Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~
R. T. P 3....R.T.P 2....R.T.P.MEMÓRIA....SPORT TV

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Moçambique os Padres da Minha Vida

João Maria Neves Pinto

Fotos de :  Francisco Dores   :C.CAÇ.3554...






Na época Colonial,o Posto Administrativo do Mongué,pertencia à 


Circunscrição de Milange no Distrito da Zambézia em 

Moçambique. a Secretaria,as casas do administrador,do 

Adjunto,Chefe da Polícia,do Secretário e dos Cipaios estavam 

situados no topo de um monte.No sopé desse monte ficava o 

aquartelamento do Exército Português que era comandado por 

um Alferes e um destacamento dos GE.Já planície duas únicas 

lojas de comerciantes.

A prisão no Mongoé
  O meu trabalho prioritário continuava a ser a implantação de 


aldeamentos, por toda a área do Posto, o que fui fazendo pelo 


perı́odo aproximadamente  dois anos,o tempo que permaneci no Mongué.


Há um ano que seguia o conselho do Padre Luís,na minha 


procura de Deus,e durante os dois anos em que permaneci no 


Posto do Mongué,lia todos os dias um pequeno trecho da Bíblia. 


O Mongué, com o seu isolamento, as serras, a sua floresta densa, 


o trabalho intenso, proporcionavam o clima perfeito para um 


retiro Espiritual. E veio o 25 de Abril e a revolução em 

Portugal.Tudo continuava na mesma na área do meu Posto.A 

Frelimo tinha procurado entrar na Zambézia, (Distrito com 


uma área superior a Portugal), há muitos anos atras, 


exactamente no Posto Administrativo do Mongué. Foram 


prontamente combatidos e sem o apoio das populações tiveram 


que retirar.A Zambézia sempre viveu em Paz.Os meses 


passaram-se  e um encontro entre Portugal e a Frelimo em 



Lusaca, tinha data marcada.

Todos nós estávamos conscientes, que tempos de mudança estavam aguardados para breve


e. 


  Nessa altura constatei que algo de anormal estava a acontecer no Posto. Num mês, a cobrança de 



impostos, que eram entregues na secretaria pelos chefes tribais, tiveram uma quebra acentuada. 


Não foi preciso que alguém me tivesse dito, para me aperceber que algo de grave se estava a 

passar.

A confirmação veio em breve.



Há trinta dias que um grupo de guerrilheiros se tinha 


infiltrado no Mongué.


  A reunião em Lusaca estava próxima e via rádio,o 


Governador da Zambézia,ordenou a retirada de todas as 


forças militares e militarizadas do Posto e a sua concentração 


em Milange dentro do quartel de onde estavam proibidos de sair.


Pedi ao Governador,para ser evacuado para Milange,o que me 


foi negado,e a resposta foi 


como representante do Estado Português tem que permanecer 


no Posto" acompanhado de 5 Cipaios armados de espingarda Mauser.


Um Estado que não garanta a segurança dos seus cidadãos, 


não tem razão de ser. Não seria mais representante desse 


Estado.Assim,nesse dia tomei a decisão de me demitir do 


Quadro 

 Administrativo e levar a minha mulher e meus filhos para a 


segurança da casa dos meus pais em Mocuba.


Em Mocuba o quartel do Exército Português. Foto de 2006
Após isso, procedi à evacuação das forças militarizadas 


africanas que guarneciam a  fronteira, como me ordenaram.   



 Num dia percorri todos esses postos, ordenando o seu 


desmantelamento e avisando que no dia seguinte, os camiões 


da Administração os iriam recolher.


No dia seguinte, ao dirigir-me para o primeiro posto a ser evacuado, passei por cima de um 

grande buraco, só conseguindo parar o Land Rover muito à frente.


Saı́ do carro com os dois cipaios e fui ver









 o que tinha acontecido. Vi então um guerrilheiro da







Frelimo



Presumo que a mina que ia colocar rebentou nas suas mãos



Entretanto os acontecimentos precipitaram-se. Antevi 


um banho de sangue no meu Posto.Com o meu Land 


Rover,percorri toda a área,contactando as autoridades 


tribais com duas directivas: A primeira que não viessem 

mais à Secretaria do Posto,até que a situação estivesse 


clarificada;a segunda que,se fossem contactados pelos


guerrilheiros da Frelimo,obedecessem às suas


ordens.Em casa dos meus pais,soube da progressão de 


guerrilheiros na estrada Milange para Mocuba.Os 


relatos de escaramuça com alguns mortos em 


Milange,deixavam a população desta Cidade muito 


apreensiva.Não fazia sentido o derramamento de 


sangue inútil, quando Portugal tinha já decidido a 


entrega de Moçambique à Frelimo. Era preciso agir 


antes que os problemas aparecessem.Fui ter com o 


Administrador de Concelho e com a Missão dos 


Franciscanos. A Igreja Católica era a única entidade 


respeitada, pêlos guerrilheiros. Assim, pedi que um 


Padre da Missão ,fosse de carro ao encontro dos 


guerrilheiros e que os convidasse a entrar em Paz na 



Cidade.O escolhido foi o Padre Bernardo Filipe Governo 



actual Bispo de Quelimane. Assim se deu a entrada da 



Frelimo em Mocuba de forma ordeira e pacífica. 

Os últimos soldados Portugueses no Mongué ,pertenciam à C. CAÇ 3554

Um dia,militares da Frelimo,bateram-me à porta.Abri,e 




logo disseram que queriam falar com o antigo  



Administrador do Posto do Mongué.Disse-lhes que era 



eu e acompanhei-os até ao quartel.



Disse mal da minha vida e levaram-me para a casa onde 



estavam instalados.Mandaram-me entrar para uma sala 


onde se encontrava o Comandante Bonifácio Gruveta.


  O meu ritmo cardı́aco nesse momento,atingiu o 



máximo permitido a um a um ser humano.




Com que então é você o Administrador de Posto do 



Mongué -exclamou.Olhe tinha muita curiosidade em o 



conhecer e sem me deixar falar,continuou: No Modué 



estive muito perto de si.




Tentei atacá-lo várias vezes e nunca consegui...



Da primeira vez caminhámos o dia inteiro, desde nossa 



base até ao Posto. Quando chegámos, o sol já se tinha 


posto, calculámos mal a distância e tivemos que 



regressar. 



  A segunda vez já calculámos o tempo bem.Frente ao Posto, 



posicionamo-nos para o ataque, o morteiro foi posto em  



posição e qual o nosso espanto, o soldado  encarregado 



doprato do morteiro, tinha-se esquecido dele. E tivemos 



que voltar novamente para a base. A terceira vez, mandei 



um nosso soldado montar-lhe uma mina na estrada, à 



saı́da do Posto, e não sei como, ela  explodiu-lhe em cima. 


Era um soldado experiente e tinha montado na Provı́ncia 


de Cabo Delgado, dezenas dessas minas. Quero agradecer-



lhe tê-lo mandado enterrar. Mas eu queria era saber, o que 



é que tem consigo, para que nada lhe faça mal? - 


Perguntou finalmente.


Uma avalanche de pensamentos e de sentimentos tinha passado pelo meu espı́rito, desde a 

saı́da de casa, até aquela altura. Não estava preparado para o que acabava de ouvir.

E, naquele exacto momento, tinha tido a resposta clara de Deus, prometida pelo Bispo D. 

Luis

 Vês como Eu Existo


 Por uma Graça de Deus, o último tijolo da minha Fé, estava 

colocado, no seu sı́tio. E estava devedor de uma segunda vida, 

neste mundo, que me fora delicadamente concedida, bem 


como à minha famı́lia.Estava atónito,aturdido, e não 


consegui sequer dizer ao Comandante Bonifácio Gruveta, 


uma resposta. Que tinha apreciado as minhas últimas 


directrizes aos chefes tribais, no Monguè, e acabou por me 


convidar para ser o futuro Administrador de Quelimane.


 Por outro lado, eu não concordava de forma alguma, com a 

forma como Portugal estava conduzir a transição de Moçambique para a independência.



Entregar a um Partido só, o governo de um paı́s,ignorando 


tudo o mais, só poderia gerar mal 



estar e revolta futuros. Não estava em questão o Partido 


Frelimo, mas sim que tudo deve ser feito, como deve ser. Os 


ingleses tiveram tantos ou mais problemas de guerrilha, 


nas suas Colónias circundantes de Moçambique, mas 


souberam sempre criar eleições nesses paı́ses. Moçambique, 


mas souberam sempre criar eleições nesses paı́ses.



 Despedimo-nos cordialmente. Fiquei com uma boa 


impressão deste homem.Entrei de seguida para a gerência 


da Borôr Comercial em Quelimane, iniciando um outro ciclo 


da minha vida!....