Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~
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segunda-feira, 22 de maio de 2017

MAFALALA: MEMÓRIAS DO 7 DE SETEMBRO DE 1974. A GRANDE OPERAÇÃ


AS MEMÓRIAS DO COMANDANTE GALO
                                                    Aurélio Le Bon

                                                                               Irmãos 
Há batuques no silêncio da noite
Que não se ouvem Há batuques no silêncio da noite
Que não se ouvem
São da cor da palmatória
Mas não se ouvem
E a palmatória 
Ouve-se sempre
E é por isso que temos que silenciá-la
Com a força maior que a dor
E, vamos irmão 
Vamos, porque a palmatória
Silencia o meu batuque.

Malangatana Valente Ngwenha

          AURÉLIO LE BON -  COMANDANTE GALO

Atenção, Atenção.
Galo, Galo Amanheceu. Em nome do MFA e da FRELIMO. Peço a todos os camaradas que se dirijam com a maior calma possível para todos os pontos da cidade, a fim de controlarem as massas que se dirigem para o centro da cidade.
(...) Galo. Galo Amanheceu. Galo Amanheceu. Peço a todos os camaradas que estejam à escuta da emissora Rádio Clube de Moçambique, mas todos sem qualquer excepção, que se dirijam às áreas onde se sabe haver violência, a fim de procurar dominá-la, seguindo à risca o programa de paz e amizade tão proclamado pelo Presidente António de Spínola e Samora Machel.
(...) Galo, Galo, Galo Amanheceu. Pede-se a que  toda a população colabore, sem qualquer hesitação. com as Forças Armadas e Policiais, na garantia da segurança das pessoas e haveres. Só de um esforço conjunto poderá resultar a verdadeira paz para todo o povo de Moçambique.

 

Nasci a 17 de Março de 1950 na Vila de Manhiça. Quando nasci a minha mãe, Lídia Generosa Ngovene, tinha apenas 15 anos de idade. Meu pai José Marcelino Carvalho dos Santos, veterinário de profissão, que servia as vilas da Manhiça, Xinavane e Magude. A notícia de que o meu pai havia tido um filho com uma rapariga local rapidamente chegou aos ouvidos de sua esposa Maria Custódia Carvalho dos santos. Esta de imediato decidiu visitar a minha mãe e ver com os próprios olhos a criança. Quando ela olhou para mim viu a estampa do marido, e disse: Sim este menino é filho do meu marido. Confirmado que era filho de NHWA TI HOMO (homem dos bois), como meu pai era carinhosamente chamado pela população, a D. Maria Custódia decidiu tratar de mim. Assim eu ganhei uma segunda mãe. 
Um ano mais tarde, o meu avô paterno José Carvalho dos Santos, avisou ao meu tio Cossa casado com a minha tia Lea Ngovene, que o meu pai e a minha boamastra planeavam levar-me para Portugal. Porque ele não achava correcto que eu fosse retirado do convívio da minha mãe, sugeriu que ela se prevenisse com o apoio da sua família. Com o apoio do meu tio Cossa, a minha mãe decidiu atravessar a fronteira em direcção da África do Sul. Vivi alguns anos no Componde da companhia mineira onde o meu avô trabalhava.
Regressámos mais tarde para Moçambique e mudamo-nos para Lourenço Marques, onde a minha mãe passou a trabalhar na fábrica de sumos e doces Loumar.
Um dia, uma senhora de nome Lucrécia Camporeal Le Bon viu-me a brincar e gostou de mim. Ela era proprietária de muitas casas de madeira e zinco e de alvenaria no Chamanculo. Ela passou a levar-me para a sua casa onde eu passava todo o dia.
Um dia ela decidiu propor a minha mãe que eu passasse a viver com ela na sua casa, onde eu pudesse ter todo o apoio que a minha mãe não me podia dar.
A D. Lucrécia havia perdido um filho com Pierre Le Bon (seu marido), que se estivesse vivo naquela altura teria exactamente a mesma idade. Foi assim que com cinco anos de idade passei a viver com esta família, que me adptou e educou-me em ambiente religioso e de classe média.
Em 1957 fui viver na cidade da Matola com a minha família adoptiva. Nessa, altura o meu segundo pai, Pierre France Le Bon, foi encarregado de coordenar as instalações da FASOL (Fábrica Associativa de Óleos Limitada). Começámos a construir a nossa própria casa nessa altura, na qual vivemos até à data da Independência Nacional (altura em que deixei de ver o meu pai biológico).
Fiz os meus estudos primários em diferentes escolas. Primeiro nas Igrejas da Munhuana e Missão de S. José. Mais tarde, quando já vivia na Matola, estudei na Escola Oficial da Matola sob a direcção do Professor Bento Morais Sardinha. Também frequentava a Paróquia de São Gabriel na Matola na Catequese e participação nos Corais da Igreja sob a direcção do Padre italiano Estanislau. Mais tarde fui para a Escola Secundária Joaquim José Machado, onde hoje funciona a Universidade Pedagógica, e depois para a Escola Industrial.


Aurélio Le Bon e OS ATLAS
No princípio da década de 1970 havia dezenas de bandas musicais em Lourenço Marques e um pouco por todo o país.Lembro-me do Benjamim Alfredo, do meu amigo e concorrente João Paulo, do exímio guitarrista Azambujo da banda Os Tokadores, do baterista Sete, Lembro-me ainda dos Irmãos Tamele, d João Domingos, do Djambo, dos Flechas, o guitarrista Alfredo Caíco, do Curcumbinho, do Zeca Manhambane com Né Afonso, dos Rebeldes da Beira, do grupo Oliveira Muge e as Irmãs Muge de Vila Pery (Chimoio), do cantor Álvaro Correia Mendes e o conjunto San Remo, dos Montros, dos Night Stars, da Banda Diplomática, dos Corsários, dos Inflexos, dos Cartolas, do cantor Wazimbo e o seu conjunto Gueizers, do AEC 68, dos Cinco de Roma, do cantor Gabriel Chiau, do Fany Mfumo, e do Dilon Nginge. Lembro-me ainda e com muita saudade das minhas Bandas, Os Atlas e Opus 79. Esta última fez uma importante revolução na música Pop e no estilo Umderground em Moçambique.
Matola possuía na época o melhor sistema de transportes exclusivos para estudantes da Matola para todas as escolas secundárias de Lourenço Marques. O sistema era garantido pela Companhia de Transportes da Matola, no qual os estudantes possuíam um passe que pagavam mensal ou trimestralmente  a custos relativamente baixos. Isso permitia que fosse à cidade de Lourenço Marques com muita facilidade, sobretudo quando comecei a trabalhar. Trabalhei na Cromadora como aprendiz e ajudante de Tipografia; na Empresa Moderna como zincógrafo, e na Agência de Publicidade Excelsior como desenhador e Maquetista de publicidade.


A 5ª Companhia de Comandos e a Guerra Injusta

Em 1971 fui seleccionado na segunda chamada para o Serviço Militar Obrigatório. Apto para o SMO, iniciei a recruta no Centro de Instrução de Boane em Junho so mesmo ano. Depois fui seleccionado para o 5º Cursos de Comandos. Embarquei no navio Pátria rumo à cidade de Porto Amélia (Pemba) com destino ao Batalhão de Comandos em Montepuez, onde cheguei em Novembro de 1971. Em Fevereiro de 1972 conclui a formação e recebi o distintivo de Comando.


Monepuez. Fevereiro de 1972. Entrega dos crachás
ao Comandos da 5ª Companhia
O ano de 1972, foi o ano de grande circulação de informações sobre o fracasso da Operação Nó Górdio. Clika aqui para leres acrónica: Nó Górdio. A versão de quem lá esteve. Ficamos a saber que entre a Primeira e a Segunda Companhias de Comandos nas bases Beira e Raimundo já havia o desespero de se restabelecer a capacidade operativa para suster os avanços da guerrilha da FRELIMO, que estava bastante motivada pelo sucesso nas batalhas de Cabo Delgado. Quando cheguei a Montepuez  as guerras americanas no Vietname, Laos e Cambodja, estavam ao rubro. A intensidade da formação como Comando também despertou-me. Apercebi-me que havia ali algo de muito sério. 
Havia muita disciplina. O treino era muito intenso e usávamos balas verdadeiras. Fomos treinados em minas e armadilhas, e recebemos treino com helicópteros. Praticávamos ginástica de aplicação militar, luta corpo a corpo, e fazíamos travessias de rios e treino de reconhecimento de armas pelo seus sons. Dos 500 mancebos saídos do Quartel de Boane, somente 125 concluíram o Curso de Comandos em Montepuez.
A estrutura militar do Batalhão de Comandos seguia ainda uma primeira linha de treinamento trazida pelos pelos primeiros instrutores belgas que formaram as primeiras Companhias em Moçambique. As Companhias constituídas em Moçambique eram sempre misturadas com a entrada de cerca de 1 a 2 grupos de Comandos formados em Portugal ou Angola, para evitar que os moçambicanos se unissem e constituíssem unidades permeáveis às investidas do Movimento de Libertação (FRELIMO)
A título de exemplo, a 5ª Companhia de Comandos, da qual fiz parte, recebeu um grupo formado em Portugal. Mas mesmo assim nasceram algumas simpatias pela FRELIMO  entre os Comandos pois havia circulação de material de propaganda da FRELIMO  na Companhia, e a leitura de livros considerados subversivos.
Foi da escuta clandestina nas nossas casernas da Voz da FRELIMO, cujos receptores os guardávamos escondidos por debaixo da terra, que passámos a conhecer figuras como Samora Machel, Marcelino dos Santos, Armando Guebuza, Rafael Maguni, e outros. A minha namorada e compamheira inseparável, Gabriela Valério, fazia chegar à Companhia, em correio registado, literatura camuflada com capas trocadas, que circulavam entre nós. Desses livros lembro-me de A História me Absolverá, de Fidel Castro; Cartas da Prisão do líder americano dos Direitos Cívicos Jesse Jackson; da obra Diário de um Combatente de Ché Guevara; poesias das canções de Zeca Afonso e muitos outros.
Devido àquela situação, que se tornava insustentável e punha em risco a integridade do exército, a nossa Companhia passou a ter no seu seio agentes da PIDE/DGS com a missão de fazer o necessário reconhecimento de acções subversivas. Os resultados não se fizeram esperar. Numa madrugada, enquanto estávamos em Guro, na Província de Manica, foram formados três Grupos (os quais estavam integrado além de mim o Armindo Leite e o Chiau do 5º Grupo de Combate, o Elísio Santos do 3º Grupo, o Sharibongo, o João Victor do 2º Grupo, e o Manuel Joaquim Pearson, Vagomestre ou Logístico da Companhia,com a missão de despir todos os símbolos da paz e deitar fogo, confiscar todos os livros e receptores de rádio e suas respectivas antenas, e recolher toda a propaganda política subversiva da FRELIMO. Foi ainda proibida qualquer referência sobre o assunto, nem mesmo em tom de brincadeira ou em anedotas.


A 5ª CCMDS no dia 10 de Junho 1973 em Lourenço Marques
No percurso para Xitima, na Província de Tete perto do Songo, em Cahora Bassa, eu e o meu companheiro Armindo Leite decidimos criar a canção Hei Terrorista, uma adaptação de uma canção brasileira Hei Motorista, que era muito famosa na época. A canção começava com as seguinyes palavras: Hei Terrorista Machambeiro ou Guerrilheiro, cuidado com os Comandos senão podes morrer. Com esta letra da nossa autoria, conseguimos reverter a difícil situação e confundir a vigilância dos agentes da PIDE/DGS que já estavam infiltrados nas nossas unidades de combate.
Em Abril de 1973, Xitima era uma zona sem contacto e muito menos de combates. Quando lá voltámos, 3 meses depois, já não se podia andar numa área de 5 Kms sem haver combates.
Para além de Cabo Delgado, operei também em Tete e em Manica e Sofala. Tete foi para mim o melhor barómetro do tipo de guerra que se desenvolvia, e dos objectivos de Nachingwea. Havia aqui a Zona Operacional de Tete,com a finalidade  de defender e proteger Cahora Bassa, ainda em construção, e que era o principal alvo da guerrilha. Durante todo o meu tempo de serviço no exército colonial na 5ª Companhia de Comandos eu continuei a interpretar canções coordenando pequenas Bandas Musicais que nos ajudavam a passar o tempo e ampliar a nossa rede de amizade dentro e fora da Companhia. Era assim o principal animador dos meus colegas nos lugares mais recônditos. Cheguei a ser conhecido como cantor em quase todas as unidades militares, sobretudo nas zonas de combate conhecidas como zonas 100% , onde a situação era muito tensa.Muitas vezes fui retirado dessas zonas 100% de helicóptero para Montepuez a fim de liderar o conjunto musical Banda Seis, que fazia digressões por Porto Amélia e Nampula por ocasião das festas de Santo António e nas Celebrações da Páscoa e do Natal. A Banda Seis ou a Banda da 5ª Companhia tinha sempre um tamanho indefinido de membros, de forma a podermos resolver o maior número possível de colegas com algum talento musical. No entanto, os meus insubstituíveis da banda eram o Agamo gani, ( na guitarra Solo e Ritmo), Elísio Santos (guitarra Baixo), Durão (bateria) João Victor, qua apesar de não ter grande jeito para a música, acompanhava-nos com um Reco-Reco.
Outros que fizeram parte da banda eram o Jihan Matola João, o Filipe Arzílio Mata, o Pedro Liso, e o Cabral. Fui ainda organizador de Eventos Culturais e de entretenimento na Ilha de Moçambique, onde fizemos muitas actividades ao vivo durante os períodos de descanso da nossa Companhia. E foi aqui, durante uma festa em que liderava a banda musical, que conheci a minha namorada e companheira, Gabriela Valério, que viria a ter um papel preponderante para o meu crescente sentimento nacionalista e a minha decisiva participação no Grupo Galo da Mafalala, em Setembro de 1974.
Findo o meu tempo de serviço militar obrigatório, passei à disponibilidade em Março de 1974, um  mês antes do golpe de 25 de Abril. Regressei nessa altura à cidade de Lourenço Marques