Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~

segunda-feira, 24 de julho de 2017

2º CAPÍTULO DO LIVRO: DE RIBEIRO CARDOSO:"FIM DO IMPÉRIO: 7 DE SETEMBRO DE 1974. MEMÓRIA DE UM SOLDADO PORTUGUÊS". DO 7 DE SETEMBRO AO 21 DE OUTUBRO, 45 DIAS ALUCINANTES

O Assalto ao Rádio Clube

Regressei ao RCM, que continuava, naturalmente a dar notícias, com relevo para o que se passava em Lourenço Marques e em Lusaka. Já se sabia do acordo e de muitos dos seus pormenores. E a multidão de brancos, salpicada de alguns rostos negros, continuava a engrossar. A sua concentração mais forte era junto à Praça Mouzinho de Albuquerque, de onde saía uma rua que passava mesmo em frente ao Rádio Clube, a escassos centenas de metros. Quando entrei, já a manifestação de brancos tinha tomado essa mesma rua e muita gente estava a gritar palavras de ordem em frente à entrada do RCM.

Com alguns rostos negros, a multidão continuava a engrossar
Estranhamente, muito estranhamente, a PSP não isolou a rua onde estava o RCM. Pelo contrário: apenas colocara um cordão de agentes e carrinhas a impedir os manifestantes de ultrapassarem o primeiro cruzamento após o RCM, logo a seguir ao edifício dos CTT. Um tampão estratégico perfeito: continuava a sair gente da Praça Mouzinho de Albuquerque, mas depois do edifício do RCM não podia (nem queria) passar. E a multidão tornava-se, ali, cada vez maior e mais compacta.
Subi ao primeiro andar. Os membros da Comissão Administrativa Militar, começando a prever o pior mas mesmo assim ainda acreditando que não haveria qualquer invasão, entraram de novo em contacto com o major Marinho Falcão, que tentou mais mais uma vez acalmar-nos, que não havia perigo, que era necessário muita serenidade. Mesmo assim, viria já de seguida ao RCM para falar connosco.
Cá fora, os protestos subiam de tom. A determinada altura, já a tarde ia a meio, os manifestantes quiseram ser recebidos pelos militares que dirigiam o RCM. O segundo-comandante da PSP chegou. Decidimos então receber uma delegação de três representantes da multidão.Por ordem do Presidente da Comissão Militar, comandante Alfredo Rodrigues Lobo dirigi-me ao furriel da PM que comandava o escasso grupo de seis soldados que estava a "fazer a segurança" ao Rádio Clube, dei-lhe instruções precisas no melhor estilo militar que fui capaz de arranjar naquele momento.
Entrei finalmente no Salão Nobre do RCM onde ia começar a reunião com os três representantes dos manifestantes, cujos nomes não recordo. Da Comissão Administrador Militar, para além do presidente, comandante Rodrigues Lobo, estavam, que me lembre, o capitão Oliveira, da Força Aérea, o alferes Fernando Lopes Cardoso e eu próprio. Não sei se o segundo-tenente da Marinha que tinha a seu cargo a área jurídica, por lá se encontrava - mas em contrapartida sei que o alferes João Barroso, responsável pelo pelouro do pessoal, estava de férias em Lisboa. Havia ainda um capitão do exército, fardado que eu não conhecia de lado nenhum e nem sequer sabia a que título ali se encontrava - e, claro, o incontornável major Marinho Falcão, o nº 2 da PSP de Lourenço Marques.
Todos em pé, que a conversa era informal, ouvimos as reivindicações dos representantes dos manifestantes: queriam ter cesso aos microfones para dizerem à população de todo o Moçambique, em directo, a vergonha do que se passara na baixa laurentina, com uns energúmenos conduzindo uma viatura com a bandeira da FRELIMO bem ao alto e uma bandeira portuguesa a ser arrastada pelo chão, já meia rota. Mais queriam também manifestar o seu desacordo total pelo que se passava em Lusaka, com a entrega de Moçambique numa bandeja aos terroristas da FRELIMO - sem referendo, sem eleições, sem terem ouvido o povo, nada. Uma entrega vergonhosa e inaceitável, na sua opinião.
A reunião no RCM com a delegação de representantes dos manifestantes: serena mas claramente, foi-lhes explicado que acesso directo aos microfones, nem pensar. Porém, poderiam gravar uma declaração com tudo o que entendessem dizer, garantindo nós que seria de imediato radiofundida.
A nossa proposta não foi aceite, a argumentação continuou e, ainda não tinham passado 15 minutos sobre a conversa que mantivera com o furriel da PM que no piso zero comandava a força dita de segurança do RCM, ouviu-se um estrondo medonho seguido de tremenda gritaria de uma multidão em fúria. Saí do salão, a correr dirigi-me para os elevadores e, absolutamente atónito -- é o termo --, vi a loucura nos olhos e nos gestos daquela gente que, subindo as escadas, continuava a empurrar-se, a partir os vidros das portas de ferro no 1º andar, a meter os braços pelos espaços onde ainda havia pedaços de vidro partido, tentando agarrar as correntes e rebentar os cadeados com que aquelas portas tinham sido fechadas. Como uma marabunta, começaram a entrar por ali dentro com gritos de "Abaixo a FRELIMO", "O povo unido jamais será vencido", "Morte aos traidores", "Moçambique é nosso", "Viva Moçambique livre e independente", "Fora com os militares comunas"... Instintivamente , e como estava à civil e não era figura publicamente conhecida, misturei-me com eles, sendo levado pela multidão que continuava a subir as escadas do RCM, podendo ver angustiado, parte das bárbaras e violentas agressões de que foram vítimas o comandante Lobo e o capitão Oliveira, os únicos membros da Comissão Administrativa Militar que estavam fardados -- pontapeados, socados, caindo, levantando-se, agredidos de novo, a cara ensaguentada. Também vi, ainda que de um modo fugidio o major Marinho Falcão, que pedia calma a toda a gente mas não foi agredido, apesar de fardado... 

Multidão junto ao RCM

Com novos manifestantes sempre a aparecer em estado de euforia ( para a esmagadora maioria aquele acto constituía uma novidade absoluta, pois nos tempos de Salazar e Caetano nunca se manifestaram ou puseram minimamente em causa a ordem ditatorial e colonial estabelecida) os que chegaram lá acima ao 7º andar começaram a inverter a marcha. E eu, claro, tenso por dentro mas tentando aparentar calma por fora, comecei igualmente a descer aquelas escadarias que me pareciam intermináveis. Sempre a pensar como poderia sair discretamente daquele filme, e sem ter a mínima ideia do que estaria a ser dito aos microfones do RCM ( de resto como acontecia com todas aquelas almas excitadas), vi-me envolvido de repente num incidente que poderia ter tido um desfecho complicado: um ex-funcionário do RCM, o único que a Comissão Administrativa Militar tinha despedido depois de lhe ter sido instaurado um processo disciplinar por comportamento grave, viu-me, parou por  uns segundos, apontou-me o dedo e gritou desvairado: "Este é um dos alferes da FRELIMO! Este é um dos militares responsáveis por esta vergonha"  Fez-se um silêncio de morte. Surge então um funcionário qualificado do RCM chamado Benjamim, que, ao que intuí e mais tarde ele me confirmou, andou por ali a pôr água na fervura, indicando várias coisas aos assaltantes, ajudando-os sempre na perspectiva de nada estragarem ou destruírem na parte técnica, pois seria sempre fundamental manter operacional o RCM fosse quem fosse o poder de turno. Entrou em diálogo com o tal ex-funcionário despedido, a discussão alargou-se, passou um polícia a quem deitei literalmente a mão explicando-lhe a situação e mostrando-lhe que estava armado, ele ficou aflito, disse-me:
"Acompanhe-me meu alferes, acompanhe-me, não mostre a arma por amor de Deus, isto por aqui há centenas de armas, o primeiro tiro transforma tudo isto num inferno, conversa comigo, vamos, vamos descendo, sairemos pelas traseiras, aí as coisas estão mais calmas, o que é me diz? Eu? Digo Ok, vamos a isso e vamos ver no que dá esta loucura. Pois é, meu alferes, esse é o problema, saber no que isto vai dar, estávamos nós por aqui tão bem. Pois, mas havia quem estivesse mal. Eu sei, eu sei, também esse é o meu medo, só não sei se os que estavam mal vão ficar melhor, olhe, meu alferes, vejo negro, vejo a minha vida andar para trás, vá isto por onde for, mas olhe, já chegámos, pode ir calmamente à sua vida, só o acompanho ainda mais uns metros aí na rua, para ver se não há problema, se está tudo bem. Muito obrigado  pela sua ajuda. De nada, meu alferes, estamos cá para nos ajudar uns aos outros. É verdade, mas diga-me, como é que o srº guarda se chama? Todos me chamam Barrigana , porque sou do Futebol Clube do Porto e gosto de jogar à baliza nos jogos entre amigos, que são o pretexto para umas patuscadas, já sabe, meu alferes, se precisar de alguma coisa é só dizer, estou colocado no Comando Geral, às suas ordens, meu alferes"
Fui a pé à nova casa dos meus cunhados, que ficava relativamente perto e onde me aboletara de novo depois de ficar sozinho em Lourenço Marques. Fardei-me, meti-me no carro e rapidamente cheguei ao Quartel General, onde se vivia um ambiente surrealista a todos os níveis


Continua na próxima 2ª Feira