel. Não sei bem que tipo de diálogo se estabeleceu, a verdade é que cerca das 03h, abriu-se o portão e saímos em liberdade.
Meio confuso, salto para o Jipe com o meu camarada, e ouvi o capitão dizer: agora vamos ao hospital Miguel Bombarda para ver se há mais vítimas. confirmou-se. Voltámos ao local onde estávamos aquartelados, mas ao chegar ao Jardim deparámos-nos com cenas horríveis.

 

Um machimbombo a ardere algumas pessoas ardiam que nem archotes.. Saltámos do Jipe, dei uma volta e bem perto do zoo vi várias senhoras e crianças desnudadas e com fogo dentro das pernas. Todos mortos. Motas e carros a arder. Arrancámos, porque nada havia a fazer. Quando chegámos ao choupal, ardiam armazéns e uma serração. Seguimos para Benfica e, começámos a vasculhar as casas. Todas arrombadas, vidros partidos mas pessoas nada. Nunca soubemos o que foram feito delas. Numa das casas, ao abrirmos um guarda-vestidos, avistámos uma senhora de idade, aninhada e em estado de choque.
No percurso para para Benfica, tudo ardia. Nem viva alma. Tudo o que era raça branca tinha sido mortos.
Chegámos ao hospital e fomos descansar, mas dormir ´é que não, não conseguimos. O odor da carne humana queimada apoquentava-me e até hoje.
A partir daqui, andei sempre armado até aos dentes, até ao dia em que fui a exame de condução.
Saí-me bem e recebi a carta em casa, após ter regressado a 10 de Dezembro de 1974.
Soneto anticolonialista

AH Diogo! Ah Cão. em que de Zaire
pretendes colocar o teu padrão?
El-Rei morreu.as naus de clarear
são agora de um povo nosso irmão

Dispensámos as balas e os escravos
e mais para diante navegámos
Negreiros não. Dissemos sim aos cravos

Ah Diogo! Ah Cão! Que resultado
esperavas deste povo a ver morrer
o seu corpo na farda de um soldado?

Esta nau no futuro há-de vencer!
Mas há cães que só ladram o passado
porque o presente é duro de roer!

Joaquim Pessoa,  Amor Combate,  1977

Afinal, o que foi o 7 de Setembro

O 7 de Setembro e o 21 de Outubro em Lourenço Marques 1974 foram dois acontecimentos gravíssimos que inquinaram de forma profunda a descolonização daquela Província à beira Índico. Um tremendo terramoto em que nada ficou como dantes. Para além dos mortos e dos feridos que causara, bem como das significativas  depredações verificadas, o mais grave de tudo foi o avivar das questões raciais e respectivas consequências: a desconfiança da FRELIMO em relação ao processo da transferência  de soberania e a angústia e o medo da comunidade branca em relação ao seu futuro naquela terra.
Curiosamente, quse quatro décadas passadas ainda não se sabe exactamente o que foi o 7 de Setembro. Conhecem-se os factos e as consequências, mas exactamente o quê e quem esteve na sua origem.
Para simplificar, há duas teorias: terá sido um movimento espontâneo, não organizado, de tipo patrioteiro; ou terá sido uma antecipação pouco avisada e muito oportunista de uma sublevação preparada há meses, para estourar com poucos dias de diferença em Lourenço Marques e Luanda, terminando com esplendor em Lisboa a 28 de Setembro, tendo como cabeças de cartaz Spínola e Jorge Jardim e envolvendo forças militares nessas três cidades.
Ao longo deste trabalho analisei esta temática com vários interlocutores e encontrei algumas referências e versões em jornais e livros que abordam a descolonização. Dado que a questão não é meramente teórica e me parece relevante para tentar descobrir qual a mão que manobrou na sombra, passo a uma súmula do que ouvi e li.

Magalhães: "Só não sabia a data"

Começo por Fernando Magalhães, um jornalista muito especial que bem conheci em Moçambique, onde desempenhou importantes cargos na informação antes e depois da independência, tendo vindo mais tarde para Lisboa onde trabalhou vinte e tal anos na RTP, tendo falecido em Fevereiro de 2013.
Magalhães já anteriormente o referi, foi o autor de um trabalho televisivo indispensável para perceber o que foi a descolonização de Moçambique (Independência já! Uma história a a pretos e brancos). agora de viva voz, respondeu assim quando lhe perguntei o que havia sido realmente o 7 de Setembro:

"Bom, para mim foi uma reacção emotiva a dois factos: em primeiro lugar, o que se estava a passar simultaneamente no Estádio da Machava e em Lusaka; e também, talvez, à presença excessiva na Comunicação Social, com relevo para para o RCM, do que se passava nesses dois locais.
Contudo ao contrário do que muitos dizem, não foi uma reacção espontânea. Foi organizada, embora mal. Vinha a ser preparada há meses, com incompetência. Precipitou-se, ponto final"

Em que te baseias para fazer essa afirmação?

"Através de amigos, e por instruções da FRELIMO, consegui ser membro do partido CDM -- Convergência Democrática de Moçambique, que tinha ligações a Magalhães Mota, do PSD português. Era mais ou menos gente fina, como um tal Van Zeller ou o Armindo Monteiro, da Shell. Jorge Jardim andava muito perto do CDM. Quem me meteu lá foi um amigo meu, Álvaro Récio, um homem muito próximo de Jorge Jardim --e muito fiel."

Mas o que descobriste dentro do CDM?

"Havia um planeamento para um levantamento em Moçambique desde meados de Agosto, depois de muitos contactos, nomeadamente em Lisboa"

Quem eram os cabecilhas?

"Havia muita gente metida nisso. O António Chapalimaud, por exemplo. Tinha muitos interesses em Moçambique, desde o Banco Pinto Sotto Mayor até aos cimentos de Nacala. Teve muitas reuniões. Contratou o inspector Vaz  da PIDE em 1972, que entrou para a empresa de cimentos e ficou em LM como administrador. Também havia contratado outro PIDE, o inspector Carvalho, que apareceu na Convergência. Obviamemte o Arlindo Malosso e o Manuel Gomes dos Santos, que eram os principais nomes do FICO. O Velez Grilo? Também andava por lá, mas ao contrário do que se diz não era do FICO. O capitão Vasconcelos da OPVDC, esteve igualmente metido nessa embrulhada, como se viu"

E o Jorge Jardim?

"Na entrevista que lhe fiz disse-me pessoalmente --  embora não me autorizasse a divulgar -- que ia haver uma acção. Sem especificar, sem entrar em grandes pormenores. aconselhou-me a esperar para ver, pois as coisas não iam ficar assim. E depois do assalto ao RCM, o pessoal do FICO, com relevo para Matosso e o "locutor" Manuel chamaram-lhe traidor porque se pôs de fora... afirmaram na altura e continuaram a dizer depois, que o Jardim foi comprado, recuou e traiu. Aliás, depois do triste fim do 7 de Setembro, o que não faltou foram acusações entre os envolvidos. O Álvaro Récio, por exemplo, disse-me pessoalmente não perdoava que aquele "tipo inqualificável". o Manuel Gomes dos Santos, tivesse tido uma actuação tão precipitada e absurda"

E os Dragões da Morte, também estiveram metidos na organização do 7 de Setembro ou apenas apanharam boleia?

"Estavam metidos claro. Desde o início. Até fizeram sair dois comunicados, com muito bluff e com números absolutamente fantasiosos. Não passava de um pequeno grupo, quanto muito de dez ou quinze ex-Comandos, que tinha a vantagem de saber manejar armas e explosivos".

E com essa informação nas mãos que fizeste? escreveste alguma coisa?

"Não. Mas avisei o José Luís Cabaço, homem da FRELIMO e dos Democratas, e de quem eu era amigo. Antes de Lusaka disse-lhe que ia haver um levantamento que previa a ocupação do RCM e do aeroporto e que teria algum apoio de alguma tropa portuguesa em Moçambique. Mas ninguém ligou nenhuma aos meus avisos. Eu só não sabia que seri o 7 de  Setembro".

Fernando Magalhães sublinhou ainda que o levantamento branco, embora sem se saber a data exacta, era na prática um segredo de polichinelo -- e a "ignorância" da PSP só podia explicar-se por estar metida na moscambilha, desconhecendo-se apenas a que nível. Em contrapartida, garantiu-me que o Intendente Segurado, daquela organização policial, teve um papel relevante na coisa. E a propósito recordou:

 "Pois não se deve esquecer que o tal Carvalho da PIDE, um homem alto que até aparece nas fotografias, esteve no Governo-Geral no dia 9 de Setembro na reunião dos enviados de Spínola com os representantes do FICO e de outras organizações envolvidas no assalto ao RCM"

"Um dia, no jornal Tribuna , onde eu trabalhava, apareceu-me um jornalista sul-africano chamado Vanhorst, que vestia à afrikander, que me perguntava coisas ao mesmo tempo que me ia informando do que via em LM. Dizia-me que se estava a preparar qualquer coisa e perguntava-me o que é que eu sabia. Falava-se muito nos Cardias. O homem  dizia sempre que era jornalista mas era do Boss (serviços secretos sul-africanos)".

Cabaço: "Tentativa não espontânea"

José Luís Cabaço
Em Setembro de 2004, portanto trinta anos depois, José Luís Cabaço, um branco militante da FRELIMO desde 1967 e que integrou o Governo de Transição  e desempenhou elevados cargos no pós-independência, também se pronunciou sobre esta questão. Em declarações a Luís Andrade de Sá, delegado da Lusa em Lourenço Marques, foi taxativo:

"O 7 de Setembro foi uma tentativa organizada e não espontânea, tanto mais que cinco dias antes, os principais líderes da revolta reuniram-se no hotel Avenida para planear a operação"

Jorge Jardim na berlinda

Com a preocupação de tornar pública e justificar a sua posição no 7 de Setembro, Jorge Jardim dedicou um generoso espaço do seu livro Moçambique, Terra Queimada (1976) a esta temática..
Eis alguns esclarecedores excertos:

"(...)As acções terroristas selectivas preconizadas por alguns afiguravam-se-me condenáveis. De súbito, uma carrinha parou no semáforo que fica na esquina junto ao café Continental. Nela flutuava a bandeira frelimista mas, em ofensa inaceitável, arrastava no pavimento uma bandeira portuguesa já meio destroçada. Foi o rastilho da explosão.Surgira espontaneamente o Movimento Moçambique Livre (...) Só semanas depois vim a saber por pessoas identificadas e idóneas, que ao acto provocador de arrastar a bandeira nacional fora premeditado e pago para se obter a reacção que convinha desencadear (...) Gomes dos Santos assegurou-me dispor de sólidos apoios financeiros e entendia não poder aguardar mais tempo, continuando a confiar-se nas pessoas com quem eu mantinha ligação. Em seu parecer tinha chegado a altura de recorrer à força para fazer escutar a voz dos moçambicanos que corriam o sério risco de serem abandonados à sua sorte.
Diligenciei serená-lo, fazendo ver que métodos revolucionários, naquela altura, não conduziria a nada de positivo e só poderia provocar retaliações sobre a população indefesa, dando aos extremistas o pretexto desejado para arrastar a FRELIMO para uma política de endurecimento e intransigência.
(...)Em meu entender, no campo militar, uma revolta representaria loucura destinada ao insucesso. A retirada portuguesa dos pontos vitais concedia à FRELIMO uma dominância que se somava ao seu controlo, no mato, de amplas zonas do território. Ninguém apoiaria uma rebelião civil-militar (estigmatizada pela aparência de buscar o domínio pela minoria europeia) e estava certo que nem a República da África do Sul nem a Rodésia desejariam agravar os seus problemas, prestando qualquer apoio. Tentariam, mesmo para além dos limites previsíveis, enterder-se com o novo regime e tardariam muitos meses em reconhecerem o assalto que contra elas se preparava.
Sem apoio externo, sem compreensão portuguesa e sem auxílio de ninguém, era impossível manter uma confrontação com a FRELIMO mesmo que, na hipótese mais optimista, a rebelião tivesse êxito.
Ao mesmo tempo haveria que pensar-se na capacidade de retaliação das massas africanas, excitadas, contra os núcleos urbanos (todos rodeados por cinturas ameaçadoras) e contra os colonos dispersos pelo interior que seria inviável proteger.
As própria acções terroristas selectivas, preconizadas por alguns, afiguravam-se-me condenáveis. A capacidade de resposta era tremenda e havia  que meditar nas vítimas inocentes que tal provocaria.
(...)Estava iminente em Portugal uma reacção destinada a afastar as influências perniciosas do MFA, libertado o Chefe do Estado. Entendia-se que Moçambique deveria funcionar como detonador, lançando uma revolta civil-militar que forçasse Lisboa a tomar uma posição(...)"

Spínola estava metido no golpe

Ricardo Saavedra, cuja história e perfil, na conversa que tive com ele também falou, na sombra, esteve na origem do levantamento branco.
A certa altura disse-me:

"Quer então saber a minha opinião sobre o porquê do 7 de Setembro e que objectivos tinha. Olhe, a  resposta é simples, portugueses pretos brancos indignados com o que se estava a fazer sem ter havido um mínimo de consulta às pessoas. Ninguém tinha ouvido a população -- iam entregar Moçambique à FRELIMO, ponto. E isso não era aceitável. Queríamos chamar a atençãopara isso e tentar evitar a promulgação dos Acordos de Lusaka"

E à luz do que sabe hoje, passados quase 40 anos, como vê o 7 de Setembro? Está arrependido? --perguntei.


"Acho que quem participou no 7 de Setembro jamais o pode esquecer. Faz parte daqueles actos individuais e colectivos inesquecíveis. Vivemos três dias de liberdade total. Se pudesse viveria outra vez esses três dias"

Homem expressivo, entrou depois em diversos pormenores com interesse, que passo a resumir:


-- confessou que aquilo foi uma bagunça total, que não houve qualquer organização, que tinha sido um movimento espontâneo, que as promessas foram muitas mas nenhuma se concretizou, não apareceram as armas prometidas da África do Sul, nem qualquer apoio concreto da Rodésia e, pior do que isso tudo, os militares portugueses que também tinham prometido tomar posição não o fizeram;
--deixou uma palavra de louvor para a PSP, que esteve sempre ao lado dos ocupantes do RCM;
--criticou de forma desabrida os militares que estavam em Lourenço Marques, especialmente os seus comandos, defendendo a fantástica tese de que foram eles os principais responsáveis por a situação ter chegado onde chegou, uma vez que, não queriam entrar na revolta, o que tinham a fazer era dar meia dúzia de tiros para o ar e a população fugia logo do RCM e das antenas da Matola.
Quando lhe perguntei se o então Presidente da República, general Spínola, estava metido no 7 de Setembro, respondeu sem hesitações:

"Completamente. Estava metido, sim senhor. Incentivou fortemente a delegação do FICO que  foi ao Buçaco para que em Moçambique se avançasse para uma acção que desse brado e lhe permitisse intervir a partir de Lisboa, pois ele próprio não estava de acordo com a entrega de Moçambique à FRELIMO. Também confiámos nele. com os resultados que se viram. Nós cumprimos a nossa parte, mas até ele faltou à palavra dada"

Perante a pergunta concreta se o 7 de Setembro era para ser mais tarde e estava ligado ao projecto spínolista da chamada "Maioria Spínolista" programa da para 28 de Setembro em Lisboa, disse que tudo isso era verdade. E que a antecipação, brusca e não programada, deitara tudo a perder.
Sobre o "locutor" Manuel (a  quem nunca conheceu qualquer actividade política a não ser viver à sombra do salazarismo e do colonialismo), Saavedra foi taxativo:

"Manuel Gomes da Silva era um tipo sem credibilidade um oportunista. Pires de Carvalho, um conhecido engenheiro de Tete.

que esteve envolvido de corpo e alma no 7 de Setembro, apelidou-o mesmo de energúmeno. Mais: no dia 7 de Setembro, Gomes dos Santos mal chegou ao RCM - e não foi dos primeiros - apoderou-se do microfone e nunca mais o quis largar. Como tinha muita labia, ficou dias ao microfone, ganhando um destaque que não merecia e que antes nunca teve. Resumindo: o 7 de Setembro foi uma jogada oportunista de um homem sem crédito chamado Manuel Gomes dos Santos".

Mas vocês entraram alegremente na jogada -- interrompi

"Alegremente não direi. Sabíamos que aquela golpada nos punha em maus lençóis e eliminava o factor surpresa da acção que estava praticamente pronta. Mas o mal estava feito e, ao ver a fantástica reacção popular que se verificou, tentámos salvar o que, com cabeça tronco e membros, estava em andamento. Tarefa impossível, como receávamos e se confirmou - graças, insisto, à jogada oportunista de um homem sem crédito chamado Manuel Gomes dos Santo

O Engenheiro de Tete

Dias depois desta conversa, saavedra fez-me chegar meia dúzia de páginas fotocopiadas do livro Naufrágio, uma obra póstuma de António Martins Pires de Carvalho, onde há desenvolvidas referências às "Verdadeiras causas do 7 de Setembro em Moçambique".
Este testemunho,apaixonado e cego, vale o que costuma valer qualquer obra deste género, na linha dos já referidos livros de Saavedra e Clotilde Mesquitela.
Contudo,há aqui dados que revelam alguma coisa do que ia na cabeça desta gente e do que eventualmente estaria em preparação e o 7 de Setembro fizera abortar,


"(...)Nesse momento encontram-se os líderes, africanos e europeus antifrelimistas, espalhados por Moçambique e por países vizinhos, colmatando as últimas brechas e até já procurando e encontrando apoio político para a futura nação moçambicana.
Tudo corria bem e depressa quando rebentou o 7 de Setembro, que fez gorar por antecipação os nossos planos. No início ainda esperámos que aquilo não fosse mais que uma arruaça, mas ao sabermos das razões e do natural volume da reacção popular, ficámos com a certeza de que se tratava de uma revolta espontânea, irreversível, incontrolável e sem chefia, mais a mais um energúmeno conhecido como o locutor Manuel, dos microfones do Rádio Clube ocupado pelos manifestantes chamava, aberta e insistentemente, sem recurso a qualquer código, os nomes de cada um de nós. Após termos levantado Moçambique de lés-a -és, acorremos a Lourenço Marques, juntando-nos aos líderes que já lá se encontravam, com a mágoa profunda de sabermos que naquelas circunstâncias só um milagre nos poderia salvar"



O milagre, como normalmente acontece, não se verificou. Já não estávamos em 1917 e não havia azinheiras em Moçambique. Mas pela pena do engenheiro de Tete, que muito justamente chamou ao seu livro NAUFRÁGIO, ficámos ainda a saber que o assalto ao Palácio do Governo moçambicano, estava previsto para 22 de Setembro.



FIM