Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~

segunda-feira, 27 de abril de 2015

PEDRO SALAZAR,OFICIAL POR TRADIÇÃO FAMILIAR

Pedro Eduardo Alvares Salazar de Campos, nasceu em Lisboa a 19 de Maio de 1942. na Freguesia da Penha de França.

FORMAÇÃO:
Colégio S.João de Brito  de 1949/50 a 1959/60
Faculdade de Ciências de Lisboa-1º Ano de Engenharia Química Industrial
  Universidade Tecnica de Lisboa

SERVIÇO MILITAR:
EPI(Mafra) Curso de Oficiais Milicianos 4 de Maio/Outubro de 1965 CIOE(Lamego) 22 de Novembro a 23 Dezembro de 1965
RI 6 (Porto) Janeiro a Março de 1966
Santa Margarida (IAO) 28 de Abril de 1966-Batalhão de Caçadores 1891
30 de Abril de 1966-A bordo do Paquete "Pátria" rumo a Moçambique.


                                              
           No Distrito da Zambézia


A CCS do BCAÇ 1891,à qual o ALf.Salazar pertencia ficou estacionada no Alto Molócué,onde chegou a 26 de Maio de 1966 e permaneceu até 17 de Março de 1967.
Em visita a esta localidade,uma delegação do Movimento Nacional Feminino, chefiada pela sua Presidente D.Cilinha Supico Pinto e acompanhada pela sua secretária D.Renata Cunha e Costa,ao deparar com Pedro Salazar,e para espanto de todos,abraçou-o efusivamente e tratando-o por PEDRINHO,daí ele começar a ser chamado de Alferes Pedrinho. 


Na Zambézia o Pelotão de Reconhecimento,comandado por si,na sua Missão de patrulhamento da zona de acção da sua Companhia,percorreu por picadas,caminhos,trilhos ou mesmo a corta mato,povoação a povoação,para conhecer os seus chefes naturais e fazendeiros.Assim esteve além do ALTO MOLÓCUÉ,o Alferes Salazar e o seu Pelotão estiveram em:NAUELA,INAGO,ALTO LIGONHA,GILÉ,ILE-ERRÊGO,NAMARRÓI.
A 24 de Dezembro,em NAUELA o Pelotão preparava-se para passar e festejar a Ceia de Natal,a primeira entre todo o pessoal longe da família.O Furriel Cabrita foi ao Alto MOLÓCUÉ recolher a ceia que consistia numa posta de bacalhau,batatas e uma cerveja para cada militar.Ao ver isto o Chefe do Posto Administrativo,Sr. Costa,insurgiu-se dizendo que tinha enviado para o Quartel borregos,e leitões assados,bolos-rei e só vos mandam isto?O Salazar a tentar sanar o "Milando" lá dizia que estavam em Missão.A ceia foi bem passada visto que os familiares do Sr.Costa juntaram-se à tropa com mais e melhor comida.No final da ceia alguns militares deslocaram-se à Igreja da Missão de Nauela onde assistiram à Missa do Galo prestando as devidas honras militares.
                                                                                                                                                                .



No dia de Natal as autoridades Administrativas almoçaram com os Oficiais do Comando e o Chefe de Posto de Nauela,mostrou junto do Ten.Coronel Rodrigues da Matta a sua estranheza de tão pouca comida ter sido distribuída aos soldados em Missão em Nauela.ESTÃO EM MISSÃO! foi a resposta seca do Comandante.Quando regressou ao quartel,no fim da patrulha,o Salazar foi chamado ao Comando para "receber uma reprimenda".A ela, o Salazar respondeu: Quando embarquei fui nomeado Alferes,não o pedi.Com os meus Avós,Coronéis condecorados,aprendi que se deve defender sempre os mais desprotegidos,os soldados;além de que,no mato,é com eles que conto,e não com o senhor aqui sentado.
RETIRE-SE IMEDIATAMENTE PARA O SEU ALOJAMENTO.JÁ!...
Ao passar pela Sala de Operações o então Capitão Vaz Serra disse-me:Estás feito,podes até apanhar prisão.
Assim fez e nada aconteceu,mas o resultado foi:
Não ter sido autorizado a ir a Quelimane onde seu avô estivera como Administrador na execução do lançamento da linha do caminho-de-ferro até MOCUBA e, no início da construção do seu porto de mar.
Não ser autorizado a ir a NAMPULA visitar o 2º Comandante da Região Militar Norte,o Brigadeiro Inácio de Barros Teixeira da Mota,amigo de sempre de seu pai.

                                             
             No Distrito do  NIASSA 

A 17 de Março de 1967,o BCAÇ1891,deslocou-se para o NIASSA,onde chegou no dia 21,tendo a CCS,à qual o Pelotão do Pedro Salazar pertencia,ficado estacionado em METANGULA.
Apesar de não ser essa a sua especialidade o Cmdt.resolveu atribuir-lhe a função de fazer escoltas.

CCS em Metangula; 1558 Nova Coimbra que fica bem próximo deMessumba
1559 no Cóbué e 1560 em Maniamba
A sua primeira coluna iniciou-se a 26 de Março,acompanhado pelo Alferes Luís Andrade Âmbar, Oficial do quadro permanente,o qual nos levou  a NOVA COIMBRA-MANIAMBA-BANDECE-CANTINA DIAS-VILA CABRAL-LIONE-MASSANGULO e CATUR onde chegaram dois dias depois sem qualquer acidente.No regresso,tudo bem até MANIAMBA,aonde o Alferes Âmbar ficou,juntando-se à CCAÇ 1560.No dia 6 de Abril,depois da saída de Maniamba,a cerca de 13 Kms de NOVA COIMBRA,numa descida para atravessar uma ponte sobre um rio,as viaturas estancaram repentinamente porque a ponte fora destruída pelo inimigo.Comunicou o facto a Metangula,seriam cerca das 14h30.Mas não podiam ficar estáticos,pois ainda faltavam algumas horas para o anoitecer.Tentaram improvisar uma passagem,
pois o rio não era largo nem profundo e havia por ali muitas pranchas de madeira da primitiva ponte.


Ponte destruída pela Frelimo.
Foi aqui que o Filipe o "18", está com a picareta na mão
e um Fuzileiro foram gravemente feridos
Iniciaram os trabalhos com o auxílio dos guinchos das Berliets ...algo tinham conseguido,quando foram surpreendidos por um estrondo e gritos:dois homens estavam feridos,sendo eles,o "18" o Filipe e um Fuzileiro,que ao saltarem para um pedra junto à ponte,para irem buscar água ao rio,accionaram uma armadilha.De imediato o Salazar pediu apoio pois o Filipe estava gravemente ferido e suplicava-me:não me deixe morrer sem antes ver a minha filha que nasceu há poucos dias.!!! de facto ambos tinham ainda no Alto Molócué abordado o nascimento da sua filha.
Cerca das 17horas,enviei uma mensagem ao Comando a anunciar a existência de dois feridos graves,que precisavam de apoio médico urgente.Em código,recebi ordem para preparar os feridos para passar a noite na picada.Mas,como?...se:Não dispúnhamos de qualquer meio de substência.
O Filipe continuava a perder muito sangue apesar do"garrote"
O Fuzileiro,também estava a perder sangue,sem o podermos controlar.
Via Rádio,creio que um CHP-1,transmiti em linguagem determinada:
Se querem que fique com os feridos aqui na picada preciso:um enfermeiro qualificado,sangue,soro,pensos,ligaduras,etc...
CALE-SE IMEDIATAMENTE!...a que se seguiu o corte da comunicação.
Reforçámos a segurança.Colocámos os dois feridos sobre colchões de ar,debaixo das viaturas,tapando-os com todas os agasalhos que tínhamos(temía a hiportemia,principalmente no caso do Filipe que perdia sangue sempre que se mexia).Tentava eu acalmá-los,dizendo:Calma,já aí vem o socorro!Aguardem com calma!O tempo passava...passava,talvez duas
 a três horas(o tempo parecia imenso)sentíamos algo a aproximar.Ouvia-se o barulho dum motor...Era o Alferes Sancho da CCAÇ 1558 de Nova Coimbra.Trazia consigo o Furriel Enfermeiro Vasco Pesado e,algum material de assistência,mas também ordens do Comando:O FURRIEL ENFERMEIRO FICA A CUIDAR DOS FERIDOS.SERÃO EVACUADOS AMANHÃ!!!o meu grupo tem de regressar a Nova Coimbra.Ordens do Comandante do Batalhão.Passei-me.Sinceramente,perdi de todo a cabeça.NÃO,NÃO PODIA SER!!!Com uma bala na câmara da G3,como mais velho,ordenei ao Alferes Sancho:Daqui ninguém sai.Ficam aqui connosco a ver os homens feridos a morrer.Cuidadosamente,sobre os colchões de ar,colocámos os dois feridos na viatura que tinham trazido e,sob a vigilância do Furriel Enfermeiro da CCaç 1558, Vasco Pesado,regressaram a NOVA COIMBRA.No dia seguinte e ao fim de longas horas,e passadas todas as viaturas ,chegámos a METANGULA ao cair da noite.Foi-me então dito: O Comandante está lixado contigo!!!Deixa lá,logo veremos...


Acaba de rebentar mais uma mina. O Pelotão de Reconhecimento
da CCS do BCaç 1891 foi sua vítima
Na passagem por NOVA COIMBRA vim a saber que dada a gravidade do estado do Filipe,este e o Fuzileiro foram transportados para Metangula,onde receberam a primeira assistência médica.Durante a noite e com a pista iluminada,com latas de cerveja com mechas de gasolina,foram transportados para VILA CABRAL,onde de imediato o Filipe ("18") foi operado e de imediato evacuado para a Metrópole,após breve passagem pelo Hospital Militar de Nampula.Apesar de o ter recomendado às amigas do Movimento Nacional Feminino,nunca mais soube dele.Em 1978 durante um almoço convívio do BCAÇ1891 em Lisboa e na concentração no Parque Eduardo VII,uma jovem abordou-me,pendurando-se no seu pescoço e,ao dar-lhe um beijo,disse:OBRIGADO POR TER SALVO O MEU PAI!.Surpreso e confuso e reparou no seu amigo Filipe o "18".As lágrimas rolaram pela sua cara.É sempre o mesmo,disse-me o Filipe,após um forte abraço

Durante a sua estadia no NIASSA,o Pedro Salazar,com o seu Pelotão de Reconhecimento esteve com colunas de reabastecimentos práticamente todo o norte do Niassa,com evidencia Maniamba,Nova Coimbra,Lunho,Miandica e Metangula, locais onde estavam instalados as Companhias do BCAÇ 1891.Além das colunas participou activamente em várias operações de combate com a CCAÇ 1560,para onde foi destacado em Agosto de 1967. Paricipou com o seu Pelotão, entre muitas outras na Operação "ALFERES AMBAR"à base da Frelimo "LICONHIRE" 14 de Setembro de 1967 (CLIK AQUI),e participou na Operação "CARAVANA I" no dia 22 de Setembro de 1967 (CLIK AQUI) e participou no dia 8 de Outubro de 1967 (CLIK AQUI) na operação "CARAVANAII" na zona de Miandica, no ataque à Base Central de Mepoche da Frelimo.

RETORNO À ZAMBÉZIA
SERRA NAMÚLI, AO FUNDO UMA PLANTAÇÃO DE CHÁ.
As plantações de chá estendiam-se de NAUELA até LIOMA


A 15 de Fevereiro de 1967,integrado no 1º Escalão do Batalhão,regressou à Zambézia,onde após escala em MUTUÁLI,chegou ao GURUÉ a 17 do mesmo mês.Esta cidade,também chamada de VILA JUNQUEIRA,em homenagem a José Junqueiro que foi um dos grandes impulsionadores do cultivo do chá nesta localidade.A sua permanência no GURUÉ pode dividir-se em duas partes.A primeira,além de acompanhar o 2ºCmdtº Major Viana nos contactos com as populações e as Fábricas de chá,dormia e fazia as refeições na Messe dos Oficiais.Na segunda fase,após a chegada do Comando a 19 de Março,só dormia no quartel e fazia as refeições no Restaurante Dominó.Aproveitou o seu retorno à sua bem querida Zambézia para revisitar os amigos feitos na sua anterior passagem por aquelas terras.Assim visitou NAUELA onde reencontrou o Almerindo Ferreira,o seu amigo-irmão Mião Gonçalves,que de imediato prepararam em sua honra uma "carilada" muito saborosa.No ALTO MOLÓCUÉ foi petiscar ao Duro e no "Manel" saboreou umas fresquinhas Lurentinas,foi a NAMARRÓI e no LIOMA esteve destacado com o seu Pelotão.No GURUÉ em patrulha,esteve na SERRA NAMÚLI,dominada pelo Pico do mesmo nome,que com os seus 2780 Metros é o ponto mais alto de Moçambique.O seu excelente relacionamento com as Altas Individualidades da Região,foi aproveitado pelo Ten.Cor.Rodrigues da Matta,Cmdt do BCAÇ1891,que fez de Pedro Salazar o seu relações públicas de modo a ter contactos e acesso àquelas individualidades.

REGRESSO

No "VERA CRUZ"
Pedro Salazar,Fernando Oliveira e Gustavo Monteiro

Até que finalmente chegou o dia 11 de Agosto de 1968.saímos do Gurué para o Mutuáli,onde apanhámos o comboio para Nacala com paragem em Nampula.A 13 do mesmo mes embarcámos no "Vera Cruz",que foi até Mocimboa da Praia,para desembarque e embarque de tropas.Regressámos a Nacala para novo embarque de tropas.Passámos por Lourenço Marques no dia 20.Ao dobrar o Cabo da Boa Esperança fomos confrontados com uma violenta tempestade.Depois duma breve paragem em Luanda,chegarámos finalmente a Lisboa a 4 de Setembro. No cais da Rocha Conde de Óbidos,o Alferes Pedro Salazar,tinha à sua espera todos os seus familiares com destaque para seu irmão com a farda de Oficial de Marinha.

Texto e fotos extraído do livro"Memórias de África" de Pedro Salazar

3 comentários:

edumanes disse...

Depois de ter lido com muita atenção, este bem explicativo texto.
Cujo seu autor, que deveria ser bastante conhecedor das dificuldades vividas naquela época pelos militares no terreno.
Como oficial por tradição militar. Me parece ter sido um militar com boa formação.
Quanto ao rebentamento de mina ou granada, que aconteceu na estrada Maniamba-Nova Coimbra, certamente, tinha o carimbo do Padre Anglicano, que estava naquela missão próximo da estrada Nova Coimbra-Metangula.
No meu tempo esse padre tinha uma carrinha peugeot cinzenta, e constava-se que dava guarida aos guerrilheiros da "Frelimo",
Naquela estrada havia um entroncamento, entre Maniamba-Metangula e Novo Coimbra. Certo dia esse padre seguia à frente de uma nossa coluna militar, tendo no dito entroncamento passado sem que tivesse pisado a mina que rebentou na viatura que seguia em segundo lugar. Nessa altura constou-se que teve as armas dos fuzileiros apontadas à cabeça, mas como se tratava de um estrangeiro, cujas relações com a Inglaterra poderiam ter consequências muito graves alguém os aconselhou a não o matarem.

Desejos de uma boa noite,
Eduardo.

alsameiro disse...

ENCONTREI O PEDRO NUMA PONTE NO NORTE DE ALTO MOLOCUÉ.FUI COM ELE PARA MOÇAMBIQUE A BORDO DO PÁTRIA.FEJO DE VEZ ENQUANDO O OLIVEIRA.ENCONTRAVA O PEDRO DE VEZ ENQUANDO NA AV.GUERRA JUNQUEIRO.
ANTÓNIO LUIZ SAMEIRO
C.CAÇ.1574

Mcomando disse...

Nesta ânsia de encontrar a minha madrinha de guerra - 1963-1965 - estou a recorrer a este blogue.
Essa senhora, que pertencia ao Movimento Nacional Feminino, sendo uma das principais colaboradoras da Cilinha e Renata Cunha e Costa, não a consigo encontrar nem sei se ainda é viva.
Pertenci ao Grupo de Comandos "Os Gatos", do BART 400, fomos escolta da Cilinha e Renata, no sector do Ambrizete, quando a Cilinha partiu um pé.^
Tenho fotos originais que documentam esta visita e que lhe posso enviar.
Ajude-me a encontrar Maria de Lourdes Castello-Branco, através da D. Renata ou alguém das duas relações.
É importante, neste meu fim de vida, que pretendo escrever um livro, ter acesso às cartas enviadas à Madrinha de Guerra.
Obrigado