Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

COMO FUI PARAR AO BCAÇ 1891









Corria o ano de 1966 e já não podia pedir mais adiamentos na incorporação militar. Foi assim que em Setembro desse ano fui convocado para me apresentar na recruta em Mafra.As condições não eram as melhores e o tempo Outonal a tender para Inverno nõ ajudava muito.Os sacrifícios sucediam-se e o desejo de superar as dificuldades era grande.Havia um grupo muito heterogéneo que nunca se tinha encontrado, porém com algum espírito de entreajuda o que, de alguma forma, amenizava o ambiente que por vezes nos intimidava. Por outro lado,a capacidade atlética era muito nivelada e isso dava ao pelotão um ar de conforto e ao memo tempo,boa resposta às solicitações do instrutor
Ele orgulhava-se dos rapazes que comandava.
A especialidade foi mais conseguida e as dificuldades vencidas semana após semana, com o frio sempre a acompanhar s várias actividades ao ar livre.Em pouco tempo estávamos colocados nos diversos aquartelamentos espalhados pelo país.
Coube-me a sorte o RI3 em Beja,onde fui encontrar antigos colegas do Liceu de Faro.Agora tinha pela frente um grupo de 30 jovens,oriundos da zona sul de Portugal,a maioria deles imberbes e loiros e, até com algumas manifestações de nervosismo.Em geral,todos faziam por cumprir as recomendações que lhes eram dadas.
A recruta decorria com normalidade mas teve que ser interrompida,por minha parte,em virtude de eu ter sido chamado a ocupar um lugar na secção de justiça.Na verdade,quando fui chamado a cumprir o Serviço Militar,eu já fazia parte dos quadros do Ministério da Justiça e estava colocado no 4ºJuízo Cível da Comarca de Lisboa,depois de ter passado pela Instrução Preparatória da Comarca de Almada.Mas, a passagem pela Justiça no RI3 foi apenas de dois meses,findos os quais chegou a ordem de mobilização para Moçambique,em rendição individual.
O embarque efectuou-se no cais de Alcantara,a 17 de Julho de 1967 e aconteceu no Paquete "ANGOLA"que efectuava a sua 100ª viagem para aquele continente.Portanto foi uma viagm agradável,festiva...mas com algumas emoções e pensamentos de quem caminha para o desconhecido.Mais de 20 dias volvidos,estávamos a atracar na então Lourenço Marques.Tudo era novo,tudo era diferente,desde as pessoas que se vestiam com roupas tropicais até a comida que tinha sabor e aspecto diversificados,e o transito ao circular pela esquerda fazia confusão aos recém-chegados.
Fui apresentar-me no serviços competentes e saber qual o meu destino.Foi-me dito que havia sido colocado na CCAÇ 1559,sediada no Cóbué ao que perguntei onde se situava e logo me disseram que era algures no Norte,perto do Lago Niassa,mas nem sabiam ao certo a localização.pensei para comigo que a organização deixava um pouco a desejar.Mas com o bilhete de avião em meu poder,percebi que chegaria a Vila Cabral no dia seguinte.E assim aconteceu.Quando cheguei ao aeroporto alguém me esperava no jeep.Aí pensei que não tinha sido abandonado à minha sorte.Mas já não tive a mesma opinião quando me indicaram para dormir na casa dos "passantes" onde não havia portas e tudo era bem arejado.No dia seguinte,fui acompanhado por tropa dos "Comandos"até Meponda onde conheci a Companhia que lá estava sediada,o então Capitão Tomé,na altura muito ocupado com as novas lanchas da Marinha que haviam chegado por terra e estavam a ser preparadas para ntrarem no Lago.Passados dois ou três dias disseram-me que iria seguir de lancha para Metangula a fim de embarcar numa outra,para o destino final,caso o tempo no Lago o permitisse.
Tudo se conjugou para que a viagem se realizasse com normalidade e que ao cabo de mais umas horas a chegada ao Cóbué fosse uma realidade.
Tive uma recepção cordial e achei que todos os que me esperavam tinham um ar tranquilo embora repleto de saudades.Uma nota de apreço pela atitude descontraída com que o Capitão Veiga me deu as boas-vindas.Aos poucos fui-me apercebendo das dificuldades de logística,alojamentoe serviços de apoio.Fiquei também a saber a razão da minha ida para substituir o Alferes Cartaxo que tinha falecido em circuntancias muito estranhas.
Após um mês de integração tornou-se necessário avançar com o pelotão para reforçar a CCAÇ 1558 com sede em Nova Coimbra,onde passei alguns meses até à deslocação para a Zambézia,mais propriamente para o Molumbo.a Comissão estava terminada para o Batalhão que se preparava para o regresso.
As minhas férias foram programadas para Julho/Agosto de 1968 em Lisboa e aconteceram quando o Batalhão já se dirigia para Nacala.Quando regressei de férias,o "Vera Cruz"estava perto de Lisboa.Fui integrado nos serviços Administrativos do Hospital Militar de Nampula até final da minha Comissão de Serviço.Aqui,como alojamento foi-me oferecido uma residência onde habitavammais uns cinco camaradas de diferentes serviços e que era conheida pelo nome de "vala comum".A alimentação estava incluída e ers fornecida na Messe de Oficiais.a hora de almoço era a mais movimentada porque era mais económica,mesmo àqueles que tinham a companhia de familiares.Um dia, a uns 50 metros da entrada da messe,fazia-me acompanhar por um camarada que também os serviços do hospital e que,por acaso,levava a boina na mão.Nessa altura fomos abordados por um Coronel que também se deslocava para a messe.O Coronel perguntou ao meu companheiro se não sabia que a boina era para usar na cabeça?Ao que o camarada respondeu que sabia sim senhor mas que ía distraído.O Coronel aconselhou-o a ficar mais atento ao R.D.M.Posteriormente ficámos a saber que se tratava do Vice-Presidente do Tribunal Militar de Nampula.Mas,o meu companheiro ficou algo "incomodado" com a situação e achoi que ía tratar do "assunto"por outros meios.Passados dias esperou que o Coronel etrasse na Messe,pendurasse a boina no local onde a maíoria o fazia e,sorrateiramente,desviou a boina do Coronel para parte incerta o que provocou a maior ira de tão iminente personalidade.Alguns dias mais tarde ,continuávamos a seguir discretamente as entradas na messe,do senhor Coronel que,invariávelmente,retirava a boina da cabeça,fazia um rolinho da mesma e colocava-a no bolso das calças.O Coronel desistiu de fazêr mais abordagens.....




Dálio Calado


Alferes Milº da CCAÇ 1559

sábado, 2 de janeiro de 2010

O INIMIGO ESCONDIDO

Naquele dia 28 de Fevereiro de 1967, a manhã havia despontado igual a tantas
outras. Havia sempre a esperança, renovada em cada dia, de que as folhas do
calendário fossem passando, e a hora de regressar, ainda tão longínqua,
acabasse por surgir no meio da alegria colectiva, depois do amargo sabor das
inesgotável horas de sofrimento.
Partiram os três Unimogs gasolina, a prontidão era total e a disponibilidade
absoluta. Havia algumas pontes a vistoriar, construções frágeis que uniam as
margens estreitas do Lualece. Este escorria com violência, semelhante a
tantos outros rios do norte da Província. Era de algum modo a estreia no mato
para mim, saído da Academia Militar ainda há menos de um ano. O brio
desanuviava qualquer sentimento de ameaça, e o colectivo do grupo fazia
desaparecer todo o receio. Nem sequer nos lembrávamos do capitão, em
tratamento em Nampula, a sua presença tornava-se desnecessária.
A picada desenhava-se sinuosa na sua terra vermelha barrenta, ameaçadora
nas suas bermas amolecidas pelas chuvadas recentes, emoldurada pelo capim
alto que ocultava muitos receios e demasiadas sombras. As três viaturas
subiam, quase e cima umas das outras, numa marcha penosa e carregada de
monotonia. Eu viajava na do meio, e olhava alternadamente para a da frente e
para a da retaguarda, tentando ligar à vista aquele grupo tripartido,
demasiado unido para que se pudesse facilmente separar.
Íamos numa proximidade perfeita, e parecia que apenas uma viatura
circulasse naquele ermo povoado de expectativas, em que os olhares não
descortinavam o horizonte, centrados na proximidade do itinerário. E foi
então que o inesperado aconteceu. O silêncio transformou-se num trovão
atroz, a primeira viatura subiu no ar como boneco inofensivo, os seus
ocupantes foram cuspidos para as bermas, uma nuvem de cinzas encheu todo
o espaço visível e o característico cheiro a gasolina e explosivo queimados
preencheu as narinas e os pulmões. De nada valeu a recusa ou o protesto, a
fuga não era possível, estávamos ali irmanados numa desgraça de contornos
ainda desconhecidos. Pouco importava sonhar quando o realismo dos factos se
impunha como uma penedia no trajecto dum viajante.
Chegou então a primeira notícia: o soldado ao lado do condutor, que viajava

sem capacete na cabeça, situação que apesar dos contínuos avisos
frequentemente se repetia, tinha sofrido o violento impacto do dínamo da
viatura na cabeça. Era uma situação demasiado crítica e imensamente
urgente. Olhei à volta, os soldados espalhavam-se pelo chão, alguns choravam,
o desespero tornara-se presente, a desorganização completa. Num só instante,
uma tarefa simples, planeada,
corrente, fora transformada em tragédia. A
fragilidade era enorme, a impotência ocupava
as mentes, os pensamentos voavam sem nexo..
Eu próprio senti os limites tornados presentes
pela novidade duma realidade nunca
experimentada. Senti que era urgente actuar,
mandei fazer inversão da viatura à retaguarda, o rádio estava destruído,
peguei ao colo o malogrado camarada e seguimos, pressupostos, a caminho de
Maniamba. O carro transportava apenas três ou quatro soldados, lutávamos
contra o tempo, alimentávamos alguma pouca esperança, sofríamos sem a
consciência dos factos ... .
Não posso agora narrar, por mim mesmo, o que se passou. A viatura rebentou
nova mina, que tinha ficado para trás, pisada mas não accionada pelas várias
viaturas. Eu e o soldado ferido fomos cuspidos longe, aqueles que ficaram
agarrados á viatura sofreram queimaduras horríveis, e as chamas espalharamse
pela mata e incendiaram o capim. Chegámos por fim á Companhia, que
ouvira os rebentamentos como trovões, e fomos evacuados para o Hospital de
Vila Cabral. Alguns nomes ficaram escritos nas recordações amargas da
Companhia e na história do Batalhão: Simões, Fernandes e Morais.
Hoje, ao recordar factos tão longínquos, não posso deixar de experimentar o
respeito profundo pelo sacrifício dos camaradas aqui recordados, na sua
efémera passagem pelo norte de Moçambique, sucumbidos em terra estranha
e em mata adversa, sem poderem voltar alguns momentos antes a dizer adeus
aos seus, que os aguardavam, contando as horas e sorvendo a saudade.
Porquê eles e não outros, porquê naquela situação, para quê levar a cabo
aquela tarefa provavelmente tão desnecessária e tão inoportuna ? Tudo ficou

por responder mas, á medida que os anos passam ( e são já mais de quarenta)
a saudade vai caminhando acompanhada de interrogações, e as vidas jovens
ceifadas de forma tão brutal clamam certamente por uma vida não
preenchida, por tantos sonhos não acharam espaço e tempo para se revelar.
As guerras, mais uma vez, deverão deixar de preencher o acervo histórico da
humanidade, e nunca mais deverão marcar a condição humana como algo de
absolutamente inevitável, nem constituir um caminho para garantir a paz.
As viaturas retorcidas e irreconhecíveis destas
poucas fotos são como uma agressão imerecida,
como forma de punição por crimes que nunca
foram cometidos...
O "inimigo escondido" permanece, desde há
muitas décadas, dissimulado na perfídia e na maldade, e a sua presença está
essencialmente presente na opressão que vitima os inocentes, aqueles que
marcham empolgados por gritos de epopeia em nome duma Pátria que
frequentemente os desconhece.
Nos plainos de Vila Cabral, em nome dum patriotismo hoje esgotado, as três
vidas ali imoladas apenas podem ser glorificadas pela nossa recordação e
saudade.

15/10/2008

Germano J. B. Rio Tinto

(Alferes da C.Caç. 1559 em 1966/1967 / (Coronel de Art. na Reforma Extraordinária)